A ficha de manutenção A Esposa Recatada e do Lar do Bolsonarista Redpill e o Piscineiro Petista · Capítulo 4 de 12
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A ficha de manutenção

Joel voltou na quinta para devolver o pote e conferir a água. Eu tinha passado a manhã testando três versões de uma salada, porque Tereza queria uma coisa leve que sustentasse os parentes até o bolo. Espalhei os pratos sobre a mesa e ofereci a ele um garfo. O piscineiro experimentou primeiro a salada com lentilha, mastigou com cuidado e perguntou se a de batata também concorria. Experimentou as três. Votou na batata, depois na lentilha, depois quis saber se a contratação permitia um empate.

— Você almoçou? — perguntei.

— Um pastel às dez.

Pus arroz e frango num prato fundo. Joel lavou as mãos na pia da área de serviço e sentou na ponta da mesa. Ajeitei o avental, recolhi duas tigelas que poderiam ficar onde estavam e procurei assunto durante o tempo necessário para perceber o meu próprio comportamento. Aos trinta e nove anos, eu ainda sabia reconhecer quando arrumava a cozinha para ter o que fazer com as mãos.

Joel perguntou por Eustáquio. Respondi que estava na loja. Ele assentiu, tornou a olhar o prato e falou do defeito da bomba. A conversa seguiu por peças, consumo de energia e frequência de limpeza. Eu poderia encerrar a visita ali. Acrescentei café à lista de serviços e perguntei pela mãe dele.

Ilza morava numa casa de fundos junto da casa do filho. Fazia questão de conservar sua cozinha, seu portão e uma conta de luz própria, que exibia nos dias em que Joel sugeria ajudá-la. Trabalhava em duas festas por mês, por gosto e por dinheiro. Queria uma máquina de costura nova. Perguntei se ela toparia me acompanhar no aniversário da mãe de Tereza.

— Pergunta para ela. Minha mãe gosta de escolher até a marca do pano de prato.

Ele me passou o contato. Marcamos uma conversa para sábado. Enquanto eu salvava o número, o telefone dele tocou com uma música romântica antiga. Reconheci a introdução e comecei a cantar. Joel me acompanhou com um atraso de duas palavras, inventou o trecho que esquecera e terminou numa nota que fez o cachorro de Marlene latir.

— Você colocou isso de propósito?

— Minha mãe colocou. Quando toca no fundo da bolsa, escuto de qualquer lugar.

— E sabe a letra toda?

— A parte que interessa.

Cantou a frase do beijo olhando para a xícara. Errou a última palavra outra vez. Eu estava rindo quando chegou uma mensagem de Eustáquio pedindo que eu separasse uma camisa. Baixei o telefone sobre a mesa. Joel tomou o resto do café e recolheu o prato.

Perguntei se ele tinha estudado alguma coisa além do serviço de piscina. A frase saiu no tom que eu usava para conversar com rapazes em busca do primeiro emprego. Joel me olhou por cima da xícara.

— Estudei para fazer esse serviço.

Senti o rosto esquentar. Comecei a dizer que me referia a curso técnico. Ele levantou uma sobrancelha, esperando que eu terminasse de piorar a pergunta. Acabei pedindo desculpas.

— Falei feito uma tonta.

— Você quer saber o que faço quando largo o cabo da peneira?

Assenti. Joel contou que frequentava um curso de fotografia no centro comunitário. Gostava de fotografar pássaros; por enquanto tinha uma coleção de galhos vazios e um pombo muito bom. Mostrou o pombo. Era um bicho ordinário, de peito lustroso, parecendo dono da praça inteira. Passei o dedo pela tela para ver a imagem seguinte, até encontrar uma fotografia de Dalva com uma cadela no colo. Joel explicou quem eram. Devolvi o telefone depressa demais.

— Pode olhar. A cadela fica comigo às quartas.

Perguntei se o revezamento era difícil.

— A Dalva segue os horários. Eu atraso. A cachorra aproveita e janta duas vezes.

Ele guardou o aparelho, lavou o copo que usara e voltou ao jardim. Segui atrás, levando a ficha de manutenção. A água estava clara; dava para enxergar uma moeda antiga junto à escada. Apontei para o fundo. Ele sorriu e disse que buscaria na próxima limpeza.

— Vai guardar de lembrança?

— Vou pôr no caixa da empresa.

— Começo modesto.

— A lavanderia rendeu quarenta e sete. A piscina ainda pode surpreender.

Joel quis saber da lavanderia. Contei a história do filtro, poupando apenas o vídeo. Ele riu com o corpo todo e apoiou a mão na borda para recuperar o fôlego. Fiquei olhando a nuca dele, a curva do ombro sob a camiseta, uma cicatriz pequena perto do pulso. A atração tinha começado antes daquele almoço. Admiti isso enquanto fingia conferir uma anotação sobre a bomba.

Ao entregar a ficha, perguntei se ele fazia visitas regulares aos domingos. Joel disse que mantinha dois domingos livres por mês. Usava um para a mãe e outro para uma pelada com amigos. O restante da agenda dependia da demanda. Abriu o caderno e ofereceu um horário quinzenal, cedo.

Eu poderia ter escolhido uma quarta-feira. Havia espaço na agenda dele, visível a poucos centímetros do meu rosto. Escolhi o domingo. Joel registrou o horário, cobrou a revisão daquele dia e guardou o dinheiro. O acerto me deu um alívio inesperado: pelo menos aquela parte da visita tinha preço, começo e fim compreensíveis.

Depois de guardar o caderno, Joel foi limpar o material. Eu me sentei na borda, dobrei a barra do vestido e pus os pés na água. A piscina tinha custado caro e passava a maior parte do ano servindo de fotografia. Mexi os dedos, observando as ondulações chegarem até a escada. Joel estava do outro lado, enxaguando a peneira junto à torneira. Perguntou se a temperatura estava boa.

— Você pode experimentar.

Ele olhou para mim, depois para os próprios sapatos. Expliquei que cabiam mais dois pés ali. Joel deixou a peneira escorrer, tirou os sapatos e dobrou a calça até os joelhos. Uma das meias tinha um furo no dedão. Tentou escondê-la dentro do sapato; puxei a minha barra molhada para fingir que estava ocupada.

Sentou a um palmo de distância. Os pés dele fizeram a água subir nas minhas pernas. Eu tinha escolhido aquele vestido de manhã, passado perfume e soltado o cabelo antes de atender a campainha. Agora precisava decidir onde pôr a mão. Apoiei-a entre nós. Joel olhou para meus dedos, depois para meu rosto.

— A água está boa — falei.

— Está.

Ficamos olhando a piscina, dois especialistas em temperatura. O braço dele roçou no meu quando se apoiou para trás. Joel manteve o braço ali. Minha vontade era encostar a cabeça em seu ombro, uma intimidade enorme para alguém cujo sobrenome eu acabara de aprender no comprovante. Virei o rosto e o encontrei mais perto do que esperava.

Um vendedor passou na rua anunciando ovos pelo alto-falante. A voz prometia economia para toda a família, num volume capaz de alcançar nossos parentes no interior. Joel começou a rir justamente quando eu procurava uma frase sedutora. Acabei rindo também, molhando a barra do vestido ao me inclinar. Ele ofereceu a toalha que usara para secar as mãos. A toalha era pequena, áspera e tinha o nome de uma loja de materiais estampado. Passei-a pelas pernas com uma lentidão de que me envergonhei depois, quando fiquei sozinha.

Joel se levantou antes de mim. Disse que precisava atender outra casa e carregou o material até o portão. Fui atrás, sentindo o vestido úmido bater na pele. Na saída, ele perguntou se o vídeo ainda me incomodava. Eu tinha contado o episódio por mensagem, entre a fotografia dos croquetes e o agendamento do teste. Respondi que me irritava o sorriso obediente da mulher na tela. Joel esperou, segurando o portão. Acrescentei que o sorriso era meu, que eu o tinha oferecido tantas vezes que às vezes aparecia antes da vontade.

— Vi o pedaço do arroz — disse ele. — Você olhou direto para a câmera.

— Minha grande estreia.

Joel tentou imitar a minha expressão. Fez uma cara tão ofendida que acertei o braço dele com a ficha enrolada. Ele segurou o papel, rindo, e por um instante puxou de volta. Soltei primeiro. A mão dele ficou suspensa entre nós, segurando a ficha que já tinha me entregado.

— Isso é seu — disse.

Peguei o papel. Joel passou pelo portão, e fiquei ali até Marlene perguntar se eu procurava alguma coisa na calçada. Respondi que conferia a trava. Girei-a duas vezes para dar utilidade à mentira.

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