A esposa da fotografia
Meu marido fez questão de apresentar a piscina antes do almoço. Recebia cada convidado na varanda e conduzia a pessoa até a borda, orgulhoso da água que já recuperava o azul. Joel terminava uma conferência no equipamento. Para evitar acidentes, colocara duas cadeiras atravessadas junto ao acesso mais estreito. Eustáquio afastou uma delas para melhorar o enquadramento; Joel repôs a cadeira, com a tranquilidade de quem precisava repetir aquela operação em várias casas.
Enquanto eu passava com uma bandeja, ouvi meu marido dizer que o serviço estava praticamente concluído. Ele tinha desenvolvido um talento especial para abreviar o trabalho dos outros na frente de uma plateia. Joel me chamou de lado, explicou o horário de liberação e pediu que eu mantivesse a barreira até lá. A ficha ficou presa à maçaneta da porta da varanda. Assinei o recebimento e mandei a transferência pelo telefone, usando a conta reservada às despesas da casa.
— Obrigado, Solange.
Eu devia ter respondido alguma coisa simples. Em vez disso, perguntei se ele queria um croquete. Joel aceitou dois, apoiou o pratinho no capô da caminhonete e comeu olhando para a rua. A cena me pareceu um desperdício. Havia vinte e quatro pessoas prestes a ocupar nossas cadeiras e aquele homem, responsável pela parte mais fotogênica do encontro, precisava almoçar ao lado de um para-brisa. Levei um copo de suco e fiquei alguns minutos no portão.
Joel contou que almoçaria com a mãe e depois buscaria uma bomba usada para consertar. Pretendia ampliar o serviço e comprar uma caminhonete com caçamba menos curta. A atual carregava as escadas em diagonal, obrigando-o a fazer uma coreografia para fechar a tampa. Perguntei pelo preço da outra. Ele disse o valor exato e riu da minha expressão.
— Bonita, né? Eu também achei quando vi a prestação.
Eustáquio me chamou da varanda. Pedi que Joel aguardasse e voltei à cozinha para encher um pote com croquetes. Escrevi Ilza numa etiqueta, apesar de conhecer sua mãe apenas pela garrafa de café. Ao entregar o pote, encostei meus dedos nos dele. O contato durou o tempo de ajustar a tampa. Fiquei observando a caminhonete sair até ouvir meu nome pela segunda vez.
Na varanda, o microfone já funcionava. Eustáquio me puxou para junto da cadeira dele e pousou a mão na minha cintura. Um convidado, Sérgio, segurava o telefone responsável pela transmissão. Outro rapaz cuidava de uma luminária que deixava o frango assado com aparência de material hospitalar.
— Essa aqui é a prova de que ainda existe mulher de verdade — anunciou meu marido. — Recatada, do lar, cuida de tudo. Solange sabe que a família precisa de direção.
Eu tinha molho na manga, um grampo espetando a nuca e vontade de sentar desde as oito. Sorri por reflexo. Na tela do telefone, o enquadramento cortava o avental sujo e a bandeja que me pesava na mão. Eustáquio apertou minha cintura, esperando alguma fala sobre a sorte que eu tinha. Perguntei quem desejava arroz.
Sérgio apontou para a cadeira vazia ao lado do meu marido. Eu deveria sentar ali, de perfil, com a piscina ao fundo. Pousei a bandeja e puxei a cadeira. Eustáquio aproveitou o movimento para começar uma fala sobre o homem que garante a segurança da família. Atrás dele, uma criança arrastou a barreira e correu para a água. Marlene levantou de um salto, agarrou a menina pela cintura e a devolveu à mãe. Joel tinha deixado o horário de liberação escrito em letras grandes.
— Essa parte depois você corta — pediu meu marido.
— Está ao vivo — respondeu Sérgio, ainda sorrindo para a tela.
Eustáquio tomou a cadeira das minhas mãos e a levou para fechar o acesso. Fiquei em pé outra vez. A mãe da menina me perguntou se a gravação demoraria: o marido dela era diabético e estava esperando o almoço. Entreguei-lhe um prato. O discurso sobre proteção familiar prosseguiu ao som dos talheres.
A gravação continuou durante a refeição. Sérgio possuía uma consultoria de produtividade masculina e falava em transformar a rotina de Eustáquio num exemplo. Propôs encontros mensais na nossa casa, com participantes pagantes e almoço incluído. Meu marido gostou tanto que começou a escolher datas enquanto eu recolhia pratos.
— O almoço precisa de orçamento próprio — falei.
Sérgio abaixou o garfo. Eustáquio deu uma risada destinada a traduzir minha frase em brincadeira. Repeti o pedido, agora mencionando compra, preparo e equipe. A palavra equipe pareceu afetá-lo mais do que o preço. Ele me lembrou que os encontros aconteceriam na nossa casa.
— Justamente. Eu moro aqui também.
Marlene, convidada por conhecer metade dos comerciantes, empurrou a cadeira e começou a juntar os copos. Duas mulheres vieram ajudá-la. Com três viagens, levamos tudo à cozinha. Uma delas, Tereza, perguntou se eu aceitava encomendas. Precisava de um almoço de aniversário para a mãe. Olhei para o pote vazio que sobrara dos croquetes e disse que aceitaria conversar na segunda-feira.
À noite, encontrei o vídeo no grupo da associação. O trecho escolhido era o da apresentação. Sérgio acrescentara música e uma legenda sobre a felicidade de cada pessoa ocupar seu lugar. Minha parte terminava antes da pergunta sobre o orçamento. Na cozinha, Eustáquio rasgava o saco do lixo e reclamava que o material era fino demais.
Pedi a retirada do vídeo. Ele falou em alcance, visibilidade e boa intenção. Expliquei que aquele rosto era meu e que eu escolheria onde apareceria. Depois de alguns minutos de discussão, Eustáquio escreveu a Sérgio. O vídeo saiu do perfil da consultoria, embora cópias já tivessem passado por outros telefones. Subi para o quarto com o avental no braço. Antes de dormir, respondi à mensagem da noiva indicada por Nádia e reservei a terça-feira para montar o orçamento.
Na segunda, Joel mandou uma fotografia do pote lavado sobre um pano florido. A mensagem de Ilza dizia que o croquete merecia uma conversa. Eu estava com a calculadora aberta quando respondi. Pela primeira vez em muito tempo, os números da minha cozinha diziam respeito a uma coisa que eu escolhera fazer.