PARTE III - Capítulo III Madame Bovary · Capítulo 27 de 35
Obra Menu

PARTE III - Capítulo III

PARTE III - Capítulo III

Foram três dias plenos, requintados, esplêndidos, uma verdadeira lua de mel.

Estavam no hôtel de Boulogne, no porto. E viviam ali, persianas fechadas, portas cerradas, com flores pelo chão e xaropes gelados que lhes traziam desde a manhã.

Ao cair da tarde, tomavam uma barca coberta e iam jantar numa ilha.

Era a hora em que se ouve, à beira dos estaleiros, ressoar o malho dos calafates contra o casco dos navios. A fumaça do alcatrão escapava por entre as árvores, e viam-se sobre o rio largas gotas gordurosas, ondulando desigualmente sob a cor púrpura do sol, como placas de bronze florentino que flutuassem.

Desciam em meio às barcas amarradas, cujos longos cabos oblíquos roçavam um pouco a cobertura da barca. Os ruídos da cidade insensivelmente se afastavam, o rodar das carroças, o tumulto das vozes, o latido dos cães no convés dos navios. Ela desatava o chapéu, e aportavam à sua ilha.

Instalavam-se na sala baixa de uma taberna, que tinha à porta redes negras suspensas. Comiam fritura de eperlanos, creme e cerejas. Deitavam-se na relva; beijavam-se à parte sob os choupos; e teriam querido, como dois Robinsons, viver perpetuamente naquele pequeno lugar, que lhes parecia, em sua beatitude, o mais magnífico da terra.

Não era a primeira vez que avistavam árvores, céu azul, gramado, que ouviam a água correr e a brisa soprar na folhagem; mas sem dúvida jamais haviam admirado tudo aquilo, como se a natureza não existisse antes, ou como se ela só houvesse começado a ser bela depois da saciação de seus desejos.

À noite, partiam de volta. A barca seguia a margem das ilhas. Ficavam no fundo, os dois escondidos pela sombra, sem falar. Os remos quadrados soavam entre os toletes de ferro; e isso marcava no silêncio como uma batida de metrônomo, enquanto, à popa, o cabo que se arrastava não interrompia seu pequeno e doce marulhar na água.

Uma vez, apareceu a lua; então não deixaram de fazer frases, achando o astro melancólico e cheio de poesia; ela mesma pôs-se a cantar:

Uma noite, lembras-te? vogávamos, etc.

Sua voz harmoniosa e fraca perdia-se sobre as ondas; e o vento levava os floreios que Léon escutava passar, como batimentos de asas, ao redor dele.

Ela se mantinha em frente, apoiada contra a divisória da chalupa, onde a lua entrava por uma das janelas abertas. Seu vestido preto, cujos panejamentos se alargavam em leque, afinava-a, tornava-a mais alta. Tinha a cabeça erguida, as mãos juntas e os dois olhos voltados para o céu. Às vezes, a sombra dos salgueiros a ocultava por inteiro; depois ela reaparecia de repente, como uma visão, na luz da lua.

Léon, no chão, ao lado dela, encontrou sob a mão uma fita de seda vermelho-papoula. O barqueiro examinou-a e acabou dizendo:

— Ah! talvez seja de uma companhia que levei outro dia. Veio um bando de brincalhões, monsieur e damas, com bolos, champanhe, cornetas de pistão, a tralha toda! Havia sobretudo um, um grande belo homem, de bigodinhos, que era muito divertido! e diziam assim: “Vamos, conta-nos alguma coisa..., Adolphe..., Dodolphe..., creio.”

Ela estremeceu.

— Estás sofrendo? — fez Léon, aproximando-se dela.

— Oh! não é nada. Sem dúvida, o frescor da noite.

— E esse não deve andar sem mulheres, tampouco — acrescentou docemente o velho marinheiro, julgando dizer uma gentileza ao estrangeiro.

Depois, cuspindo nas mãos, retomou os remos.

Foi preciso, contudo, separar-se! As despedidas foram tristes. Era na casa da mãe Rolet que ele deveria enviar suas cartas; e ela lhe fez recomendações tão precisas a respeito do envelope duplo, que ele admirou grandemente sua astúcia amorosa.

— Então, tu me afirmas que está tudo certo? — disse ela no último beijo.

— Sim, certamente!

— Mas por que, então — pensou ele depois, voltando sozinho pelas ruas —, ela faz tanta questão dessa procuração?

1/1
Menu

Fazer anotação