O rei da vela: Heloisa entra no negocio Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 7 de 13
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O rei da vela: Heloisa entra no negocio

A secretaria {voltando-se da porta) — Ga-ra-nhão! {sae esbarrando em Heloísa de Lesbos que vestida de homem, entra como a manhã lá de fóra),

M ENOS S E C R E T A R IA M A IS HE­ L O ÍS A

Abelardo I (rindo) — Você! Meu amor! Na hora do expediente! Heloisa — O nosso casamento é um negocio. . . Abelardo I — Por isso vieste de Marlene? Heloisa — Mas não ha de ser um negocio como esses que você faz com esse bando de desesperados que saiu d’ahi vociferando. .. Estão ainda muitos lá em baixo. Ha mulheres idosas, moças, turcos, ita-

lianos, russos de prestação, uma fauna de hos­ pício Abelardo I — Ingratos! Matei-lhes a fome! Dei-lhes b ilusões! Heloisa — E agora os tratas assim! Abelardo I — Para te dar uma ilha. Uma ilha para i você só!

M A IS A B E L A R D O TI

Abelardo II {entrando) — Ha um ahi que não quer sair. Está resistindo. E’ cliente novo. Abelardo I — Quem é? Abelardo II — Um intelectual. Diz que não sae sem vel-o. Quer fazer a sua biografia, ilustrada. Com fotografias. Diz que dará um bom livro. Grosso! Abelardo I — Mande entrar. Quero vel-o.

M A IS O IN T E L E C T U A L P IN O T E

Pinote — {entra de chapeo de poeta na mão. Uma gra­ vata lyrica. Sorrindo. Mesuras. Tras uma faca enorme de madeira como bengala). Bom dia, mestre.

Heloisa — {dá um grito lancinante) — A i! A faca! Abelardo I — Desarme esse homem! Ora essa! {A be­ lardo II atira-se sobre o intelectual e arranca-lhe a faca simbólica). Deixar entrar gente com armas aquil

Pinote {Excusando-se humildemente) — E’ inofensi­ v a ... de parj Abelardo I — Confesse que o senhor planejou um atentado! Confesse! Pinote — Absolutamente! Por quem o senhor está me tomando. E’ uma faca profissional, inofensiva, não mata. . . Aeblardo II {exuminundo) — Está cheia de sangue... sangue coagulado. . . m Pinote — Umas facadinhas. . . para co m e r... {a -ííii um gesto de Abelardo I senta-se. Abelardo II per­ manece ao fundo, segurando com as duas mãos a face em horizontal, como um servo antigo). A crise é que obriga. . . Mas não sou nenhum gangster, não. Eu sou biografo. Vivo da minha pena. Não tenho mais edade para cultivar o romance a poe­ s ia .. . O teatro nacional virou teatro de tese, E eu confesso a minha ignorância, não entendo de politica. Nem quero entender... Abelardo I — E’ um revoltado? Pinote — Absolutamente não! Fui no colégio. Hoje sou quasi um conservador! 0 que me falta é con­ vicção. I — Tem veleidades sociaes. .. quero dizer bolchevistas?. . . Pinote — Não senhor! Olhe, tenlio até nojo de gente llf-v ' b a ix a ... gente de trabalh o... não vae comigo!

’ I. 1i Abelardo I — Muito bem! Pinote — G^nte que cheira m a l... Heloisa — Ninguém dá sabão a eles para se lavarem. ^ Abelardo II — Nem pão, quanto mais sabonete... Abelardo I {tranquilizando Pinote que se voltou) — : Não se encomode. Ele é socialista. Mas moderado, 1 de faca também, {sorriso dos dois) Mas afinal,, qual é o genero literário que cultiva, meu amigo? ’ Pinote — Os grandes homens! Pretendç fazer domo i Ludwig. Escrever as grandes vidas! Não ha mais nobre missão sobre o planeta! Os heroes da epoca. Abelardo I — Pode ser também extremamente perigo­ ii so. Se nas suas 'biografias exaltar heroes popula­ res e inimigos da sociedade. Imagine se o senhor escreve sobre a revolta dos marinheiros pondo em relevo o João C ân did o... ou algum comunista morto num comicio! Pinote — Não ha perigo. A policia me perseguiria. Abelardo I — E’ então um intelectual policiado. . . Pinote Faço questão de manter uma atitude mode­ rada e distincta! Abelardo I — Já publicou alguma coisa? Pinote — Já. Um livrinho! A vida de Estacio de Sá. Não saiu muito bem. Mas estou fazen­ do o u tro ... Vae sahir m elh or... Abelardo I — A vida de Carlos M agno?. . .

Pinote — Não. De Pascoal Carlos Magno. Uma coisa inofensiva. . . Heloisa — Então os seus livros podem ser lidos por m oças... Pinote — Decerto! Eu quero ser um Delhi social! Entenderam? Abelardo I — Perfeitamente ! Uma literatura besti- ficante. Iludindo as coitadinhas sobre a vida. Transferindo as soluções da existência para as so­ luções “ no livro” ou “ no theatro” . F re u d ... Pinote — Oh! Freud é subversivo... Abelardo I — Um bocadinho. Mas olhe que se não fosse ele, nos estavamos muito mais desmascarados. Ele ignora a luta de classes! Ou finge ignorar. E’ uma grande coisa! Heloisa — Distrae muito, quando a gente é emancipada {Tira um cigarro e fuma). Pinote — Eu prefiro as vidas! Abelardo I — Não pratica a literatura de ficçã o ?. . . Pinote — No Brasil isso não dá nada! Abelardo I — Sim, a de fricção é que rende. E’ pre­ ciso ser assim, meu amigo. Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total. O dinheiro so é util nas mãos dos que não tem talento. Vocês escriptores, artis­ tas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como

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OSW ALD DÉ AN D R A D E

bons lacaios, obedientes e prestimosos. E’ a vossa função social! Heloisa — Faz versos? Pinote — Sendo p re ciso ... Quadrinhas. .. Acros- ticos . . . Sonetos. . . Reclames. Heloisa — Futuristas? Pinote — Não senhora! Eu já fui futurista. Cheguei a acreditar na independencia... Mas foi uma tragédia! Começaram a me tratar de maluco. A me olhar de esguelha. A não me receber mais. As creanças choravam em casa. Tenho tres filhos. No jornal tamhem não pagavam, devido á crise. Precisei viver de bicos. Ah! Reneguei tudo. Arranjei aquele instrumento {mostra a faca) e fiquei passadista. Abelardo I — Mas qual é a sua côr politica nestes agi; tados dias de debate social? Pinote — Eu tenho uma posição intermediaria, neutra.. . Não me meto. Abelardo I — Neutra! E’ incomprehensivel! E’ inad­ missível! Ninguém é neutro no mundo actual. Ou se serve os de b a ix o ... Pinote — Mas com que roupa? Abelardo I — Sirva então francamente os de cima. Mas não é só com biografias neutras. .. Precisamos de lacaios. .. Pinote — E’ ! Mas dizem por ahi que a Revolução Social está próxima. Em todo o mundo. Se a coisa virar?

T E A T R O

Abelardo I — Será fusilado com todas as honras. E’ preferível morrer como inimigo do que como adesista. Pinote — E a minha fa m ilia ... As tres creanças? Abelardo I {levanta-se furioso) Saia já d’aqui! Vilão! Oportunista! Não leva nem dez mil réis, creia! A minha classe precisa de lacaios. A burguezia exije definições! Lacaios, sim! Que usem fardamen- to. Rua [Abelardo II entrega a faca ao intelectual que sae penosamente. Retira-se depois) .

M E N O S O IN T E L E C T U A L P IN O T E E A B E L A R D O II

Heloisa — Coitado! Abelardo I — Voltará! De camisa amarella azul ou verde. E de alabarda. E ficará montando guarda á minha porta! E me defenderá com a propria vida, da maré vermelha que ameaça subir, tomar conta do mundo! O intelectual deve ser tratado assim. As creanças que choram em casa, as mulheres la­ mentosas, fracas, famintas são a nossa arma! Só com a miséria eles passarão a nosso inteiro e dedi­ cado serviço! E teremos louvores, palmas e garan­ tias. Eles defenderão as minhas posições e a tua ilha, meu amor! Heloisa — Ora uma ilha brasileira ! . . . Estou quasi não querendo.

OSW ALD DE A N DRADE

Abelardo I — Um caes. . . Onde você atracou. . . Depois de tocar em muitas terras... ver muitas paisa­ gens. Heloisa — O meu porto seguro. . . Abelardo I — Um porto saneado... Com armazéns.. . guindastes... E uma multidão de traballiadores para nos dar a nota. . . Heloisa — Em troca da minha liberdade. Chegamos ao casamento. . . Que você no começo dizia ser a mais imoral das instituições humanas. Abelardo I — E a mais util á nossa classe. . . A que defende a herança. . . Heloisa — Em fim . . . aqui estou. . . negociada. Como uma mercadoria valiosa. . . Não nego, o meu ser mal educado nos pensionatos milionários da Suissa, nos salões atapetados de São Paulo. . . vivendo entre ressacas e preguiças, aventuras... não poude su­ portar por mais de dois anos a ronda da misé­ r i a ... {Silencio) E a admiração que você provo­ cou em mim, com o seu ar calculado e frio e a sua espantosa victoria no meio da derrocada g e ra l... O conhecimento que tive do seu cinismo e da sua indiferença deante dos sofrimentos humanos. . . Abelardo I — Conheço uma só coisa, a realidade. E por isso subjugo você que é sonho p u r o ... Heloisa {mostrando a Gioconda) — Porque que você tem esse quadro ahi. . . Abelardo I — A G ioconda... Um naco de beleza. O primeiro sorriso burguez. . .

Heloisa — Você é realista. E por isso enriqueceu ma­ gicamente. Emquanto os meus, lavradores de cem anos, empobreceram em dois. . . Abelardo I — Trabalharam e fizeram trabalhar para mim milhares de seres durante noventa e oito. . . {silencio absorto) . Heloisa — Dizem tanta coisa de você, Abelardo. . . Abelardo I — Já s e i... Os degraus do crim e ... que desci corajosamente. Sob o silencio comprado dos jornaes e a cegueira da justiça de miinha classe! Os espectros do passado... Os homens que traí e assassinei. As mulheres que deixei. Os suicida­ dos . . . O contrabando e a pilhagem. . . Todo o arsenal do theatro moralista dos nossos avós. Nada disso me impressiona nem impressiona mpis o publico. . . A chave milagrosa da fortuna, uma chave y a le ... Jogo com ela! Heloisa — O pânico. . . Abelardo I — Porque não? O pânico do café. Com y dinheiro inglez comprei café na porta das fazendas desesperadas. De posse de segredos governamen- taes, joguei duro e certo no café-papel! Amontoei ] ruinas de um lado o ouro do outro! Mas, ha o tra­ balho constructivo, a industria... Calculei ante a regressão parcial que a crise provocou. . . Descobri e incentivei a regressão, a volta á vela. . . sob o signo do capital americano.

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-•'j Heloisa — Ficaste o Rei da Vela! Abelardo I — Com muita honra! O Rei da vela mise­ rável dos agonizantes. O rei da vela de sêbo. E da vela feudal que nos fez adormecer em creança pensando nas historias das negras velh a s... Da vela pequeno-burgueza dos oratorios e das escritas em casa. . . As emprezas eléctricas fecharam com a crise... Ninguém mais poude pagar o preço da lu z. . . A vela voltou ao mercado pela minha mão previdente. Veja como eu produzo de todos os tamanhos e cores, {indica o mostruário) Para o

Mez de Maria das cidades caipiras, para os arma­ Lv- . Vi zéns do interior onde se vende e se joga á noite, para a hora de estudo das creanças, para os contra­ bandistas no mar, mas a grande vela é a vela da agonia, aquela pequena velinha de cêbo que espa­ lhei pelo Brasil inteiro. .. Num paiz medieval como o nosso, quem se atreve a passar os umbraes da eternidade sem uma vela na mão? Herdo um .1 tostão de cada miorto nacional! Heloisa (sonhando) — Meu pae era o Coronel Belar- 5 1:. mino que tinha 7 fazendas, aquella casa sumptuosa í! de Higienopolis. .. acções, autom óveis... Duas filhas viciadas, dois filhos tarados. . . Ficou mo­ rando na nossa casinha da Penha e indo á missa pedir a Deus a solução que os governos não deram ... Abelardo I — Que não deram aos que não podem viver sem empréstimos.

Heloisa — Meus paes. . . meus tios. . . meus primos. . . Abelardo I — Os velhos senhores da terra que tinham que dar lugar aos novos senhores da terra! Heloisa — No emtanto, todos dizem que acabou a epoca dos senhores e dos latifúndios... Abelardo I — Você sabe que o meu caso prova o con­ trario. Ainda não tenho o numero de fazendas que seu pae tinha, mas já possuo uma area cultivada maior que a que ele teve no apogeu. Heloisa — Ha dez anos. . . A saca de café a duzentos mil réis! Abelardo I — Estamos de fato num ponto critico em que podem predominar aparentemente e em nume­ ro, as pequenas lavouras. Mas nunca como potên­ cia financeira. Dentro do capitalismo, a pequena propriedade seguirá o destino da ação isolada nas sociedades anonymas. O possuidor de uma é um myto economico. Senhora minha noiva, a concen­ tração do capital é um fenomeno que eu apalpo com as minhas mãos. Sob a lei da concorrência, os fortes comerão sempre os fracos. Desse modo é que desde já os latifúndios paulistas se reconstituem sob novos proprietários. Heloisa — Formidável trabalho o seu! Abelardo I — Não faça ironia coiri a sua própria felici­ dade! Nós dois sabemos que milhares de trabalha­ dores lutam de sol a sol para nos dar farra e con­ forto. Com a enxada nas mãos calosas e sujas. Mas eu tenho tanta culpa disso como o papa-

nickeis bem colocado que se enche diariamente de moedas. E’ assim a sociedade em que vivemos. O regimen capitalista que Deus guarde. . . Heloisa — E você não teme nada? Abelardo I — Os inglezes e americanos temem por nós. Estamos ligados ao destino delles. Devemos tudo, o que temos e o que não temos. Hipotecamos pal­ meiras . . . quedas de agua. Cardeaes! Heloisa — Eu li num jornal que devemos só a Ingla­ terra trezentos milhões de libras, mas só chegaram até aqui trinta milhões. . . Abelardo I — E’ provável! Mas compromisso é compro­ misso! Os paizes inferiores têm que trabalhar para os paizes superiores como os pobres trabalham para os ricos. Você acredita que New-York teria aquel- las babeis vivas de arranha-ceos e as vinte mil pernas mais bonitas da terra se não se trabalhasse para Wall Street de Ribeirão Preto a Singapura, de Manáos á Libéria? Eu sei que sou um simples feitor do capital estrangeiro. Um lacaio, se quize- rem! Mas não me queixo. E’ por isso que possuo uma lancha, umia ilha e você. . .

M A IS A B E L A R D O II Abelardo II {entrando) — Perdão! Está ahi o ame­ ricano!. .. {retira-se) M E N O S A B E L A R D O II

Abelardo I {A Heloisa) — Chegou a sua vez de sair, meu bem!

T E A T R O

Heloisa — Como? Abelardo I — Devo a esse hom em . . . Heloisa — Adeus! Abelardo I — Podes passar por esta porta! Não faz mal que ele te veja sa ir... {gesto evasivo de H e­ loisa) . Pelo contrario. Estás linda. . . Heloisa — Sim, adeus! Abelardo I — Perguntará quem é s ... (Heloisa sae)

Só no meio da sena. Abelardo curva-se até o chão deante da porta aberta.

Faça o favor de entrar, Mister Jones! Come hack!

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