O rei da vela: a milicia de Perdigoto Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 10 de 13
Obra Menu

O rei da vela: a milicia de Perdigoto

A B E L A R D O , P E R D IG O T O

Perdigoto entra, choca as botas e faz uma saudação militar cabalistica. Abelardo sen­ ta-se sem responder.

Perdigoto - Gloria! Abelardo I - Que quer comigo?

Perdigoto (Sentando-se a cavalo numa cadeira. Tira um cigarro. Oferece. Fuma) Propor-Die um ne­ gocio . . . Abelardo I — Mais um? Não conhece outro endereço? Perdigoto — E’ uma transação que o interessa.. . (silencio)

Abelardo I — O senhor é um crapula! Perdigoto — Quem é o senhor para me dizer isso? Abelardo I — Um homem que matou a fome da sua fa­ milial Antes mesmo de entrar nela! Perdigoto — Cão! Abelardo I — Insulta-me? Perdigoto — Estou habituado a isso! Na fazenda ainda uso o ch icote... Abelardo I — Mas não comigo, sabe? Insulta e maltrata os que trabalham ... Os que lhe deram as belas roupas com que perde rios de dinheiro na Hipica e no Automovel C lu b e... Felizmente isso acabou, meu amigo. .. Perdigoto (cinico) — Não jógo mais! Abelardo I — Porque não tem dinheiro. Agora bebe. Sei que a fazenda se desorganizou durante uma se­ t* mana toda! Porque o senhor que a administra em nome de seu pae foi tomar pifões de 24 horas com o administrador na Casa Grande. Foi retirado semi-vivo de uma fôrma de vomito. Sabe, um dia

os colonos hão de levantar-lhe uma estatua de vo­ mito, depois de tel-o enforcado. . . Perdigoto {calmo) — Irão depois ás cidades e á capi­ tal. . . levantar estatuas idênticas aos usurários. Abelardo I — Miserável! Perdigoto — Ladrão! Abelardo — Diga o que quer! (silencio) Perdigoto — Tenho notado lá e em algumas proprieda­ des visinhas um descontentamento erescente entre os colonos. Eles estão ficando incontentaveis. Abelardo I — Naturalmente. . . Sempre foram incon­ tentaveis. . . Perdigoto — Estão ficando insolentes, até desaforados. Ora, só ha um remedio. E’ preciso castigar e me­ ter medo. Eu tenho velhos amigos, quasi todos desoccupados... Gente disposta... Que sabe bri­ gar. . . Abelardo I — Já sei! A escoria notambula de São Pau­ lo, os de porta de bar, os faróes de clube de jogo, os gigolôs de lu panar... Perdigoto — Todos pertencentes a excelentes fami- lia s ... Abelardo I — Como você! Perdigoto — Tenho um projecto. Dar-lhes ocupação. Aproveital-os. Abelardo I — Que ocupação pode ter essa ralé? Perdigoto — Uma camisa de çôr basta! Armas, muni­ [VJ ções e .. .

Abelardo I — Dinheiro! Perdigoto — Fóra de brincadeira. A situação obriga a isso. Organizemos uma milicia patriótica. Que acha? Nos instalaremos provisoriamente na Casa central. Combinaremos com os outros fasendei- ros. Arrolaremos gente, a capangada está sempre promta. . . Será o nosso quartel general. E se a colonia der um p io . . . Abelardo I — Será o massacre.. . Processos conhecidos 1 Perdigoto — Claro. Os corvos engordarão! E a paz voltará de novo sobre a fazenda antiga! Abelardo I {depois de um silencio) — Quanto quer? Perdigoto — Dez contos! Abelardo — Sei que vae jogar esse dinheiro. Tentar uma ultima parada. Parasita! {reflete) Mas sua idea não é má. Não deve ser sua. Aliás é uma copia do que está se fazendo nos paizes capitalis­ tas em desespero! (Prepara um cheque) Pron­ to! Se dentro de uma semana não estiver organi­ zada a milicia, ponho-o na cadeia! Perdigoto — Por ter sido seu amigo? Abelardo I — Não, porque falsificou minha assignatura numa letra de treze contos que foi descontada por Pereira & Irmão. Desmoralizando-me com essa quantia ridicula! Mas já tomei providencias. Perdigoto — Sabia isso também? Abelardo I — Quer que lhe dê mais detalhes de sua vida?

Perdigoto {fazendo alusão ao cheque que mostra ao sair) — Não! Por hoje basta.

M E N O S P E R D IG O T O

Abelardo I — Crapulas! Sujos! Um é o Totó Fruta do Conde! O outro, este bebedo perigoso. Virou fascista agora. Minha cunhada veiu sentar de mailot no meu colo para eu coçar-lhe as nadegas. . . com cheques naturalmente. A sogra c a id a ... A outra velha. . . E eu é que devo me sentir honra- dissim o... por entrar numa familia digna, uma faníilia unica. M A IS H E L O ÍS A

Heloisa — {Entra em mailot) Você não vae ao banho? Então todos promptos. Abelardo I — Não vou! Estou com um pouco de dor de cabeça. Prefiro repousar. Leve esse americano duma figa. . . Minha cara, eu estou vendo que pe- guei no duro, no batente, durante dez anos, para fazer uma porção de piratas jogarem yô-yô! Heloisa — Estás arrependido? Não te trago vantagens sociaes? fisicas? Politicas... bancarias... Abelardo I — Mas é que as vezes, de repente perco a confiança. E’ como sc o chão me faltasse. Sei que as tuas relações são bôas. Amanhã teremos um jan­ tar de congraçamento sob as estrellas do pavilhão yankee. Até o mais degenerado dos teus irmãos me será util.

Heloisa — O Frutinha? Abelardo I-— Por emquanto o outro. O ebrio. Vae fun­ dar a primeira milicia fascista rural de São Paulo. f Quem vae se regalar é o tal Cristiano de Ben- sa u d e... o escritor... voce sabe. Ele vem ama­ nha. .. Heloisa — O tal que você chamava de sociologo angé­ lico, ia mandar fazer um samba para ele “ O pirata jejuador” ? Abelardo I — (rindo) E’. A gente nos momentos difi- ceis é obrigado a fazer concessões. Depois o ame­ -f ricano quer união, das confissões religiosas, dos par­ tidos . . . E’ preciso justificar perante o oílhar des­ confiado do povo, os ocios de uma classe. Para isso nada como a doutrina cristan. . . Heloisa — Hein? Você já está assim? Abelardo I — 0 catolicismo declara que esta vida é um simples transito. De modo que os que passaram mal, trabalhando para os outros, devem se resig­ nar. Comerão no cé o . . . Heloisa — E os outros? Abelardo I — Os outros não precisam nem acreditar. Podem até adoptar o scepticisme yô-yô. A vida é um eterno ir e v ir. .. yô-yô. .. Heloisa — E quando enrosca? Abelardo I — Ahi apela-se para Schopenhauer. E ime­ diatamente adota-se a filosofia do tiro no ouvido. . . Deve doer, não? 0 mundo então é uma miséria.

\4 Como Deus não existe mais. Só ha um remedio. O salto no nirvana. Heloísa — Por isso é que você se aniquilou em m im . . . Abelardo I — De facto a minha vida enroscou na sua, Heloisa. Num momento grave, em que é preciso lutar e vencer. Sem piedade. De uma maneira fascista mesmo. Vou me aliar ao Perdigoto e ao Bemsaude. Eles tem utilidade. Heloisa — Você disse que aqui isso não seria possivel. Abelardo I — Tenho estudado melhor. Somos parte de um todo ameaçado — o mundo capitalista. Se os banqueiros imperialistas quiserem ... Você sabe ha um momento em que a burguezia abandona a sua velha mascara liberal. Declara-se cançada de carregar nos hombros os ideaes de justiça da huma­ nidade, as conquistas da civilização e outras bestei­ ras! Organiza-se como classe. Policialmente. Esse momento já soou na Italia e implanta-se pouco a pouco nos paises onde o proletariado é fraco ou dividido. . . Heloisa — Então vou já brincar de jacaré com o Ame­ ricano. Abelardo I — Vae! Ele é Deus Nosso Senhor do Ara­ me. . . Brinca, meu bem. {Heloisa sae pela es­ querda. Atraz dela chamando-a, aparece, pela di­ reita, em mailot centenário, que lhe cobre as ca­ nelas, Dona Poloca)

M E N O S H E L O IS A M A IS D. P O L O C A

D. Poloca — Heloisa! Heloisa! Abelardo I — {barrando-lhe o caminho) De novo a sós! Sabe! Respeito-a porque a senhora é o passado puro! Que não relacha! O cerne! O cer-ne! D. Poloca — (lisongeada) Chaleira! Abelardo I — {Depois de um silencio) Diga, tia Coisa! Diga-me seriamente se a senhora tivesse um milhão de dollars o que faria? D. Poloca — Ora! Fabulista! Abelardo I — Diga. Eu preciso saber. Eu quero saber! Por exemplo, se eu estourasse os miolos e lhe dei- xasse tudo o que tenho. . . D. Poloca — Quer me fazer de idiota? Não faz não! Abelardo I — Não. Quero mesmo saber. Diga. Qual é o seu grande ideal? O que faria se recebesse um milhão? D. Poloca — Iria á Petropolis. Ahelardo I — {Ajoelhando-se). Deixe-lhe beijar os pés! Santinha! O mailot pelo menos! {levanta-se) Pois olhe, ha de ser comigo. Eu lhe dou uma via­ gem a Petropolis! Tomaremos nós dois sozinhos a lancha. Sulcaremos a bahia. Jantaremos no Rio num grande restaurante. Mas a n o ite ... A I* n o ite ... D. Poloca — Uma noite de amor! Nesta edade! Abelardo I — A primeira!. . . Diga que aceita. .. D. Poloca — Olhe que eu não sou de ferro!

Abelardo — Vou mandar preparar a la n ch a ... E uns bolinhos. D. Poloca — Uns pés de moleque! Abá-fa! Abelardo — Abáfa {saindo pela direita. Atira um b e i jo ... d o is ...) Ao luar! Esta noite!

TELA

1/1
Menu

Fazer anotação