O rei da vela: Abelardo sucede Abelardo
Abelardo II — {fingindo-se possesso de surpresa, deixa rolar a lanterna, emquanto Heloisa na mesma posi ção, recomeça os soluços intérminos) — Mas que houve? Que foi? O que é isso? Meu Deus. {A per ta o botão da luz). Curto circuito! Abelardo I — Não. Foi você que quebrou. Ladrão de primeira viagem! Fez bem! Pouparemos a luz electrica. A conta do mez passado foi alta demais! Acenda todas as velas! Economia em re gressão. As grandes emprezas estão voltando á tração animal! Estamos ficando um paiz modesto. De carroça e vela! Também já hipotecamos tudo ao estrangeiro, até a paisagem! Era o paiz mais lindo do mundo. Não tem agora uma nuvem de sonerada. .. Mas não irá ao su icíd io... Isso é para mim. Abelardo II — Porque fez essa loucura?
n Abelardo I — Um homem não tem importância. . . A classe fica. Resiste. O poder do espiritualismo. Metempsicose social. . . Abelardo II — Quer que chame um medico? Abelardo I — Para que? Para constatar que eu re vivo em você? E portanto que Abelardo rico não pagará a conta de Abelardo suicida? Abelardo II — Póde salvar-se ainda. Como fica essa pobre m o ç a ... No desamparo {Heloisa soluça fortissimo) Quer um padre? Póde ainda reali zar o casamento.. . Abelardo I — Que necessidade tem você de casar com a minha viu va ... Vae tel-a virgem! e de branco... fí. Abelardo II — Virgem! Heloisa virgem! {Heloisa di minue os soluços) Abelardo I — Se o americano desistir do direito de per nada . . . Abelardo II — De pernada? Abelardo I — Sim, o direito á primeira noite. E’ a í ffl' tradição! Não se afobe, pequeno burguez sexual e imaginoso! Não se esqueça que estamos num paiz semi-colonial. Que depende do capital extran- í\/r.) geiro. E que você me substitue, nessa copa nacio nal! Diga, onde escondeu o dinheiro que aba fou? . . . Abelardo II — Que dinheiro? Abelardo I — O nosso. O que sacou ás dez horas preci sas da manhã. O dinheiro de Abelardo. O que í -1
troca de dono individual mas não sae da classe. O que atravez da herança e do roubo, se eonserva nas mãos fechadas dos ricos. .. Eu te conheço e identi fico, homem recalcado do Brazil! Producto do clima, da economia escrava e da moral deshumana que faz milhões de onanistas desesperados e de pederastas... Com esse sol e essas m u lh eres!... Para manter o imperialismo e a familia reaciona- ria. Conheço-te, féra solta, capaz dos peores pro- positos. Febronio dissimulado das ruas do Brasil! Amanhã, quando entrares na posse da tua fortu na, defenderás também a sagrada instituição da fa milia, a virgindade e o pudor, para que o dinheiro permaneça atravez dos filhos legitimos, numa classe só.. . Abelardo II — Eu sempre defendi a tradição.. . e a m o ra l... Abelardo I — E defende também a casa feudal!. . . Se salvares a fazenda das unhas militarizadas do Per digoto, eonserva a Casa da familia. Não reformes nada! A casa feita para ter muitos creados, um resto de mucamas e negras velhas, lembrando o tronco! E um grande quarto frio para dois seres que se traem e se detestam dormindo na mesma cama e orando no mesmo oratorio. A casa antiga, colonial, um mundo que resiste! Mais que e u ... Foi a bala do cano que penetrou profundamente, a primeira. . . As outras rodearam o coração! Que dôr. . . Decerto é porque o coração
ficou in tacto... O coração, esse utero do homem, onde a gente gera os filhos mais caros. . . a ambi ção, o amor, o desespero, a vontade de viver. . . a literatura. .. Escuta, Abelardo! Abandonaste o so cialismo? Abelardo II — Faço-lhe presente dele! Abelardo I — Mas eu não aceito. Neste momento eu quero a destruição universal. . . O socialismo con serva. . . Abelardo II — Virou bolsbevista! São todos assim ... Quando era o grande milionário e emprestava a 15% ao mez e eu lhe falava dos ideaes humanitá rios e moderados do socialismo, caçoava. Conhe cia tudo, lia tudo, mas se r i a .. . Agora. .. Abelardo I — Sempre soube que só a violência é fe cunda . . . Por isso despresei essa contrafação. Che guei a preferir o fascismo do Perdigoto. Mas ago ra eu queria outra coisa. .. ff Abelardo II — O comunismo.. . Abelardo l — Para te deixar um veneno pelo menos misturado com Heloisa e os meus cheques. Deixo vocês ao americano. . . E o americano aos comu nistas. Que tal o meu testamento? Abelardo II — São todos assim como você, passam pa ra o outro lado quando estão arruinados! Abelardo I — E’ um erro teu! Se todos fossem como o oportunista cinico que sou eu, a revolução social nunca se faria! Mas existe a fidelidade á miséria!
Eu estou saindo da luta de classes.. . já está ahi pT"- , a maca onde o meu carpo vestido e inerte substi tuirá o corpo voluptuoso de Heloisa. . . Mas se sa rasse . . . regressava á arena na posição que ocupei. Não adheria. . . Talvez mudasse de dono. Voltava a trabalhar para o imperialismo in g le z... Abelardo II — Pão duro. .. Abelardo I — Pão amanhecido! Abelardo II — Eu fui o teu obstáculo! Abelardo I — Mas a tua vida não irá muito além desta p e ç a ... Abelardo II — Me matas? Abelardo I — Para que? Outro abafaria a banca. So mos uma barricada de Abelardos! Um cae, ou tro o substitue, emquanto houver imperialismo e diferença de classes. . . Í,1P Abelardo II — Ora, que sujeito! Fazendo visage na hora da morte! Abelardo I — Não sou nem siquer um demagogo. Esta sena é ainda um episodio da concorrência. Uma briga burgueza. Eu quero mesmo depois da mor te, te suplantar na memória dela que vai ser tua mulher. Abelardo II — Minha mulher? Abelardo I — Como meu irmão será o teu advogado! (Silencio) Abelardo II — (calculando) Ele conhece o sistema da casa.. ,
Abelardo I — Somos uma historia de vanguarda. Um caso de burguezia avançada. . . Abelardo II — Num paiz medieval! Abelardo I — O calculo frio é a nossa honra. O sys- tema da casa! Não morro como um convertido. Se sarasse ia de novo lutar pela nota. Ia ser peor do que fui. E mais precavido. A nevrose do lucro! Quem a conhece não a larga mais. E’ a mais bela posição do homem sobre a terra! Nenhuma mili lil tância a ella se compara. Nenhuma religião. Se vejo com simpatia neste minuto da minha vida que se exgota, a massa que sairá um dia das catacumbas das fabricas... é porque ela me vingará... de v o c ê ... Que horas são? Moscou irradia a estas horas. Você sabe! Abra o radio. Abra. Obedeça! E’ a ultima vontade de um agonizante de classe! Abelardo II — (obedecendo) — Ondas curtas. 25, onda de má reputação. Quantas vezes escutei is s o ... Abelardo I — E’ o vasio debaixo dos pés, o abismo aberto. . . a catástrofe! (Silencio. Ouvem-se os sons da Internacional) o hino dos trabalhadores... Abelardo II — A Internacional...