Na mesa da padaria
Joel chegou com uma camisa azul e sapatos que eu ainda desconhecia. Levantei para cumprimentá-lo. Ele virou o rosto para um beijo na face; eu virei para o mesmo lado. Quase acertamos a boca, recuamos juntos e terminamos apertando os braços um do outro. Sentei com a bolsa no colo. Ele puxou a cadeira, tornou a empurrá-la para dar passagem a uma garçonete e derrubou o porta-guardanapos.
— Na piscina era mais fácil — falei.
— Tinha o que fazer com as mãos.
Pus a bolsa no chão. Joel recolheu os guardanapos. Estávamos tão aplicados em parecer um casal comum que a mulher da mesa ao lado parou de mexer o café para nos observar.
Pedimos café e pão na chapa. Eu contei do aniversário, da convidada curiosa e da conta que finalmente fechara. Joel escutou, mas voltava os olhos para a rua. Perguntei o que acontecera. Ele tirou o celular do bolso e mostrou uma mensagem de Eustáquio, enviada na segunda: o serviço da piscina terminava ali; qualquer acesso futuro à casa dependeria de novo acerto. Havia também duas ofensas. Joel respondera com o relatório dos reparos concluídos e o contato do colega que poderia assumir a manutenção.
— Eu precisava saber — falei.
— Queria falar pessoalmente.
Perguntei se havia algum valor pendente. A última peça já estava paga; a visita de quinta fora cancelada antes do serviço. Joel fechou a conversa e guardou o telefone. Disse que Eustáquio tinha motivo para estar magoado, e que ele próprio devia ter encerrado a prestação antes do beijo. Eu concordei. Ficamos olhando o café até o garçom colocar os pães sobre a mesa.
Contei que precisaria decidir onde morar. Joel propôs a casa dele com uma rapidez que me fez largar o pão. Havia dois quartos, a mãe ficava nos fundos e minha geladeira extra caberia junto da porta da cozinha. Descreveu a tomada, a passagem para a área de serviço, o espaço para as assadeiras. Eu ainda mastigava quando ele chegou à distribuição das prateleiras.
— Você já mediu minha geladeira?
Joel riu. Percebeu que eu continuava séria e se recostou.
— Estou oferecendo.
— Eu sei. Só que é cedo.
— Para você foi cedo até para eu ajudar com o carro.
A frase saiu num tom magoado que me pegou desprevenida. Perguntei se estava chateado desde a mensagem da caminhonete. Ele mexeu no sachê de açúcar. Disse que queria ter participado, que eu aceitara ajuda de todo mundo e deixara a dele de lado.
— Sua mãe trabalhou comigo, Joel. Foi esquisito o bastante.
— Ela reclamou?
— Eu estou falando de mim.
O garçom chegou perguntando se queríamos mais alguma coisa. Pedimos dois cafés ao mesmo tempo. Esperamos que se afastasse. Joel esfregou o rosto; eu juntei as migalhas do prato numa fileira, desfiz a fileira e pedi que ele olhasse para mim.
— Vim porque quero ficar com você. Passei meia hora escolhendo esta blusa. Até agora só falamos de geladeira e do meu marido.
Ele olhou para a blusa, um pouco atrasado.
— Está bonita.
— Agora facilita demais.
Sorriu. Depois pediu desculpas pelo comentário do carro. Disse que guardava o convite da casa para outra ocasião. Avisei que a ocasião levaria tempo; queria encontrá-lo, sair, descobrir como seria ficar juntos. Joel amassou o sachê vazio.
— Você pode levar o tempo que precisar. Eu posso perguntar de novo daqui a uns meses.
— Pode perguntar.
O café chegou. Bebemos, cada um com sua pequena teimosia ainda quente. Quando a mesa ao lado vagou, Joel mudou para a cadeira mais próxima da minha e perguntou o que eu queria fazer naquele domingo.
— Dormir até tarde. Comprar uma caixa térmica. Talvez ir ao cinema.
— Posso participar da parte do cinema?
Sorri. Combinamos a sessão, dividimos a conta do café e caminhamos até o estacionamento. Joel segurou minha mão à vista de uma fila de carros e de um rapaz empurrando carrinhos do mercado vizinho. O gesto pareceu mais ousado do que o beijo na cozinha. Eu permiti que durasse até a porta do meu carro.
Na tarde seguinte, fomos ao cinema. Joel chorou. Descobri quando procurei sua mão e encontrei um guardanapo úmido. Fingi atenção à tela por delicadeza; estraguei o cuidado cinco minutos depois, quando os créditos subiram, ao dizer que a protagonista abandonara um emprego excelente por um homem que aprendera a lavar uma panela.
— Ele atravessou o país por ela — respondeu Joel.
— De avião. Até eu.
— Você é difícil.
— E você veio de camisa passada chorar na comédia romântica.
Ele ameaçou recuperar os guardanapos do lixo para provar que era alergia. Saímos discutindo o filme, esbarrando um no outro a cada dois passos. Perto da fila da pipoca, Joel cumprimentou uma conhecida. A mulher olhou para nossas mãos juntas. Eu comecei a soltá-lo; ele afrouxou os dedos para me deixar escolher. Mantive a mão ali.
— Esta é a Solange — disse.
A mulher se apresentou, comentou o filme e seguiu com a filha. Meu coração levou mais tempo para se acalmar do que aquela conversa merecia. Joel perguntou se eu estava bem. Respondi que precisava me acostumar. Ele concordou e comprou pipoca doce para Ilza.
No estacionamento, perguntou se poderia me beijar. Puxei-o pela camisa. O pacote de pipoca ficou apertado entre nós, fazendo um barulho pouco romântico. Joel o pôs sobre o carro e me abraçou com as duas mãos livres. Fiquei ali até o alarme do veículo ao lado disparar com a chegada do dono.
Passei a noite em casa. Lavei a tigela que deixara na pia, separei as contas do mês e procurei a pasta dos documentos do imóvel. Eustáquio tinha mandado mensagem propondo uma conversa na terça, com uma mediadora que um conhecido indicara. Concordei com o horário. Depois escrevi a Joel dizendo que gostara do cinema e que, no próximo, escolheria o filme. Ele respondeu que reservaria o direito de reclamar da protagonista. Coloquei o telefone para carregar e fui dormir com uma calma ainda provisória.