O rei da vela: a ilha sob a bandeira americana Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 8 de 13
Obra Menu

O rei da vela: a ilha sob a bandeira americana

2 .° A T O

Uma ilha tropical na baía de Guanabara. R io de Janeiro. Durante o ato passaros assoviam exoticamente nas arvores brutaes. Sons de motor. O mar. Na praia ao lado, um avião em repouso. Barraca. Guarda-sóes. Um mastro com a bandeira americana. Palmeiras. A scena representa um r ^ terraço. A abertura de uma escada ao fundo em comunica­ ção com a areia. Platibanda cô r de aço com cactus verdes e coloridos em vasos negros. Moveis mecânicos. Bebidas e gelo. Uma rede do Amazonas. Um radio. Os personagens ! se vestem pela mais furiosa fantasia burgueza e equatorial. I Morenas semi-nuas. Homens esportivos, hermafroditas, me- ' nopausas. Com o pano fechado, ouve-se um toque vivo de cometa. A sena conserva-se vasia um instante. Escuta-se o m otor de uma lancha que se aproxima. Pela escada, ao fundo, surgem primeiramente, em franca camaradagem sexual, Heloísa e o Americano. Saem pela di­ reita. Depois T otó Fruta do Conde, tétrico. Sae. Em se­ guida, D. Poloca e João dos Divans. Saem. Depois o velho coronel Belarmino, fumando um mata-rato de palha e ves­ tido rigorosamente de golf. Sae. Segue-se-lhe um par cheio de vida: D. Cesarina, abanando um leque enorme de plumas em mailot de Copacabana e Abelardo I com calças cô r de ôvo e camiseta esportiva. Permanecem em sena.

A B E L A R D O I — D. C E S A R IN A

Abelardo I — Pronto! Arribamos. (Deposita-a na rêde) E’ uma lancha que chega. Deve ser o seu filho, o Perdigoto. Na Europa é assim. Toca-se sempre corneta quando chega uma lancha! A ban­ deira americana é uma homenagem. Indica almi­ V- ^ rante a bordo! 0 Americano nosso h ospede... D. Cesarina — Pois é. Eu disse para o Belarmino. Nunca na minha vida tomei um sorvete daqueles! Uma delicia! Só mesmo um futuro genro distincto e rico como o senhor, havia de me oferecer um sorvete d’aqueles. Como é que se chama? Abelardo I — E’ Banana Real! '.A*. • D. Cesarina — O Totó é que se lambeu! Coitado! J •>L Está num desgosto. . . Abelardo I — E’ verdade! O Totó está de aza partida! Mas endireita, tomando Banana Real! D. Cesarina — Também. Quebrar uma amizade de tres anos. Eram como dois irmãos. . . Ele e o Go- dofredo viviam no mesmo quarto. Por essas e por outras é que eu não gosto de me iludir. Os seus galanteios. . .

no OSW ALD DE AN DRADE

'Si Abelardo I — Os meus galanteios são sinceros. .. senho­ ra minha futura sogra. . . Quem manda se vestir assim, com esse mailot jararaca! Qual é o santo que resiste? Olhe, é serio, serio demais! D. Cesarina — Quer me deixar mais zangada ainda. . . Mais triste do que hontem. Continua a proceder mal? ' v‘ Abelardo I — Mas Dona Cesarina! Me acredite! Por favor! D. Cesarina — Mentiroso! Abelardo — Eu terei culpa por acaso de ser fraco? Culpa de sentir. D. Cesarina — Não é is s o ... i.’l Abelardo I — Mas que é então. . . D. Cesarina — Tenho um presentimento. . . 0 medo de não ser compreendida! Abelardo I — Mas que tem! Porque não sorri mais e exala esse perfume de rosas murchas? banca um cemiterio entre ciprestes!... D. Cesarina — E’ para onde eu acabo indo por sua causa. . . Abelardo I — Dou a Cesar o que é de Cesar. Ou melhor a Cesarina o que é de Cesarina. .. Dona Cesarina — O senhor está é fazendo fita! Me diga uma coisa só. Porque é que senhor mente tanto, hein? E me atenta tanto! Abelardo I — Juro! D. Cesarina — O senhor sabe que eu não posso beber champagne. Outra noite, quando dansamos aquele

Fox-Trot me poz na chuva, depois começou com aquelas graças e aquela imoralidade. 0 senhor não sabe que Deus não quer que a gente diga as coisas que não sente? Que é pecado mortal cubiçar a mulher do proximo? Vae pro in fe rn o ... Abelardo I — Não. Eu já sei que vou pro purgatório, Dona Cesarina — A gente nunca deve dizer o que não sente. E’ horrivel ser enganada! Abelardo — E se fosse verdade! Se o meu coração se tivesse inflamado ao contagio do seu luminoso verão ? Dona Cesarina — Ora, só eu sei a edade que tenho! Abelardo I — Meu Vesuvio! Dona Cesarina {rindo e ameaçando) — Olhe, que eu ainda acendo,

M A IS T O T Ó

Totó Fructa do Conde {aparece á direita com uma vara de pescar e um saco de honhons na mão, absorto e pesaroso). — Eu sou uma fracassada! Dona Cesarina — Meu filhinho, venha cá. Benzinho do meu coração! Totó — Não quero, {bate o pé) não quero. Me deixe! Dona Cesarina — Mas venha aqui. Totó. Venha con­ versar com sua mãezinha! Ha quanto tempo você não me beija? Totó — Não quero, não quero, não quero! Dona Cesarina — O que que você vae fazer?

8 ---- TKATHO

Totó — Não está vendo? Pescar nos penhascos. E’ o meu destino! Abelardo I — Cuidado com essa praia! Tem cada bagre! Totó — Deus o ouça! {aproxima-se e faz festas) Meu futuro irmão. Que boas cores! Que edade o senhor tem hein? Sabe quel é a luva da moda? Eu agora vou dar bombons aos bagres. E’ servido? Abelardo — Eh! Obrigado, amigo! Não gosto desses peixes, não. Nem de bombons! Mas que familia! D. Cesarina — Me dê um beijinho, Totó! Toto {indo pela escada do fundo) — Não dou! Não dou! Não dou!

M ENOS TO T Ó

D. Cesarina — A h! Coitado. Depois que ele brigou com o Godofredo está o u tr o ... Magro. Enfas­ tiado. .. Abelardo I — Comprehendo. Essas rupturas são dolo­ rosas. .. {tomando o leque sobre a mesa) Mas que lindo leque. . .

D. Cesarina {Silencio, Retoma o leque. Sena muda) Me dê o leque que guarda como um cofre as suas palavras ardentes. . . do baile. . . Abelardo I — Que guarda* a mais terrivel e secreta das confissões... Dona Cesarina — Me diga uma coisa, seu Abelardo, o senhor não tem ciúmes? Ví

ik.

iLLi

Abelardo I — (surpreso) — Ora essa! Dona Cesarina — Aquele alemão! Abelardo I — Alemão? Americano. Americano e ban­ queiro ! Dona Cesarina — Ele anda com uns brinquedos brutos com a Heloisa! Abelardo I — Ah E’ box. Ela está aprendendo a jogar box. De vez em quando uns golpes de luta livre. . . Ele é campeão de tudo isso em Nova York, Wall Street! Dona Cesarina — Pois olhe, seu Abelardo. Eu ficaria roida se alguém que eu amo tivesse aquelas liber­ dades com um extranho. Abelardo I — Mas Dona Cesarina! Eu me preso de ser um homem da minha epoca! A senhora quer que eu perca tempo em ter ciúmes? (Imita dramatica­ mente um casal em choque) Diga, Heloisa! Quem era aquele homem? — Eu fui lá só para dar um recado. — Foste lá! Confessas! Entraste naquela casa, naquele antro! Traiste-me, per jura! — Ah! Meu amor, que desconfiança também, que injustiça! Um homem feio d’aquele! Eu fui lá só por causa do recado! — Maldita! Pum! Pum! (ri) Oh! Oh! ah! E’ isso? Essa ridicularia que divertiu e ensan­ guentou gerações de idiotas. E’ iss o ... O ciume! Dona Cesarina (levantando-se) — Pois se o senhor não r‘ 1 tem vergonha, seu Abelardo, eu tenho! Olhe este leque! Este leque ainda é capaz de fazer muito estrago! (deixa a rede)

9 ^ Abelardo I — Comprehendo! E’ o leque de Lady Win- dermere! D. Cesarina — Seu Abelardo não me olhe assim! Eu sou ligada pelo mais doce dos sacramentos ao mais digno dos esposos. Não! Nunca! A vida de uma esposa tem que ser uma renuncia, um sacrificio, uma purificação! Por mais dolorosa...

M A IS D. P O L O C A

D. Poloca {surgindo na escada) — Ahi hein? Que lindo p a r ... D. Cesarina — Com licença. Eu vou fazer servir os A rabigalos. Abelardo I — Rabigalos? D. Cesarina — E’ a tradução de cocktail, feita pela Academia de Letras! (saej M E N O S D. C E S A R IN A

D. Poloca (Aproxim a-se). — Dando em cima da sogra! Abelardo I — Que é isso, Dona Poloca? Bancando a

policia especial? D. Poloca — Ouvi tudo! Abelardo I — Pois ouviu mal. Eu estava muito respei­ tosamente explicando á senhora minha futura mãe que somos de duas gerações diferentes. Ela é um personagem do gracioso Wilde. Eu sou um perso­ nagem de Freud! D. Poloca — Que?

Abelardo I — A senhora não conhece Freud? O ultimo grande romancista da burguesia? D. Poloca — O senhor me empresta os romances dele? São inocentes? Abelardo I — Oh! são. Não conhece “ 0 complexo de Edipo” ? E’ o meu caso! D. Poloca — E eu seu Abelardo? Sou personagem de quem? Abelardo I — A senhora é colaboração, Castilho e Lam artine... Babo! {contarolando) A i! Hein! Pensa que eu não sei? D. Poloca {indignada) Pois o senhor é aquele cava­ lheiro dos Sinos de Corneville! Abelardo I — Acertou! Porque é que a senhora ha de ser tão simpatica quando estamos a sós. E tão infame na frente dos outros? D. Poloca — Mas como é que o senhor quer que eu pro­ ceda em sociedade? Abelardo I — Quero que proceda humanamente. D. Poloca — Desde quando que a humanidade é um pe­ daço de marmelada, seu Abelardo? Eu defendo o meu ponto de vista de tradição e de familia? > . Intransigentemente. Sou sua melhor amiga {cari­ nhosa) em segredo. Mas não posso dar confiança em publico a um novo-rico a um arrivista, a um Rei da Vela! Abelardo I — E se eu a fizesse a Rainha do Castiçal? D. Poloca — Prefiro ser a neta da baronesa de Pau- Ferro. A neta pobre e invalida que sempre viveu

do pão dos irmãos e cujo resto de familia foi salvo por umi... intruso! Abelardo I — Por um intruso. . . D. Poloca — Que nos tira da ruina mas tem que conhe­ cer as differenças sociaes que nos separam. Tenho sessenta e dois anos. Vi as poucas familias que res­ tam do Império se degradarem com alianças meno­ res. Como o meu mano que se casou com essa Sei que é esse o destino da minha gente. Mas resisto é me oponho ás relações fáceis e equivo­ cas da sociedade moderna. Abelardo I — Me diga uma coisa, Dona Poloca, se não fosse esse avacalhamento, permita-me a expressão. . . E’ de Flaubert! D. Poloca — Diga decadência. Sôa melhor! Abelardo I — Bem! Se não fosse essa decadência. E’ realmente, é mais suave. Como é que vocês, per­ mita a expressão, com iam . . . D. Poloca — Seu Abelardo, a gente não vive só de com ida! Abelardo I — Está ahi um ponto em que eu discordo profundamente de Vossa Magestade! Não podemos mais nos entender. A senhora vive de aragens. . . Eu de bifes. D. Poloca — O senhor é um burguez! Eu uma fidalga que teve a ventura de beijar as mãos de Sua Alteza a Princeza Isabel, ouviu? Abelardo I — Mas me diga uma coisa só. Dona Pola- quinha, perdão, Dona Polóquinha. Em sua vida

toda, tão cheia de nobreza, nunca amou um plebeu ?. . . D. Poloca (graciosa) Em segredo. Mas nunca em pu­ blico como essa desfructavel que Deus me deu por cunhada!

M A IS H E L O ÍS A E J O A N A

Heloisa — Outro flirt! Hontem era a mamãe! Hoje tia Poloca. Quantos chifres você me põe por hora, Abelardo? Abelardo I — E’ em familia (sentam-se rindo) Não conta! Heloisa — Contanto que você não me engane com o Totó!

João — O Totó é a minha diferença. Já está dando em cima do Americano! Basta a gente inventar alguém, lá vem ele! — Eu sou uma fracassada! Abelardo I — Coitado! Não leva vantagem ... Está de aza partida! João — Da outra vez também lá em São Paulo, ele tinha brigado com o Godofredo. Ficou doente de tristeza! E mesmo assim me tomou o Miguelão! Bandido! x' Abelardo I — Mas o Americano que eu saiba aprecia o typo másculo de Heloisa. Mister Jones é lésbico! João — O americano gosta do chauffeur. Felizmente! Olha quem vem a h i... O coronel. Heloisa — Papae! João — Parece o Clark Gable! í '

f î

D. Poloca — Meu irmão está remoçando com essas roupas de carnaval!

1/1
Menu

Fazer anotação