A água verde A Esposa Recatada e do Lar do Bolsonarista Redpill e o Piscineiro Petista · Capítulo 1 de 12
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A água verde

Meu marido descobriu que era um homem alfa numa terça-feira, às nove e quarenta da noite. Eu estava ajoelhada diante da máquina de lavar, segurando uma bacia sob a tampa do filtro, quando ele entrou na lavanderia com um vídeo tocando no celular. O rapaz da tela usava um relógio do tamanho de um pires e explicava a Eustáquio os benefícios de uma esposa que soubesse reconhecer a liderança masculina. Pedi uma toalha. Meu marido aumentou o volume para escutar a parte sobre respeito.

Na manhã seguinte, encontrei quarenta e sete reais em moedas dentro do filtro. Acrescentei ao dinheiro das compras, limpei a água do chão e salvei o contato de um técnico. Em dezoito anos de casamento, essa era a ordem habitual dos serviços: eu resolvia, Eustáquio identificava uma virtude familiar no resultado. A torneira consertada comprovava a harmonia do lar. O almoço pronto comprovava a nossa complementaridade. Quando faltava café, ele investigava o avanço do feminismo.

Nossa casa tinha quatro quartos, uma churrasqueira e uma piscina que, naquela semana de outubro, adquiriu a cor do recheio do meu empadão de escarola. A semelhança me pareceu curiosa até Eustáquio anunciar que receberíamos dezesseis pessoas no domingo. Estava disputando a presidência da associação de comerciantes do bairro e queria gravar uma conversa sobre família, liberdade e iniciativa privada junto à água. A iluminação era boa naquele canto. A conta de manutenção da piscina também costumava chegar naquele canto, numa bandeja onde ele depositava tudo que exigia providência.

— O pessoal vai querer comer alguma coisa — disse, abrindo a geladeira. — Você faz aquelas suas coisinhas.

Minhas coisinhas tinham ocupado uma cozinha alugada, seis anos antes. Eu preparava encomendas para escritórios, festas pequenas e aniversários de gente com dinheiro suficiente para comprar tempo. Fechara o negócio durante a doença do meu pai. Depois do enterro, Eustáquio transformara a interrupção em acordo permanente: ele cuidaria da loja de ferragens industriais, eu cuidaria da casa. O fogão continuou funcionando para os clientes dele, com a diferença de que o pagamento vinha na forma de elogios na sobremesa.

Fui buscar a peneira no quartinho. A rede estava rasgada e o cabo deixava pó azul na mão. Atrás de uma caixa de carvão encontrei três sacolas com peças da bomba, ainda nas embalagens. Eustáquio comprara tudo numa promoção pela internet, após assistir a um vídeo de manutenção. O homem do vídeo prometera economia e autonomia. As sacolas tinham passado dois verões adquirindo familiaridade com as aranhas.

Levei uma à varanda. Eustáquio apalpou a embalagem e anunciou que ele mesmo resolveria no sábado. Abriu o vídeo, adiantou a explicação até o homem levantar uma chave e olhou para o parafuso da nossa bomba. A cabeça do parafuso tinha outro formato.

— Precisa de uma chave especial.

— Tem na sua loja?

— Deve ter. Vou perguntar ao Cláudio.

Cláudio sabia onde ficava tudo na loja havia onze anos. Meu marido mandou um áudio pedindo a chave, outro pedindo uma fotografia da chave e um terceiro explicando que aquele serviço ficaria melhor com um profissional. Ouvi os três enquanto procurava o telefone de Marlene. A autonomia tinha durado até a caixa de ferramentas.

Marlene, nossa vizinha, me deu um número de telefone por cima do muro. Estava podando uma primavera com luvas de jardinagem até os cotovelos. Falou de Joel com a objetividade que usava para indicar marcas de adubo: pontual, cuidadoso, cobrava a visita. Também informou que ele era divorciado, informação que cabia no orçamento apenas por iniciativa dela.

Joel chegou na sexta, pouco antes das onze. Tinha quarenta e um anos, cabelo amassado pelo boné e uma caixa de ferramentas cujo fecho se prendia com um pedaço de arame. Vestia uma camiseta vermelha desbotada com o nome de uma cooperativa. Pediu para ver a casa de máquinas antes de olhar a piscina. Gostei daquela prioridade. Os últimos visitantes de Eustáquio tinham examinado a churrasqueira, o carro e a marca da cerveja, nessa ordem.

Ele desligou o equipamento, abriu o compartimento e retirou um cesto tão cheio de folhas que precisei de um saco de lixo. Enquanto eu segurava o saco, Joel apontou uma rachadura na tampa da bomba e explicou os dois orçamentos possíveis. Havia o reparo necessário e havia uma substituição que poderia esperar. Falava olhando para mim, inclusive nas frases que continham números.

— A senhora autoriza qual?

— Solange. E autoriza o necessário.

Repetiu meu nome ao anotar. Fazia tempo que um homem chegava àquela casa e precisava saber como eu me chamava.

Eustáquio apareceu quando Joel já guardava as ferramentas. Vinha de camisa verde e amarela, com o celular preso a um suporte que pretendia testar no jardim. Leu o nome da cooperativa, olhou a estrela pequena na manga e perguntou, naquele tom de quem já preparou a resposta, se o rapaz era petista.

— Desde antes desse boné ficar velho — respondeu Joel.

Meu marido soltou uma risada curta. Disse que respeitava opiniões, sobretudo de quem trabalhava. Joel pediu uma assinatura no orçamento e explicou que voltaria no sábado para o tratamento. A piscina ficaria interditada pelo tempo indicado na ficha. A gravação poderia acontecer à distância, com as pessoas no piso seco.

— Domingo é complicado? — perguntei.

Joel consultou a agenda de papel que levava no bolso. Eustáquio mexia no suporte, tentando apertar uma borboleta com os dentes.

— Faço revisão no começo da manhã. Domingo entra como extra.

— Eu pago o extra — falei.

Meu marido levantou o rosto. Expliquei que a festa era dele e o equipamento precisava funcionar. Ele concordou, satisfeito com a possibilidade de um domingo perfeito. Joel me entregou a cópia do orçamento; guardei a folha na gaveta dos talheres, onde documentos destinados a sobreviver a Eustáquio costumavam encontrar abrigo.

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