A morta: O pais da gramatica
PERSONAGENS DRAMÁTICOS
o POETA B E A T R IZ H O R A C IO O CREMADOR O H IE R O F A N T E O JU IZ UM A ROU PA DE HOM EM GRUPO DE CREM ADORES GRUPO DE C O N SERVAD O RES DE CADAVER
M ORTOS V IV O S O T U R IS T A P R E C O C E O P O L IC IA P O L IG L O T A
i!
A sena representa uma praça onde vêm desembocar varias ruas.
Um grupo de gente internacional passa ao fundo
0 turista precoce — Faz favor. Quem são aqueles? O policia — Um russo, um alemão, um japonez, um italiano, um nacional. . . 0 turista — O que são? O policia — Nomes comuns. E’ a grande reserva humana de onde se tira para a ação, o su jeito... O turista — São vivos? O policia — Vivos todos
Um grupo de gente amortalhada atravessa a sena
0 turista — E aqueles? O policia — São os mortos O turista — Vivem juntos? Vivos e mortos? O policia — O mundo é um dicionário. Palavras vivas e vocábulos mortos. Não se atracam porque somos severos vigilantes. Fechamol-os em regras indiscuti-
veÍ8 e fixas. Fazemos mesmo que estes que são a serenidade tomem o lugar daquelas que são a raiva .I e o fermento. Fundamos para isso as academias. . . os museus. . . os codigos. . . 0 turista — E 08 vivos reclamam? O policia — Mais do que isso. Querem que os outros desapareçam para sempre. Mas se isso acontecesse não haveria mais os céos da literatura, as aguas paradas da poesia, os lagos imóveis do sonho. Tudo que é clássico, isto é, o que se ensina nas classes. . . O turista — Com quem tenho a honra de falar? O policia — Com a policia poliglota O turista — Oh! que prazer! O senhor sou eu mesmo na vóz passiva. Na minha qualidade de turista falo sete linguas, nesta edade! E não tenho mais governante! O policia — Também falo sete linguas, todas mortas. A minha função é mesmo essa, matal-as. Todo o meu glosario é de frases feitas. . . O turista — As mesmas que eu emprégo. Nós dois, só conseguimos catalogar o mundo, esfrial-o, pol-o em vitrine! O policia — Somos os guardiães de uma terra sem surprezas. 0 turista — E querem transformal-a! Absurdo! Não é melhor assim? Sabemos onde estão a torre de Piza, as Pirâmides, o Santo Sepulcro, os cabarés. .. A policia — Nossa desgraça seria immensa se subver tessem a ordem estabelecida nos Bedekers. Des-
35 ,li; r* T E A T R O
conheceriamos as pedras novas da vida, os feitos calorosos da rebeldia. Não distinguiríamos mais fronteiras e alfandegas. . . Perderiamos o pão e a função. O turista — E nós, os ricos, os ociosos, onde passear as nossas neurastenias, os nossos reumatismos? Onde? Perderiamos toda autoridade.
V ozes ao fundo
Os cremadores — Abaixo os mortos! Limpemos a terra! Abaixo! A policia — De um tempo para cá, não sei porque agravou-se a contenda. Creio que os vivos cresce ram, agora querem se emancipar. Os mortos os agrilhoam á industria. E eles querem ocupar fa b r i c a s , cidades e o mundo. . . Ingratos. Nao sabem que sem os mortos, eles não teriam tudo, emprego, salarios, assistência... o turista — E patrões. Que seria do mundo sem os , patróes? O policia — Eles querem queimar todos os cadaveres, os mais respeitáveis, os que fazem a fortuna das emprezas funerárias mais dignas, como a imprensa, a política. . . O turista — Acabam querendo queimar o cadaver da m
curiosidade, que sou eu! Saem da sena conversando
kl Vozes ao fundo — Abaixo a autoridade dos ociosos! Abaixo! Queremos o verbo creador da a çã o ... ! 0 poeta — (entra conversando com Horacio) — Dei xei-a para sem pre... Sinto-me atual. Longe da “ Apassionata” . Horacio — Pisas de novo a terra dos que ee embuçam nas regras do bom v iv e r... O poeta — Renovo-me na rua Horacio — É o paiz da gramatica. Nele acharás o teu elemento formal. 0 poeta Ainda guardo a esperança tragica de vel-a. ti Horacio — Voltas a essa mulher como um criminoso! O poeta — Porque eou o culpado Horacio — Deixaste-a? j O poeta — Fui andando cada vez mais para o lado das estrelas e ela ficou no meio da musica. . . Horacio — Estás marcado por ela. . . O poeta — Sinto-a como a culpa, como a esperança. . . r Sem ela a vida é deserta, o mundo é uma tragi ca planicie sem descanço! Ela é a caverna do in- dividuo. . . Onde me acolho sem nada esperar, sem nada desejar.. . Horacio — Ela te imobiliza e amortalha
T u m u lto ... Um pequeno Exercito da Sal vação, penetra na praça e se instala para um co m id o musical e pacifico. Um homem gordo, traz uma taboleta onde se lê «Deus
l'-'l
Patria e FamiÜa». E ’ o Hierofante. Sons fúnebres segfuem o bando fardado.
Horacio — São os mortog que m anifestam ... 0 poeta — Conheço aquele homem da taboleta Horacio — São os conservadores de cadaver... Tumulto do outro lado da sena. Um gru po de exaltados, em roupa pobre, protesta contra o com id o Hom ens e mulheres in vadem a cena.
Os cremadores —- Limpemos o mundo! Ahaixo os mortos! Eles comem a comida dos vivos! Ahaixo! 0 hierofante — Materialistas! O cremador — Ao contrario! Somos a constante idea lista que faz avançar a humanidade! O poeta — {apontando Beatriz que aparece com pas sos medidos, estatica sob um véo) — Eil-a! Que gestos solenes! {aproximando-se e falando-lhe) Voltas ao meu caminho? 5S* Beatriz — Todos os esforços me abandonaram! Onde estou? O poeta — No paiz da Ordenação. . . Beatriz — Os homens abateram as florestas. Expul saram os espiritos da terra! Substituiram as ar vores pelas armações metalicas. A natureza foi vencida pela mecanica! O poeta — Desfizeste tua frágil e confusa capa etica. Deixaste a sociedade dos hum anos...
Beatriz — Me reconheces? O poeta — Ainda trago no corpo o perfume lascivo de tuas calças! Beatriz — Sou virgem de novo. Não vês este véo? O poeta — fretira-o) É a mascara de um ente que se dispersa! O teu inhospito sêr se desagrega!
Beatriz — Ao contrario, encontrei a minha unidade! Horacio — (chamando-o) Deixa-a! Não vêg que ha bitas de novo com ela os subterrâneos da vida in terior? O poeta — Ela é o meu drama Horacio — O empresário da tua morte. Deixa-a! O poeta — Não O coração acorda de repente. E co meça o trabalho irracional. Corrosivo de todo de bate. .. A consciência torna-se um estado sentimen tal e a justiça foge do m undo.. . Oh ! drama ! Des envolvimento do proprio ser universal! Eu te busco ! Beatriz — Porque crias em mim pesados encargos as sim! E o sentimento de culpa! ' Desenvolvido na célula de um circo. O sentimento espetacular da culpa! A disciplina das feras, as grandes quédas sem rede, o amor pelo palhaço. Horacio — Foge! Não vês uma a uma as fições da vida interior? O poeta — Porque fugir? Para depois me arrastar pe los locaes em que a acompanhei? Me açoitar á sombra de seus gestos idos, procurando nos sena-
rios encontrados a dois, a sombra de seu ser, a lembrança de sua vóz? Ficarei perdido no mundo terrivel da r u a ... N ovo tumulto
Os cremadores — Fóra! Fóra os exploradores da vida! Limparemos o mundo! Beatriz — Quem são esses desordeiros? O poeta — É a vanguarda que luta pela libertação humana Beatriz — {sufocada) Quanta gente! Não posso, não posso me habituar. Esses homens procurando mu lheres esperando homens. . . 0 poeta — Pareces pertencer a um paiz assexuado. Que sentes? Tens os olhos longinquos, a boca vo luntariosa crispada! Os cremadores — Fogo nesses podres! Abaixo o des potismo dos mortos. A musica toca um tango. O Hierofante procura o Evangelho.
O hierofante — In illo tempore! Os cremadores — Fóra Fóra! O tumulto crece. Juntam-se aos cremado res galicismos, solecismos, barbarismos. D o lado dos mortos cerram colunas, graves in terjeições, adjetivos lustrosos e senhoriaes arcaismos.
\ã\ Coro das interjeições — Oh! A h! Ih! Os cremadores — Fora a estupidez das interjeições! O hierofante — Massa desprezivel de pronomes mal co locados ! O cremador — Fora! Quinhentistas! Falaes uma lin gua extranha ás novas catadupas humanas! O hierofante — Somos o vernáculo das caravelas.. . O cremador — No século do avião! Os cremadores — Somos a lingua falada pelo radio. . . Queima essa taboleta Os conservadores — Babél! Bahél! Os cremadores — Não! Somos os fundamentos do es peranto, a lingua de uma humanidade una! O hierofante — Não póde! Não póde! Quem poderá destruir uma frase feita? Os cremadores — Fora as frases feitas, as frases ôcas! Fóra as frases mortas! Os conservadores — Chama o juiz! Chama o juiz! A multidão — O juiz!
A charanga toca
Vozes — Ahi, vem o juiz. Ele julgará! Os conservadores — É um grande gramatico! Os cremadores — É um juiz de classe. Os conservadores — Viva o juiz! Viva o nosso que rido juiz! O juiz agradece a manifestação. Form am - se em to m o dele semi-circulos irados.
•'Ty*aI
O cremador — Conhecemos o julgamento! É contra nós! O juiz — Silencio! Julgarei segundo os cânones. Vozes — Os cânones mortos. O juiz — Começae a exposição do pleito. Sou todo ouvidos! Que Deus e Jesus Cristo me inspirem e me garantam o céo. 0 hierofante — Culto aos mortos! Culto aos mortos! Onde já se viu destruir um cadaver! Senhor juiz. A humanidade levou séculos para construir esta frase “ Deus, Patria e Familia” . Como derrogal-a? Como e porque? Beatriz — Como fala bem esse velho! O cremador — O que nos traz á sena é a fome. Mais que qualquer vocação. Muito mais que a vontade de representar. É o problema da comida! A pro dução da terra é desviada dos vivos para os mor tos. Nós trabalhamos para alimentar cadaveres. Mais eles absorvem a produção, mais aniquilam os vivos. Tudo que produzimos vae para sua boca insaciada. Eles possuem armas e dirigem exer- cietos iludidos pela ignorância e pela fé religiosa. Os cremadores — Rebelemo-nos! Vozes — Façamos a limpeza do míundo! Os cremadores — Queimemos os cadaveres que infes tam a terra! Vozes — Sim! A cremação! A cremação! Os cremadores — É preciso destruir os mortos que pa- rabsam a vida!
OSW ALD DE ANDRADE
Vozes — Vamos queima-los! O juiz — Esperae! Esperae a sentença. Tragam aqui o livro: Bi-blos Tudo está no Livro. (Colocam deante dele um grande livro aberto. Ele vira as paginas) Vamos ver. De-vo-ta-mento. . . Puri- • fi-ca-ção! Adeante! Vi-ver para os outros! Não! Está aqui! Aehei (lê num grande berro) Os-mor- tos-go-ver-nam os vi-vos! (Aclamações. Protestos) Os conservadores — Muito bem! Muito bem! O hierofante — Devemos obedecer os nossos maiores. E seguir o que está escrito. . . Vozes — Julgae! Julgae! O juiz — Os mortos governam os vivos. Premissa maior! Premissa m en or... os cremadores são ex cessivamente vivos! Ergo! E rgo! Devem ser. . . Conclusão! governados. . . Os conservadores — Governados por nós! Vozes — Muito bem! Muito bem! Outras vozes — Fóra! Idiota! Vendido! Cadaver! O bierofante — Eis um silogismo irrefutável! O poeta — Essa lógica tem servido de fundamento a todos os crimes históricos Os conservadores — É extraordinária a perspicácia dos livros! ✓
0 poeta — Fóra o velho argô dos filisteus! O cremador — Rebelemo-nos. Um dia sairemos de nos-
808 laboratorios 8ubterraneo8.. . Para limpar o mundo de toda putrefação! As interjeiçõe8 — Ah! Oh! Ih! A charanga dos conservadores de cadaver form a um séquito e conduz o juiz em triunfo.
Os conservadores — {retirundo^sB) Abaixo os solecis mos! Abaixo os barbarismos! Abaixo! Uma roupa de homem — {passando) Bôa tarde, linda! Beatriz — Bôa Tarde. O poeta — Quem é? Beatriz — Um conhecido. Estive hontem com ele. . . O poeta — Impossivel. . . Beatriz — Sim. Pediu-me que fosse sua! Falou-me da eternidade. Mas lembrei-me de tuas palavras. Recusei. Ele disse — Não insisto! Sei que serás minha! O poeta — Mas é um morto, querida! Beatriz — M orto!? O poeta — Sim. Tu não morreste querida. . . Não podias ter te avistado intimamente com ele, que não existe. Por acaso não notaste as suas roupas despegadas do corpo. É um morto. Não sabes? Beatriz — Aqui na cidade? O poeta — Sim, meu amor. Os mortos ainda infes tam a terra viva. Metade da população desta pra ça é de gente morta.
réI Beatriz — Se eu tivesse morrido, serias um necrofilo! O poeta — Ter-te-ia abandonado! Beatriz Não podes abandonar-me! Nasci da sele ção de ti mesmo! (Declamando) Comecei a pal pitar com a tua religião infantil, com a tua cultura adolescente! Fui o cofre heráldico das tuas tradi ções, a cuma de tua gente! 0 poeta — Como te encontro mudada! Não te recor das sinão de evocações e cadeias! Beatriz — Tu te tornaste um puro estimulo mecânico. Não acodes aos chamados de tua alma! O poeta — Os acentos de minha dor não te penetram mais. Não quebram a mudez do teu mundo de pe dra. Estás perturbada, os olhos longinquos a boca voluntariosa crispada. Beatriz — {depois de um silencio evocativo) Pertenço 5j ás regiões da amnésia. O poeta — No emtanto não poderei fazer mais nada 'n a sem ti! Sem teu calor e tua adoração. & Beatriz — Amo-te ainda. Vem comigo. Nada póde conter a vida. . , O poeta — A m orte.., Beatriz — Nunca a tua febre amorosa deixou o meu corpo A charanga dos conservadores de cadaver passa ao fundo.
Beatriz — Vamos com eles, poeta! 0 poeta — Não
íM
B«atriz — Vamos! 0 poeta — Queres seguir a musica da morte? Beatriz — O juiz decidiu. . . O poeta — O juiz é um morto também Beatriz — Somos todos mortos! O poeta — Vem para o outro lado! Minha ação he roica e pratica te salvará A vóz de um cremador — É preciso mudar o mundo! A vóz do hierofante — É preciso conservar as institui ções! A vóz do cremador — É preciso queimar os cadaveres que infestam a terra. Eles tiram os alimentos dos vivos. Vózes — Querem mudar a superestrutura. Uma vóz — O comportamento. Outra vóz — A reflexiologia. Beatriz — A raiz de tudo é o sexual. O amor é o quero-porque-quero da vida. Nessa frente unica a humanidade hezita. . . Vem O poeta — Não, o social domina os humanos. Vem connosco. Vem com os liberadores do grande con flito! Beatriz —>Como és cândido. O que os homens que rem é isso, só isso! (Coloca as mãos recatada mente sobre o sexo) O poeta — És a morte, o abysmo final, o longe da terra. Beatriz — Sou a imagem do sexual. O poeta — Estás deformada, longinqua, inexata. . .
Pareces despegada dos ossos, como aquele que te cumprimentou. Beatriz — Tenho um encontro marcado com ele O poeta — Impossivel. É um morto! A charanga do exercito da morte toma con ta da sena lentamente. Beatriz centralisa-o.
Vozes — Culto aos mortos! Culto aos mortos! Passa gem para um grande en terro... {Saem levando-a) O poeta — Força de resistência ao mundo que co meça . . . Horacio — Onde vais? Que tens? O poeta — Estou como quem perdeu um brinquedo querido. . . espera. . . Horacio — Deixa-a! O poeta — Horacio, não escalpeles minha dor! Estou marcado por ela Horacio — Onde vais? i
O poeta — Salval-a! Horacio — Como? O poeta — Pelo primeiro avião. . . Numa folha morta passarei a garganta cerrada da outra vida.
Sae correndo atraz do cortejo, cuja charan ga ainda se ouve.
Horacio — Insensato! Poeta! Guardar-te-ão para sempre os dentes fechados da morte!
TELA