O rei da vela: a vela final Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 13 de 13
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O rei da vela: a vela final

(A musica termina). Uma voz no radio — Proletários de todo o mundo uni- vos! A q u i fala Moscou. Mos. . . {Abelardo II com um pé vira o aparelho que se cala). Abelardo I — Ah! Ah! Moscou irradia no coração dos oprimidos de toda a terra!

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1^ Abelardo II — Sujo! Demagogo! Abelardo I — Calma! Não és parecido com o Jujuba, sinão no físico. Vou te contar a historia do Jujuba! Era um simples cachorro! Um cachorro de rua. . . Mas um cachorro idealista! Os soldados de um quartel adoptaram-no. Ficou sendo a mascote do batalhão. Mas o Jujuba era amigo dos seus compa­ w nheiros de rua! Na hora da boia, aparecia trazen­ do dois, tres. Em pouco tempo, a cachorrada ma­ gra, suja e miserável enchia o pateo do quartel. Um dia, o major deu o estrilo. Os soldados se opu- zeram á saída da sua mascote! Tomaram o Juju­ ba nos braços e espingardearam os ou tros... A cachorrada vadia voltou para a rua. Mas quando o Jujuba se viu solto, recusou-se a gozar o privile­ gio que lhe queriam dar. Foi com os outros! Abelardo II — Demagogia! Abelardo I — Não. Ele provou que não! Nunca mais voltou para o quartel. Morreu batido e esfomeado como os outros, na rua, solidário com a sua classe! Solidário com a sua fome! Os soldados ergueram um monumento ao Jujuba no pateo do quartel. Comprehenderam o que não trae. Eram seus ir­ mãos. Os soldados são da classe do Jujuba. Um dia também deixarão atropeladamente os quartéis. Será a revolução social. . . Os que dormem nas soleiras das portas se levantarão e virão aqui pro­ curar o usurario Abelardo! E hão de encon- tral-o, . ,

Abelardo II — Os soldados são patriotas! Os soldados amam o Brasil. Viva o Brasil! ' Abelardo I — Mas o Brasil não ama os seus soldados! Eles ganbam o que por mez? Para defender os que ganham vinte contos por semana como o ame­ ricano! E eu e vòcê, os lacaios dele! Antes de Christo, Tiberio Gracco já dizia dos soldados ro­ manos: — Chamam-os de senhores do mundo, mas eles não têm siquer uma pedra onde encostar a cabeça! E’ verdade! Eu também não tenho mais nada. Castiguei a traição que fiz á minha classe. Era pobre como o Jujuba! Mas não fiz como ele. . . Acreditei que isso que chamam de sociedade era (i uma cidadela que só podia ser tomada por dentro, por alguém que penetrasse como você pennetrou na minha vida. . . Eu também fiz isso. Trahi a mi­ nha fo m e ... (Silencio. Ouve-se a respiração do agonizante) Abelardo II — Sente-se melhor? Abelardo I — Não tenha receio. Sinto como se so­ nhasse que estava tendo uma congestão cerebral. . . Um poeta disse: — Se alguma coisa já exaltou o homem foi a palavra — liberdade! A luta pela li­ berdade. . . A luta pelo din h eiro.. . Só o dinheiro dá a liberdade. A liberdade de amar, de matar, de mentir, de estuprar... {ouve-se um barulho de automovel estertorar lá fóra passando) Feche a janela! Não quero ouvir esses sinos! Quero pa­ gar tudo! A ’ vista!

Abelardo II — Mas que sinos? Abelardo I — Não quero ouvir. Feche! Não quero nada de graça... Não admito. Sino é de graça... Abelardo II — Está delirando.. . {Heloísa soluça alto de novo) Abelardo I — Pago tudo! Sino é a unica coisa que a Egreja dá grátis! Não quero! Pago tudo! Adean- tado! Missa de corpo presente! Sinos não quero! Abelardo! Abra a ja u la ... C h icoteie!... Páre es­ sas vozes!. . . Abra a ja u la !. . . Abra! Abelardo II [faz correr a porta de f^rro) — Pronto! {Silencio. Soluços.). Abelardo I — Não deixe eles falarem mais {escuta) o que? Que vou ser protestado! Virei um papa­ gaio protestado? Sem reforrma? Cães! Rua! Chicoteie, Abelardo! Uma voz — {grossa, terrificante, da porta escancarada que mostra a jaula vasia) — Eu sou o corifeu dos devedores relapsos! Dos maus pagadores! Dos deshonrados da sociedade capitalista! Os que têm o nome tingido para sempre pela má tinta dos pro­ 'Vi testos! Os que mandam dizer que não estão em casa aos oficiaes de justiça! Os que pedem enver­ gonhadamente tostões para dar de comer aos fi­ lhos! Os desocupados que esperam sem esperan­ ça! Os aflitos que não dormem., pensando nas pe­ nhoras (grita) A Amé-ri-ca - é - um - ble -fe ü ! Nós todos mudamos de continente para enrique-

T E A T R O

cer. Só encontramos aqui escravidão e trabalho! Sob as garras do imperialismo! Hoje morremos de miséria e de vergonha! Somos os recrutas da pobresa! Milhões de falidos transatlânticos! Para as nossas familias, educadas na ilusão da A-mé-ri- ca, só ha a escolher a cadeia ou o rendez-vous! Ha o sui-ci-dio também! O sui-ci-dio, . . Abelardo I — E’ a revolução... Fogo! Façam fogo. . . {Silencio pesado. Os soluços de Heloisa augmen- tam ). Abelardo II Está morrendo. A minha vida começa! Abelardo I A v a i.. . a. . . {Heloisa soluça de novo . forte) Abelardor II — Compreendo. A vala com u m ... Não ficou nada. Nem para o enterro nem para a sepultura. A casa ia mal ha muito tempo. Coi­ tado! Negocios com estrangeiros. . . Ele que tinha mandado fazer aquele projeto de tumulo fantas­ magórico . . . Com anjos nús de tres metros. . . Abelardo I — A v a i... a! {gesticula impotentemente) Abelardo II — O que! Quer alguma coisa? Que dê o signal de crime? Não! E’ cedo ainda. Vae querendo! Abelardo I — N ã o .. . {Mostra com signaes alguma coisa que deseja) Abelardo II — O telefone! Não. Um copo d’agua? Abelardo I — {num esforço enorme) A vela!

Abelardo II — Ahn! Quer morrer de véla na mão? O Rei da Vela. Tem razão! {Abre o mostruário. Tira uma velinha de sebo, a menor de todas. Acen- de-a) Não quer perder a magestade. Vou pôr na­ quele castiçal de ouro! {Silencio. Soluços. A se- na emerge da luz frouxa da vela que Abelardo II colocou no castiçal de latão. Num ultimo arranco o moribundo deixa cahir a cabeça para traz e a vela ao chão onde tomba também e permanece de borco ). Heloisa {levantando-se entre soluços enormes) — Abe­ lardo! Abelardo! Abelardo II — Heloisa será sempre de Abelardo. E’ clássico ! Heloisa hesita um instante perto do morto, depois ampara-se sobre o hom bro de A be­ lardo II que a mantem estreitamente no centro da sena. Ouvem-se os acordes da «Marcha Nupcial» e uma luz doce focaliza o par. Aparecem então em fila, vestidos a rigor, os personagens do 2.® ato que, sem dar atenção ao cadaver, cumprimentam o casal enluarado, atravessando ritmadamente .» ’ I a sena e se colocando por detraz dele, ao som da musica. O fascista sauda á romana. O americano é o ultimo que aparece e o unico que fala.

0 americano — Oh! good business!

TELA

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