A morta: O pais do individuo Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 2 de 13
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A morta: O pais do individuo

1.“ QUADRO

O PAIZ DO in d iv íd u o

PERSONAGENS DRAMÁTICOS

A O U T R A D E B E A T R IZ

O POETA

O H IE R O P A N T E

Q U A T R O M A R IO N E T E S CORRESPON DEN TES

A e n f e r m e ir a SONAM BULA

A sena se desenvolve também na pla- tea. O unico sêr em ação viva e A En­ fermeira, sentada no centro do palco, em um banco metálico, demonstrando a estrema fadiga de um fim de vigilia noturna. A o fundo, arde uma lareira solitaria. Está-se num cenáculo de marfim, unido, sem janelas, recebendo a luz inquieta do fogo. Em torno da Enfermeira, acham-se colocadas sobre quatro tronos altos, sem tocar o solo, quatro marionetes, fantasmaes e mu­ das, que gesticulam exorbitantemente as suas aflições, indicadas pelas fa­ las. Estas partem de macrofones, co­ locados em dois camarotes opostos no meio da platea. No camarote da Direita, estão Beatriz, despida, e A Outra, num manto de negra castidade que a recobre da cabeça aos pés. No da Esquerda, O Poeta e O Hierofante, caraterizados com extrema vulgari­ dade. Espressam-se todos estáticos.

s€m um gesto e em camara lenta, es-' perando que as marionetes a eles correspondentes, executem a mimica de suas vozes. Sobre os quatro per­ sonagens da platéa, jorram refletores no teatro escuro. E ’ um panorama de analise.

A outra — Somos um colar truncado O poeta — Quatro lirismos. . . Beatriz -— E um só lirio d oen te... O poeta — No paiz dissociado. . . A outra — Da existência estanque... Beatriz — Não te assustes, outra! A outra — Sou a imagem impaseivel onde ondulam w tuas cargas. . . Beatriz — Minha imagem frustrada A outra — O silencio é necessário á nossa amizade O poeta — Toda mudez termina no utero de amanha A outra — Estão batendo 0 poeta — A qui não ha portas Beatriz — Abre aquela porta O poeta — No meio da magica Beatriz — Nunca se sabe quem é que está batendo A outra — É perigoso abrir toda porta

I O poeta — A porta dá sempre na jaula Beatriz — Só o papa póde abrir O poeta — 0 que haverá atraz de uma porta?

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A outra — Abre a porta! Chi lo sá! O poeta — Póde ser a girafa, o oficial de justiça, a me­ tralhadora, a poesia! Beatriz — Nunca abra A outra — Eu me jogo semi-núa da minha posição so­ cial abaixo Beatriz — Entras pela janela equivoca de meu ser, poeta! O poeta — És o belo horrivel! A outra — Praticamente este edificio só tem forros fe­ chados. Habitamos uma cidade sem luz directa — o teatro 0 poeta — Si te atirasses do primeiro impulso não mor­ rerías inteira Beatriz — Permaneceria aleijada e bela adiante de ti vendendo pedaços de meu espetáculo A outra —- Ganhariamos dinheiro Beatriz — Me arrastarias torta e bela pelas ruas como a tua musa quebrada! A outra — Seria a irradiação do mieu elima! O poeta — Qual dos crimes? Beatriz — Fui violada como uma virgem! A outra — Estão batendo outra vez, escutem. . . 0 poeta — Vou abrir. Não vou. Beatriz — Tens medo que seja um personagem novo! O poeta — Ou de cair num paiz de fauna m irrada... O bierofante — Não é preciso abrir, eu já estava aqui Beatriz — É o meu professor de jiu-jitsu A outra — Deite-se porque a sua camisola é de vidro

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O SW ALD DE A N D R A D E

Beatriz — Me ame! Por favor! O hierofante — Faze-te gostar pior um velho com di- h eiro. . . O poeta — Este quarto está incrustado ^ e febres Beatriz — Eu sou uma grande flor no leito de um açude. . . 0 hierofante — Bom giorno! Beatriz — Me ame por caridade! O hierofante — Onde estamos, em que capitulo? O poeta — Hospital? Óvulo? Teia de aranha? Beatriz — Navegamos num rio preso! A outra — Tenho medo de ser um cadaver em vez de dois seres vivos! O hierofante — Forneço a conciencia dos incuráveis O poeta — A volta ao trauma. . . A enfermeira sonamhula {levanta-se devagar oo fundo) — Madre, na calada de uma noite de enfermagem, esgano a doente que me confiaste {senta-se) Beatriz — {Soluçando) A i! concede-me o ultimo b eijo! A i! Não quero morrer sem o ultimo beijo! A outra — Não admito que faça isto de barulho! Morra como Napoleão. Beatriz — Querem transformar o mundo! A outra — Atravez de absurdas catástrofes. . . O poeta — As classes possuidoras expulsaram-me da ação. Minha subversão habitou as Torres de Marfim que se ^transformaram em antenas. .. O hierofante — É a reclassificação. . . Beatriz — No ultimo beijo direi que preciso de ti

O poeta — O injeu animo 8e torna o animo de nm con­ denado a morte. . . a febre cae com a primeira meia tinta fria da noite. Dou por encerrada a nossa vida amarga e tumiultuaria. Mas sinto as reacções térmicas da insônia. O delirio de novo crépita nos meus membros nervosos! A outra — Onde não ha plano, não ha sanção O poeta — Ha sempre dois planos e um espetáculo Beatriz — Sinto a voragem. . . a voragem que vai es­ friando a gente ante de cair. O poeta — Oh! inflexível? oh! absoluta! Desmo­ ronas na ação! A outra — Que vês, poeta? 0 poeta — Ha umia fresta na tua imagem. Uma fresta. Está aberta a porta do teu quart» tenebroso! Mas não ha ninguém dentro dele Beatriz — Ha o outro homiem, o ciume e a ameaça permanente da vida. . . A outra — Ha, um grande sádico, um sacerdote no circo. . . No plenário do circo. . . Quero denunciar! quero! Que sexualidade crecente! Aquele aparelho um prolongamento do corpo dele. A sua cara de orgasmo! Fundemos um tribunal Beatriz — Foi na sala cirúrgica. A pureza me envolvia como algodão. E o pae da minha primeira expe- riencia digital! O poeta — Sinto um suspiro imenso pelo teu corpo em posição. . .

14 O hierofante — ginecologica. . A fantasia é sempre um para-quedas O poeta — Arte é outra realidade. . . Beatriz — Mas eu serei um cadaver rebelde. Nao me deixo enterrar! A outra — Vives enterrada em ti deante do espelho! O poeta — És sempre uma Vitoria de Samotracia, com 06 olhos e 08 cabelos presos a um horizonte eem fundo. A outra — Eu eou a perspectiva Beatriz — Não ouço n a d a .. . sinão os meus gritos, um atropelo e o silencio. . . O poeta — Paz a teu corpo! A enfermeira — Quem a tratará? O hierofante — Quando a morte resvala por nós, a vida J' tomaise grandiosa Beatriz — Somos almas! O poeta — Ninguém como eu, tem a comprehensão ab­ soluta da destruição. Cansada e vigilante ela es­ preita o homem Beatriz — Existo para o bem e para o mal O poeta — Respiraste o cheiro perigoso da liberdade Beatriz — Venho de terras simples A outra — Essa incapacidade de se m ortificar... Beatriz — Porque nasci? Me digam? Me expliquem? Não queria nascer. Sou um pobre sexo ampu­ ë tado do seu tronco e con om ico... (Chora) Nunca pensei que a vida fosse resistência. Ou me mato ou me isolo na parede de um bordel ,1 '

o hierofante — noses. A outra — Amaldiçoada natureza! Beatriz — Amaldiçoada hora (jue me criou! Tu, poeta, não passas de um sêr vivo. Deviamos ter juntos uma bela coragem O hierofante — Qual? Beatriz — Nos amarmos num necrotério lavado O poeta — Meu coração não sente ainda a força atra­ tiva da m orte. . . r

A outra — Foste tu poeta que preparaste para Beatriz os caminhoe evasivos da liberdade Beatriz — Eu queria saber se era para outro humano a Inspiração. . . O poeta — Desmanchaste meu sonho infantil Beatriz — Atiro-me em flexa maravilhosa para t i . .. O poeta — És maternal! Que madrugada de amor va-i mos ter, cotovia! O hierofante — A ultima noite é sem dia seguinte. .. A outra — A mulher não é sómente um frasco fisico O hierofante — O sexual é a raiz da vida. Ahi trope­ çam um no outro o mundo velho e o novo Beatriz — Quero e não quero A outra — Hezito Beatriz — Tenho fome A outra — Ela quer ganhar o pão leviano! Beatriz — Meu pae O hierofante — Foi o sexual que inventou o jazigo de famüia e a casa. . .

O SW A L D DE A N D R A D E

Beatriz — Quero ser um espetáculo para mim mesma ! A outra — És uma flor irascivel O hierofante — Só é possivel um acordo no sexual O poeta — A poesia é desacordo entre os conceitos Beatriz — Um terreno fôfo, poeta! O poeta — Perco-me no paul do movimento O hierofante — O poeta mergulha na percepção. . . O poeta — Só a cicuta de Socrates salvará o mundo O hierofante — A data mais imiportante da historia é a que poz o homem entre a ação e Deus! 0 poeta — Entre o eeu ser animal e o eeu ser social A outra — Eu sou o Alter-égo O poeta — Eu, o oposto de Beatriz. . . a raiz dialética de seu ser Beatriz — Progrido para a morte nos teus hraços. E te encontro no seio tumultuoso da natureza. Sou t um elemento dela como a lua num ramo de arvore O hierofante — O homem compreendeu a responsabi­ lidade economica de matar O poeta — O sonho fel-o acordado crear a primeira jaula O hierofante — A primeira etica A outra — A jaula de ei mesmo. . . O hierofante — Os vegetarianos querem retroceder na primjitiva direção. Comer da Arvore da Vida, em pratos industriaes Beatriz — Em ja u la s... O poeta — Porque insistes?

I Beatriz — Não ha argumento que demova o am or. . . lA outra — No amor só existe o que ha de peor no ho­ mem ' O poeta — E’ a volta do troglodita — violenta e pe­ riódica O hierofante — Para garantir a especie enjaulada. O sexual é o radical da vida. Sua essencia é a bru­ talidade. O amor é a quebra de toda etica, de toda evolução. . . A outra — E’ a peseoa distinta que escuta atraz da porta, viola correspondência, manda cartas anôni­ mas e mata nos jom aes. . . Eu nunca fiz isso. . . Beatriz — O amor é o quero-porque-quero. . . A outra — Quem gritou? Beatriz — Não foi aqui O poeta — Tua madrugada será assim A outra — És o presagio, poeta! O poeta — Sou a classe media. Entre a bigorna e o martelo, fiquei o som! O hierofante — Alma que esguicha enclausurada. Beatriz — Sem mim morrerias calado O poeta — Viverei na Agora. Viverei no social. Liber­ tado! Beatriz — Sou a raiz da vida onde toda revolução de­ semboca se espraia e pára O poeta — Um dia se abrirá na praça publica o meu abcesso fechado! Expor-me-ei perante as largas massas. . . í A outra — E o sexo? O inimigo interior!

O poeta — Deixarei os pequenos protestos — o chapéu grande a cabeleira faustosa: falarei a linguagem compreensivel da metralha. Beatriz — Existe uma frente unica. . . O hierofante — O paiz oficial de F r e u d ... O poeta — Não haverá progresso humano, emquanto houver a frente unica sexual Beatriz — Nunca a tua febre amorosa deixou o meu corpo, poeta! O poeta — Porque me retempero no teu utero materno Beatriz — Tenho medo O poeta — No mimdo sem classes o animal humatio progredirá sem medo .-.V; A enfermeira — Sabes o que é medo? O hierofante — E’ o sentimento inaugural O poeta — E’ o sentimento de insegurança do féto na vida aquosa da geração 'i: "'.y A outra — V i uma luz O poeta — E’ a lua sobre o mar inexistente que nos l>I rodeia Beatriz — Estou obscura com o uma idea religiosa O poeta — És a noite. Carrego nos meus hombros o teu desequilibrio glandular. A outra — A cegueira móra em tua histeria! Beatriz — H orror! horror! Resolve a minha questão economica antes que eu morra em plena mocidade! A outra — Alguém entrou? Censurarei quem f ô r . .. 0 hierofante — Pela porta que não existe

A enfermeira sonambula — {Levantando-se) E’ a hora métrica Beatriz — Mereço todas as cousas lindae da vida. . . As cousas lindas da morte O hierofante — No plano da sociedade esquisofrenica O poeta — Toda a minha produção ha de ser protesto e embelesamento emquanto não puder despejar so­ bre as hrutalidades coletivas a potência dos meus sonhos ! A outra — Emparedado! Creaste uma grande doença! Beatriz — Meu rapin! O poeta — A construção do romantismo habita este quarto. .. Beatriz — Que sou eu? O poeta — A psiche irreconhecivel. . . O hierofante — O nascimento da alma 0 poeta — 0 subterrâneo que a sociedade ordena. Um dia serei reconduzido á atmosfera. . . Beatriz — Estamos fóra do social! O poeta — A policia só me permite esbravejar no teu dramatico interior. O hierofante — Poeta! 0 poeta — Eles tomaram o Estado, eu fiquei com a mulher. Criei uma alma de cova Por isso busco o drama e busco o teu cheiro. Beatriz — Cantas a tua missa de corpo presente! O poeta — Minha vida reduzida, prisioneira, entu- mulada! Beatriz — Sou a mulher de mármore dos cemitérios.

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1 *%, f ,lk k i ' ' Jtíí t O hierofante — Piee b a ix o ... devagar A enfermeira — Um golpe de jiu-jitsu, prompto O poeta — {Num grito longo) Tu me mastigas noite iW^ tenebrosa ! N ( A enfermeira senta-se)

O hierofante — Consumatum! ! O poeta — Guerra á sua alma A enfermeira — É preciso desfazer todo sinal do drama. . . O hierofante — Não ha perigo. Recomponhamos o cadaver. E’ um piedoso dever. Juntemos os seus miembros esparsos, os cabelos, os dentes. Beatriz — Meu amor O poeta — Não é possivel m'aie.., Beatriz — Porque? O poeta — O professor te dissociou. Fujamos. Não ha crime ainda visivel. A enfermeira — Na aurora virão buscar os restos do chá da meia noite

í- Bettriz — O amor é o quero - porque - quero da vida O hierofante — 0 créa dor do irremediável 0 poeta — Que diz agora o teu coração? Para justi- ficar-te !

Beatriz — Vive do medo de te ter perdido! O poeta — Quebraste o élo. Beatriz — Não poderei fazer nada sem ti, sem o teu calor, a tua adhração. O poeta — Quebraste a porta fechada. . .

O hierofante — Goin|plexo de que faça a mascara. O poeta — E eu a ruptura. . . O hierofante — Darei sempre a visão oficial 0 poeta — Emquanto eu bradar o canto noturno do emparedado. Um canto desconexo. Interior como o sangue. Ab comimicações cortadas com a vida! Beatriz — {chorando) Desfiguraste-me sob ae tintas efusivas do amor. O poeta — Fizeram)-mie abandonar a Ágora para viver sobre mim mesmo de mil recursos improdutivos. Eu quero voltar á Ágora. O hierofante — A realidade molesta oe humanos. 0 poeta — Eu sou um valor sem mercados. Crearam o sentimento e o tornaram um valor excluido da troca. Beatriz — És o augurio, poeta! O poeta — Encontrarão aqui a tua imagem silenciosa Beatriz — Eu sou a lealdade sem sentido! O poeta — No bem como no mal Beatriz — Não te d e ix o ... 0 poeta — Melancolia! Feita de luar e de onda no­ turna! Quem te definirá? O hierofante — No paiz do É g o ... Beatriz — Porque acreditas em mim? 0 hierofante — És insolúvel sem a censura Beatriz — Tanto algodão e tanto sangue! O hierofante — Vou para o paiz sem dôr. Longe das OonjuraçÕes e das operas! O poeta — Ficarás nesse garfo gelado

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OSW ALD DE A N D R A D E

Beatriz — Socorro! O hierofante — Ninguém te ouvirá no paiz do indivíduo! 0 poeta — Quando a morte resvala por nós, a vida torna-se grandiosa. Beatriz — Da-me um epitáfio, poeta! O poeta — Diante do espelho, és sempre a Victoria de Samotracia, com os olhos e os cabelos presos a um horizonte sem fundo. Beatriz — Fujamos. Foi a outra que morreu! O hierofante — Sopra para sempre o comutador noturno 0 poeta — Meu alibi! Meu secular alibi!

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