A morta: O pais do individuo
1.“ QUADRO
O PAIZ DO in d iv íd u o
PERSONAGENS DRAMÁTICOS
A O U T R A D E B E A T R IZ
O POETA
O H IE R O P A N T E
Q U A T R O M A R IO N E T E S CORRESPON DEN TES
A e n f e r m e ir a SONAM BULA
A sena se desenvolve também na pla- tea. O unico sêr em ação viva e A En fermeira, sentada no centro do palco, em um banco metálico, demonstrando a estrema fadiga de um fim de vigilia noturna. A o fundo, arde uma lareira solitaria. Está-se num cenáculo de marfim, unido, sem janelas, recebendo a luz inquieta do fogo. Em torno da Enfermeira, acham-se colocadas sobre quatro tronos altos, sem tocar o solo, quatro marionetes, fantasmaes e mu das, que gesticulam exorbitantemente as suas aflições, indicadas pelas fa las. Estas partem de macrofones, co locados em dois camarotes opostos no meio da platea. No camarote da Direita, estão Beatriz, despida, e A Outra, num manto de negra castidade que a recobre da cabeça aos pés. No da Esquerda, O Poeta e O Hierofante, caraterizados com extrema vulgari dade. Espressam-se todos estáticos.
s€m um gesto e em camara lenta, es-' perando que as marionetes a eles correspondentes, executem a mimica de suas vozes. Sobre os quatro per sonagens da platéa, jorram refletores no teatro escuro. E ’ um panorama de analise.
A outra — Somos um colar truncado O poeta — Quatro lirismos. . . Beatriz -— E um só lirio d oen te... O poeta — No paiz dissociado. . . A outra — Da existência estanque... Beatriz — Não te assustes, outra! A outra — Sou a imagem impaseivel onde ondulam w tuas cargas. . . Beatriz — Minha imagem frustrada A outra — O silencio é necessário á nossa amizade O poeta — Toda mudez termina no utero de amanha A outra — Estão batendo 0 poeta — A qui não ha portas Beatriz — Abre aquela porta O poeta — No meio da magica Beatriz — Nunca se sabe quem é que está batendo A outra — É perigoso abrir toda porta
I O poeta — A porta dá sempre na jaula Beatriz — Só o papa póde abrir O poeta — 0 que haverá atraz de uma porta?
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A outra — Abre a porta! Chi lo sá! O poeta — Póde ser a girafa, o oficial de justiça, a me tralhadora, a poesia! Beatriz — Nunca abra A outra — Eu me jogo semi-núa da minha posição so cial abaixo Beatriz — Entras pela janela equivoca de meu ser, poeta! O poeta — És o belo horrivel! A outra — Praticamente este edificio só tem forros fe chados. Habitamos uma cidade sem luz directa — o teatro 0 poeta — Si te atirasses do primeiro impulso não mor rerías inteira Beatriz — Permaneceria aleijada e bela adiante de ti vendendo pedaços de meu espetáculo A outra —- Ganhariamos dinheiro Beatriz — Me arrastarias torta e bela pelas ruas como a tua musa quebrada! A outra — Seria a irradiação do mieu elima! O poeta — Qual dos crimes? Beatriz — Fui violada como uma virgem! A outra — Estão batendo outra vez, escutem. . . 0 poeta — Vou abrir. Não vou. Beatriz — Tens medo que seja um personagem novo! O poeta — Ou de cair num paiz de fauna m irrada... O bierofante — Não é preciso abrir, eu já estava aqui Beatriz — É o meu professor de jiu-jitsu A outra — Deite-se porque a sua camisola é de vidro
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O SW ALD DE A N D R A D E
Beatriz — Me ame! Por favor! O hierofante — Faze-te gostar pior um velho com di- h eiro. . . O poeta — Este quarto está incrustado ^ e febres Beatriz — Eu sou uma grande flor no leito de um açude. . . 0 hierofante — Bom giorno! Beatriz — Me ame por caridade! O hierofante — Onde estamos, em que capitulo? O poeta — Hospital? Óvulo? Teia de aranha? Beatriz — Navegamos num rio preso! A outra — Tenho medo de ser um cadaver em vez de dois seres vivos! O hierofante — Forneço a conciencia dos incuráveis O poeta — A volta ao trauma. . . A enfermeira sonamhula {levanta-se devagar oo fundo) — Madre, na calada de uma noite de enfermagem, esgano a doente que me confiaste {senta-se) Beatriz — {Soluçando) A i! concede-me o ultimo b eijo! A i! Não quero morrer sem o ultimo beijo! A outra — Não admito que faça isto de barulho! Morra como Napoleão. Beatriz — Querem transformar o mundo! A outra — Atravez de absurdas catástrofes. . . O poeta — As classes possuidoras expulsaram-me da ação. Minha subversão habitou as Torres de Marfim que se ^transformaram em antenas. .. O hierofante — É a reclassificação. . . Beatriz — No ultimo beijo direi que preciso de ti
O poeta — O injeu animo 8e torna o animo de nm con denado a morte. . . a febre cae com a primeira meia tinta fria da noite. Dou por encerrada a nossa vida amarga e tumiultuaria. Mas sinto as reacções térmicas da insônia. O delirio de novo crépita nos meus membros nervosos! A outra — Onde não ha plano, não ha sanção O poeta — Ha sempre dois planos e um espetáculo Beatriz — Sinto a voragem. . . a voragem que vai es friando a gente ante de cair. O poeta — Oh! inflexível? oh! absoluta! Desmo ronas na ação! A outra — Que vês, poeta? 0 poeta — Ha umia fresta na tua imagem. Uma fresta. Está aberta a porta do teu quart» tenebroso! Mas não ha ninguém dentro dele Beatriz — Ha o outro homiem, o ciume e a ameaça permanente da vida. . . A outra — Ha, um grande sádico, um sacerdote no circo. . . No plenário do circo. . . Quero denunciar! quero! Que sexualidade crecente! Aquele aparelho um prolongamento do corpo dele. A sua cara de orgasmo! Fundemos um tribunal Beatriz — Foi na sala cirúrgica. A pureza me envolvia como algodão. E o pae da minha primeira expe- riencia digital! O poeta — Sinto um suspiro imenso pelo teu corpo em posição. . .
14 O hierofante — ginecologica. . A fantasia é sempre um para-quedas O poeta — Arte é outra realidade. . . Beatriz — Mas eu serei um cadaver rebelde. Nao me deixo enterrar! A outra — Vives enterrada em ti deante do espelho! O poeta — És sempre uma Vitoria de Samotracia, com 06 olhos e 08 cabelos presos a um horizonte eem fundo. A outra — Eu eou a perspectiva Beatriz — Não ouço n a d a .. . sinão os meus gritos, um atropelo e o silencio. . . O poeta — Paz a teu corpo! A enfermeira — Quem a tratará? O hierofante — Quando a morte resvala por nós, a vida J' tomaise grandiosa Beatriz — Somos almas! O poeta — Ninguém como eu, tem a comprehensão ab soluta da destruição. Cansada e vigilante ela es preita o homem Beatriz — Existo para o bem e para o mal O poeta — Respiraste o cheiro perigoso da liberdade Beatriz — Venho de terras simples A outra — Essa incapacidade de se m ortificar... Beatriz — Porque nasci? Me digam? Me expliquem? Não queria nascer. Sou um pobre sexo ampu ë tado do seu tronco e con om ico... (Chora) Nunca pensei que a vida fosse resistência. Ou me mato ou me isolo na parede de um bordel ,1 '
o hierofante — noses. A outra — Amaldiçoada natureza! Beatriz — Amaldiçoada hora (jue me criou! Tu, poeta, não passas de um sêr vivo. Deviamos ter juntos uma bela coragem O hierofante — Qual? Beatriz — Nos amarmos num necrotério lavado O poeta — Meu coração não sente ainda a força atra tiva da m orte. . . r
A outra — Foste tu poeta que preparaste para Beatriz os caminhoe evasivos da liberdade Beatriz — Eu queria saber se era para outro humano a Inspiração. . . O poeta — Desmanchaste meu sonho infantil Beatriz — Atiro-me em flexa maravilhosa para t i . .. O poeta — És maternal! Que madrugada de amor va-i mos ter, cotovia! O hierofante — A ultima noite é sem dia seguinte. .. A outra — A mulher não é sómente um frasco fisico O hierofante — O sexual é a raiz da vida. Ahi trope çam um no outro o mundo velho e o novo Beatriz — Quero e não quero A outra — Hezito Beatriz — Tenho fome A outra — Ela quer ganhar o pão leviano! Beatriz — Meu pae O hierofante — Foi o sexual que inventou o jazigo de famüia e a casa. . .
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Beatriz — Quero ser um espetáculo para mim mesma ! A outra — És uma flor irascivel O hierofante — Só é possivel um acordo no sexual O poeta — A poesia é desacordo entre os conceitos Beatriz — Um terreno fôfo, poeta! O poeta — Perco-me no paul do movimento O hierofante — O poeta mergulha na percepção. . . O poeta — Só a cicuta de Socrates salvará o mundo O hierofante — A data mais imiportante da historia é a que poz o homem entre a ação e Deus! 0 poeta — Entre o eeu ser animal e o eeu ser social A outra — Eu sou o Alter-égo O poeta — Eu, o oposto de Beatriz. . . a raiz dialética de seu ser Beatriz — Progrido para a morte nos teus hraços. E te encontro no seio tumultuoso da natureza. Sou t um elemento dela como a lua num ramo de arvore O hierofante — O homem compreendeu a responsabi lidade economica de matar O poeta — O sonho fel-o acordado crear a primeira jaula O hierofante — A primeira etica A outra — A jaula de ei mesmo. . . O hierofante — Os vegetarianos querem retroceder na primjitiva direção. Comer da Arvore da Vida, em pratos industriaes Beatriz — Em ja u la s... O poeta — Porque insistes?
I Beatriz — Não ha argumento que demova o am or. . . lA outra — No amor só existe o que ha de peor no ho mem ' O poeta — E’ a volta do troglodita — violenta e pe riódica O hierofante — Para garantir a especie enjaulada. O sexual é o radical da vida. Sua essencia é a bru talidade. O amor é a quebra de toda etica, de toda evolução. . . A outra — E’ a peseoa distinta que escuta atraz da porta, viola correspondência, manda cartas anôni mas e mata nos jom aes. . . Eu nunca fiz isso. . . Beatriz — O amor é o quero-porque-quero. . . A outra — Quem gritou? Beatriz — Não foi aqui O poeta — Tua madrugada será assim A outra — És o presagio, poeta! O poeta — Sou a classe media. Entre a bigorna e o martelo, fiquei o som! O hierofante — Alma que esguicha enclausurada. Beatriz — Sem mim morrerias calado O poeta — Viverei na Agora. Viverei no social. Liber tado! Beatriz — Sou a raiz da vida onde toda revolução de semboca se espraia e pára O poeta — Um dia se abrirá na praça publica o meu abcesso fechado! Expor-me-ei perante as largas massas. . . í A outra — E o sexo? O inimigo interior!
O poeta — Deixarei os pequenos protestos — o chapéu grande a cabeleira faustosa: falarei a linguagem compreensivel da metralha. Beatriz — Existe uma frente unica. . . O hierofante — O paiz oficial de F r e u d ... O poeta — Não haverá progresso humano, emquanto houver a frente unica sexual Beatriz — Nunca a tua febre amorosa deixou o meu corpo, poeta! O poeta — Porque me retempero no teu utero materno Beatriz — Tenho medo O poeta — No mimdo sem classes o animal humatio progredirá sem medo .-.V; A enfermeira — Sabes o que é medo? O hierofante — E’ o sentimento inaugural O poeta — E’ o sentimento de insegurança do féto na vida aquosa da geração 'i: "'.y A outra — V i uma luz O poeta — E’ a lua sobre o mar inexistente que nos l>I rodeia Beatriz — Estou obscura com o uma idea religiosa O poeta — És a noite. Carrego nos meus hombros o teu desequilibrio glandular. A outra — A cegueira móra em tua histeria! Beatriz — H orror! horror! Resolve a minha questão economica antes que eu morra em plena mocidade! A outra — Alguém entrou? Censurarei quem f ô r . .. 0 hierofante — Pela porta que não existe
A enfermeira sonambula — {Levantando-se) E’ a hora métrica Beatriz — Mereço todas as cousas lindae da vida. . . As cousas lindas da morte O hierofante — No plano da sociedade esquisofrenica O poeta — Toda a minha produção ha de ser protesto e embelesamento emquanto não puder despejar so bre as hrutalidades coletivas a potência dos meus sonhos ! A outra — Emparedado! Creaste uma grande doença! Beatriz — Meu rapin! O poeta — A construção do romantismo habita este quarto. .. Beatriz — Que sou eu? O poeta — A psiche irreconhecivel. . . O hierofante — O nascimento da alma 0 poeta — 0 subterrâneo que a sociedade ordena. Um dia serei reconduzido á atmosfera. . . Beatriz — Estamos fóra do social! O poeta — A policia só me permite esbravejar no teu dramatico interior. O hierofante — Poeta! 0 poeta — Eles tomaram o Estado, eu fiquei com a mulher. Criei uma alma de cova Por isso busco o drama e busco o teu cheiro. Beatriz — Cantas a tua missa de corpo presente! O poeta — Minha vida reduzida, prisioneira, entu- mulada! Beatriz — Sou a mulher de mármore dos cemitérios.
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1 *%, f ,lk k i ' ' Jtíí t O hierofante — Piee b a ix o ... devagar A enfermeira — Um golpe de jiu-jitsu, prompto O poeta — {Num grito longo) Tu me mastigas noite iW^ tenebrosa ! N ( A enfermeira senta-se)
O hierofante — Consumatum! ! O poeta — Guerra á sua alma A enfermeira — É preciso desfazer todo sinal do drama. . . O hierofante — Não ha perigo. Recomponhamos o cadaver. E’ um piedoso dever. Juntemos os seus miembros esparsos, os cabelos, os dentes. Beatriz — Meu amor O poeta — Não é possivel m'aie.., Beatriz — Porque? O poeta — O professor te dissociou. Fujamos. Não ha crime ainda visivel. A enfermeira — Na aurora virão buscar os restos do chá da meia noite
í- Bettriz — O amor é o quero - porque - quero da vida O hierofante — 0 créa dor do irremediável 0 poeta — Que diz agora o teu coração? Para justi- ficar-te !
Beatriz — Vive do medo de te ter perdido! O poeta — Quebraste o élo. Beatriz — Não poderei fazer nada sem ti, sem o teu calor, a tua adhração. O poeta — Quebraste a porta fechada. . .
O hierofante — Goin|plexo de que faça a mascara. O poeta — E eu a ruptura. . . O hierofante — Darei sempre a visão oficial 0 poeta — Emquanto eu bradar o canto noturno do emparedado. Um canto desconexo. Interior como o sangue. Ab comimicações cortadas com a vida! Beatriz — {chorando) Desfiguraste-me sob ae tintas efusivas do amor. O poeta — Fizeram)-mie abandonar a Ágora para viver sobre mim mesmo de mil recursos improdutivos. Eu quero voltar á Ágora. O hierofante — A realidade molesta oe humanos. 0 poeta — Eu sou um valor sem mercados. Crearam o sentimento e o tornaram um valor excluido da troca. Beatriz — És o augurio, poeta! O poeta — Encontrarão aqui a tua imagem silenciosa Beatriz — Eu sou a lealdade sem sentido! O poeta — No bem como no mal Beatriz — Não te d e ix o ... 0 poeta — Melancolia! Feita de luar e de onda no turna! Quem te definirá? O hierofante — No paiz do É g o ... Beatriz — Porque acreditas em mim? 0 hierofante — És insolúvel sem a censura Beatriz — Tanto algodão e tanto sangue! O hierofante — Vou para o paiz sem dôr. Longe das OonjuraçÕes e das operas! O poeta — Ficarás nesse garfo gelado
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Beatriz — Socorro! O hierofante — Ninguém te ouvirá no paiz do indivíduo! 0 poeta — Quando a morte resvala por nós, a vida torna-se grandiosa. Beatriz — Da-me um epitáfio, poeta! O poeta — Diante do espelho, és sempre a Victoria de Samotracia, com os olhos e os cabelos presos a um horizonte sem fundo. Beatriz — Fujamos. Foi a outra que morreu! O hierofante — Sopra para sempre o comutador noturno 0 poeta — Meu alibi! Meu secular alibi!
TELA