PARTE II - Capítulo XIII Madame Bovary · Capítulo 22 de 35
Obra Menu

PARTE II - Capítulo XIII

PARTE II - Capítulo XIII

Mal chegara a casa, Rodolphe sentou-se bruscamente à escrivaninha, debaixo da cabeça de cervo que, como troféu, se destacava contra a parede. Mas, quando teve a pena entre os dedos, não soube encontrar coisa alguma; de modo que, apoiando-se nos dois cotovelos, pôs-se a refletir.

Emma lhe parecia recuada num passado longínquo, como se a resolução que ele tomara acabasse de colocar entre ambos, de repente, um intervalo imenso. Então, para recapturar alguma coisa dela, foi buscar no armário, à cabeceira de sua cama, uma velha caixa de biscoitos de Reims, onde costumava guardar suas cartas de mulheres; e dela escapou um vago cheiro de pó úmido e de rosas murchas. Primeiro viu um lenço de bolso, coberto de gotículas pálidas.

Era um lenço dela, de uma vez em que sangrara pelo nariz, durante um passeio; ele já não se lembrava.

Havia ali ao lado, chocando-se contra todos os cantos, a miniatura que Emma lhe dera; o traje dela lhe pareceu pretensioso, e o olhar de soslaio, de efeito dos mais lamentáveis; depois, à força de considerar aquela imagem e de evocar a lembrança do modelo, os traços de Emma pouco a pouco se confundiram em sua memória, como se a figura viva e a figura pintada, roçando uma na outra, se houvessem reciprocamente apagado.

Por fim, leu algumas cartas suas; estavam cheias de explicações relativas à viagem deles, curtas, técnicas e prementes como bilhetes de negócios.

Quis rever as longas, as de outrora; para achá-las no fundo da caixa, Rodolphe desarrumou todas as outras; e maquinalmente pôs-se a remexer naquele monte de papéis e de coisas, reencontrando, em desordem, buquês, uma liga, uma máscara preta, alfinetes e cabelos — cabelos castanhos, louros; alguns até, prendendo-se à ferragem da caixa, quebravam-se quando ela era aberta.

Assim, flanando por entre suas lembranças, examinava as caligrafias e o estilo das cartas, tão variados quanto suas ortografias. Eram ternas ou joviais, galhofeiras, melancólicas; umas pediam amor, outras pediam dinheiro. A propósito de uma palavra, ele se recordava de rostos, de certos gestos, de um som de voz; às vezes, porém, não se recordava de nada.

Com efeito, essas mulheres, acorrendo todas ao mesmo tempo em seu pensamento, estorvavam-se umas às outras e se diminuíam ali dentro, como sob um mesmo nível de amor que as igualava. Tomando então aos punhados as cartas confundidas, divertiu-se durante alguns minutos em fazê-las cair em cascata, da mão direita para a mão esquerda.

Enfim, entediado, sonolento, Rodolphe foi recolocar a caixa no armário, dizendo consigo: “Que monte de lorotas!” — o que resumia sua opinião; pois os prazeres, como colegiais no pátio de um colégio, haviam pisoteado tanto seu coração que ali nada verde vicejava, e aquilo que por ali passava, mais aturdido que as crianças, nem sequer deixava, como elas, seu nome gravado no muro.

— Vamos! — disse ele consigo. — Comecemos.

Escreveu:

“Coragem, Emma, coragem! Não quero fazer a desgraça de sua existência.”

— Afinal, é verdade — pensou Rodolphe. — Ajo no interesse dela; sou honesto.

“Pesou maduramente sua determinação? Sabe o abismo a que eu a arrastava, pobre anjo? Não, não é verdade? A senhora ia confiante e louca, acreditando na felicidade, no futuro. Ah! infelizes que somos! Insensatos!”

Rodolphe parou, para encontrar ali alguma boa desculpa.

— Se eu lhe dissesse que toda a minha fortuna está perdida?... Ah! não; além disso, isso não impediria nada. Mais tarde seria recomeçar tudo. Será possível fazer mulheres assim ouvirem a razão!

Refletiu, depois acrescentou:

“Não a esquecerei, creia bem, e terei continuamente por si uma dedicação profunda; mas um dia, cedo ou tarde, esse ardor — tal é o destino das coisas humanas — teria sem dúvida diminuído! Ter-nos-iam vindo lassidões; e quem sabe mesmo se eu não teria a dor atroz de assistir aos seus remorsos e de participar deles, uma vez que eu os teria causado. Só a ideia das tristezas que lhe chegariam me tortura, Emma! Esqueça-me! Por que foi preciso que eu a conhecesse? Por que era tão bela? É minha culpa? Oh! meu Deus! Não! não! acuse apenas a fatalidade!”

— Eis uma palavra que faz sempre efeito — disse ele consigo.

“Ah! se a senhora tivesse sido uma dessas mulheres de coração frívolo, como se veem tantas, por certo eu poderia, por egoísmo, tentar uma experiência então sem perigo para si. Mas essa deliciosa exaltação, que faz ao mesmo tempo seu encanto e seu tormento, impediu-a de compreender, adorável mulher que é, a falsidade de nossa posição futura. Eu também não havia refletido nisso de início, e repousava à sombra dessa felicidade ideal, como à da mancenilheira, sem prever as consequências.”

— Talvez ela vá acreditar que é por avareza que renuncio. Ah! não importa, tanto pior! É preciso acabar.

“O mundo é cruel, Emma. Em toda parte aonde fôssemos, ele nos perseguiria. A senhora teria de sofrer as perguntas indiscretas, a calúnia, o desdém, talvez o ultraje? O ultraje à senhora! Oh!... E eu, que gostaria de fazê-la sentar-se num trono! Eu, que levo seu pensamento como um talismã. Pois me puno pelo exílio de todo o mal que lhe fiz. Vou partir. Para onde? Não sei; estou louco! Adeus! Seja sempre boa! Conserve a lembrança do infeliz que a perdeu. Ensine meu nome a sua filha: que ela o repita em suas preces.”

A chama das duas velas tremia; Rodolphe levantou-se para fechar a janela e, quando se sentou novamente:

— Parece-me que é tudo? Ah! ainda isto, para que ela não venha em meu encalço:

“Estarei longe quando a senhora ler estas tristes linhas, pois quis fugir o mais depressa possível, a fim de evitar a tentação de revê-la. Nada de fraqueza! Voltarei; e talvez mais tarde conversemos juntos, muito friamente, sobre nossos antigos amores. Adeus!”

E havia um último adeus, separado em duas palavras: “A Deus!” — o que ele julgava de excelente gosto.

— Como vou assinar agora? — disse consigo. — Inteiramente seu?... Não. Seu amigo... Sim, é isso!

“Seu amigo.”

Releu a carta. Pareceu-lhe boa.

— Pobre mulherzinha! — pensou, enternecido. — Vai me crer mais insensível que um rochedo; teria sido preciso algumas lágrimas em cima disto; mas eu não consigo chorar; não é minha culpa.

Então, tendo despejado água num copo, Rodolphe molhou nela o dedo e deixou cair do alto uma grossa gota, que fez uma mancha pálida sobre a tinta; depois, procurando lacrar a carta, encontrou o sinete Amor nel cor.

— Isto não se ajusta muito à circunstância... Ah, bah! não importa!

Depois disso, fumou três cachimbos e foi deitar-se.

No dia seguinte, quando se levantou (por volta de duas horas, pois dormira tarde), Rodolphe mandou colher uma cesta de damascos. Dispôs a carta no fundo, sob folhas de videira, e ordenou logo a Girard, seu criado de lavoura, que levasse aquilo delicadamente à sra. Bovary. Servia-se desse meio para corresponder-se com ela, enviando-lhe, conforme a estação, frutas ou caça.

— Se ela te perguntar notícias minhas — disse-lhe —, responderás que parti em viagem. É preciso entregar a cesta a ela mesma, em mãos; vai, e cuidado.

Girard vestiu sua blusa nova, amarrou o lenço em torno dos damascos e, caminhando com grandes passadas pesadas em seus grossos tamancos ferrados, tomou tranquilamente o caminho de Yonville.

A sra. Bovary, quando ele chegou, arrumava com Félicité, sobre a mesa da cozinha, um pacote de roupa.

— Aqui está — disse o criado — o que nosso patrão lhe manda.

Ela foi tomada por uma apreensão e, enquanto procurava algumas moedas no bolso, olhava-o com um olhar alucinado, ao passo que ele próprio a mirava espantado, sem compreender que semelhante presente pudesse comover tanto alguém. Por fim ele saiu. Félicité ficou.

Emma não se conteve mais; correu para a sala como se fosse levar para lá os damascos, derrubou a cesta, arrancou as folhas, encontrou a carta, abriu-a e, como se atrás dela houvesse um incêndio pavoroso, pôs-se a fugir para o quarto, toda aterrada.

Charles estava lá; ela o viu; ele lhe falou; ela não ouviu nada, e continuou a subir rapidamente os degraus, ofegante, desvairada, ébria, sempre segurando aquela horrível folha de papel que lhe estalava nos dedos como uma lâmina de zinco. No segundo andar, parou diante da porta do sótão, que estava fechada. Então quis acalmar-se; recordou-se da carta; precisava terminá-la, não ousava. Aliás, onde? Como? Seria vista. Ah! não, aqui, pensou ela, estarei bem.

Emma empurrou a porta e entrou. As ardósias deixavam cair a prumo um calor pesado, que lhe apertava as têmporas e a sufocava; ela arrastou-se até a água-furtada fechada, da qual puxou o ferrolho; e a luz ofuscante jorrou de um salto. Em frente, para além dos telhados, a plena campanha se estendia a perder de vista.

Embaixo, sob ela, a praça da aldeia estava vazia; os seixos da calçada cintilavam; as grimpas das casas permaneciam imóveis; no canto da rua, de um andar inferior, partiu uma espécie de ronco em modulações estridentes. Era Binet ao torno.

Ela se apoiara contra o vão da água-furtada, e relia a carta com risadinhas de cólera. Mas, quanto mais fixava nela a atenção, mais suas ideias se confundiam.

Ela o revia, ouvia-o, ele a envolvia com os dois braços... e os batimentos de seu coração, que lhe golpeavam o peito como grandes pancadas de aríete, aceleravam-se um após outro, em intermitências desiguais. Lançava os olhos ao redor, desejando que a terra desabasse. Por que não acabar com tudo? Quem, afinal, a retinha? Ela era livre.

E avançou; olhou os paralelepípedos, dizendo consigo: Vamos! vamos!

O raio luminoso que subia diretamente de baixo atraía para o abismo o peso de seu corpo. Parecia-lhe que o chão da praça, oscilando, subia ao longo das paredes, e que o assoalho se inclinava pela ponta, à maneira de um navio que aderna. Ela se mantinha bem à borda, quase suspensa, rodeada por um grande espaço. O azul do céu a invadia, o ar circulava em sua cabeça oca; bastava-lhe ceder, deixar-se tomar, e o ronco do torno não cessava, como uma voz furiosa que a chamasse.

— Minha mulher! minha mulher! — gritou Charles.

Ela se deteve.

— Onde estás? Vem cá.

A ideia de que acabava de escapar à morte quase a fez desfalecer de terror; fechou os olhos. Depois estremeceu ao contato de uma mão sobre sua manga; era Félicité.

— O senhor a espera, madame; a sopa está servida.

E foi preciso descer! Foi preciso sentar-se à mesa!

Tentou comer. Os bocados a sufocavam. Então desdobrou o guardanapo como para examinar-lhe os remendos e quis de fato aplicar-se a esse trabalho, contar os fios do tecido. De repente, a lembrança da carta voltou-lhe. Então a teria perdido? Onde encontrá-la? Mas sentia no espírito uma lassidão tal, que jamais conseguiu inventar um pretexto para sair da mesa.

Depois, tornara-se covarde; tinha medo de Charles; ele sabia tudo, era certo! Com efeito, ele pronunciou estas palavras de modo singular:

— Parece que não estamos perto de rever o sr. Rodolphe.

— Quem te disse isso? — fez ela, estremecendo.

— Quem me disse? — replicou ele, um pouco surpreso com aquele tom brusco. — Foi Girard, que encontrei há pouco à porta do Café Français. Ele partiu em viagem, ou deve partir.

Ela soltou um soluço.

— O que é que te espanta? Ele se ausenta assim de vez em quando, para se distrair; e, palavra, aprovo! Quando se tem fortuna e se é solteiro!... De resto, nosso amigo sabe se divertir; é um folgazão. O sr. Langlois me contou...

Calou-se, por conveniência, por causa da criada que entrava. Esta recolocou na cesta os damascos espalhados sobre a prateleira; Charles, sem notar a vermelhidão da mulher, mandou que os trouxessem, pegou um e o mordeu diretamente.

— Oh! perfeito! — dizia. — Toma, prova!

E estendeu a cesta, que ela afastou suavemente.

— Sente só! Que aroma! — fez ele, passando-a de novo sob seu nariz, várias vezes.

— Estou sufocando! — gritou ela, levantando-se de um salto.

Mas, por um esforço de vontade, aquele espasmo desapareceu; depois:

— Não é nada! — disse ela. — Não é nada! É nervoso! Senta-te! Come!

Pois receava que a interrogassem, que cuidassem dela, que não a deixassem mais.

Charles, para lhe obedecer, tornara a sentar-se; e cuspia na mão os caroços dos damascos, que depois depositava no prato.

De repente, um tílburi azul passou a grande trote pela praça. Emma soltou um grito e caiu rija no chão, de costas.

Com efeito, Rodolphe, após muitas reflexões, decidira partir para Rouen. Ora, como da Huchette a Buchy não há outro caminho senão o de Yonville, fora-lhe preciso atravessar a aldeia, e Emma o reconhecera à claridade das lanternas, que cortavam o crepúsculo como um relâmpago.

Entretanto, o farmacêutico, ao tumulto que se fazia na casa, precipitou-se para lá.

A mesa, com todos os pratos, estava virada; molho, carne, facas, o saleiro e o galheteiro juncavam o aposento; Charles chamava por socorro; Berthe, aterrada, gritava, e Félicité, com as mãos trêmulas, deslaçava Madame, que tinha, ao longo do corpo, movimentos convulsivos.

— Vou correndo — disse o boticário — buscar em meu laboratório um pouco de vinagre aromático.

Depois, quando ela reabriu os olhos aspirando o frasco:

— Eu tinha certeza — fez ele —, isto acordaria um morto.

— Fala conosco! — dizia Charles. — Fala conosco! Recobra-te! Sou eu, teu Charles, que te ama! Reconheces-me? Olha, aqui está tua filhinha; beija-a!

A criança estendia os braços para a mãe, querendo pendurar-se ao seu pescoço. Mas, desviando a cabeça, Emma disse com voz entrecortada:

— Não, não, ninguém!

Desmaiou ainda outra vez. Levaram-na para a cama.

Ficou estendida, a boca aberta, as pálpebras fechadas, as mãos espalmadas, imóvel e branca como uma estátua de cera. De seus olhos saíam dois regatos de lágrimas, que corriam lentamente sobre o travesseiro. Charles, de pé, conservava-se ao fundo da alcova; e o farmacêutico, perto dele, guardava aquele silêncio meditativo que convém ter nas ocasiões sérias da vida.

— Tranquilize-se — disse, empurrando-lhe o cotovelo —, creio que o paroxismo passou.

— Sim, ela repousa um pouco agora — respondeu Charles, que a olhava dormir. — Pobre mulher!... Pobre mulher! Ei-la recaída!

Então Homais perguntou como sobreviera o acidente. Charles respondeu que aquilo a tomara de repente, enquanto ela comia damascos.

— Extraordinário!... — retomou o farmacêutico. — Mas poderia ser que os damascos houvessem ocasionado a síncope? Há naturezas tão impressionáveis em relação a certos odores! E seria mesmo uma bela questão a estudar, tanto sob o aspecto patológico quanto sob o aspecto filosófico. Os padres conheciam sua importância, eles que sempre misturaram aromas às cerimônias. É para vos estupefazer o entendimento e provocar êxtases, coisa, aliás, fácil de obter nas pessoas do sexo feminino, que são mais delicadas que as outras. Citam-se algumas que desmaiam ao cheiro de chifre queimado, de pão fresco...

— Cuidado para não acordá-la! — disse Bovary em voz baixa.

— E não somente — continuou o boticário — os humanos são sujeitos a essas anomalias, mas também os animais. Assim, o senhor não ignora o efeito singularmente afrodisíaco que produz a nepeta cataria, vulgarmente chamada erva-dos-gatos, sobre a raça felina; e, por outro lado, para citar um exemplo que garanto autêntico, Bridoux (um de meus antigos colegas, atualmente estabelecido na rua Malpalu) possui um cão que cai em convulsões assim que lhe apresentam uma tabaqueira. Muitas vezes até faz a experiência diante dos amigos, em seu pavilhão do Bois-Guillaume. Acreditar-se-ia que um simples esternutatório pudesse exercer tais devastações no organismo de um quadrúpede? É extremamente curioso, não é verdade?

— Sim — disse Charles, que não escutava.

— Isso nos prova — retomou o outro, sorrindo com um ar de benigna suficiência — as irregularidades sem número do sistema nervoso. No que diz respeito a Madame, ela sempre me pareceu, confesso, uma verdadeira sensitiva. Assim, não lhe aconselharei, meu bom amigo, nenhum desses pretensos remédios que, sob o pretexto de atacar os sintomas, atacam o temperamento. Não! Nada de medicação inútil! Regime, eis tudo! Sedativos, emolientes, dulcificantes. E o senhor não acha que talvez fosse preciso impressionar a imaginação?

— Em quê? Como? — disse Bovary.

— Ah! aí está a questão! Eis efetivamente a questão: That is the question! como li ultimamente no jornal.

Mas Emma, despertando, gritou:

— E a carta? E a carta?

Pensaram que ela delirava; e o delírio veio depois da meia-noite: declarara-se uma febre cerebral.

Durante quarenta e três dias, Charles não a deixou. Abandonou todos os seus doentes; já não se deitava, estava continuamente a tomar-lhe o pulso, a aplicar-lhe sinapismos, compressas de água fria. Mandava Justin até Neufchâtel buscar gelo; o gelo derretia pelo caminho; mandava-o outra vez. Chamou o sr. Canivet em consulta; fez vir de Rouen o doutor Larivière, seu antigo mestre; estava desesperado.

O que mais o assustava era o abatimento de Emma; pois ela não falava, não ouvia nada e até parecia não sofrer — como se seu corpo e sua alma repousassem juntos de todas as suas agitações. Em meados de outubro, ela pôde conservar-se sentada na cama, com travesseiros atrás de si. Charles chorou quando a viu comer sua primeira torrada com geleia.

As forças voltaram-lhe; levantava-se algumas horas durante a tarde, e um dia em que se sentia melhor, ele tentou fazê-la dar, apoiada em seu braço, uma volta de passeio pelo jardim. A areia das alamedas desaparecia sob as folhas mortas; ela caminhava passo a passo, arrastando as pantufas, e, apoiando o ombro contra Charles, continuava a sorrir.

Foram assim até o fundo, perto do terraço. Ela se ergueu lentamente e pôs a mão diante dos olhos, para olhar.

Olhou ao longe, muito ao longe; mas no horizonte não havia senão grandes fogos de ervas, que fumegavam sobre as colinas.

— Vais te cansar, minha querida — disse Bovary; e, empurrando-a docemente para fazê-la entrar sob a latada: — Senta-te então neste banco; ficarás bem.

— Oh! não, ali não! ali não! — fez ela com voz desfalecente.

Teve uma tontura; e, desde aquela noite, sua doença recomeçou, com um andamento mais incerto, é verdade, e com caracteres mais complexos.

Ora ela sofria do coração, depois do peito, do cérebro, dos membros; sobrevieram-lhe vômitos nos quais Charles acreditou perceber os primeiros sintomas de um câncer. E o pobre rapaz, além de tudo, tinha preocupações de dinheiro.

1/1
Menu

Fazer anotação