Vinte e três pratos
O aniversário de dona Zulmira aconteceria num salão alugado por Tereza, a três ruas da minha casa. Vinte convidados confirmados, uma prima que chegaria de viagem e duas pessoas da família que costumavam aparecer quando havia comida. Preparei vinte e três porções. Antigamente eu teria feito trinta, receosa de qualquer falta. Ilza conferiu as quantidades, olhou o tamanho das travessas e disse que vinte e três adultos comeriam muito bem com aquilo.
Na sexta, às sete, ela entrou pela cozinha e percebeu a ausência de Eustáquio. Joel contara à mãe que nosso relacionamento ultrapassara o serviço. Ilza me pediu uma conversa antes de amarrar o avental. Sentamos perto da porta, com a caixa de legumes entre nós.
— Vim cozinhar com você — disse. — Sobre meu filho, vocês vão ter de conversar entre vocês.
Confirmei as duas diárias. Ilza abriu o caderno e perguntou pelo sal. Eu o procurei no armário errado. Ela observou a busca, tirou os óculos e esperou que eu encontrasse o pote.
— Ele contou muita coisa? — perguntei.
— Contou um pedaço. O resto pedi que guardasse.
Entreguei o sal. Ilza separou as facas e disse que o filho levava uma eternidade para explicar qualquer assunto difícil. Quando encerrara o casamento com Dalva, passara quarenta minutos falando da cadela antes de chegar à mudança.
— É capaz de achar que eu entendi tudo pela cachorra.
Eu ri, aliviada, e deixei uma cenoura cair. Ilza apontou para a pia. Começamos o trabalho.
Minha mãe telefonou quando eu lavava as cenouras. Já soubera da separação por Eustáquio. Perguntou se eu estava apaixonada; precisei desligar a torneira para ter certeza de que ouvira aquilo. Preparei uma resposta sobre os dezoito anos de casamento. Ela interrompeu:
— Estou perguntando desse rapaz.
Olhei para Ilza, ocupada com uma abóbora a dois passos de mim. Fui até o corredor com a cenoura na mão.
— Ainda estou conhecendo, mãe.
— Conhece primeiro, Solange.
A frase ficou entre nós. Minha mãe pediu que eu pensasse no que fizera e perguntou se passaria o Natal em sua casa. Disse que combinaria mais perto. Voltei à cozinha. Ilza olhou a cenoura, depois para mim. Devolvi o legume à bacia e fui lavar o rosto.
Joel mandou uma mensagem oferecendo a caminhonete para o transporte. Agradeci e expliquei que Nádia já acertara um carro com um motorista conhecido. Ele respondeu com um sinal de positivo. Fiquei olhando para o desenho da mão, desconfortável com a secura que eu mesma lera ali. À tarde veio outra mensagem: queria conversar comigo quando a festa terminasse. Concordei.
No sábado, chegamos ao salão enquanto Tereza prendia um broche na roupa da mãe. Dona Zulmira completava oitenta anos e queria saber se alguém trouxera cerveja. Perguntou se eu era a moça do almoço na internet. Tereza fechou os olhos por um segundo.
— Sou eu.
— Você passou a gravação inteira em pé. Aqui pega uma cadeira.
Agradeci e fui ajudar Ilza com as travessas. Dona Zulmira chamou a filha outra vez para tratar da cerveja.
Durante o serviço, uma convidada me reconheceu do vídeo. Perguntou por Eustáquio, com o olhar interessado de quem oferece uma cadeira para uma notícia sentar. Informei que estávamos separados e perguntei se ela preferia frango ou carne. A mulher escolheu carne, voltou à mesa e se inclinou na direção da irmã. Vi o movimento e continuei servindo.
Pouco depois, a irmã veio buscar arroz. Quis saber se a água lá de casa estava boa. Olhei para ela com a colher suspensa. A mulher me olhou de volta, inocente até a altura das sobrancelhas.
— Está ótima. A senhora tem piscina?
— Meu cunhado tem.
— Depois pego o contato do profissional.
Ela agradeceu depressa e levou o prato. Ilza esperou que a mulher se afastasse para perguntar se o filho deveria preparar um anúncio para a família inteira. Precisei ir buscar guardanapos na cozinha antes que percebessem minha risada.
Uma das travessas esvaziou antes da outra. Dona Zulmira pediu mais molho. A prima de viagem chegou com fome, os dois parentes previstos apareceram, e um neto derrubou um copo perto da mesa. Ilza recolheu os cacos enquanto eu afastava as pessoas. O aniversário prosseguiu naquela sequência de necessidades pequenas que faz o mundo parecer administrável. Quando trouxeram o bolo, eu estava exausta e tinha fome.
Tereza acertou o saldo junto à porta. Paguei Ilza e conferi o que sobrava: dava para comprar a caixa térmica e guardar algum dinheiro. Meu telefone vibrou. Era Joel perguntando como tinha sido. Escrevi que a mãe dele acabara de transformar uma fofoca em indicação de cliente. Ele respondeu que eu precisava tomar cuidado com aquela senhora. Guardei o telefone sorrindo e precisei voltar à mesa de apoio para buscar a bolsa que esquecera.
Voltamos à minha casa no fim da tarde. Ilza guardou o avental, conferiu se recebera suas facas e pediu um carro. Antes de sair, pousou a mão no meu ombro e disse que trabalharia comigo outra vez. Dessa vez consegui agradecer. Depois que fechei o portão, sentei no degrau da cozinha e comi arroz frio direto de uma tigela, respondendo à mensagem de Joel com um endereço de padaria.