Seráfica
Como as iluminuras dos Missais, que ressaltam de marfins ebúrneos, era infinitamente seráfica, da beatitude angélica dos querubins, aquela pálida mulher juncal, de um moreno triste e contemplativo de magnólia crestada.
Seus grandes olhos negros, profundos e aveludados, de finíssimos cílios rendilhados, raiados de uma expressão judaica, tornavam ainda maior o relevo do palor esmaiado do rosto melancólico, que a singular formosura brandamente iluminava de claridade velada...
As linhas harmoniosas do seu busto sereno, perfeito, davam-lhe encanto vago, aéreo, siderações egrégias, prefulgências de Arcanjo.
Pairavam nessa mulher jalde-esmaiado, que na luz loura do sol tinha toques de ouro, suavidades de cânticos sacros, carícias de aves, e ritmos preciosos de cítaras e harpas finamente vibradas através a sonoridade clara das lânguidas águas do Mar.
Altiva e alta, com o sentimento frio do mármore das Imagens amarguradas, fluíam-lhe da voz, quando raramente falava, cismativas dolências, fundas nostalgias enevoadas...
Mas, muda, na mudez das religiosas claustrais, ficava então de uma beleza divinal e secreta, da excelsa resplandecência sagrada dos Hostiários.
E, quando erguia os cílios densos e cetinosos e o clarão dos olhos brilhava, como que se evaporizavam deles chamas e músicas paradisíacas, uma espiritualização a glorificava, eflúvios de aroma, a leve irisação da graça.
Dominadora, triunfal, na auréola do esplendor que a circundava, parecia reinar num altar etéreo, por entre os finos astros imortais.
Fazia crer que todos os sentimentos afetivos purificados, que todas as emanações originais da terra, correriam, perpetuamente, em cortejos reverentes, a vê-la passar, a beijá-la na epiderme de cera, a venerá-la, enfim, com esse amor ideal, indelével, eterno, da natureza abstrata...
O perfume e a radiação da sua cabeça majestosa, astral, não fascinavam, não atraíam apenas, mas idealizavam sempre — como se a Seráfica fosse a Aparição simbólica, surgindo de um fundo lívido de lua, uma Santa Teresa, bela e ascética nos cilícios da religião do Amor, amortalhada na castidade das açucenas e lírios ..
A alma dos Estéticos, dos curiosos Emocionados, se deslumbrava em êxtases de ocasos ao ver-lhe a aristocrática esveltez monjal, os grandes olhos negros e magoados, de beleza deífica, os ondeados cabelos tenebrosos e a boca purpurejante, anelante, letárgica, ligeiramente golpeada de um travor enervante de volúpia dolorosa...
Os seios deliciosos e tépidos, origem branca e bela da graça e do desejo, eram duas raras rosas intemeratas, cujo aroma esquisito e vivo meigamente deixava um fino encanto e uma suave fascinação no ar...
Virgem ainda, com todo o impoluto verdor do seu corpo misterioso, fechada nos recatos ingênitos do pudor, a Morte, afinal, veio entoar o Canto Nupcial de Seráfica, o seu Epitalâmio...
E ela, no tálamo da Morte, nessa mística melancolia de outrora, que a velava, e naquele esmaiado palor, lembrava, aos entendimentos delicados, aos solenes e reclusos profetas da Grande Arte, ter emudecido glacialmente para sempre, sem os impudorosos, profanadores contatos, de uma exótica e asiática doença...