PARTE II - Capítulo VII Madame Bovary · Capítulo 16 de 35
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PARTE II - Capítulo VII

PARTE II - Capítulo VII

No dia seguinte foi, para Emma, um dia fúnebre. Tudo lhe pareceu envolto por uma atmosfera negra que flutuava confusamente sobre o exterior das coisas, e a tristeza se engolfava em sua alma com uivos suaves, como faz o vento de inverno nos castelos abandonados.

Era aquele devaneio que se tem sobre o que não voltará mais, a lassidão que toma a gente depois de cada fato consumado, enfim essa dor que trazem a interrupção de todo movimento habitual, a cessação brusca de uma vibração prolongada.

Como ao voltar da Vaubyessard, quando as quadrilhas lhe rodopiavam na cabeça, ela tinha uma melancolia sombria, um desespero entorpecido. Léon reaparecia maior, mais belo, mais suave, mais vago; embora separado dela, não a havia deixado, estava ali, e as paredes da casa pareciam guardar-lhe a sombra. Ela não conseguia desprender os olhos daquele tapete onde ele pisara, daqueles móveis vazios em que ele se sentara.

O rio continuava a correr, empurrando lentamente as suas pequenas ondas ao longo da margem escorregadia. Tinham passeado ali tantas vezes, ao mesmo murmúrio das águas, sobre os seixos cobertos de musgo.

Que bons sóis haviam tido! que belas tardes, sozinhos, à sombra, no fundo do jardim! Ele lia em voz alta, de cabeça descoberta, sentado num tamborete de gravetos secos; o vento fresco da campina fazia tremer as páginas do livro e as capuchinhas da latada... Ah! ele se fora, o único encanto de sua vida, a única esperança possível de uma felicidade! Como não agarrara aquela ventura quando ela se apresentava! Por que não a retivera com as duas mãos, com os dois joelhos, quando ela queria fugir? E amaldiçoou-se por não ter amado Léon; teve sede de seus lábios.

Tomou-a o desejo de correr para encontrá-lo, de atirar-se em seus braços, de lhe dizer: “Sou eu, sou tua!” Mas Emma se embaraçava de antemão nas dificuldades da empresa, e seus desejos, aumentando-se com o arrependimento, tornavam-se ainda mais ativos.

Desde então, essa lembrança de Léon foi como o centro de seu tédio; crepitava ali mais forte do que, numa estepe da Rússia, o fogo de viajantes abandonados sobre a neve. Ela se precipitava para ele, aninhava-se junto dele, atiçava delicadamente esse braseiro prestes a apagar-se, ia procurando ao redor tudo o que pudesse avivá-lo ainda mais; e as reminiscências mais longínquas, como as ocasiões mais imediatas, o que sentia com o que imaginava, seus desejos de volúpia que se dispersavam, seus projetos de felicidade que estalavam ao vento como galhos mortos, sua virtude estéril, suas esperanças caídas, a palha da vida doméstica, ela recolhia tudo, tomava tudo, e fazia tudo servir para aquecer sua tristeza.

Entretanto, as chamas se acalmaram, fosse porque se esgotasse a provisão de si mesma, fosse porque o amontoado era demasiado grande. O amor, pouco a pouco, extinguiu-se pela ausência; o arrependimento sufocou-se sob o hábito; e aquele clarão de incêndio que purpureava seu céu pálido cobriu-se de mais sombra e se apagou por graus. No entorpecimento de sua consciência, ela tomou até as repugnâncias pelo marido como aspirações pelo amante, os ardores do ódio como calores da ternura; mas, como o furacão soprava sempre, e a paixão se consumiu até as cinzas, e nenhum socorro veio, nenhum sol apareceu, fez-se de todos os lados uma noite completa, e ela permaneceu perdida num frio horrível que a atravessava.

Então recomeçaram os maus dias de Tostes. Ela se considerava agora muito mais infeliz, pois tinha a experiência da tristeza, com a certeza de que ela não acabaria.

Uma mulher que se impusera tão grandes sacrifícios podia bem dispensar as fantasias. Comprou um genuflexório gótico, e gastou em um mês catorze francos em limões para limpar as unhas; escreveu a Rouen, a fim de receber um vestido de caxemira azul; escolheu em Lheureux o mais belo de seus xales; amarrava-o à cintura por cima do roupão; e, com as venezianas fechadas, um livro na mão, ficava estendida num canapé, metida naquele aparato.

Muitas vezes variava o penteado: fazia-o à chinesa, em cachos frouxos, em tranças; abriu uma risca de lado na cabeça e enrolou os cabelos por baixo, como um homem.

Quis aprender italiano: comprou dicionários, uma gramática, uma provisão de papel branco. Tentou leituras sérias, de história e filosofia. À noite, às vezes, Charles acordava sobressaltado, acreditando que vinham chamá-lo para algum doente:

— Já vou — balbuciava.

E era o ruído de um fósforo que Emma riscava para reacender a lâmpada. Mas com suas leituras acontecia o mesmo que com suas tapeçarias, que, todas começadas, entulhavam-lhe o armário; ela as tomava, largava-as, passava a outras.

Tinha acessos em que facilmente a teriam levado a extravagâncias. Sustentou um dia, contra o marido, que beberia muito bem meio copo grande de aguardente; e, como Charles teve a tolice de desafiá-la, ela bebeu a aguardente até o fim.

Apesar de seus ares vaporosos (era a palavra das burguesas de Yonville), Emma, contudo, não parecia alegre, e em geral conservava nos cantos da boca aquela contração imóvel que enruga o rosto das solteironas e o dos ambiciosos decaídos. Era pálida por toda parte, branca como roupa de linho; a pele do nariz se repuxava para as narinas, seus olhos fitavam a gente de maneira vaga. Por ter descoberto três fios brancos nas têmporas, falou muito de sua velhice.

Frequentemente sentia desfalecimentos. Um dia, até, cuspiu sangue, e, como Charles se apressasse, deixando transparecer a inquietação:

— Ora! — respondeu ela. — Que importa isso?

Charles foi refugiar-se em seu gabinete; e chorou, os dois cotovelos sobre a mesa, sentado em sua poltrona de escritório, sob a cabeça frenológica.

Então escreveu à mãe pedindo-lhe que viesse, e ambos tiveram longas conferências a respeito de Emma. A que se resolver? que fazer, já que ela se recusava a todo tratamento?

— Sabes do que tua mulher precisaria? — retomava a mãe Bovary. — Ocupações forçadas, trabalhos manuais! Se ela fosse como tantas outras, obrigada a ganhar o pão, não teria esses vapores, que lhe vêm de um monte de ideias que enfia na cabeça, e do ócio em que vive.

— Mas ela se ocupa — dizia Charles.

— Ah! ela se ocupa! Com quê? Com ler romances, livros ruins, obras contra a religião, em que se zombava dos padres por meio de discursos tirados de Voltaire. Mas tudo isso vai longe, meu pobre filho, e quem não tem religião acaba sempre mal.

Ficou resolvido, portanto, que impediriam Emma de ler romances. A empresa não parecia fácil. A boa senhora encarregou-se dela: quando passasse por Rouen, deveria ir pessoalmente ao livreiro de aluguel e comunicar-lhe que Emma suspendia suas assinaturas. Não teriam o direito de avisar a polícia, se o livreiro persistisse assim mesmo em seu ofício de envenenador?

As despedidas da sogra e da nora foram secas. Durante as três semanas que haviam passado juntas, não haviam trocado quatro palavras, além das informações e cumprimentos quando se encontravam à mesa, e à noite antes de se deitar.

Madame Bovary mãe partiu numa quarta-feira, que era dia de mercado em Yonville.

A praça, desde a manhã, estava atravancada por uma fila de carroças que, todas de traseira, com os varais no ar, se estendiam ao longo das casas, desde a igreja até a estalagem. Do outro lado havia barracas de lona onde se vendiam chitas, cobertores e meias de lã, com cabrestos para cavalos e maços de fitas azuis, cujas pontas voavam ao vento. Ferragens grossas se espalhavam pelo chão, entre pirâmides de ovos e cestas de queijos, das quais saíam palhas pegajosas; junto às máquinas de trigo, galinhas que cacarejavam em gaiolas achatadas passavam o pescoço pelas grades. A multidão, amontoando-se no mesmo lugar sem querer arredar dali, ameaçava às vezes romper a vitrine da farmácia. Às quartas-feiras, ela não esvaziava nunca, e todos se empurravam ali, menos para comprar remédios do que para fazer consultas, tão famosa era a reputação do senhor Homais nos vilarejos vizinhos. Sua robusta segurança fascinara os camponeses. Consideravam-no médico maior do que todos os médicos.

Emma estava de cotovelos apoiados à janela (punha-se ali muitas vezes: a janela, na província, substitui os teatros e o passeio), e se distraía olhando a confusão dos rústicos, quando avistou um senhor vestido com uma sobrecasaca de veludo verde. Usava luvas amarelas, embora calçasse polainas grossas; e dirigia-se para a casa do médico, seguido por um camponês que andava de cabeça baixa, com ar todo meditativo.

— Posso ver o senhor? — perguntou ele a Justin, que conversava à soleira com Félicité.

E, tomando-o pelo criado da casa:

— Diga-lhe que o sr. Rodolphe Boulanger de la Huchette está aqui.

Não era por vaidade territorial que o recém-chegado acrescentara ao nome a partícula, mas para se fazer conhecer melhor. La Huchette, com efeito, era uma propriedade perto de Yonville, cujo castelo ele acabara de adquirir, com duas fazendas que cultivava por conta própria, sem se ocupar demais delas, entretanto. Vivia solteiro, e passava por ter ao menos quinze mil livres de renda!

Charles entrou na sala. O sr. Boulanger apresentou-lhe seu homem, que queria ser sangrado porque sentia formigamentos pelo corpo.

— Isso me purga — objetava ele a todos os raciocínios.

Bovary ordenou então que trouxessem uma atadura e uma bacia, e pediu a Justin que a segurasse. Depois, dirigindo-se ao aldeão já pálido:

— Não tenha medo, meu bravo.

— Não, não — respondeu o outro —, vá em frente!

E, com ar fanfarrão, estendeu o braço grosso. Sob a picada da lanceta, o sangue jorrou e foi espirrar no espelho.

— Aproxima a vasilha! — exclamou Charles.

— Ora veja! — dizia o camponês. — Jurariam que é uma fontinha correndo! Como tenho sangue vermelho! deve ser bom sinal, não é?

— Às vezes — retomou o oficial de saúde — não se sente nada no começo, depois a síncope se manifesta, e mais particularmente em pessoas bem constituídas, como este aqui.

O camponês, a essas palavras, deixou cair o estojo que girava entre os dedos. Um solavanco de seus ombros fez ranger o espaldar da cadeira. Seu chapéu caiu.

— Eu bem desconfiava — disse Bovary, aplicando o dedo sobre a veia.

A bacia começava a tremer nas mãos de Justin; seus joelhos vacilaram, ele ficou pálido.

— Minha mulher! minha mulher! — chamou Charles.

De um salto, ela desceu a escada.

— Vinagre! — gritou ele. — Ah! meu Deus, dois ao mesmo tempo!

E, em sua emoção, mal conseguia colocar a compressa.

— Não é nada — dizia muito tranquilamente o sr. Boulanger, enquanto tomava Justin nos braços.

E sentou-o sobre a mesa, apoiando-lhe as costas contra a parede.

Madame Bovary começou a retirar-lhe a gravata. Havia um nó nos cordões da camisa; ela ficou alguns minutos a mexer com seus dedos leves no pescoço do rapaz; depois derramou vinagre sobre o lenço de cambraia; molhava-lhe as têmporas com pequenos toques e soprava por cima, delicadamente.

O carroceiro acordou; mas a síncope de Justin durava ainda, e suas pupilas desapareciam na esclerótica pálida, como flores azuis dentro do leite.

— Seria preciso — disse Charles — esconder-lhe isso.

Madame Bovary tomou a bacia. Para colocá-la sob a mesa, no movimento que fez ao inclinar-se, seu vestido (era um vestido de verão, de quatro babados, cor amarela, longo de cintura e largo de saia), seu vestido se abriu em roda dela sobre os ladrilhos da sala; e, como Emma, abaixada, vacilava um pouco afastando os braços, o volume do tecido se quebrava aqui e ali, conforme as inflexões de seu corpete.

Depois foi pegar uma jarra d’água, e dissolvia pedaços de açúcar quando chegou o farmacêutico. A criada fora buscá-lo em meio à algazarra; ao ver seu aprendiz de olhos abertos, ele recobrou o fôlego. Depois, dando voltas ao redor dele, observava-o de alto a baixo.

— Tolo! — dizia. — Tolo pequeno, de fato! Tolo em quatro letras! Grande coisa, afinal, uma flebotomia! e um rapaz que não tem medo de nada! uma espécie de esquilo, como veem, que sobe para sacudir nozes a alturas vertiginosas. Ah! sim, fala, gaba-te! Eis belas disposições para exercer mais tarde a farmácia; pois poderás ser chamado, em circunstâncias graves, perante os tribunais, a fim de iluminar a consciência dos magistrados; e será preciso, no entanto, conservar o sangue-frio, raciocinar, mostrar-se homem, ou então passar por imbecil!

Justin não respondia. O farmacêutico continuava:

— Quem te pediu que viesses? Tu importunas sempre o senhor e a madame! Às quartas-feiras, além disso, tua presença me é ainda mais indispensável. Há agora vinte pessoas na casa. Deixei tudo por causa do interesse que te tenho. Vamos, vai embora! corre! espera-me, e vigia os frascos!

Quando Justin, que se recompunha, partiu, conversou-se um pouco sobre desmaios. Madame Bovary nunca tivera nenhum.

— É extraordinário para uma senhora! — disse o sr. Boulanger. — De resto, há pessoas muito delicadas. Assim, vi, num duelo, uma testemunha perder os sentidos apenas ao ruído das pistolas sendo carregadas.

— Eu — disse o farmacêutico —, a vista do sangue dos outros não me faz absolutamente nada; mas a simples ideia do meu correndo bastaria para me causar desfalecimentos, se refletisse demais nisso.

Entretanto, o sr. Boulanger dispensou seu criado, recomendando-lhe que tranquilizasse o espírito, pois sua fantasia havia passado.

— Ela me proporcionou a vantagem de conhecê-la — acrescentou.

E olhava Emma durante essa frase.

Depois depositou três francos no canto da mesa, saudou negligentemente e saiu.

Logo estava do outro lado do rio (era seu caminho para voltar à Huchette); e Emma o avistou na campina, caminhando sob os álamos, retardando-se de vez em quando, como alguém que reflete.

— Ela é muito graciosa! — dizia consigo. — É muito graciosa, essa mulher do médico! Belos dentes, olhos negros, o pé coquete, e porte como uma parisiense. De onde diabo ela saiu? Onde foi que ele a encontrou, esse rapagão?

O sr. Rodolphe Boulanger tinha trinta e quatro anos; era de temperamento brutal e inteligência perspicaz, além de ter frequentado muito as mulheres, e conhecê-las bem. Aquela lhe parecera bonita; portanto pensava nela, e em seu marido.

— Acho-o muito estúpido. Ela deve estar cansada dele, sem dúvida. Ele tem unhas sujas e barba de três dias. Enquanto trota atrás dos doentes, ela fica cerzindo meias. E a gente se entedia! gostaria de morar na cidade, dançar polca todas as noites! Pobrezinha! Abre a boca por amor como uma carpa por água em cima de uma mesa de cozinha. Com três palavras de galanteria, essa criatura me adoraria; tenho certeza! seria terna! encantadora!... Sim, mas como livrar-se dela depois?

Então os embaraços do prazer, entrevistos em perspectiva, fizeram-no, por contraste, pensar em sua amante. Era uma atriz de Rouen, que ele mantinha; e, quando se deteve nessa imagem, da qual, pela lembrança mesma, já sentia fastio:

— Ah! madame Bovary — pensou — é bem mais bonita do que ela, sobretudo mais fresca. Virginie, decididamente, começa a ficar gorda demais. É tão fastidiosa com suas alegrias. E, além disso, que mania de camarõezinhos!

A campina estava deserta, e Rodolphe não ouvia ao redor de si senão o bater regular das ervas que chicoteavam seus sapatos, com o grito dos grilos escondidos ao longe sob as aveias; revia Emma na sala, vestida como a vira, e a despia.

— Oh! eu a terei! — exclamou, esmagando com uma pancada de bengala um torrão de terra diante dele.

E imediatamente examinou a parte estratégica do empreendimento. Perguntava-se:

— Onde nos encontrar? por que meio? Teremos continuamente a criança em cima de nós, e a criada, os vizinhos, o marido, toda sorte de aborrecimentos consideráveis. Ora! — disse — perde-se tempo demais nisso!

Depois recomeçou:

— É que ela tem olhos que entram no coração da gente como verrumas. E esse tom pálido!... Eu, que adoro mulheres pálidas!

No alto da costa d’Argueil, sua resolução estava tomada.

— Só resta procurar as ocasiões. Pois bem, passarei por lá algumas vezes, mandarei caça, aves; mandarei sangrar-me, se for preciso; ficaremos amigos, vou convidá-los à minha casa... Ah! por Deus! — acrescentou —, aí vêm logo os comícios; ela estará lá, eu a verei. Começaremos, e com audácia, pois é o mais seguro.

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