Extras aos domingos A Esposa Recatada e do Lar do Bolsonarista Redpill e o Piscineiro Petista · Capítulo 6 de 12
Obra Menu

Extras aos domingos

Duas semanas depois do almoço dos comerciantes, o segundo domingo de Joel começou com chuva. Ele telefonou para avisar que o serviço externo levaria mais tempo e perguntou se eu preferia remarcar. Eu já tinha colocado dois copos na mesa da área de serviço. Disse que manteríamos o horário. Eustáquio saíra cedo para um encontro de colecionadores de automóveis com Sérgio; voltaria depois do almoço, trazendo, segundo a mensagem, uma surpresa boa para nós.

Joel entrou molhado, carregando uma peça embrulhada. Ofereci uma toalha. Ele enxugou o rosto, protegeu os sapatos na entrada e foi direto à bomba. Fiquei sob o beiral, escutando a água bater na cobertura de plástico. A proximidade da cozinha, onde tínhamos almoçado, dava a tudo uma intimidade excessiva. Eu sabia a marca de café da mãe dele. Sabia que sua ex-mulher se chamava Dalva, que tinham se separado havia quatro anos e que conservavam uma conversa cordial sobre uma cadela que envelhecera com os dois. Joel sabia que eu dormia do lado da janela e que o aniversário do meu pai caía em novembro. Tínhamos trocado esses detalhes entre fotografias de peças e mensagens sobre cardápios.

Quando voltou da casa de máquinas, eu estava cortando um bolo de laranja. Joel sentou, agradeceu o café e ficou olhando a fatia. Perguntou se Eustáquio sabia das nossas conversas. Eu disse que conhecia os assuntos do serviço. A resposta ficou sobre a mesa, muito menor do que a pergunta.

— Estou vindo trabalhar na casa de vocês — falou Joel.

— Eu sei.

— Gosto de conversar com você.

— Eu também gosto. E escolhi domingo porque queria você aqui.

O barulho da chuva ocupou o intervalo. Joel passou a mão sobre a nuca. Eu senti calor no rosto, uma mistura de vergonha e alívio que me deu vontade de rir. Aos trinta e nove anos, acabara de declarar a um homem que usava manutenção de piscina para fabricar encontros. A sinceridade tinha chegado vestida com meu pior roupão, aquele de bolso torto que eu usava desde o inverno.

Ele olhou o relógio, depois a porta. Levantou para levar o prato à pia, e eu me levantei junto. Esbarramos no corredor entre a mesa e a bancada. A colher caiu. Nós dois nos abaixamos para pegar; bati a testa no ombro dele e soltei uma palavra que minha mãe atribuía exclusivamente aos caminhoneiros.

Joel recolheu a colher. Eu ria, com a mão na testa, mais nervosa do que divertida. Ele perguntou se tinha machucado. Levantei o rosto. A risada acabou enquanto ele ainda esperava a resposta.

Encostei a mão na barba dele e o puxei pela camiseta. Joel veio devagar, segurou minha cintura e esperou perto o bastante para eu sentir sua respiração. Fui eu que fechei a distância. O beijo teve gosto de café, uma pausa curta em que abri os olhos e outro beijo, mais demorado. A bancada me apertava as costas. Segurei o rosto dele com as duas mãos e esqueci a colher, a fatia de bolo, o frango esperando tempero. Quando me afastei, Joel ainda estava com a mão na minha cintura.

Minha aliança ficou à vista quando afastei a mão do rosto dele. Olhei para o aro, ainda com os dedos perto da sua barba. Joel acompanhou meu olhar e deu um passo para trás.

Puxei o roupão junto ao peito. Queria beijá-lo outra vez. Também queria ouvir a chave de Eustáquio no portão e descobrir que ainda dava tempo de estar apenas cortando bolo. Joel pegou o prato, pousou na pia e perguntou onde eu guardava o detergente. Estava diante dele.

— Joel.

Ele deixou o prato.

— Preciso falar com Eustáquio.

— Hoje?

Assenti, embora a palavra tivesse apertado meu estômago. Joel passou a mão pelo cabelo úmido.

— Eu volto quinta para conferir a peça. Depois arrumo alguém para cuidar daqui.

— Está arrependido?

Ele me olhou. A pergunta me pareceu injusta assim que a ouvi, e fiquei esperando mesmo assim.

— Do beijo? Estou querendo repetir. Olha a situação.

Baixei a cabeça. Ainda havia uma mesa posta para dois, dentro da casa onde eu era casada. Transferi o valor do domingo, errei a senha e precisei tentar outra vez. Joel guardou o material. Na porta, tocou meu ombro e pediu que eu avisasse quando pudesse conversar. Fiquei com vontade de abraçá-lo. Abri o portão.

Passei o resto da manhã preparando o frango para o almoço, embora a mensagem de Eustáquio dissesse que comeria fora. Percebi o automatismo quando já tinha temperado quatro pedaços. Guardei dois, assei os outros e comi um. A cadeira diante de mim estava vazia. Revi a cena do beijo e o rosto do meu marido na pizzaria. Quis que uma das lembranças apagasse a outra. As duas permaneceram. Pus a sobra do almoço na geladeira.

Eustáquio chegou às três com um cavalete. Sérgio conseguira reservar nossa casa para o primeiro encontro pago da consultoria. Vinte participantes, no sábado seguinte. O pacote incluiria almoço, palestra e gravação de depoimentos. Meu marido abriu o cavalete na sala, mostrando onde ficaria a marca dos patrocinadores. Tinha conseguido uma cota para a loja e outra para o meu futuro buffet. O nome que escolhera era Rainha do Lar.

Pedi que fechasse o cavalete. Ele continuou explicando a oportunidade, as inscrições e o movimento que aquilo traria. Segurei a estrutura pelas laterais para impedir que avançasse até a mesa. Eustáquio parou de falar, surpreso com a minha mão no objeto.

— Senta comigo — disse. — A gente precisa conversar sobre o casamento.

1/1
Menu

Fazer anotação