O rei da vela: familia, credito e capital estrangeiro Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 9 de 13
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O rei da vela: familia, credito e capital estrangeiro

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Belarmino — Continuo sempre a apreciar a paisagem que se descortina desta ilha encantada. Uma ver­ dadeira ilha paradisiaca. Aliás, o Rio de Janeiro talvez seja mesmjo a mais bela cidade do mundo í Deve ser! Que baía. A mais bela baía do mundo! Nem Constantinopla, nem Nápoles, nem Lisboa! Abelardo I — De facto. Coronel. Belarmino — Lá em cima, o Corcovado com o Christo kl de braços abertos. Consola-me ver o Rio de Janeiro aos pés da cruz! O Brasil é mesmo uma terra abençoada. Temos até um cardeal! Só nos falta um Banco Hipotecário! Abelardo I — Se bem que na minha opinião, o Christo devia estar um pouco mais perto de nós. Para w controlar. Ouvir as nossas queixas. Assim ele fica muito longe. . . lá em cim a. . . Heloisa — Onde então Alebardo? João — Onde? Abelardo I — Num sitio pitoresco, cá em baixo. E pro- ximo. Assim, no Saco de São Francisco... Belarmino — Muito bem pensado! No Saco de São Francisco. E junto a ele um Banco Hipotecário. Abelardo I — Para que? Não temos mais nada que hipotecar. , ,

Belarmino — E’ verdade que já estamos muito endi­ vidados . .. Abelardo I — De tanga... Coronel. Como na epoca da descoberta. . . Belarmino — Mas me diga uma coisa, Seu Abelardo, porque é que não pagamos as nossas dividas com café. Temos dividas. E queimamos café. Parece haver ahi um mistério! Não acha? Abelardo I — De facto, meu futuro sogro! Café é ouro. Ouro negro! Estamos devendo e queimando ouro! Vou perguntar a Mister Jones. .. Estamos no fim. I Na caveira. Belarmino — Um Banco Hipotecário, meu futuro genro, resolveria a crise. Mas era preciso ser um banco forte. . . Abelardo I — Um banco americano. . . ou inglez. . . Belarmino — Perfeitamente. Depois que o Império sossobrou nas mãos inhabeis dos ytuanos, precisa­ mos de capital extrangeiro. Empréstimos. . . Abelardo I — E emissões. . . Belarmino — Emissões também. Não sou contra as emissões, senhor Abelardo! Mas sabe do que pre­ cisa o povo, de tranquilidade para trabalhar. Evi­ dentemente. Deem-lhe tranquilidade e um Banco Hipotecário e verão os resultados. . . Abelardo I — Os proprios bancos nacionaes podiam se transformar. .. A carteira hipotecaria de qual­ quer deles!

Belarmino — Estão arruinados, meu amigo! Arruina­ dos! Não aguentam os freguezes antigos. Os homens honrados não arranjam lá um nikel! Não fosse a sua nobreza invulgar, tirando-me dos apuros em que estava, com aquele empréstimo. .. feito com garantias puramente moraes! {puxa um enorme lenço vermelho e enxuga os olhos e a harha) Heloisa — Ora Papae! Abelardo I — Por quem é. (Consternação) . Heloisa — Papae. . . Belarmino — Minha filha, quando te casares, quero que rezes. E sejas a mãe dos pobres, a protectora 1,1 dos desvalidos. . . Heloisa — Prometo papae! Onde vae agora? Belarmino — Andar, minha filha! Dona Poloca — Andar, andar é a vida a bordo! Este verso é de D. Pedro II!

Abelardo I — E’, é! Estamos a bordo. Belarmino. (retirando-se declamatório) Que fazem os homens novos? Que fazem os homens novos!

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D. Poloca — Os homens novos são como o senhor. . . um ateu! um pedreiro livre, ouviu? E esse inglez. . . do chaufeur! Abelardo I — Que fim levou o americano? João — Decerto caiu dentro do copo de whisbi!

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Abelardo I — Vou salval-o. Até já! (sae pela direita).

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Heloisa — Tia Poloca está de bossa, hoje! D. Poloca — Eu não digo mais, porque vivo do pão alheio. Mas no meu tempo, se escolhia. A gente não se casava com um aventureiro só porque é rico e foi aos Estados Unidos. João — Por isso é que a senhora é virgem até hoje! Heloisa — Com sessenta e tres anos! João — Já fez sessenta e nove! D. Poloca — Menina! Eu chamo teu pae! Vae ver coisas inocentes, anda! Vae ver o pôr-do-sol! Vae folhear o album de photographias da familia que eu trouxe! Quem sabe se os retratos dos avós te dão um pouco de vergonha! Vae ver o Perdigoto que chegou todo de soldado. Magnifico! João — Aquele fascista indecente! D. Poloca — E’ o unico que presta na familia! Heloisa — Não amola titia. Anda! Bestinha! João — Eu tenho culpa dela ser cabeçuda? D. Poloca — No meu tempo, as meninas eram recata­ das. Iam ás novenas. Rezavam o terço. Hoje é o diabo quem manda! João — O diabo é o homem mais encantador do mundo. O homem da V é la ... de Heloisa. Heloifea — O Rei da Véla — Me dá um cigarro, tia João — Não quero saber. A vela dele é que nos salvou.

D. Poloca (fuma com Heloísa) Eu não gosto desse homem. não. Não teme Deus. E’ capaz de não querer casar no religioso. . . Mas o Perdigoto ha de obrigal-o. Este sim é um sobrinho que vale a pena! Me ensinou a tragar. Heloisa — Casa! Ele está mudando. Me disse hoje que casa no religioso também. O cardeal virá á ilh a ... E’ uma honra! Um acontecimento! D. Poloca — Bem. Mas ele não tem familia. João — Nós temos demais. Eu não sei de nada, se não fosse e l e ... Depois que o Totó me tomou o Mi- guelão! D. Poloca — Aquele turco indecente! João —' Muito bom casamento. Palacio na Avenida Paulista! B arata! Nota! D. Poloca — Mas é um assassino! Heloisa — E’ sim João! Matou o irmão com dezoito facadas... João — Mas foi absolvido pelo jury. Privação de sen­ tidos. Heloisa — E de inteligência.^ João— Estado normal. Mas se o Totó não aparecesse ele cahia. Ia me dar uma vida d’ aqui! O Totó é um bandido! Me tomou o turco! Heloisa — Esses anfíbios! João — São uns miseráveis! Se não fosse o teu rei estava eu ainda gastando o meu francez de Sion nos apartamentos e nos boteis, E rolando de barata, fa-

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zendo força contra as midinettes. . . Umas safa- dinhas. . . á toa. . . Heloisa — Encontrei a Mag na Avenida, num luxo. Quem diria? Aquela chapeleirinha da Rua da Bôa Vista. Um vestido roxo batata! Alueinante! D. Poloca — Dona Etelvina escreveu? Heloisa — Telegrafou. Vem com os convidados amanhã. Vem esfriar! Aquela romantica. Emfim, Abelardo quer gente de raça. . . D. Poloca — As minhas relações são sempre melho­ res que as suas. . . João — Outra virgem! Essa é a tal que viaja com a radiografia dos intestinos, procurando celebridades medicas para consultar! Heloisa — E’ s im ... João {roendo a unha do polegar) — Mademoiselle Tubagem! Heloisa — Dona Lea vem também amanhã. . . Madame La Barone de Machado! D. Poloca — Aquela polaca aqui! Cinzas! João — Polaca não, titia, po-lo-ne-sa! Muito distinta! O Decio foi vitima da propria ignorância em geo­ grafia. Casou com ela' errado. Heloisa — Como é isso João? João — Nesse tempo, essas senlioras eram todas france- zas. Ele casou-se, pensando que era uma franceza de Paris. Mas ela não conhecia nem Marselha!

Heloisa — A Migdal tem outros portos! Mas o essen­ cial é que ela hoje é um pilar da sociedade. Uma | filántropa. Vae á missa todo d ia ... João — Tem chelpa! {começa a roer furiosamente a unha do polegar). Heloisa — E’ da Convenção Eleitoral F em inina... Capaz de ser eleita deputada pelo partido ca- tholico. . . D. Poloca — João, não me irrites com essa unha. {pega-lhe no braço) João — Deixa! Hui!

M A IS A B E L A R D O E O A M E R IC A N O LI Abelardo I — Que luta romana é essa? João {debatendo-se) — E’ essa cabeçuda dessa titia, que não quer deixar eu ter nem um v icio. . . D. Poloca — Cala a boca! No meu tempo, as meninas só falavam depois dos desoito anos! João — Uma óva. Eu sou o João das Divans. Não é Mister John? John and John! Marca nova de whiski. 0 banqueiro — Yes, darling! Glorious day! Abelardo I — Mas você gosta mesmo de roer unha? João {pulando deslumbrada) Uhm! Uma maravilha! {continua a roer) D. Poloca — Ele chega a deixar crescer a imha, para depois passar horas r o e n d o ... Abelardo I — Eu conheço uma que começou assim e acabou mastigando um balaústre!

João (histérica) Deve ser divino! Ter gosto de unha! Vou experimentar! Heloisa (festejando o braço do banqueiro) — Então, Jones. Como vão os negocios de Abelardo? O banqueiro — Finanças domina mundo. Abelardo, tem c h e ir o ... Vae dar sa lto ... Abelardo I — No abismo. . . Heloisa — Dos meus braços! Diga uma coisa, Jones, porque é que o Brasil não paga as dividas com o café que está queimando? O americano — No Brasil precisa aviões. . . metralha- trices. . . Muitos. . . Heloisa — Mas para que? O americano — Trocar por c a fé ... Oh! Good business! Shut up! Abelardo I — E’ verdade! A guerra! Precisamos nos armar para a guerra. . . Heloisa — Mas contra quem? -- Abelardo I — Contra qualquer pessoa ! Qualquer guerra. Externa ou interna. E’ preciso dar emprego aos desoccupados. Distrair o povo. E trocar café pelos armamentos que estão sobrando lá fóra. As sobras da corrida armamentista. Você não vê logo? Ou então contra a Russia! A Russia está aporrinhando o mundo! João — (liga o radio. Uma valsa de Strauss amacia o ambiente) — Papagaio! Toda vida Strauss! Ora! (Vae ligar a outra estação. O radio guincha. A be­ lardo intervem)

OSW ALD DE A N DRADE

Abelardo I — Não. Deixe Straus! E’ o adultério! A ' voz maiâ pura do adultério... Escutem! A (L iga o radio) !

Heloisa — A grande guerra acabou com esses refúgios. . . João — Prefiro um fox. .. O banqueiro — Uma fox danz. Vamos. Valz é triste! João — Alô Jones! {muda a estação e ao som de um fox sae grudada no banqueiro). Até á volta. Vou ver o pico do Itatiaya. O americano {rindo) — Everest! Everest!

M E N O S O A M E R IC A N O E JO A O

D. Poloca {escandalisada) Menina atôa! Garota da crise! {silencio) Vou me vestir para o banho de mar. Me refrescar desses calores! Heloisa, Você v e m ... (sae). Heloisa — Vou já, T itia ...

M E N O S D. P O L O C A

{Ouvem-se gritos ao fundo. Totó Fruta do Conde apa­ rece na escada. Não traz nada nas mãos).

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’Cr•í ,r• Abelardo I — Que foi?

í Heloisa — T o t ó ... Que aconteceu? « A •! Totó — Um peixe enorme. Me tirou o anzol, os bom­ l l bons. Levou tudo. .. Deve ter sido um tubarão.

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! Abelardo I — Não. De certo foi um peixe espada. Como você ficou emocionado! Que palpitações. . . Totó — De certo! Abelardo I — Pensei que você já estivesse habituado com essas pescarias... Heloisa — Espera. Venho já {sae pela esquerda) Vou me vestir. M E N O S H E L O IS A

{atira-se a uma cadeira) Totó — Eu pesco incessantemente ha tres dias. Por desgostos, seu Abelardo! Abelardo I — Aza quebrada. . . Totó — Veja só! O Godofredo! Me misturar! Abelardo I — Isso é da vida, você se confortará, esque- ceral Totó — Nunca! Não posso esquecer. Abelardo I — Ora, o tempo é o grande remedio. . . Totó — Inútil. Foi um caso muito serio. Depois de tamanha dedicação minha! Très anos! Foi muito serio ! * Abelardo I — Assás serio ! Mas tudo passa. Tout passe, tout casse. .. Totó — Se não fosse aquele detalhe! Imagine, eu disse ao Godofredo: Você pode me trahir com qual­ quer mulher. Qualquer, hein? Mas com aquela não admito! E foi justamente com ela! Tenho provas t

4 AJjelardo I — Bem. Mas a natureza está cheia de im- ^ perativos. . . Totó — E onde fica a educação, seu Abelardo? Onde ficam as convenções, os preconceitos sociaes, as di­ ferenças de origem .e de classe... Tudo isso que torna o mundo delicioso (gem e). Me trahir com uma mulher do Mangue! Abelardo I — Do Mangue? Totó — Do Mangue, sim. Foi um cataclisma. Sou uma fracassada! (levanta-se) Os peixes me assaltam, o '5 mar me enerva, a paisagem me amofina. Vou para o meu q u a rto... sim? (sae)

M ENOS TO TÓ

Abelardo V ae.. . Ophelia. . . Entra para um con­ vento! ( fecha o radio) Agora é o outro que che­ gou na lancha. O pau d’agua. Vem buscar di­ nheiro. Mais dinheiro! Passei a vida arrancando osso, pelle e sangue de meio mundo para ser explo­ rado a g ora ... por um fascista... colonial!

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