O jantar dos comerciantes A Esposa Recatada e do Lar do Bolsonarista Redpill e o Piscineiro Petista · Capítulo 11 de 12
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O jantar dos comerciantes

Chegamos à associação às quatro para servir às oito. A ajudante, Sueli, trabalhava com Ilza havia anos. Desocupou a porta da cozinha, mudou uma mesa de lugar e organizou os pratos. Fiquei com vontade de contratá-la para organizar minha semana.

Às seis, um homem apareceu pedindo para colocar uma faixa sobre a mesa de comida. A faixa tinha a fotografia de Eustáquio e o nome da chapa. Mostrei o lugar destinado à campanha, do outro lado do salão. O homem disse que meu marido autorizara. Pedi a Marlene que esclarecesse. Ela veio com a pasta na mão e encaminhou a faixa para a parede correta. Voltei ao forno com as orelhas quentes.

Joel telefonou antes das sete para desejar bom serviço. Atendia uma emergência em outra casa. Fiquei aliviada por ele estar ocupado longe dali; já bastaria encontrar Eustáquio e os amigos diante das minhas travessas.

Os convidados chegaram cedo. Sérgio entrou com uma câmera e cumprimentou Eustáquio perto do palco. Meu ex-marido usava uma camisa branca, passada por alguém cujo trabalho eu desconhecia. Ele me viu junto à mesa, hesitou e veio perguntar a que horas serviríamos. Respondi oito. Eustáquio conferiu o relógio, concordou e ficou olhando as travessas.

— A pasta de berinjela é aquela?

— É.

Ele pegou um pedaço de pão, passou a pasta e comeu em pé. Por um instante, reconheci uma cena antiga. A diferença estava no avental com meu nome, no recibo guardado por Marlene e na obrigação de ele voltar ao próprio lugar quando eu precisasse trabalhar. Eustáquio pareceu perceber alguma coisa parecida. Afastou-se para dar passagem a Sueli.

Às sete e cinquenta, caiu a energia de uma parte do salão. O freezer calou, a luminária perto do palco apagou e o forno perdeu o brilho vermelho. Fui até o quadro com Marlene. Um projetor, duas caixas de som e uma cafeteira tinham sido ligados no mesmo circuito. Chamaram o responsável pelo prédio. Enquanto ele examinava o problema, conferi a temperatura das cubas e pedi a Sueli que preparasse o serviço pelo lado da janela.

Tínhamos réchauds alugados, combustível suficiente e a comida pronta. Ilza acendeu as bases, reorganizou os pegadores e orientou os primeiros convidados. A pane afetaria a gravação e o café; o jantar podia começar.

Sérgio surgiu na porta da cozinha carregando a cafeteira desligada. Queria uma tomada. Sueli apontou para Marlene, que já conversava com o responsável pelo prédio. Ele voltou a insistir: precisava de café antes de gravar. Ilza ofereceu água e um prato.

— O pessoal precisa entender que eu estou trabalhando — explicou.

Sueli levantou os olhos das quarenta porções que tínhamos diante de nós. Eu mordi a parte de dentro da bochecha e entreguei o prato a ele. Sérgio saiu segurando a cafeteira numa mão e a comida na outra.

Marlene anunciou a mudança, e as pessoas formaram fila com uma docilidade que raramente ofereciam às reuniões da associação.

Sérgio tentou usar a fila como fundo de um depoimento. Apontou a câmera para mim e comentou que uma mulher dedicada conseguia salvar qualquer encontro. Pedi que desligasse enquanto eu trabalhava. Ele abaixou o equipamento pela metade, sorrindo para transformar o pedido em cumplicidade. Mantive a mão sobre a tampa da travessa e esperei.

Eustáquio estava perto o bastante para ouvir. Olhou para Sérgio, depois para mim. Disse ao amigo que guardasse a câmera. Sérgio argumentou sobre divulgação; meu ex-marido repetiu o pedido, com a impaciência que eu conhecia das discussões de fornecedor. A câmera acabou dentro da bolsa. Eu agradeci com um aceno e voltei a servir.

O circuito foi restabelecido antes das oito e meia. As falas aconteceram depois do jantar. Eustáquio falou de compras coletivas, estacionamento e segurança da rua comercial. Em algum momento, começou uma frase sobre valores familiares, olhou para a mesa da presidência e voltou ao problema das entregas. Eu ouvia da cozinha, enquanto Ilza separava talheres. Sueli perguntou quem era o homem falando. Respondi que era meu ex-marido. Ela levantou as sobrancelhas e continuou contando garfos.

O resultado saiu às dez. A chapa de Eustáquio perdeu por quatro votos. Ele cumprimentou o vencedor, recolheu a faixa e ficou conversando com dois comerciantes. Sérgio já saíra.

Antes de sair, oferecera ao vencedor uma gravação sobre liderança local. Eu o vira trocar o cartão de mão enquanto Eustáquio dobrava a faixa. A fidelidade de Sérgio à liderança masculina incluía acompanhar o resultado da urna.

Eu conferia a louça devolvida quando meu ex-marido se aproximou com um prato que encontrara no parapeito. Entregou-o, perguntou se faltava algum e esperou a contagem terminar.

— O jantar estava bom — disse.

— Obrigada. Ilza e Sueli trabalharam comigo.

Ele cumprimentou as duas. Depois perguntou se podia passar na terça para buscar as ferramentas e os livros. Combinamos o horário. Eustáquio foi embora carregando a faixa dobrada debaixo do braço. Observei a porta por alguns segundos, sentindo uma tristeza conhecida, menor do que antes, ainda suficiente para me distrair da conta. Sueli colocou mais dois garfos diante de mim.

Marlene quitou o serviço ao final da conferência. No carro, Ilza tirou os sapatos e fechou os olhos. Sueli adormeceu antes da segunda esquina. Meu telefone acendeu com uma fotografia que Joel tirara à tarde: um galho perfeitamente vazio. A mensagem dizia que o bem-te-vi escapara por um segundo. Mandei a foto dos meus pés inchados ao lado da caixa térmica.

Ele perguntou se eu queria companhia quando chegasse. Escrevi que precisava tomar banho e dormir. Joel respondeu que já imaginava e enviou outra fotografia, desta vez de um pombo inteiro. Aproximei a tela para enxergar. O bicho parecia indignado com o fotógrafo. Comecei a rir baixo. Ilza abriu um olho, viu o nome na tela e tornou a fechar.

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