O rei da vela: o escritorio de usura
o REI DA VELA PEÇA EM TRES ATOS
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PERSONAGENS DRAMÁTICOS
ABELARDO I ABELARDO II H E L O ÍS A D E L E S B O S JO A N A conhecida por JO A O DOS D IV A N S
T O T Ó FR*UTA D O C O N D E CORONEL B E L A R M IN O
D O N A C E S A R IN A
D O N A P O L O Q U IN H a P E R D IG O T O
O A M E R IC A N O O C L IE N T E O IN T E L E C T U A L P IN O T E
A S E C R E T A R IA DEVEDORES, DEVEDORAS O PONTO
1 .“ A T O Em São Paulo. Escritório de usura de Abelardo & Abelardo. Um retrato da Gioconda. Caixas amontoadas. Um divan futurista. Uma secretaria Luiz X V . Um castiçal de latão. Um telefone. Sinal de alarma. Um mostruário de velas de todos os tamanhos e de todas as côres. Porta enor me de ferro á direita correndo sobre rodas horizontalmente e deixando vêr no interior as grades de uma jaula. O Pron tuário, peça de gavetas com os seguintes rotulos: M A L A N D R O S — IM P O N T U A E S — P R O N T O S — P R O T E S T A DOS. — Na outra divisão: P E N H O R A S - - L IQ U ID A ÇÕES — s u i c í d i o s — T A N G A S .
Pela ampla janela entra o barulho da manhã na cidade e sae o das maquinas de escrever da ante-sala.
ABELARDO I ABELARDO II — C L IE N T E
Abelardo I — {sentado em conversa com o cliente. Aperta um hotão^ ouve-se um forte barulho de cam painha). — Vamos v ê r ... Abelardo II — {v(este botas e um completo de domah dor de feras. Usa pontinha e enormes bigodes re torcidos. Monoculo. Um revolver á cinta). — Pronto seu Abelardo. Abelardo I — Traga o dossier desse homem. Abelardo II — Pois não! o seu nome? Cliente — (embaraçado^ o chapéu na mão, uma gra vata de corda no pescoço magro). — Manoel Pi tanga de Moraes. ,>
Abelardo II — Profissão? r.
Cliente — Eu era proprietário quando vim aqui pela primeira vez. Depois fui dois annos funccionario i S i
da Estrada de Ferro Sorocabana. O empréstimo, i o primeiro, ereio que foi feito para o parto. Quan 1 fi do naseeu a menina. . . Abelardo II — Já sei. Está nos IMPONTUAES {en 1 t trega o dossier reclamado e soe). j.
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Abelardo I — (examina) Veja! Isto não é commer- cial seu Pitanga! O senhor fez o primeiro enipres- Ij timo em fins de 29. Liquidou em Maio de 1931. Fez outro em Junho de 31, estamos em 1933. Re formou sempre. Ha dois mezes suspendeu o ser viço de ju r o s ... Não é commercial. . . O cliente — Exactamente. Procurei o senhor a segunda vez por causa da demora de pagamento na Estrada, com a Revolução de 30. A primeira foi para o parto. A creança já tinha dois anos. E a revolu ção em 30.. . Foi un^ mau successo que complicou tudo. . . Li Abelardo I — O senhor sabe, o sistema da casa é refor mar. Mas não podemos trabalhar com quem não paga ju r o s .. . Vivemos disso. O senhor cometeu a maior falta contra a segurança do nosso negocio e o sistema da casa... O cliente — Ha dois mezes sómente que não posso pa gar juros. Abelardo I — Dois mezes. O senhor acha que é pouco? O cliente — Por isso mesmo é que eu quero liquidar.
Entrar num acordo. Afim de não ser penhorado. Que diabo! O senhor tem auxiliado tanta gente. E’ o amigo de todo mundo. . . Porque comigo não ha de fazer um acordo? Abelardo I — Aqui não ha acordo, meu amigo. Ha pa gamento !
O cliente — Mas eu me acho numa situação triste. Não posso pagar tudo, seu Abelardo. Talvez comsiga
t um acordo. A minha situação é triste. . . Não te nho culpa de ter sido dispensado. Empreguei-me I outra vez. Despediram-me por economia. Não ponho minha filhinha na escola porque não posso comprar sapatos para ela. Não hei de morrer de fome também. As vezes não temos o que comer em casa. Minha mulher agora caiu doente. No
6 — TBATRO
emtanto, sou um homem habilitado. Tenho pro curado inutilmente emprego por toda a parte. Só^ tenho recebido nãos enormes. Do tamanho do céo! Agora, aprendi escrituração, estou fazendo umas escritas. Uns biscates. Hei de arribar... Quero ver se adeantam para lhe pagar. Abelardo I — Mas emfim, o que é que o senhor me pro põe? O cliente — Uma pequena redução no capital. Abelardo I — No capital! O senhor está maluco! Re duzir o capital? Nunca! h i O cliente — Mas eu já paguei mais do dobro do que levei d’a q u i... Abelardo I — Me diga uma coisa, seu Pitanga. Fui eu que fui procural-o para assinar este papagaio? Foi o meu automovel que parou deante do seu ca sebre para pedir que acceitasse o meu dinheiro? Com que direito o senhor mie propõe uma redução no capital que eu lhe emprestei? O cliente — {desnorteado) Eu já paguei duas vezes... Abelardo I — Suma-se daqui {levanta-se) Saia ou chamo a policia. É só dar o sinal de crime neste apare lho. A policia ainda existe... O cliente — Para defender os capitalistas! E os seus crimes ! Abelardo I — Para defender o meu dinheiro. Será exe cutado hoje mesmo. (Toca a campainha). Abe lardo! Dê ordens para executal-o! Rua! Vamos. Fuzile-o. É o sistema da casa.
O cliente — Eu sou um covarde! {vae chorando) O senhor abusa de um fraco, de um covarde!
M E N O S C L IE N T E
Abelardo I — Não faça entrar mais ninguém hoje. Abelardo. Abelardo II — A jaula está cheia. . • Seu Abelardo! Abelardo I — Mas esta sena basta para nos identifi car perante o publico. Não preciso mais falar com
nenhum dos meus clientes. São todos eguaes. So bretudo não me traga paes que não podem comprar sapatos para os filh o s ... Abelardo II — Esse está se queixando de barriga cheia. I; ) I I fj. ‘r' -.jf'
Não tem prole numerosa. Só uma filh a ... Familia pequena! Abelardo I — Não confunda, seu Abelardo! Familia é uma cousa distincta. Prole é de proletário. A familia requer a propriedade e vice-versa. Quem não tem propriedades deve ter prole. Para traba lhar, os filhos são a fortuna do pobre. . . Abelardo II — Mas hoje ninguém mais vae nisso. . . Abelardo I — E’ a desordem social, o desemprego, a Rússia! Esse homem possuia uma casinha. Tinha o direito de ter uma familia. Perdeu a casa. Ca vasse prole! Seu Abelardo, a familia e a proprie dade são duas garotas que frequentam a mesma garçoniere, a mesma farra. . . quando o pão so bra . . . Mas quando o pão falta, uma sae pela porta e a outra vôa pela ja n ela ...
-íiI' ' 4 í Abelardo II — A família é o ideal do homem! a pro priedade também. E Dona Heloisa é um anjo! Abelardo I — Você sabe que não ha outro genero no mercado. Eu não ia me casar com a irmã mais moça que chamam por ahi de garota da crise e de João dos Divans. Nem com o irmão menor que todo mundo conhece por Totó Fruta do Conde! Abelardo II — Um degenerado. . . Abelardo I — Coisas que se compreendem e relevam numa velha familia! Heloisa, apezar dos vicios que lhe apontam .. . Você sabe, toda a gente sabe. He loisa de Lesbos! Fizeram piada quando comprei uma ilha no Rio, para nos casarmos. Disseram que era na Grécia. Apezar disso, ela ainda é a flor mais decente dessa velha arvore bandeirante. Uma das famílias fundamentaes do Império. Abelardo II — 0 velho está de tanga. Entregou tudo aos credores. « It I Abelardo I — Que importa? Para nós, homens adean- .1 tados que só conhecemos uma coisa fria, o valor do dinheiro, comprar esses restos de brazão ainda é negocio, faz vista num paiz medieval como o nosso! O senhor sabe que São Paulo só tem dez famílias? Abelardo II — E o resto da população? Abelardo I — O resto é prole. O que eu estou fazendo, ( V' o que o senhor quer fazer é deixar de ser prole' para ser familia, comprar os velhos brazões, isso até parece theatro do século 19. Mas no Brasil ainda é novo.
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Abelardo II — Se é! A burguezia só produziu um tea tro de classe. A apresentação da classe. Hoje evo t; . luímos. Chegamos á espinafração. Abelardo I — Bem. Veja o bordereau. . . O Banco devolveu inuita coisa? Abelardo II — Xu! um colosso! Estamos no vinagre, seu Abelardo! Abelardo I — V am os... Abelardo II — (lendo) Cinco contos setecentos e seten ta. Dr. Carlos Magalhães de Moraes Benevides Fonseca. Chapa u n ica ... Reforma-se? Não pa ga juros ha 2 mezes. Abelardo I — Reforma-se. Abelardo II — Antunes & L a p a ... tres con tos... já protestei. Mangioni. . . Luiz. O bicheiro.. . Dr. João Carlos de Menezes R o ch a ... dois con tos... Abelardo I — Pro protesto. Abelardo II — Barão de Gama Lima, quinhentos mil réis. . . Abelardo I — Pro protesto. Abelardo II — Moura M ello.. . setecentos mil réis Abelardo I — Pro protesto! Abelardo II — Abrahão Calimerio.. . dez contos Abelardo I — Pro protesto! Abelardo II — Carlos P eres... Esta já foi pro pau hon- te m ... Abelardo I — Ele não pediu reforma? Abelardo II — Não. Abelardo I — E porque? I
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Abelardo II — Tomou dois copos de limonada com iodo. Está aqui no jornal (procura) Diz que está em estado de coma, na Santa Casa. . . Abelardo I — Mande o Bemvindo fazer a penhora. De pressa. Antes que ele morra e a venda feche. . . Abelardo II — Está certo. Esta é . .. daquele funcio nário publico, o Pires L im p o ... Ele está limpo e m de pires! Mandou a filha aqui. Abelardo I — Bonita? Abelardo II — Pancadão! Dezoito anos. . . Cada dente deste tamanho. Abelardo I — Mandou a filha? O mez passado veiu a £ mulher. Li Abelardo II — Eu vi. G e ito sa ... Mas muito faladei ra Queria saber onde é que o senhor morava, fa lou na compra da ilha no Bio, onde o senhor vae se casar. Que ia levar de avião uma porção de gente de São Paulo. Abelardo I — (batendo o p é numa grande caixa de pa^ pelão) — Que é isto aqui?
tI Abelardo II — Fôrmas de chapéu (mostra o castiçal de latão) a penhora de Mme. Lanale. Só tinha i- ^ isso e aquelle candelabro. Quasi que não dá para pagar os tiras que ajudaram.
Abelardo I — E os m oveis... Abelardo II — Ficaram despedaçados na rua. Eram duas peças velhas, de ferro. Foi um escandalo. O estado maior teve que agir duro. O povo queria se opor. Juntou g en te...
T E A T R O
Abelardo I — Que estado-maior? Abelardo II — Os officiaes de justiça. . . Abelardo I — Mas o exemplo ficou! Abelardo II — E frutificará. Abelardo I — A rua inteira sabe que penhorei porque não me pagaram 200$000. A cidade inteira sabe. Talvez gastasse mais n isso ... Que importa? Dura Lex, aprendi isso na Faculdade de Direito! Aibelardo II — Queria que o senhor visse a choradeira! A viuva berrava na janela: — Gli orfani! Gli or- fani! Non abiamo piu lavoro! Abelardo I — O que? Abelardo II — Ela queria dizer que os orfãos não ti nham mais o que comer. Tiramos os instrumen tos de trabalho. Abelardo I — M anhosa... Abelardo II — Só se pode prosperar a custa de muita desgraça. Mas de muita mesmo. . . Abelardo I — Se não for assim como garantirei os meus depositantes. Se nao tiro do outro lado? Ofereço juros que os bancos não pagam. Os juros que só alguns pagavam nos bons tempos. 4 e até 5 por cento ao ano! Abelardo II — Também o dinheiro corre para a q u i!.. . Lá em baixo a secção bancaria está assim! Abelardo I — Ofereço boas garantias. E também exijo bôas garantias, quando em presto... Abelardo II — A 5 e 10 por cento ao m e z ... Por fi lantropia! (O telefone) E’ seu irmão.
OSW ALD DE ANDRADE
Abelardo I — Meu advogado. Abelardo II {no fone) Sim senhor. Está {para Abe lardo) Diz que entrou no Forum com tres execu tivos. Está chamando o senhor. . . Abelardo I {ao fone) Como? Sou e u ... Abelardo. 0 Theodoro? Quer se prevalecer da lei de usura! Grande besta! E pede reforma! Linche esse ca marada. Ponha flite nele e acenda um fosforo! {bate o fone) Pro pau com esse bandido! Lei contraia usura! Miseráveis! Bolshevistas! Por isso é que o paiz se arruina. E ha um miserável que quer se aproveitar dessa iniquidade. Abelardo II — Leis sociaes... Abelardo I — Sucia de deshonestos. Intervir nos ju ros. Cercear o sagrado direito de emprestar o meu dinheiro á taxa que eu quizer! E que todos acei tam. Mais! Que vem implorar aqui! Sou eu que vou buscal-os para assinar papagaios? Ou são eles que todos os dias enchem a minha sala de es pera? Abra a jaula!