A mesa para dois
Eustáquio encostou o cavalete na parede e permaneceu em pé. Perguntou se a conversa tinha relação com o dinheiro do buffet. Puxei uma cadeira. Ele disse que precisava mandar um áudio a Sérgio e segurou o telefone junto à boca.
— Beijei o Joel — falei.
O dedo de Eustáquio continuou sobre a tela. Por um instante, achei que tivesse gravado. Ele afastou o aparelho, olhou para mim e perguntou qual Joel.
— O da piscina. Hoje de manhã.
Meu marido olhou para a janela da cozinha, depois para o portão lateral. Pousou o telefone sobre a mesa com muito cuidado.
— Aqui?
— Aqui.
— Enquanto eu estava fora.
Concordei com a cabeça. Eustáquio se sentou e ficou passando o polegar numa mancha da mesa. Eu tinha ensaiado explicações enquanto assava o frango. Agora só conseguia acompanhar o dedo dele, indo e voltando na mesma mancha.
— Foi só o beijo?
— Foi.
Ele tornou a perguntar. Respondi outra vez. Quis saber quem tinha começado, em que hora, em qual parte da cozinha. Olhou para a bancada quando apontei. Contei das mensagens e dos domingos. A cada informação, ele procurava uma data no telefone e me mostrava a tela. Achei a cópia do orçamento na gaveta. Eustáquio afastou o papel com as costas da mão.
— Você acha que estou conferindo serviço?
Guardei a folha. Minhas mãos precisavam fazer alguma coisa e tinham escolhido o pior objeto possível. Eustáquio quis saber havia quanto tempo eu o considerava um idiota.
— Eustáquio, eu gostei de você por tantos anos.
— Gostou.
Ouvi o tempo do verbo quando ele repetiu. Comecei a falar do hospital, do chocolate que levava para meu pai. Ele apertou os olhos. Aquelas lembranças pertenciam a nós dois, e eu estava tentando usá-las para conseguir que me ouvisse com menos raiva. Parei no meio de uma frase.
— Você vai ficar com ele?
— Eu quero me separar.
— Para ficar com ele.
— Quero sair deste casamento. Sobre o Joel, eu ainda...
Eustáquio levantou tão depressa que a cadeira arrastou no piso. Foi até a pia, encheu um copo e bebeu. Abriu a torneira outra vez e ficou de costas. Eu podia ouvir a água atingindo uma panela.
— A gente podia ter conversado antes.
— Podia. Eu devia ter falado antes de fazer isso.
Ele fechou a torneira. Pedi desculpas pelo beijo. Comecei outra frase com a palavra solidão e me ouvi transformando a dor dele numa explicação sobre mim. Calei. Eustáquio pegou um pano e passou na bancada molhada, com força demais.
O telefone vibrou sobre a mesa. Sérgio mandara três opções de logotipo para Rainha do Lar. Meu marido leu as mensagens, bloqueou a tela e perguntou se Joel tinha rido dele. Respondi que o assunto entre nós era outro. Ele tornou a perguntar, mencionou a camiseta vermelha, as piadas, o almoço. Eu lembrava da minha risada junto ao portão. Disse que tinha reclamado do vídeo. Eustáquio soltou o pano dentro da pia.
— Você estava brava por causa do vídeo?
— Eu estava brava. E fiz uma coisa que machuca você. Estou tentando contar.
— Então conta direito.
Falamos até escurecer. Ele voltou várias vezes ao beijo. Eu voltei várias vezes ao desejo de me separar, cada vez com palavras mais curtas. Em certo momento, Eustáquio abriu a geladeira e perguntou pelo almoço; a pergunta saiu inteira antes de ele perceber o que fazia. Apontei o frango. Ele fechou a porta e sentou outra vez.
Quando mencionou a casa e as contas, procurei um caderno. Ele disse que eu parecia ter preparado tudo. Deixei o caderno onde estava. A reserva que eu tinha era pequena; a encomenda de Tereza seria entregue naquela semana. Eustáquio pediu que eu cancelasse. Disse que manteria o serviço. Quis saber quem me ajudaria.
— A Ilza.
Ele passou as duas mãos pelo rosto.
— A mãe dele. Você colocou a família inteira aqui dentro.
Comecei a explicar as diárias. Minha própria voz me irritou. Eustáquio acabara de ouvir sobre o beijo do filho dela na nossa cozinha, e eu lhe oferecia um acerto de trabalho. Disse que poderia preparar a encomenda na casa de Nádia. Ele pediu para ficar sozinho. Subi para o quarto de hóspedes com uma muda de roupa; só lá percebi que ainda vestia o roupão da manhã.
À noite, ele bateu duas vezes. Sérgio perguntava se poderia divulgar o endereço do encontro. Eustáquio me mostrou a tela. Os vinte participantes esperavam almoço, palestra e uma esposa que entrasse sorrindo com a travessa. Pedi que cancelasse o uso da casa. Ele segurou o telefone entre nós por mais alguns segundos, depois escreveu uma resposta curta e foi para o quarto.
Dormi pouco. De manhã, encontrei dois copos na pia, o cavalete fechado e um bilhete avisando que ele passaria alguns dias na casa do irmão. Tirei da bolsa a chave extra da loja, que levava quando cobria o almoço de um funcionário, e deixei ao lado do bilhete. Telefonei para Nádia.
Minha amiga ouviu até eu começar a repetir a história. Perguntou se eu tinha comido. Disse que estava fazendo café, embora continuasse sentada no degrau.
— Você fez uma confusão danada, Solange.
Chorei. Ela esperou, perguntou se tinha pão em casa e avisou que chegaria em vinte minutos. Pedi que trouxesse manteiga. Foi o primeiro pedido daquele dia que consegui terminar sem perder a voz.