O nome no orçamento
A conversa da terça começou pelo calendário. Eustáquio ficaria na casa do irmão durante aquele mês, eu permaneceria na nossa até encontrarmos uma solução. Levamos contas, documentos e uma disposição pequena, porém suficiente, para ouvir alguém de fora. Saímos com providências distribuídas e outra reunião marcada. No estacionamento, meu marido perguntou se eu pretendia contar a todo mundo o motivo da separação. Respondi que falaria com as pessoas necessárias, preservando o que ainda podíamos preservar.
Ele me olhou por um tempo comprido. Sérgio propusera um episódio sobre ingratidão feminina. Eustáquio participaria com a voz alterada, preservando a identidade. Perguntei o que apareceria na imagem.
— Minha mão. Uma sombra. Ele sabe fazer.
Meu marido usava havia quinze anos um anel com as iniciais da loja. Olhei para o anel, e ele escondeu a mão no bolso.
— Eu tiraria.
Perguntei se Sérgio mencionaria a piscina. Eustáquio abriu a boca, fechou e foi procurar uma mensagem. Ali estava a proposta: a história de um comerciante traído, um cenário doméstico reconhecível e, ao final, um convite para comprar a mentoria.
— Ele chamou você para conversar ou para vender inscrição?
— Você queria que eu conversasse com quem?
A pergunta me calou. Eustáquio guardou o telefone e abriu o carro. Eu lhe devia uma conversa difícil; Sérgio lhe oferecia uma plateia pronta para concordar. Meu marido disse que ainda estava pensando e entrou.
Naquela semana, Joel me convidou para um almoço com os amigos da pelada. A comida seria preparada para arrecadar dinheiro para um torneio do bairro. Sentei perto dele e escutei uma discussão sobre o preço do aluguel do campo. Joel defendia uma taxa menor para os times de adolescentes; um amigo queria dividir o custo igualmente. A conversa tinha números, nomes de ruas e gente que precisaria juntar moedas durante o mês. Pela primeira vez, ouvi Joel falar de política por mais de cinco minutos. Ele conhecia a idade do goleiro, o horário do ônibus e o nome da mulher que lavava os uniformes.
Gostei de ouvi-lo. Também percebi quando, empolgado, começou a contar que eu poderia fazer os salgados do encerramento. Tinha comido meus croquetes, explicou, e todo mundo ia adorar. Um dos amigos já calculava a arrecadação quando pedi a palavra.
— Manda as quantidades que eu faço um orçamento.
Joel virou o rosto.
— É para colaborar com os meninos.
— Quantos croquetes?
O amigo das contas sugeriu trezentos. Outro achou melhor quinhentos. Peguei o lápis que estava sobre a mesa e entreguei a Joel.
— Anota os nomes de quem vai modelar.
Ele começou pelo meu. Esperei. Acrescentou o dele, devagar. O dono do bar explicou que já cedia as mesas; o homem do carro de som estaria ocupado pela manhã. A distribuição igualitária do trabalho parou em duas linhas de caderno.
— Quinhentos eu faço quando recebo encomenda — falei. — Posso ensinar vocês por uma manhã. Escolho o dia, vocês compram os ingredientes e terminam o serviço.
O rapaz das contas perguntou se o curso era difícil. Respondi que o problema costumava estar na quantidade de alunos que sumia depois do café. Joel baixou a cabeça para esconder o sorriso e escreveu o próprio nome na parte da limpeza.
Na volta, tentou me convencer de que só queria elogiar meus croquetes. Deixei que explicasse até parar no sinal. Então perguntei se podia oferecer uma tarde dele para limpar de graça as piscinas das clientes. Joel abriu a boca para responder e ficou olhando o semáforo. O motorista de trás buzinou.
— Tá. Entendi — disse, engatando a marcha.
Na semana do torneio, chegou para a aula com outro voluntário e farinha suficiente para abrir uma padaria. A estrela da camiseta ficou branca antes da metade da manhã. Pediu minha avaliação do primeiro croquete: parecia uma pequena mandioca.
— Está grande?
— O menino come um e perde o segundo tempo.
Joel cortou a massa ao meio, tornou a enrolar e me mostrou outra vez. Inclinei a cabeça para examinar; ele me deu um beijo rápido no nariz, deixando uma marca de farinha. O outro voluntário pigarreou e pediu que alguém conferisse os croquetes dele. Trabalhamos os três até o horário combinado. Os rapazes terminaram depois que saí. Venderam tudo.
Com Eustáquio, a retirada do episódio exigiu outra discussão. Ele dizia ter direito de contar sua vida, o que era verdade, e eu dizia ter direito de recusar imagens, nome e intimidade usados como material de venda. Terminamos a ligação exaustos. Dois dias depois, ele informou que deixara a gravação de lado. Sérgio encontrara outro participante para a série. A facilidade da substituição pareceu atingir meu marido mais profundamente do que os meus argumentos.
No fim do mês, Marlene tocou a campainha com uma pasta da associação de comerciantes. Além das plantas do jardim, ela cuidava de uma floricultura que abastecia metade dos velórios do bairro e boa parte dos casamentos. Era tesoureira da associação e tinha assumido a organização do jantar de eleição. Precisava contratar comida para quarenta pessoas, com duas opções vegetarianas e serviço simples. Trouxera a descrição do salão, o horário e o limite de gastos.
— Eustáquio sabe que você veio?
— Sabe que estou cotando. Pedi três orçamentos.
Marlene esperou minha reação. Eu olhei a pasta e imaginei o salão cheio de pessoas que tinham visto meu sorriso no vídeo. Pensei em recusar. Depois pedi as medidas da cozinha. Ela mostrou fotografias e informou que a associação pagaria o serviço, independentemente do resultado da eleição. O encontro pertencia aos associados. Cada candidato teria o mesmo tempo de fala.
Montei o orçamento naquela noite, incluindo Ilza, uma ajudante, transporte e aluguel de louça. Usei meu nome completo, Solange Batista, acima da palavra cozinha. A proposta passou por uma redução: trocamos a entrada mais trabalhosa por pães e pasta de berinjela, mantendo o valor das diárias. Marlene confirmou a contratação na quarta e pagou o sinal na sexta.
Eustáquio telefonou no sábado. Perguntou se eu tinha aceitado por provocação. Expliquei as três propostas, o menu e o acerto com Marlene. Ele ficou calado e depois quis saber se Joel serviria as mesas. Disse que trabalharia com duas mulheres e um motorista contratado, que minha vida pessoal seguiria fora do cardápio. Eustáquio comentou que as pessoas falariam de qualquer jeito.
— Vão comer primeiro — respondi.
Eu queria acreditar na leveza da minha frase. Ao desligar, sentei na cama, contei as respirações e esperei o estômago assentar. Ser paga para voltar àquele círculo me assustava. Também me animava o suficiente para que eu levantasse e começasse a separar as travessas.