Um domingo inteiro
Em fevereiro, a placa de venda saiu do portão. A casa tinha encontrado compradores, e Eustáquio e eu chegáramos a um acordo depois de várias reuniões, contas refeitas e uma discussão desproporcional sobre a mesa da varanda. Ele ficou com a mesa. Eu fiquei com as formas, as caixas térmicas e a possibilidade de escolher onde elas caberiam dali em diante. A parte do dinheiro que me coube permaneceu quase toda guardada enquanto eu avaliava o negócio.
Aluguei um apartamento de dois quartos e passei a usar uma cozinha compartilhada em dias de encomenda. O aluguel por turno me obrigava a planejar com antecedência; também me poupava de dormir sentindo cheiro de cebola no travesseiro. Ilza trabalhava comigo quando queria, Sueli aceitava as festas maiores e Nádia cobrava em dinheiro quando fazia a divulgação. Nossa amizade melhorou com a definição dos preços.
Nos primeiros três meses de trabalho, entreguei cinco encomendas e passei vergonha numa festa em que calculei pouco gelo. Nádia trouxe mais dois sacos e conservou o direito de me chamar de rainha do descongelamento. Comprei a caixa térmica nova, adiei a geladeira e aprendi a olhar a reserva antes de aceitar sugestões de expansão. Ainda havia manhãs em que eu abria a agenda vazia e sentia saudade de um salário que jamais tivera.
Joel continuava morando na casa da frente. Ilza comprou a máquina de costura e usou o filho para exibir o primeiro conserto: fez que ele passasse diante de mim três vezes, mostrando a barra da calça. Ele obedecia com a expressão de um homem que acabara de descobrir o preço de uma costura gratuita.
Gostava de dormir com Joel. Gostava menos da televisão que ele ligava cedo e de encontrar duas meias em lugares onde só deveria haver uma. Ele reclamava dos filmes que eu escolhia, especialmente quando terminavam com gente olhando pela janela. Certa noite chegou atrasado para jantar e encontrou a porção dele na geladeira. Comeu de pé, emburrado. Eu estava na cama quando veio perguntar se ainda dava tempo de ver metade do filme. Levantei o lençol para ele entrar; deixei o prato por conta dele.
Na semana seguinte, avisou o atraso antes de eu começar a cozinhar. Compramos lanche. Também tivemos noites ótimas com a louça suja na pia, um filme abandonado aos vinte minutos e a música do telefone dele interrompendo a melhor parte. Eu já sabia cantar a letra inteira.
Eustáquio alugou um apartamento perto da loja. Certa tarde, telefonou para perguntar onde comprar a borracha da panela de pressão. Indiquei a medida e o endereço de uma loja de utilidades. Ele agradeceu e comentou que conseguira fazer feijão, embora em quantidade suficiente para alimentar metade do prédio. Rimos por alguns segundos. Desliguei com saudade de uma parte da nossa vida e alívio pela conversa ter encontrado um fim próprio.
O vídeo da esposa recatada ainda aparecia de vez em quando. Uma cliente o mencionou antes de contratar um almoço e disse que admirava minha coragem. Eu agradeci, depois expliquei o cardápio. Conhecia gente que me considerava corajosa e gente que me considerava egoísta, e algumas pessoas conseguiam sustentar as duas opiniões. Aos poucos, o trabalho foi produzindo outras fotografias: uma travessa bem montada, Ilza ajustando a chama, Sueli equilibrando três pratos, meu nome num recibo.
Num sábado à noite, Joel apareceu no apartamento com um ramo de manjericão dentro de um copo. Comprara na feira e achara que eu gostaria. Coloquei perto da janela, onde recebia luz durante a manhã. Jantamos comida que eu trouxera da cozinha compartilhada, conversamos até tarde e fomos dormir quando a rua já tinha sossegado. Pela primeira vez em semanas, meu telefone estava programado para acordar apenas se alguém da família ligasse.
No domingo, abri os olhos às nove e vinte. Joel dormia atravessado na metade dele, com um pé para fora do lençol. Fiquei alguns minutos olhando a claridade no teto, pensando numa compra de legumes que poderia fazer na segunda. O apartamento tinha uma varanda pequena, duas plantas e uma pilha de roupa que aguardaria a tarde. Levantei para beber água e encontrei uma mensagem de uma antiga conhecida perguntando se eu faria um almoço urgente para oito pessoas.
Respondi com os dias disponíveis. Depois escrevi a Nádia, que tinha me convidado para passear numa feira de antiguidades. Confirmamos às onze. Quando voltei ao quarto, Joel estava sentado na cama, procurando o telefone sob o travesseiro. Perguntou o que faríamos. Contei do passeio, ofereci companhia e expliquei que voltaria no fim da tarde. Ele pensou um pouco, lembrou de uma partida marcada e decidiu encontrar os amigos.
Fomos tomar café numa padaria perto do apartamento. Joel pediu pão na chapa; eu escolhi um sanduíche quente e fiquei olhando as pessoas na calçada. À nossa frente, um casal discutia o caminho para uma festa, usando o mapa do celular e duas certezas incompatíveis. Joel acompanhou a discussão por um instante e encostou o joelho no meu. Eu ri, empurrei para ele metade do sanduíche e pedi mais café.
O telefone dele tocou. Era um cliente perguntando sobre um serviço extra naquele domingo. Joel consultou o relógio, fez duas perguntas sobre a urgência e combinou a manhã seguinte. Ao guardar o aparelho, perguntou se eu estava satisfeita com o fim da minha carreira de fiscal de piscina. Expliquei que ainda esperava a moeda que ele prometera tirar do fundo.
Ele abriu a carteira. Atrás de um recibo de posto, dentro de um compartimento pequeno, estava a moeda escurecida. Joel a recolhera no domingo do reparo, antes de entrar na cozinha. Pousou-a sobre a mesa, um pouco encabulado por ter esquecido. Peguei a moeda, esfreguei a borda no guardanapo e guardei na bolsa. A conhecida do almoço mandou outra mensagem, escolhendo uma data para o mês seguinte. Respondi que enviaria o orçamento na segunda e virei o telefone para baixo. O garçom vinha com o café; afastei os pratos para abrir espaço.