O rei da vela: a vela final
(A musica termina). Uma voz no radio — Proletários de todo o mundo uni- vos! A q u i fala Moscou. Mos. . . {Abelardo II com um pé vira o aparelho que se cala). Abelardo I — Ah! Ah! Moscou irradia no coração dos oprimidos de toda a terra!
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1^ Abelardo II — Sujo! Demagogo! Abelardo I — Calma! Não és parecido com o Jujuba, sinão no físico. Vou te contar a historia do Jujuba! Era um simples cachorro! Um cachorro de rua. . . Mas um cachorro idealista! Os soldados de um quartel adoptaram-no. Ficou sendo a mascote do batalhão. Mas o Jujuba era amigo dos seus compa w nheiros de rua! Na hora da boia, aparecia trazen do dois, tres. Em pouco tempo, a cachorrada ma gra, suja e miserável enchia o pateo do quartel. Um dia, o major deu o estrilo. Os soldados se opu- zeram á saída da sua mascote! Tomaram o Juju ba nos braços e espingardearam os ou tros... A cachorrada vadia voltou para a rua. Mas quando o Jujuba se viu solto, recusou-se a gozar o privile gio que lhe queriam dar. Foi com os outros! Abelardo II — Demagogia! Abelardo I — Não. Ele provou que não! Nunca mais voltou para o quartel. Morreu batido e esfomeado como os outros, na rua, solidário com a sua classe! Solidário com a sua fome! Os soldados ergueram um monumento ao Jujuba no pateo do quartel. Comprehenderam o que não trae. Eram seus ir mãos. Os soldados são da classe do Jujuba. Um dia também deixarão atropeladamente os quartéis. Será a revolução social. . . Os que dormem nas soleiras das portas se levantarão e virão aqui pro curar o usurario Abelardo! E hão de encon- tral-o, . ,
Abelardo II — Os soldados são patriotas! Os soldados amam o Brasil. Viva o Brasil! ' Abelardo I — Mas o Brasil não ama os seus soldados! Eles ganbam o que por mez? Para defender os que ganham vinte contos por semana como o ame ricano! E eu e vòcê, os lacaios dele! Antes de Christo, Tiberio Gracco já dizia dos soldados ro manos: — Chamam-os de senhores do mundo, mas eles não têm siquer uma pedra onde encostar a cabeça! E’ verdade! Eu também não tenho mais nada. Castiguei a traição que fiz á minha classe. Era pobre como o Jujuba! Mas não fiz como ele. . . Acreditei que isso que chamam de sociedade era (i uma cidadela que só podia ser tomada por dentro, por alguém que penetrasse como você pennetrou na minha vida. . . Eu também fiz isso. Trahi a mi nha fo m e ... (Silencio. Ouve-se a respiração do agonizante) Abelardo II — Sente-se melhor? Abelardo I — Não tenha receio. Sinto como se so nhasse que estava tendo uma congestão cerebral. . . Um poeta disse: — Se alguma coisa já exaltou o homem foi a palavra — liberdade! A luta pela li berdade. . . A luta pelo din h eiro.. . Só o dinheiro dá a liberdade. A liberdade de amar, de matar, de mentir, de estuprar... {ouve-se um barulho de automovel estertorar lá fóra passando) Feche a janela! Não quero ouvir esses sinos! Quero pa gar tudo! A ’ vista!
Abelardo II — Mas que sinos? Abelardo I — Não quero ouvir. Feche! Não quero nada de graça... Não admito. Sino é de graça... Abelardo II — Está delirando.. . {Heloísa soluça alto de novo) Abelardo I — Pago tudo! Sino é a unica coisa que a Egreja dá grátis! Não quero! Pago tudo! Adean- tado! Missa de corpo presente! Sinos não quero! Abelardo! Abra a ja u la ... C h icoteie!... Páre es sas vozes!. . . Abra a ja u la !. . . Abra! Abelardo II [faz correr a porta de f^rro) — Pronto! {Silencio. Soluços.). Abelardo I — Não deixe eles falarem mais {escuta) o que? Que vou ser protestado! Virei um papa gaio protestado? Sem reforrma? Cães! Rua! Chicoteie, Abelardo! Uma voz — {grossa, terrificante, da porta escancarada que mostra a jaula vasia) — Eu sou o corifeu dos devedores relapsos! Dos maus pagadores! Dos deshonrados da sociedade capitalista! Os que têm o nome tingido para sempre pela má tinta dos pro 'Vi testos! Os que mandam dizer que não estão em casa aos oficiaes de justiça! Os que pedem enver gonhadamente tostões para dar de comer aos fi lhos! Os desocupados que esperam sem esperan ça! Os aflitos que não dormem., pensando nas pe nhoras (grita) A Amé-ri-ca - é - um - ble -fe ü ! Nós todos mudamos de continente para enrique-
T E A T R O
cer. Só encontramos aqui escravidão e trabalho! Sob as garras do imperialismo! Hoje morremos de miséria e de vergonha! Somos os recrutas da pobresa! Milhões de falidos transatlânticos! Para as nossas familias, educadas na ilusão da A-mé-ri- ca, só ha a escolher a cadeia ou o rendez-vous! Ha o sui-ci-dio também! O sui-ci-dio, . . Abelardo I — E’ a revolução... Fogo! Façam fogo. . . {Silencio pesado. Os soluços de Heloisa augmen- tam ). Abelardo II Está morrendo. A minha vida começa! Abelardo I A v a i.. . a. . . {Heloisa soluça de novo . forte) Abelardor II — Compreendo. A vala com u m ... Não ficou nada. Nem para o enterro nem para a sepultura. A casa ia mal ha muito tempo. Coi tado! Negocios com estrangeiros. . . Ele que tinha mandado fazer aquele projeto de tumulo fantas magórico . . . Com anjos nús de tres metros. . . Abelardo I — A v a i... a! {gesticula impotentemente) Abelardo II — O que! Quer alguma coisa? Que dê o signal de crime? Não! E’ cedo ainda. Vae querendo! Abelardo I — N ã o .. . {Mostra com signaes alguma coisa que deseja) Abelardo II — O telefone! Não. Um copo d’agua? Abelardo I — {num esforço enorme) A vela!
Abelardo II — Ahn! Quer morrer de véla na mão? O Rei da Vela. Tem razão! {Abre o mostruário. Tira uma velinha de sebo, a menor de todas. Acen- de-a) Não quer perder a magestade. Vou pôr na quele castiçal de ouro! {Silencio. Soluços. A se- na emerge da luz frouxa da vela que Abelardo II colocou no castiçal de latão. Num ultimo arranco o moribundo deixa cahir a cabeça para traz e a vela ao chão onde tomba também e permanece de borco ). Heloisa {levantando-se entre soluços enormes) — Abe lardo! Abelardo! Abelardo II — Heloisa será sempre de Abelardo. E’ clássico ! Heloisa hesita um instante perto do morto, depois ampara-se sobre o hom bro de A be lardo II que a mantem estreitamente no centro da sena. Ouvem-se os acordes da «Marcha Nupcial» e uma luz doce focaliza o par. Aparecem então em fila, vestidos a rigor, os personagens do 2.® ato que, sem dar atenção ao cadaver, cumprimentam o casal enluarado, atravessando ritmadamente .» ’ I a sena e se colocando por detraz dele, ao som da musica. O fascista sauda á romana. O americano é o ultimo que aparece e o unico que fala.
0 americano — Oh! good business!
TELA