PARTE II - Capítulo XI
PARTE II - Capítulo XI
Ele lera ultimamente o elogio de um novo método para a cura dos pés tortos; e, como era partidário do progresso, concebeu esta ideia patriótica: Yonville, para se pôr ao nível, devia ter operações de estrefopodia.
— Pois — dizia a Emma — que se arrisca? Examine — e enumerava nos dedos as vantagens da tentativa —: sucesso quase certo, alívio e embelezamento do doente, celebridade depressa adquirida pelo operador. Por que seu marido, por exemplo, não quereria livrar esse pobre Hippolyte, do Lion d’or? Note que ele não deixaria de contar sua cura a todos os viajantes, e depois — Homais baixava a voz e olhava ao redor — quem me impediria de enviar ao jornal uma pequena nota a respeito? Ora, meu Deus! um artigo circula..., fala-se dele..., isso acaba fazendo bola de neve! E quem sabe? quem sabe?
Com efeito, Bovary podia vencer; nada afirmava a Emma que ele não fosse hábil, e que satisfação para ela tê-lo incitado a uma iniciativa de onde sua reputação e sua fortuna sairiam aumentadas! Ela não pedia senão apoiar-se em alguma coisa mais sólida que o amor.
Charles, solicitado pelo farmacêutico e por ela, deixou-se convencer. Mandou vir de Rouen o volume do doutor Duval, e, todas as noites, tomando a cabeça entre as mãos, mergulhava naquela leitura.
Enquanto estudava os equinos, os varos e os valgos, isto é, a estrefocatopodia, a estrefendopodia e a estrefexopodia — ou, falando melhor, os diferentes desvios do pé, seja para baixo, para dentro ou para fora —, com a estrefipopodia e a estrefanopodia — ou, dito de outro modo, torção para baixo e endireitamento para cima —, o sr. Homais, por toda sorte de raciocínios, exortava o rapaz da estalagem a deixar-se operar.
— Mal sentirás talvez uma leve dor; é uma simples picada, como uma pequena sangria, menos que a extirpação de certos calos.
Hippolyte, refletindo, revirava seus olhos estúpidos.
— De resto — retomava o farmacêutico —, isso não me diz respeito! É por ti! por pura humanidade! Eu gostaria de ver-te, meu amigo, livre de tua hedionda claudicação, com esse balanço da região lombar que, embora pretendas o contrário, deve prejudicar-te consideravelmente no exercício de teu ofício.
Então Homais lhe representava quanto se sentiria depois mais vigoroso e mais ágil, e até lhe dava a entender que estaria em melhores condições para agradar às mulheres; e o criado da estrebaria punha-se a sorrir pesadamente. Depois atacava-o pela vaidade:
— Não és homem, com mil demônios? Que seria então se tivesses tido de servir, de ir combater sob as bandeiras?... Ah! Hippolyte!
E Homais se afastava, declarando que não compreendia aquela obstinação, aquela cegueira em recusar os benefícios da ciência.
O infeliz cedeu, pois foi como uma conspiração. Binet, que nunca se metia nos assuntos dos outros, madame Lefrançois, Artémise, os vizinhos, e até o prefeito, sr. Tuvache, todos o encorajaram, sermonearam, envergonharam; mas o que acabou por decidi-lo foi que aquilo não lhe custaria nada. Bovary se encarregava até de fornecer a máquina para a operação. Emma tivera a ideia dessa generosidade; e Charles consentiu, dizendo consigo, no fundo do coração, que sua mulher era um anjo.
Com os conselhos do farmacêutico, e recomeçando três vezes, mandou então construir pelo carpinteiro, auxiliado pelo serralheiro, uma espécie de caixa que pesava cerca de oito libras, e na qual ferro, madeira, folha metálica, couro, parafusos e porcas não haviam sido economizados.
Entretanto, para saber que tendão cortar em Hippolyte, era preciso conhecer primeiro que espécie de pé torto ele tinha. Tinha um pé que formava com a perna uma linha quase reta, o que não o impedia de estar voltado para dentro, de sorte que era um equino misturado com um pouco de varo, ou melhor, um leve varo fortemente acusado de equino. Mas, com esse equino, largo de fato como um pé de cavalo, de pele rugosa, tendões secos, dedos grossos, e onde as unhas negras figuravam os cravos de uma ferradura, o estrefópode, desde a manhã até a noite, galopava como um cervo. Via-se-o continuamente na praça, saltitando em torno das carroças, lançando para a frente seu apoio desigual. Parecia mesmo mais vigoroso daquela perna do que da outra. À força de ter servido, ela havia contraído como que qualidades morais de paciência e energia; e, quando lhe davam algum serviço pesado, ele se apoiava nela de preferência.
Ora, visto que era um equino, era preciso cortar o tendão de Aquiles, salvo atacar mais tarde o músculo tibial anterior para se livrar do varo; pois o médico não ousava arriscar de uma vez duas operações, e já tremia de medo de atingir alguma região importante que não conhecesse.
Nem Ambroise Paré, aplicando pela primeira vez desde Celso, depois de quinze séculos de intervalo, a ligadura imediata de uma artéria; nem Dupuytren indo abrir um abscesso através de uma espessa camada de encéfalo; nem Gensoul, quando fez a primeira ablação de maxilar superior, tiveram decerto o coração tão palpitante, a mão tão trêmula, o intelecto tão tenso quanto o sr. Bovary quando se aproximou de Hippolyte, o tenótomo entre os dedos.
E, como nos hospitais, via-se ao lado, sobre uma mesa, um monte de fios de linho, fios encerados, muitas ataduras, uma pirâmide de ataduras, tudo quanto havia de ataduras na farmácia. Fora o sr. Homais quem organizara desde a manhã todos esses preparativos, tanto para deslumbrar a multidão quanto para iludir a si mesmo.
Charles picou a pele; ouviu-se um estalo seco. O tendão estava cortado, a operação concluída. Hippolyte não cabia em si de surpresa; inclinava-se sobre as mãos de Bovary para cobri-las de beijos.
— Vamos, acalma-te — dizia o farmacêutico —, testemunharás mais tarde tua gratidão ao teu benfeitor!
E desceu para contar o resultado a cinco ou seis curiosos que estacionavam no pátio e que imaginavam que Hippolyte reapareceria caminhando direito.
Depois, Charles, tendo afivelado seu doente no aparelho mecânico, voltou para casa, onde Emma, toda ansiosa, o esperava à porta. Saltou-lhe ao pescoço; sentaram-se à mesa; ele comeu muito, e até quis, à sobremesa, tomar uma xícara de café, extravagância que só se permitia aos domingos, quando havia gente.
A noite foi encantadora, cheia de conversas, de sonhos em comum. Falaram de sua fortuna futura, de melhoras a introduzir na casa; ele via sua consideração estendendo-se, seu bem-estar aumentando, sua mulher amando-o sempre; e ela se achava feliz por se refrescar num sentimento novo, mais são, melhor, enfim, por experimentar alguma ternura por aquele pobre rapaz que a adorava. A ideia de Rodolphe, por um momento, passou-lhe pela cabeça; mas seus olhos voltaram para Charles: notou mesmo, com surpresa, que ele não tinha dentes feios.
Estavam na cama quando o sr. Homais, apesar da cozinheira, entrou de repente no quarto, tendo na mão uma folha de papel recém-escrita. Era o reclame que destinava ao Fanal de Rouen. Trazia-a para que lessem.
— Leia o senhor mesmo — disse Bovary.
Ele leu:
— “Apesar dos preconceitos que ainda recobrem parte da face da Europa como uma rede, a luz, entretanto, começa a penetrar em nossos campos. Foi assim que, na terça-feira, nossa pequena cidade de Yonville se viu palco de uma experiência cirúrgica que é, ao mesmo tempo, um ato de alta filantropia. O sr. Bovary, um de nossos práticos mais distintos...”
— Ah! é demais! é demais! — dizia Charles, que a emoção sufocava.
— Mas não, de modo nenhum! Ora essa!...
“Operou de um pé torto...” Não pus o termo científico, porque, o senhor sabe, num jornal..., talvez nem todo mundo compreendesse; é preciso que as massas...
— Com efeito — disse Bovary. — Continue.
— Retomo — disse o farmacêutico.
“O sr. Bovary, um de nossos práticos mais distintos, operou de um pé torto o chamado Hippolyte Tautain, rapaz da estrebaria há vinte e cinco anos no hotel do Lion d’or, mantido pela senhora viúva Lefrançois, na praça d’Armes. A novidade da tentativa e o interesse ligado ao sujeito haviam atraído tal concurso de população que havia, verdadeiramente, aglomeração à porta do estabelecimento. A operação, de resto, praticou-se como por encanto, e mal algumas gotas de sangue vieram à pele, como para dizer que o tendão rebelde enfim cedera aos esforços da arte. O doente, coisa estranha — afirmamo-lo de visu —, não acusou dor alguma. Seu estado, até agora, nada deixa a desejar.
“Tudo leva a crer que a convalescença será breve; e quem sabe mesmo se, na próxima festa da aldeia, não veremos nosso bravo Hippolyte figurar em danças báquicas, no meio de um coro de alegres foliões, e assim provar a todos os olhos, por sua verve e seus entrechats, sua cura completa? Honra, pois, aos sábios generosos! Honra a esses espíritos infatigáveis que consagram suas vigílias à melhoria ou ao alívio de sua espécie! Honra! três vezes honra! Não é este o caso de exclamar que os cegos verão, os surdos ouvirão e os coxos andarão? Mas o que o fanatismo outrora prometia a seus eleitos, a ciência agora realiza para todos os homens! Manteremos nossos leitores ao corrente das fases sucessivas desta cura tão notável.”
Isso não impediu que, cinco dias depois, a mãe Lefrançois chegasse toda apavorada, gritando:
— Socorro! ele está morrendo!... Perco a cabeça!
Charles precipitou-se para o Lion d’or, e o farmacêutico, que o avistou passando pela praça, sem chapéu, abandonou a farmácia. Apareceu ele mesmo, ofegante, vermelho, inquieto, perguntando a todos os que subiam a escada:
— Que tem nosso interessante estrefópode?
Ele se torcia, o estrefópode, em convulsões atrozes, de modo que o aparelho mecânico em que sua perna estava encerrada batia contra a parede a ponto de arrombá-la.
Com muitas precauções, para não desarranjar a posição do membro, retirou-se a caixa, e viu-se um espetáculo medonho. As formas do pé desapareciam numa tal inchação que a pele inteira parecia prestes a romper-se, e estava coberta de equimoses ocasionadas pela famosa máquina. Hippolyte já se queixara de sofrer; não lhe haviam dado atenção; foi preciso reconhecer que ele não estivera inteiramente errado, e deixaram-no livre por algumas horas.
Mas, mal o edema diminuíra um pouco, os dois sábios julgaram conveniente restabelecer o membro no aparelho e apertá-lo mais ainda, para acelerar as coisas. Enfim, três dias depois, Hippolyte, já não podendo suportar, teve a mecânica retirada uma vez mais; e eles se espantaram muito com o resultado que viram. Uma tumefação lívida se estendia pela perna, com flictenas de lugar em lugar, por onde escorria um líquido negro. Aquilo tomava um rumo sério.
Hippolyte começava a entediar-se, e a mãe Lefrançois instalou-o na salinha, perto da cozinha, para que tivesse ao menos alguma distração. Mas o coletor, que todos os dias ali jantava, queixou-se com amargura de tal vizinhança. Então transportaram Hippolyte para a sala de bilhar. Estava ali, gemendo sob as grossas cobertas, pálido, a barba comprida, os olhos cavos, e, de tempos em tempos, virando a cabeça suada sobre o travesseiro sujo onde as moscas pousavam.
Madame Bovary vinha vê-lo. Trazia-lhe panos para os cataplasmas, consolava-o, encorajava-o. De resto, não lhe faltava companhia, sobretudo nos dias de mercado, quando os camponeses, ao redor dele, empurravam as bolas do bilhar, esgrimiam com os tacos, fumavam, bebiam, cantavam, berravam.
— Como vais? — diziam, batendo-lhe no ombro. — Ah! não estás soberbo, pelo que parece! Mas a culpa é tua. Devias fazer isto, fazer aquilo.
E lhe contavam histórias de pessoas que haviam sido curadas por outros remédios que não os dele; depois, à guisa de consolação, acrescentavam:
— É que tu te escutas demais! Levanta-te, pois! Tu te mimas como um rei! Ah! seja como for, velho farsante, não cheiras bem!
A gangrena, com efeito, subia cada vez mais. Bovary adoecia ele próprio. Vinha a cada hora, a todo momento. Hippolyte olhava-o com olhos cheios de espanto e balbuciava, soluçando:
— Quando é que vou ficar curado?... Ah! salve-me!... Como sou infeliz! como sou infeliz!
E o médico saía, sempre recomendando-lhe dieta.
— Não o escutes, meu rapaz — retomava a mãe Lefrançois —; eles já te martirizaram bastante, não? Vais enfraquecer ainda mais. Toma, engole!
E lhe apresentava algum bom caldo, alguma fatia de pernil, algum pedaço de toucinho, e às vezes pequenos copos de aguardente que ele não tinha coragem de levar aos lábios.
O abade Bournisien, sabendo que ele piorava, mandou pedir para vê-lo. Começou por lastimar seu mal, declarando ao mesmo tempo que era preciso alegrar-se, pois era a vontade do Senhor, e aproveitar depressa a ocasião para reconciliar-se com o céu.
— Pois — dizia o eclesiástico num tom paternal — negligenciavas um pouco teus deveres; raramente te víamos no ofício divino; há quantos anos não te aproximas da santa mesa? Compreendo que tuas ocupações, que o turbilhão do mundo, possam ter-te afastado do cuidado de tua salvação. Mas agora é hora de refletir sobre isso. Não desesperes, entretanto; conheci grandes culpados que, perto de comparecer diante de Deus — não estás ainda nesse ponto, bem sei —, imploraram sua misericórdia, e que certamente morreram nas melhores disposições. Esperemos que, como eles, nos dês bons exemplos! Assim, por precaução, quem te impediria de recitar de manhã e à noite um “Ave-Maria, cheia de graça” e um “Pai-Nosso, que estais nos céus”? Sim, faze isso! por mim, para me obrigar. Que custa?... Prometes-me?
O pobre-diabo prometeu.
O cura voltou nos dias seguintes. Conversava com a estalajadeira e até contava anedotas entremeadas de brincadeiras, trocadilhos que Hippolyte não compreendia. Depois, assim que a circunstância permitia, recaía nas matérias de religião, tomando um rosto conveniente. Seu zelo pareceu triunfar; pois logo o estrefópode manifestou o desejo de ir em peregrinação a Bon-Secours, caso sarasse; ao que o sr. Bournisien respondeu que não via inconveniente; duas precauções valiam mais que uma. Nada se arriscava.
O farmacêutico indignou-se contra o que chamava as manobras do padre; prejudicavam, pretendia ele, a convalescença de Hippolyte, e repetia a madame Lefrançois:
— Deixe-o! Deixe-o! a senhora lhe perturba o moral com seu misticismo!
Mas a boa mulher já não queria ouvi-lo. Ele era a causa de tudo. Por espírito de contradição, pendurou até à cabeceira do doente uma piazinha de água benta toda cheia, com um ramo de buxo.
Entretanto, a religião, não mais que a cirurgia, parecia socorrê-lo, e a invencível podridão ia subindo sempre das extremidades para o ventre. Em vão variavam as poções e mudavam os cataplasmas; os músculos a cada dia se descolavam mais, e enfim Charles respondeu com um sinal afirmativo de cabeça quando a mãe Lefrançois lhe perguntou se, em último recurso, não poderia chamar o sr. Canivet, de Neufchâtel, que era uma celebridade.
Doutor em medicina, com cinquenta anos, gozando de boa posição e seguro de si, o colega não se constrangeu em rir desdenhosamente quando descobriu aquela perna gangrenada até o joelho. Depois, tendo declarado categoricamente que era preciso amputá-la, foi à casa do farmacêutico vociferar contra os asnos que haviam podido reduzir um infeliz homem a tal estado. Sacudindo o sr. Homais pelo botão da sobrecasaca, berrava na farmácia:
— São invenções de Paris! Eis as ideias desses senhores da Capital! É como o estrabismo, o clorofórmio e a litotripsia, uma porção de monstruosidades que o governo deveria proibir! Mas querem bancar os espertos, e enfiam remédios nas pessoas sem se inquietar com as consequências. Não somos tão fortes assim, nós outros; não somos sábios, almofadinhas, bonitinhos; somos práticos, curadores, e não imaginaríamos operar alguém que está passando muito bem! Endireitar pés tortos! pode-se endireitar pés tortos? É como se se quisesse, por exemplo, tornar reto um corcunda!
Homais sofria ao escutar esse discurso, e dissimulava seu mal-estar sob um sorriso de cortesão, tendo necessidade de poupar o sr. Canivet, cujas receitas às vezes chegavam até Yonville; por isso não tomou a defesa de Bovary, nem fez sequer uma observação, e, abandonando seus princípios, sacrificou sua dignidade aos interesses mais sérios de seu negócio.
Foi no vilarejo um acontecimento considerável essa amputação de coxa pelo doutor Canivet! Todos os habitantes, naquele dia, tinham-se levantado mais cedo, e a Grande-Rue, embora cheia de gente, tinha qualquer coisa de lúgubre, como se se tratasse de uma execução capital. Discutia-se na mercearia a doença de Hippolyte; as lojas nada vendiam, e madame Tuvache, a mulher do prefeito, não saía de sua janela, pela impaciência que tinha de ver chegar o operador.
Ele chegou no cabriolé, que conduzia por si mesmo. Mas, como a mola do lado direito, com o tempo, afundara sob o peso de sua corpulência, acontecia que a viatura pendia um pouco enquanto andava, e avistava-se sobre o outro assento, junto dele, uma vasta caixa, recoberta de couro vermelho, cujos três fechos de cobre brilhavam magistralmente.
Depois de entrar como um turbilhão sob o pórtico do Lion d’or, o doutor, gritando muito alto, ordenou que desatrelassem o cavalo; depois foi à estrebaria ver se ele comia bem a aveia; pois, ao chegar à casa dos doentes, ocupava-se primeiro de sua égua e de seu cabriolé. Dizia-se mesmo a esse respeito: “Ah! o sr. Canivet é um original!” E estimavam-no ainda mais por esse aprumo inabalável. O universo poderia rebentar até o último homem, que ele não faltaria ao menor de seus hábitos.
Homais apresentou-se.
— Conto com o senhor — fez o doutor. — Estamos prontos? Em marcha!
Mas o farmacêutico, corando, confessou que era sensível demais para assistir a uma operação semelhante.
— Quando se é simples espectador — dizia —, a imaginação, sabe, impressiona-se! E depois tenho o sistema nervoso tão...
— Ora, ora! — interrompeu Canivet. — O senhor me parece, ao contrário, inclinado à apoplexia. E, aliás, isso não me espanta; pois vocês, senhores farmacêuticos, estão continuamente enfiados em sua cozinha, o que deve acabar alterando o temperamento. Olhe para mim, antes: todos os dias levanto-me às quatro horas, faço a barba com água fria — nunca sinto frio —, não uso flanela, não pego nenhum resfriado, o peito é bom! Vivo ora de uma maneira, ora de outra, como filósofo, ao sabor do garfo. Por isso não sou delicado como vocês, e me é também perfeitamente indiferente cortar um cristão ou a primeira galinha que aparecer. Depois disso, dirão vocês, o hábito..., o hábito!...
Então, sem a menor consideração por Hippolyte, que suava de angústia entre os lençóis, aqueles senhores travaram uma conversa em que o farmacêutico comparou o sangue-frio de um cirurgião ao de um general; e a comparação agradou a Canivet, que se espalhou em palavras sobre as exigências de sua arte. Considerava-a como um sacerdócio, embora os oficiais de saúde a desonrassem.
Enfim, voltando ao doente, examinou as ataduras trazidas por Homais, as mesmas que tinham figurado no episódio do pé torto, e pediu alguém para segurar-lhe o membro. Mandaram chamar Lestiboudois, e o sr. Canivet, arregaçando as mangas, passou para a sala de bilhar, enquanto o farmacêutico ficava com Artémise e a estalajadeira, ambas mais pálidas que seus aventais, e o ouvido estendido contra a porta.
Bovary, durante esse tempo, não ousava mexer-se de sua casa. Ficava embaixo, na sala, sentado ao canto da lareira sem fogo, o queixo sobre o peito, as mãos juntas, os olhos fixos.
Que desventura! pensava ele, que decepção! Tomara, contudo, todas as precauções imagináveis. A fatalidade metera-se nisso. Seja como for, se Hippolyte mais tarde viesse a morrer, fora ele que o teria assassinado. E depois, que razão daria nas visitas, quando o interrogassem? Talvez, entretanto, tivesse errado em alguma coisa? Procurava, não encontrava. Mas os cirurgiões mais famosos também se enganavam. Eis o que jamais quereriam acreditar! Iriam rir, ao contrário, espalhar boatos! Isso chegaria até Forges! até Neufchâtel! até Rouen! por toda parte! Quem sabe se confrades não escreveriam contra ele? Seguir-se-ia uma polêmica, seria preciso responder nos jornais. Hippolyte mesmo poderia processá-lo. Via-se desonrado, arruinado, perdido! E sua imaginação, assaltada por uma multidão de hipóteses, balançava no meio delas como um tonel vazio arrebatado pelo mar e rolando sobre as ondas.
Emma, diante dele, olhava-o; não compartilhava sua humilhação, sentia outra: a de ter imaginado que semelhante homem pudesse valer alguma coisa, como se vinte vezes já não houvesse percebido suficientemente sua mediocridade.
Charles caminhava de um lado para outro no quarto. Suas botas rangiam no assoalho.
— Senta-te — disse ela —, estás me irritando!
Ele tornou a sentar-se.
Como fizera ela — ela, que era tão inteligente! — para equivocar-se ainda uma vez? De resto, por que deplorável mania arruinara assim a existência em sacrifícios contínuos? Lembrou todos os seus instintos de luxo, todas as privações da alma, as baixezas do casamento, da casa, seus sonhos caindo na lama como andorinhas feridas, tudo quanto desejara, tudo quanto negara a si mesma, tudo quanto poderia ter tido! E por quê? por quê?
No meio do silêncio que enchia a aldeia, um grito dilacerante atravessou o ar. Bovary ficou pálido a ponto de desmaiar. Ela franziu as sobrancelhas com um gesto nervoso, depois continuou.
Era por ele, entretanto, por esse ser, por esse homem que nada compreendia, que nada sentia! Pois ele estava ali, todo tranquilo, sem sequer suspeitar que o ridículo de seu nome a mancharia dali por diante como a ele. Ela se esforçara por amá-lo, e se arrependera, chorando, de ter cedido a outro.
— Mas talvez fosse um valgo! — exclamou de repente Bovary, que meditava.
Ao choque imprevisto dessa frase, caindo sobre seu pensamento como uma bola de chumbo numa salva de prata, Emma, estremecendo, ergueu a cabeça para adivinhar o que ele queria dizer; e se olharam silenciosamente, quase pasmos de se ver, tão afastados estavam um do outro por sua consciência.
Charles a considerava com o olhar turvo de um homem bêbado, enquanto escutava, imóvel, os últimos gritos do amputado, que se seguiam em modulações arrastadas, cortadas por sacudidas agudas, como o uivo longínquo de algum animal que se degola. Emma mordia os lábios pálidos e, rolando entre os dedos um dos raminhos de coral que quebrara, fixava sobre Charles a ponta ardente de suas pupilas, como duas flechas de fogo prestes a partir.
Tudo nele agora a irritava: seu rosto, sua roupa, o que não dizia, sua pessoa inteira, sua existência enfim. Arrependia-se, como de um crime, da virtude passada, e o que dela ainda restava desabava sob os golpes furiosos de seu orgulho. Deleitava-se em todas as ironias más do adultério triunfante. A lembrança do amante voltava-lhe com atrações vertiginosas: ela atirava ali sua alma, levada para essa imagem por um entusiasmo novo; e Charles lhe parecia tão desprendido de sua vida, tão ausente para sempre, tão impossível e aniquilado, como se fosse morrer e agonizasse diante de seus olhos.
Fez-se um ruído de passos na calçada. Charles olhou; e, através da veneziana abaixada, avistou à beira do mercado, em pleno sol, o doutor Canivet enxugando a testa com o lenço. Homais, atrás dele, carregava na mão a grande caixa vermelha, e os dois se dirigiam para o lado da farmácia.
Então, por súbita ternura e desalento, Charles voltou-se para a mulher, dizendo:
— Dá-me um beijo, minha boa!
— Deixa-me! — fez ela, toda vermelha de cólera.
— Que tens? que tens? — repetia ele, estupefato. — Acalma-te! recompõe-te!... Sabes bem que te amo!... vem!
— Basta! — gritou ela com ar terrível.
E, escapando da sala, Emma fechou a porta com tanta força que o barômetro saltou da parede e se espatifou no chão.
Charles afundou-se em sua poltrona, transtornado, procurando o que ela podia ter, imaginando uma doença nervosa, chorando, e sentindo vagamente circular ao redor de si alguma coisa funesta e incompreensível.
Quando Rodolphe, à noite, chegou ao jardim, encontrou a amante esperando-o ao pé da escadaria, no primeiro degrau. Abraçaram-se, e todo o rancor deles se derreteu como neve ao calor daquele beijo.