A morta: O pais da anestesia Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 4 de 13
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A morta: O pais da anestesia

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PERSONAGENS DRAMÁTICOS

B E A T R IZ ^ O POETA O H IE R O F A N T E A CREANÇA DE ESM ALTE

SEU S P A E S O A T LE T A COM PLETO O R A D IO P A T R U L H A , acompanhado de uma motocicleta

A D A M A D A S C A M E L IA S A SENHORA M IN IS T R A

CARONTE O URUBÚ DE EDGARD

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A sena representa um recinto sobre uma paisagem de aluminio e carvão. A ’ direita um aerodromo que serve de necrotério. A o centro um jazigo ív de familia. A ’ esquerda a arvore des- galhada da Vida, em forma de cruz, onde arde pregado um facho. Um grupo de cadaveres recentes está conversando nos degraus do jazigo. Passagem lateral para a platea, onde a primeira fila de cadeiras se conser­ vará vasia.

O radio patrulha — Ouve-se já o ruido do motor! Híi A dama das camélias — Escutem! O atleta completo — Não é! A senhora ministra — É uma mosca O hierofante — Não O atleta completo — Agora é! A dama das camélias — Não A senhora ministra — A mosca * •___ 0 hierofante — O autogiro de Caronte. . .

A senhora ministra — É uma mosca no interior do meu nariz! silencio

A senhora ministra — Gostaria de conhecer o poeta. . . O radio patrulha — Ele vem de autogiro. O hierofante — Não. É Caronte que vem de autogiro, trazendo a morta! A dama das camélias — Quem é? O hierofante — Beatriz A senhora ministra — E ele? O hierofante — O poeta vem de planador. Só assim penetrará nestas paragens. . . ' A senhora ministra — O motor O hierofante — A mosca O pae {pondo a cabeça pela ogiva do jazigo) Silencio! Eu habito um lugar silencioso ou não? Eu me ma­ tei para ouvir a solidão. Para estar só! Não viver em sociedade. Em nenhuma sociedade. E me encontro assediado de intrigas, cumulado de vis preocupações. 0 hierofante — Faço sentir que o visinho está num cè- miterio de primeira. Não ha melhor. O pae Por isso é que eu não queria embarcar no autogiro silencio

O hierofante — O m o to r... A dama — 0 p o e ta ...

í '? A senhora ministra — A mosca. . . I

i-: O urubu de Edgard atravessa a sena ao fundo.

O radio-patrulha — Ouço v ozes... A dama — É a mosca a zu l... O hierofante — É o urubú de Edgard. O radio-patrulha — Silencio! O hierofante — Fiquemos concentrados como perfu­ mes. berreiro no jazigo

O menino de esmalte — A i! A i! {espia pela vigia) Os cadaveres — Que é isso? Que é isso! O hierofante — Uma sena de familia. A senhora ministra — Que pessoal escandaloso! A dama das camélias — Brigam sempre. Nunca pen­ sei que fosse assim no seio da sociedade honrada! O hierofante — Gente católica. E extremamente con­ ceituada. O drama que os trouxe para cá teve a kl mais tetrica repercussão nos meios distintos. In A senhora ministra — Como foi? O hierofante — Gaz! suicidio coletivo. A dama das camélias — E ninguém escapou? O menino — {pela vigia) Esse sujeito além de me ter suicidado, não quer me dar doce! ir" O pae — Cala a hoca! O menino — Depois diz que é pae! O pae — O amante de tua mãe te dava doces!

O menino — É por isso que eu gostava dele. . . O pae — Cinico, bastardo, filho de uma. . .

pancadaria, urros, choros

A dama das camélias — Esta arvore não tem sombra. O radio patrulha — Gastou o que tinha em 60 sécu­

A senhora ministra — Porque a trouxeram para c á ? . . . O hierofánte — É uma peça de museu. Como nós A dama das camélias — Foi ela que fez a queda do pri­ meiro pae O hierofánte A qu ed a... Quando o toglodita desceu da arvore... caíi. E se tornou o h om em ... A dama das camélias — É a Arvore da V ida. . . O atleta completo Da vida espiritual. A unica que me interessa. . . A senhora ministra — Quem é esse sujeito? O radio patrulha — Ê um atleta completo A dama das camélias — Mas não tem frutas essa ar­ vore? I j O hierofánte — Tinha uma. Comeram. Foi com seus . galhos que se acendeu o primeiro fo g o . . . E com ela toda, se fará a ultima fogu eira... A senhora ministra — Então é uma incendiaria? II O hierofánte — Nela costumamos festejar o Natal dos falecidos. . . O menino — {pela vigia) Eu quero um b rin qu edo... O pae — Vai pedir ao amante de tua mãe,

T E A T R O

A mãe — Ele nunca me passou as doenças que trou­ xeste para casa. A dama das camélias — Conte-nos a historia da queda de, A dão. . . O hierofante — Levou um to m b o ... Quando se levan­ tou do solo estava creada a propriedade privada. .. A senhora ministra — Foi dessa arvore que ele des­ pencou . . . O motociclista — Então que somos? O hierofante — O conteúdo das m itologias... O atleta completo — O alimento espiritual dos mortos! A senhora ministra — O sustentáculo das religiões! O hierofante — Depois que o ouro nos expulsou da Edade de Ouro.. . exploramos a fabula.. . O radio patrulha — E o trabalho da terra A dama das camélias — Então foi um choque fisico que produziu o homem? O hierofante — Não. Foi um choque economico. Ca­ indo da arvore ele perdeu os frutos com que se alimentava. A senhora ministra — Engate o radio, seu patrulha. O radio patrulha — Não posso. Só tenho na minha motocicleta uma estação emissora. A senhora ministra — Que pena! A gente podia até ouvir a terra. . . Escutar a Giovinezza. . . Ir ás cor­ ridas de longe. A dama das camélias — No meu tempo eu adorava as corridas.

A Benhora ministra — Oh! as corridas! Longchamps! O Derby de Epson! Eu tinha um coronel que me pagava o taxi o dia inteiro, só para namorar os meus braços nas corridas. Era um homein casado, muito serio!

O urubú de Edgard passa ao fundo.

A dama das camélias — Quem é esse passarinho? O atleta completo — É o espirito da arvore A dama das camélias — Como é que se chama? O hierofante — O urubú de Edgard A senhora ministra — Quem é mesmo o dono? O hierofante — Um literato, Edgard Poe A dama das camélias — Para que serve um bicho desses? O hierofante — É quem fornece certidões de obito. A dama das camélias — Onde que ele mora? O hierofante — No interior ôco da cruz A senhora ministra — Ó vida chata! 'Á O hierofante — Que vos falta aqui? Í

A dama das camélias — A primavera! Passaros colo­ ridos! Gritos dálma! Namorados! A senhora ministra — Vamos inventar um> joguinho? 0 hierofante — Jogaremos golf com as nossas cavei­ ras . . . O atleta completo — Faltam as esteques 0 radio patrulha — Jogaremos com as nossas proprias tibias.

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A senhora ministra — Não. Melhor é 1er a mão. Um brinquedo de sociedade. . . O atleta completo — O hierofante sahe 1er. A senhora ministra — Disseram uma vez que eu ia mor­ rer aos oitenta anos. . . Me blefaram. O hierofante — Aqui é impossivel ler-se a mão a al­ guém. A dama das camélias — Porque? O hierofante — Porque não temos mais linhas nas mãos tum efactas... {todos examinam as proprias mãos) Está tudo esgarçado pela morféa lenta e de­ H' finitiva da morte. Vivemos na negação. O atleta completo — Na eternidade. O hierofante — No além do espaço. A senhora ministra — 0 poeta não virá até aqui atraz da morta! A dama das camélias — Virá. Eu que fui mulher da vida sei que ele virá A senhora ministra — Quem é a senhora? A dama das camélias — Não vê? {mostrando as flores que a envolvem) Sou a dama das camélias. A senhora ministra — Pois eu fui a senhora legitima de um ministro. . . O atleta completo — Não adiantou nada. Apodreceu como eu. Eis aqui o que resta de um atleta com­ pleto.

A senhora ministra — O’ ! patrulha! Liga o radio na ‘ motocicleta. Fala a Nirvana-emissora! Vamos > desmoralizar toda vida. 0 hierofante — Não! O atleta completo — Porque? O hierofante — Estas coisas mecanicas não convem ao nosso estado onirico. A senhora ministra — Mas a irradiação nos interessa. O atleta completo — É um desabafo espiritual.. . A senhora ministra — Um passa te m p o ... A dama das camélias — Trouxemos connosco todos os recalques terrenos. A senhora ministra — Ou não habitamos o paiz sem censura. . . A dama das camélias — O autogiro está se aproximan­ do. 0 poeta virá atraz. . . O hierofante — Agora é O radio patrulha — Viva Caronte! Os mortos — (manifestando) Viva! Viva o iniciador! a

& Viva! A senhora ministra — Silencio! O hierofante — Que reine entre nós o-silencio que con­ vem aos mortos. i Permanecem todos estáticos com o figuras de cera. O urubú de Edgard se ímobiii- za junto á arvore esgalhada. Escuta-se o ruido de um motor. Um autogiro desce verticalmente, e dele sae Caronte trazendo nos braços um corpo de mulher amortalha­ do num grande renard argenté.

O hierofante — Está morta? Caronte — Não insistiu em ficar O hierofante — Os mortos não insistem Caronte — {depositando o corpo sobre a mesa de már­ more do necrotério) O serviço terreno me reclama 4: parte no autogiro

O atleta completo — Sinto dores reumáticas. .feÔ ií y ií t O hierofante — Cuidado O atleta completo — Porque? O hierofante — O poeta póde chegar a qualquer mo­ mento. O atleta ompleto — Mas sinto dores fulgurantes! 'r A senhora ministra — Voce tem ahi uma holsa de agua quente? A dama das camélias — Sinto um frio enorme no peito! O hierofante — Ê a presença dos sopros auguraes da terra. A dama das camélias — O poeta. 0 hierofante — Ele virá cantando a grandeza do agir. . . A senhora ministra — Quem é que faz o discurso de recepção? 0 radio patrulha — A motocicleta. . . O hierofante — Tornastes-vos ridiculos á aproximação da vida A dama das camélias — Tornamo-nos humanos. O poeta — {procura na sena) Beatriz! Beatriz! Ré­ tif icadora de meus caminhos! Que tive longe de ti? Cachos de desgraças. Ofereço-te o terreno ala-

OSW ALD DE A N DRADE

gado de meu sentimento! Sem desejar nada de ti, de teu corpo sepulcral, ofereço-te o meu coração (descerra o Renard) Beatriz! Beatriz — Sacrilégio. O poeta — Beatriz! Beatriz — Dizes tão bem o meu nome! Porque tudo que te dou de emoção, de força creadora, não pões em tua arte estancada! O poeta — Falas de novo a linguagem da vida! Que­ res de novo dar existência ao poema de meu en­ contro ! Beatriz — Que fizeste poeta! Não pódes penetrar no paiz que eu habito. Não pódes perscrutar minha sagrada intimidade com os automatos! O poeta — Lacera-me de novo a angustia creadora. Ve­ nho de uma noite cheia de passos e de vultos, a noite sem ti! Beatriz — Que se passa lá em baixo onde ha a chuva? O poeta — A chuva coiteira de tragédias! Beatriz — O Égo e a Gramatica. O poeta — Pareces anestesiada num lençol de argila! Beatriz — Interrompeste o meu sonno, poeta! És a in- eçí 0 poeta — Como falas diferente! Trazes no fácies os sinaes da decomposição de tua unidade! Beatriz — Pelo contrario. . . O poeta — És a mascara de um ser que se dispersa. Teus olhos deliram emquanto a tua boca amarga

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sorri. Tens os cabelos do homem de Neendertal, coroados de espinhos! Beatriz — Sou o primeiro degrau da vida espiritual! O poeta — O que me chama é o drama. Drama, desen­ volvimento do proprio ser universal! Beatriz — Quero plata. . . O poeta — Disimetria, minha creadora dissimetria! ài' Beatriz — Tu me ahriste de novo os caminhos incoe­ rentes da terra, poeta! tJ o poeta aproxima-se quieto e sombrio

O hierofante — Formaremos um comicio de protesto! ‘f t O amor quer fazel-a voltar ao paiz ordenado e ter- rivel da rua. O radio patrulha — Onde nos reuniremos? A dama das camélias — Vamos para a platéa, assim não perderemos a grande scena. O radio patrulha — Vamos. A senhora m inistp — Que curiosidade. . . eu sinto! O atleta completo — Para a platéa! Quero ver como »V um poeta ama! 0 hierofante — Ordena o cortejo, radio patrulha, se- .w guir-te-emos em ordem alfahetica. O radio patrulha — Debout les morts! Os cadaveres se organizam dificultosamen­ te. Animados pelo barulho da motocicleta, conduzem-se em ritimo mole atraz do radio­ patrulha que desce da sena.

O hierofante — {deixando o palco) De que serve aqui o subconsciente?... Onde se unem os dois planos, o latente e o manifesto?

O s m ortos colocam -se na primeira fila do teatro olhando.

Beatriz — Ama-me por favor! O poeta — És a agressão, o éros e a morte. Sigo-te e desapareces! Beatriz — Todo esforço é inútil I : O poeta — Angustia! Anciedade! Divisão! Resolve! Vives de novo para a minha vida ou partiste para sempre? Beatriz — Todos os meus gestos são de amor! O poeta — Fala do sói, da manhã e da te r r a !... Beatriz — Estamos no paiz propicio ás mensagens... Vf O poeta — Eras a felicidade! Me diminuias como uma creança em ti! r Beatriz — Chorei todas as lagrimas! H oje só resta o rimei negro distilado de meus olhos sem fundo! O poeta — Teus cabelos me envolvem! Sinto-me en­ sopado de estrelas algidas. Quero a manhã! Quero o sói! Beatriz — Escalaste escadarias, montanhas e o mar! Para atingir este horizonte sem fim:! O poeta — Sorri! De dentro de teus cabelos noturnos! Beatriz — Sejamos a mesma aflição no mesmo leito!

O radio patrulha — (na platéa) Debout les morts! O cortejo forma-se de novo e dirige-se para o palco.

O poeta — Que uivo terrivel! Parece um coração ba­ leado . . . Beatriz — Só por uma mulher um cerebro uiva assim. Os m ortos alinham-se ao fimdo da cena. O urubú de Edgard abre as azas sob a arvore.

S— TEATRO

0 poeta — A tua mão termina em reta! 0 teu braço » está rigido e reto! A noite tenebrosa de teus ca -í belos não mais restituirá a manliã radiosa. . .

O urubú de Edgard — {aproximando-se e tomando a axila de Beatriz) O amor não penetra o craneo dos mortos ! í O poeta — Morta! Beijei inútil a labareda extinta de teu corpo! Porisso guardavas dentro do peito uma humanidade diversa, atraente e terrivel! ; - ! 'á A dama das camélias — Olhem, Beatriz permanece quieta e sensacional! O hierofante — Só se ama no plano da creação! O poeta — Eu trouxe o amor para o nada! Beatriz — Para a aurora da vida! " !^ O poeta — Queimarei a tua carne dadivosa! Não se poupa o nada! 0 urubú de Edgard — Socorro! Socorro! Fogo! Os m ortos se movimentam.

O poeta — Não penetrei atôa neste paiz, onde ha uma arvore e um facho. Se a força creadora de mi­ f t. nha paixão não te toca, é porque não existes! D Ouve-se uma sereia estridente!

0 hierofante — O sinal dos cremadores! Acode-nos, es­ pirito da arvore! ’ítí O urubú de Edgard — Deus! 0 poeta — Reconheço-te, empreza funeraria! Na mate­ ria do meu cerebro ficará o teu epitáfio. Nunca

mais! {toma do facho e começa a incendiar a A r­ vore da Vida) Não mais estes symboles dialéticos do sexual perturbarão a marcha do homem ter­ reno. Foge ave do Paraiso! O urubú de Edgard — Os cemitérios são combustiveis. Não ha salvação! A senhora ministra — Sempre disse que essa vela ahi «r era um perigo! O radio patrulha — O incêndio será a cegueira de Ca- ronte. 0 atleta completo — Errarão pelo espaço infinito nos­ sos irmãos sem carne. A dama das camélias — Sinto se inflamarem os meus pulmões. . . O atleta completo — Talvez sejamos purificados! A senhora ministra — Não. Cristo-Rei não deixará! 0 radio patrulha — O paiz dos mortos é donde se ali­ menta toda religião. . . O hierofante — Mas os cremadores mataram os deu­ se s ... Jogaram fora os mitos inúteis. Beatriz — Poeta! permanece para sempre dentro de mim! Sê fiel! O poeta — Devoro-te trecho noturno de minha vida! Serei fiel para com os arrebóes do futuro. . . O hierofante — O erro do homem é pensar que é o fim do barbante... 0 barbante não tem fim. O urubú de Edgard — A humanidade continuará tra- gica e ingênua... Só a morte é a etapa atingida.

0 poeta — (Passa o facho aceso ao corpo de Beatriz, frouxamente coberto pelo renard argenté) Todo mistério será aclarado. Basta que o homem queime a propria alma! Um imenso clarão se anuncia no fundo. A senhora ministra — Fujamos para o paiz da chuva. . . O poeta — A noite não terá mais passos nem vultos! O hierofante — O dilúvio de fogo nos seguirá! Beatriz — Sexual! Sexual! O poeta — Incendiarei os teus cabelos noturnos ! A tua boca aquosa! A aurora de teus seios!

r* i Flamba tudo nas mãos heróicas do poeta.

O hierofante — {aproximando-se da platéa) Respeitá­ vel publico! Não vos pedimos palmas, pedimos bom­ beiros! Se quizerdes salvar as vossas tradições e a vossa moral, ide chamar os bombeiros ou se pre­ ferirdes a policia! Somos comJo vós mesmos, um t :‘ imenso cadaver gangrenado! Salvae nossas podri­ dões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo!

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TELA

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