A senhora do buffet
Ilza apareceu no sábado carregando um caderno com folhas protegidas por plástico. Tinha sessenta e sete anos, unhas curtas e um par de óculos preso por uma corrente. Pediu para conhecer a cozinha antes de aceitar café. Abriu o forno, verificou o tamanho das formas, levantou a tampa da caixa térmica e perguntou a que horas seria servido o almoço. Gostei dela com uma rapidez que exigiu cuidado quando passamos à negociação.
Acertamos diária, transporte e horário de término. Ilza acrescentou que o trabalho começava na preparação, ainda na véspera. Anotei duas diárias, reajustei o orçamento e mandei a proposta a Tereza. A resposta chegou vinte minutos depois, acompanhada do sinal. Eu segurei o telefone com as duas mãos, lendo meu nome acima do valor recebido.
Eustáquio encontrou as duas à mesa. Ilza se apresentou como cozinheira, e ele levou algum tempo para descobrir a relação com Joel. Quando conseguiu, contou a piada sobre dividir o frete que o próprio Joel fizera no jardim. Ilza deu um sorriso e pediu para eu mostrar onde guardava as facas. Eustáquio continuou perto da geladeira, esperando uma oportunidade de entrar na conversa.
— A Solange sempre fez essas coisas por prazer — disse.
— Facilita bastante — respondeu Ilza. — Eu gosto do meu serviço também.
Meu marido perguntou se precisávamos comprar muita coisa. Mostrei a planilha. Ele examinou o total e ofereceu pagar a primeira compra. Durante um instante, senti uma gratidão antiga, pronta para aceitar a mão antes de ler o contrato invisível preso aos dedos. Então ele sugeriu que o buffet levasse o nome da loja. Poderíamos usar os encontros dos comerciantes para divulgar as duas atividades. Já tinha prometido um almoço para o próximo mês.
— O orçamento desse almoço passa por mim — respondi.
Ele olhou para Ilza, constrangido pela testemunha. Eu também me constrangi, por razões diferentes. A vontade de retirar a frase quase ganhou da vontade de mantê-la. Ilza fechou o caderno, informou a hora em que voltaria e me pediu o endereço do aniversário. Ao sair, levou a atenção de Eustáquio com ela até o portão.
Ficamos sozinhos entre as tigelas. Meu marido perguntou desde quando eu precisava formalizar tudo. Lembrou o período em que pagara as contas durante a doença do meu pai. Eu lembrava perfeitamente. Também lembrava as noites no hospital, os lençóis trocados, as conversas com médicos e o jeito como ele chegava à visita trazendo um chocolate de que meu pai gostava. A lembrança me fez sentar.
— Você me ajudou muito — falei. — Eu preciso trabalhar de novo.
Eustáquio puxou a cadeira diante de mim. Por alguns minutos conversamos numa voz que reconheci dos primeiros anos. Perguntou quanto eu esperava ganhar, se estava preocupada com dinheiro, se sentia falta da cozinha alugada. Respondi às três perguntas. Ele escutou até o telefone vibrar; leu a tela, soltou um suspiro e anunciou que a eleição da associação se aproximava. Precisava de tranquilidade em casa.
Eu empurrei a lista de compras para o centro da mesa e perguntei como caberiam ali as minhas semanas. Ele falou em adaptar horários. Quando pedi um exemplo, sugeriu que eu preparasse as encomendas enquanto estivesse na loja. O café da manhã, o jantar, a lavanderia e os domingos permaneceriam encaixados no resto. A solução vinha pronta e tinha o meu corpo como espaço disponível.
Naquela noite, fomos à pizzaria em que costumávamos comemorar aniversários. Eustáquio pediu o vinho de que eu gostava e retirou as azeitonas da minha fatia antes de eu pegar o garfo. Fazia aquilo desde uma viagem à praia, no começo do casamento, quando eu inventara uma alergia para escapar da salada de azeitonas da mãe dele sem fazer desfeita. Precisara sustentar a história durante quatro dias.
— Você chegou a mostrar as costas para ela — lembrou.
— Por causa de uma picada de mosquito.
Ele ria de verdade. Encostei o joelho no dele e deixei ficar. Eustáquio contou que a mãe guardara por anos um vidrinho de antialérgico para minhas visitas. Lembrei do armário de remédios, da toalha dobrada que ela punha na nossa cama, de nós dois chegando de ônibus com uma bolsa para o fim de semana. Comi devagar. Era bom estar ali com ele, e isso complicava tudo.
Quando veio a conta, meu marido abriu a carteira e perguntou:
— Melhorou?
— O quê?
— Essa agitação. Você estava precisando sair.
Olhei a azeitona que ele acabara de tirar da minha fatia. Disse que tinha gostado do jantar. Ele pegou minha mão, satisfeito, e começou a sugerir um passeio para o sábado do aniversário de dona Zulmira. Lembrei a data da encomenda. Eustáquio largou meus dedos para conferir o telefone.
No carro, expliquei outra vez que aceitara a encomenda. Meu marido dirigiu o restante do caminho ouvindo um programa sobre homens desvalorizados. Em casa, abri a porta, recolhi o casaco dele que caíra do cabide e, depois de alguns segundos, devolvi o casaco à cadeira mais próxima. Subi com a pasta do aniversário debaixo do braço.