O preço do domingo A Esposa Recatada e do Lar do Bolsonarista Redpill e o Piscineiro Petista · Capítulo 2 de 12
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O preço do domingo

No sábado, Eustáquio foi comprar carne e voltou com um microfone. A carne apareceu depois, trazida pelo açougue, junto de uma cobrança que ele me pediu para conferir. O microfone tinha uma caixa revestida de espuma, um braço articulado e o poder de fazer meu marido dizer teste, teste, teste durante o preparo de oitenta croquetes. Soltei a colher quando ele anunciou que a reunião seria transmitida pela internet.

— Para quantas pessoas?

— Nosso grupo tem cento e doze.

— Estou perguntando quantas vêm comer.

Ele consultou as mensagens. O número subira para vinte e quatro. Duas esposas trariam sobremesa, o que, segundo sua contabilidade, resolvia o almoço. Entreguei a ele uma faca, uma cebola e a tábua menor. Eustáquio pousou tudo perto da pia, explicando que precisava preparar a fala. A cebola permaneceu inteira até eu terminar de modelar os croquetes.

À tarde, Nádia passou para buscar uma travessa emprestada. Éramos amigas desde a escola, e ela possuía um salão de beleza com duas cadeiras, uma funcionária e uma coleção de histórias que exigiam o barulho do secador para circular. Examinou o microfone na mesa da varanda e perguntou se Eustáquio ia cantar. Dei a notícia da liderança masculina. Ela abriu a geladeira à procura de água, bebeu um copo inteiro e pediu mais detalhes sobre a divisão das despesas do evento.

Mostrei a lista de compras. Nádia puxou uma cadeira e escreveu ao lado dos ingredientes o tempo de preparo, a louça, o gás e a limpeza. Sua letra crescia conforme a conta avançava. Ao final, o almoço tinha um valor que me pareceu ofensivo por motivos bastante pessoais: eu cobrava menos do que aquilo quando mantinha minha cozinha.

— Você pode voltar com as encomendas — disse.

— Preciso recuperar os clientes.

— Começa com um. Tenho uma noiva procurando almoço para vinte pessoas no mês que vem.

Deixou o telefone sobre a bancada e foi ajudar a picar a cebola. Conversamos sobre a noiva, o menu e os pratos que eu ainda guardava em caixas. Quando Joel tocou a campainha, Nádia já tinha calculado quanto custaria transportar comida quente até o salão de festas. Atendi com uma assadeira na mão. Ele olhou a quantidade de coisas espalhadas na cozinha e perguntou por onde passava com os produtos. Indiquei o corredor lateral, afastando a porta com o quadril.

O sol estava alto. Joel retirou a camiseta molhada de suor, vestiu uma limpa que trouxera na mochila e me pegou olhando durante o intervalo. Voltei a atenção para a assadeira com tanta aplicação que ele perguntou se estava quente. Estava fria. Eu acabara de tirá-la do armário.

Nádia apareceu na janela para perguntar o nome do piscineiro. Respondi apontando para ele, pois Joel ainda estava a três metros de distância e tinha ouvidos em perfeito estado. Minha amiga se apresentou com um sorriso profissional, o mesmo que usava antes de convencer uma cliente a cortar quatro dedos de cabelo. Em seguida perguntou sobre o serviço, a cooperativa e a possibilidade de atender o pequeno tanque da casa da mãe dela.

Joel explicou que trabalhava por conta própria e comprava materiais com outros quatro profissionais. A camiseta era do grupo de compras. A estrela viera antes do grupo, acrescentou, notando a curiosidade de Nádia. Meu marido escolheu aquele instante para surgir com uma sacola de pão de alho.

— Cooperativa? Pensei que vocês gostassem de dividir tudo.

— O frete fica bom quando a gente divide — respondeu Joel. — A conta desta piscina vem separada.

Eustáquio riu, batendo no ombro dele com uma intimidade recém-fabricada. Eu observei a mão do meu marido pousada no braço do homem que contratáramos e reconheci o início de uma negociação. Depois da terceira piada sobre trabalho e política, veio o pedido de desconto. Joel manteve o preço, descreveu as etapas e ofereceu adiar o serviço. A festa resolveu a questão em favor do orçamento.

Antes de voltar à varanda, Eustáquio pediu uma última coisa: uma camiseta discreta para domingo. A vermelha podia aparecer ao fundo da transmissão.

— Tenho uma cinza — disse Joel. — Está escrito Joel Piscinas, telefone e tudo.

— Melhor lisa. A gente vai ter patrocinadores.

Joel apoiou o pé no degrau e apertou o cadarço.

— Camiseta lisa eu uso de folga.

Meu marido ficou esperando o resto da frase. Nádia virou de costas para abrir uma gaveta, com os ombros pulando. Eu perguntei se algum patrocinador pagaria a limpeza da piscina. Eustáquio recomendou que tratássemos as coisas com bom humor e foi experimentar o microfone. Joel voltou ao serviço com a camisa vermelha. A cinza, explicou baixo quando passei, estava secando na casa da mãe.

No domingo, desci às seis e quarenta. Joel já estava diante do portão, esperando o horário combinado. Trazia uma garrafa de café que a mãe preparara e dois pães embrulhados num guardanapo. Aposentada da cozinha de uma escola, Ilza conservava o hábito de alimentar quem saísse de casa antes das sete. Joel ofereceu um pão; aceitei metade. Comemos na escada da área de serviço enquanto a cafeteira de dentro ainda esquentava.

Ele perguntou sobre as assadeiras que vira na véspera. Contei da cozinha, dos almoços, do mês em que chegara a recusar encomendas para conseguir dormir. As palavras vieram depressa. Eu me lembrava da bancada de aço, do peso das caixas térmicas, de uma cliente que chorara com meu arroz de pato porque o marido português preparava um parecido. Joel ouviu até o fim, enrolando o guardanapo vazio entre os dedos.

— Você ainda faz esse arroz?

— Faço.

— Meu pai fazia um que dava para cortar em quadrados.

— Empapava?

— Ele dizia que era a receita da família. Servia com faca.

Ri de boca cheia e precisei cobrir o rosto. Joel esperou, satisfeito, depois pediu que eu lhe ensinasse pelo menos a parte de deixar os grãos separados. Contou que, depois da separação, passara três meses alternando omelete e comida da mãe. Aprendera a preparar quatro pratos; anunciava os quatro com a solenidade de um restaurante de hotel. O arroz ainda saía em bloco quando ele atendia o telefone durante o preparo.

— Deixa tocando.

— Pode ser cliente.

— Então come o bloco.

Ele deu uma gargalhada curta e apontou para mim com o pedaço de pão. Gostei de ter provocado aquilo. Passei boa parte dos últimos anos rindo de histórias que Eustáquio já começava me perguntando se eu lembrava. Joel ainda precisava me contar as dele.

Ao recolher o guardanapo, Joel percebeu que pousara a garrafa em cima da nota de compra da carne. Levantou o fundo molhado, procurou um pano e pediu desculpas, preocupado com a tinta que começava a borrar. Dei a ele o pano e fiquei com o pão na mão. Pela janela, o microfone de Eustáquio aparecia no meio da mesa, apontado para uma cadeira vazia.

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