O rei da vela: a falencia no terceiro ato Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 11 de 13
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O rei da vela: a falencia no terceiro ato

3 .° A T O o mesmo senario do 1.'’ ato á noite. A sena está atra­ vancada de ferro velho penhorado a uma Casa de Saude. Uma maca no chão. Uma cadeira de rodas. Um radio sobre uma mesa pequena. A iluminação noturna vem de fóra, pela ampla janela. Heloisa se lastima prendendo com os braços as pernas de Abelardo I.

ABELARDO I H E L O ÍS A

Heloisa — {sentorse sobre a maca) — Que desgraça, meu bem! Que pena! Que pena! Abelardo I — Prefiro ser fr a c o ... Heloisa. Você sabe porque nos iamos casar. Não era decerto para fa­ zer um menage de folinha. . . Heloisa — Que pena! Meu Deus! Abelardo I — Terás que procurar outro corretor. . . Vo­ cê sabe. . . Nos casavamos para você pertencer mais á vontade ao Americano. Mas eu já não sirvo para essa operação imperialista. O teu corpo não vale nada nas mãos de um corretor arrebentado que "k irá para a cadeia am anhã... Ou será assassinado pelos depositantes. Essa falência imprevista vae ’ k3' me desmascarar. . . Heloisa — Que horror! Eu não quero que você vá preso f Abelardo I — Não ha perigo. Não irei. {Tira um re­ volver dissimuladamente do bolso) Heloisa — E eu como é que fico? Na miséria outra vez. Eu não sei trabalhar, não sei fazer nada. E

V

a minha g en te... Eu acabo dansando no Moulin B le u ...

Abelardo I — (consolando-a) — Não será preciso, meu amor. Você se casa com o la d rã o.. . Heloisa — (continua a choramingar e mantem-se lasti­ mosa e soluçante durante todo o acto) — Qual de­ les? Eu já perguntei! Abelardo I — O ultimo, o que deu a tacada final nesta partida negra em que fui vencido. . . Heloisa — O americano não quer casar. .. Abelardo I — Mas o outro casa. E’ um ladrão de come­ dia antiga. . . Com todos os residuos do velbo tea­ tro. Quando te digo que estamos num país atra­ sado! Olhe, ele roubou os cheques assinados ao portador. Operou magnificamente. Mas veja, re­ bentou a lam pada... arrombou a secretária... Deixou todos os signaes dos dedos. Para que? Se tinha furtado a chave do cofre. E’ um ladrão an­ tigo. Topa um, casamento com uma nobre arrui­ nada. Na certa!

Heloisa — Já sei! E’ o seu domador! Que homenzi­ nho horrivel, meu Deus! Eu não q u e ro ...

Abelardo I — Não sei. Quem sabe se é R a fles.. . Ar­ sène Lupin, um desses que você gosta, que amava na adolescência... Saido de Edgard Wallace, b e in ?. . .

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Heloisa — Mas eu gosto de v o c e ... Voce vai em bora.. . Para onde voce quer i r . .. Eu tambem v o u .. . com v o c e ... Abelardo I — Não vou não. Fico. Heloisa — {divisa o revolver e dá um grito) — Lar­ gue isso, Abelardo! Abelardo — {defendendo a arma) — Porque Heloisa? O ladrão que á noite passada levou o dinbeiro, dei­ llí xou esta arma no lu g a r... Fez-me um presente... O melhor que podia fa z e r.. . Viu que eu não tinba outra sabida. . . Heloisa — Mas nreu amor! {levanta-se e agarra-se a ele) Mesmo que você esteja arruinado. Mesmo que seja verdade... Você póde ganhar ainda, re­ cu p erar... Você tão inteligente, tão a tiv o ... Abelardo I — Tão esperto! Olhe menina. Eu fui um porcalhão! Sabe você a quem a burguezia devia erguer estatuas? Aos caixas dos bancos! Esses sim é que são colossaes! Firmes como a rocha. Os homens que resistem á tentação da nota. Sabendo para onde ela vai, para que ela serve, donde vem, que infamias pode tecer. . . Os que recusam o cha­ mado da nota! Antigamente, quando a burguezia ainda era inocente. . . A burguezia já foi inocen­ te, foi até revolucionaria. . . Nos bons tempos do romantismo, antes do cinema devassar o mundo, acreditava-se no chamado do Oriente, esse apelo insondavel dos paises mysteriosos e tardos, onde,

no fundo — o cinema depois divulgou — só ha­ via exploração imperialista e palmeiras, mais na­ da. Na epoca moderna, para nós, classe dirigente, minha amiga, só ha um chamado — o chamado da nota! Eu não soube resistir ao chamado da nota! Sendo Rei da Vela, banquei o Rei do Phos- phoro. Também me apossei do que pude! Jo- guei numa terrivel aventura, todas as minhas pos­ sibilidades! Puz as mãos no que não era meu. Blefei quanto' pude! Mas fui vergonhosamente batido por um corin g a ... Pois bem! 0 Rei da Vela não será indigno do Rei do Phosphoro !. .. {agita o revolver) . Heloisa — Abelardo— Não faça essa loucura. Vamos recomeçar. Fugiremos daqui para bem longe! Va­ mos. . . Abelardo I — R ecom eçar.. . uma choupana lirica. Co­ mo no tempo do romantismo! As soluções fóra da vida. As soluções no teatro. Para tapear. Nunca! Só tenho uma solução. Sou um personagem do

I meu tempo, vulgar, mas logico. Vou até o fim. O meu fim ! A morte no terceiro acto. Schope- '! nhauer! Que é a vida? Filosofia de classe rica de­ sesperada! Um. trampolim sobre o Nirvana! {gri~ ta para dentro) 01a! Maquinista! Feche o pano. Por um instante só. Não foi atôa que penhorei ,A . uma Casa de Saude. Mandei que trouxessem tudo para cá. A padiola que vae me le v a r... {fita em

silencio os espectadores) Estão ahi? Se quizerem assistir a uma agonia alinhada esperem! (grita) Vou atear fogo ás vestes! Suicidio nacional! So­ lução do Mangue! (Longa hesitação. Oferece o revolver ao Ponto e fala com ele) Por favor, seu Cireneu. . . (Silencio. Fica interdicto). Vê se afasta de mim esse fosforo. . . >

O ponto — Não é mais possivel! Abelardo I — Como? Não é possivel? O autor não li­ g a ria ... Então? O ponto — Mas a crise ... A situação m u n dial... O imperialismo. Com o capital extrangeiro não se brinca ! Abelardo I — Está bem. (para Heloisa) Tu, meu cravo de defunto, dá-me o ultimo beijo! (enlaçam-se).

O pano encobre a sena. Ouve-se um grito terrível de mulher e luna salva de sete tiros de canhão. Quando reabre, Heloisa soluça jogada sobre a maca. Abelardo está caído na cadeira de rodas que centraliza a sena. O telefone resoa. Ela soluça. Si­

lencio prolongado. O telefone insiste.

Abelardo I — Não atenda. . . E’ o ladrão. Está telefo­ nando para ver se eu já morri. Truque de cinema. ríi Mas como no teatro não se conhece outro, ele usa o mesmo. Virá até aqui. Para nós o identificarmos! Olhem! (Ouve-se um ruido á direita) E’ ele! Pssit! Heloisa! Pára de chorar! (Silencio absoluto

o ruido cresce, persiste. ^Abelardo arqueja e acompanha com enorme interesse. Sorri) Barulho de gazua! E’ ele! (a porta estala. Abelardo II surge, embuçado, de casquete, exageradamente ves­ tido de ladrão. Tirou os bigodes de domador. Traz nas mãos uma lanterna surda. Deixou o monoculo. E’ quasi um gentlem an).

OS M E S M O S E A B E L A R D O II

Abelardo I — Meu alter ego! Foi um suicídio authen- tico. Abelardo matou Abelardo.

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