O rei da vela: a falencia no terceiro ato
3 .° A T O o mesmo senario do 1.'’ ato á noite. A sena está atra vancada de ferro velho penhorado a uma Casa de Saude. Uma maca no chão. Uma cadeira de rodas. Um radio sobre uma mesa pequena. A iluminação noturna vem de fóra, pela ampla janela. Heloisa se lastima prendendo com os braços as pernas de Abelardo I.
ABELARDO I H E L O ÍS A
Heloisa — {sentorse sobre a maca) — Que desgraça, meu bem! Que pena! Que pena! Abelardo I — Prefiro ser fr a c o ... Heloisa. Você sabe porque nos iamos casar. Não era decerto para fa zer um menage de folinha. . . Heloisa — Que pena! Meu Deus! Abelardo I — Terás que procurar outro corretor. . . Vo cê sabe. . . Nos casavamos para você pertencer mais á vontade ao Americano. Mas eu já não sirvo para essa operação imperialista. O teu corpo não vale nada nas mãos de um corretor arrebentado que "k irá para a cadeia am anhã... Ou será assassinado pelos depositantes. Essa falência imprevista vae ’ k3' me desmascarar. . . Heloisa — Que horror! Eu não quero que você vá preso f Abelardo I — Não ha perigo. Não irei. {Tira um re volver dissimuladamente do bolso) Heloisa — E eu como é que fico? Na miséria outra vez. Eu não sei trabalhar, não sei fazer nada. E
V
a minha g en te... Eu acabo dansando no Moulin B le u ...
Abelardo I — (consolando-a) — Não será preciso, meu amor. Você se casa com o la d rã o.. . Heloisa — (continua a choramingar e mantem-se lasti mosa e soluçante durante todo o acto) — Qual de les? Eu já perguntei! Abelardo I — O ultimo, o que deu a tacada final nesta partida negra em que fui vencido. . . Heloisa — O americano não quer casar. .. Abelardo I — Mas o outro casa. E’ um ladrão de come dia antiga. . . Com todos os residuos do velbo tea tro. Quando te digo que estamos num país atra sado! Olhe, ele roubou os cheques assinados ao portador. Operou magnificamente. Mas veja, re bentou a lam pada... arrombou a secretária... Deixou todos os signaes dos dedos. Para que? Se tinha furtado a chave do cofre. E’ um ladrão an tigo. Topa um, casamento com uma nobre arrui nada. Na certa!
Heloisa — Já sei! E’ o seu domador! Que homenzi nho horrivel, meu Deus! Eu não q u e ro ...
Abelardo I — Não sei. Quem sabe se é R a fles.. . Ar sène Lupin, um desses que você gosta, que amava na adolescência... Saido de Edgard Wallace, b e in ?. . .
A /:SI
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Heloisa — Mas eu gosto de v o c e ... Voce vai em bora.. . Para onde voce quer i r . .. Eu tambem v o u .. . com v o c e ... Abelardo I — Não vou não. Fico. Heloisa — {divisa o revolver e dá um grito) — Lar gue isso, Abelardo! Abelardo — {defendendo a arma) — Porque Heloisa? O ladrão que á noite passada levou o dinbeiro, dei llí xou esta arma no lu g a r... Fez-me um presente... O melhor que podia fa z e r.. . Viu que eu não tinba outra sabida. . . Heloisa — Mas nreu amor! {levanta-se e agarra-se a ele) Mesmo que você esteja arruinado. Mesmo que seja verdade... Você póde ganhar ainda, re cu p erar... Você tão inteligente, tão a tiv o ... Abelardo I — Tão esperto! Olhe menina. Eu fui um porcalhão! Sabe você a quem a burguezia devia erguer estatuas? Aos caixas dos bancos! Esses sim é que são colossaes! Firmes como a rocha. Os homens que resistem á tentação da nota. Sabendo para onde ela vai, para que ela serve, donde vem, que infamias pode tecer. . . Os que recusam o cha mado da nota! Antigamente, quando a burguezia ainda era inocente. . . A burguezia já foi inocen te, foi até revolucionaria. . . Nos bons tempos do romantismo, antes do cinema devassar o mundo, acreditava-se no chamado do Oriente, esse apelo insondavel dos paises mysteriosos e tardos, onde,
no fundo — o cinema depois divulgou — só ha via exploração imperialista e palmeiras, mais na da. Na epoca moderna, para nós, classe dirigente, minha amiga, só ha um chamado — o chamado da nota! Eu não soube resistir ao chamado da nota! Sendo Rei da Vela, banquei o Rei do Phos- phoro. Também me apossei do que pude! Jo- guei numa terrivel aventura, todas as minhas pos sibilidades! Puz as mãos no que não era meu. Blefei quanto' pude! Mas fui vergonhosamente batido por um corin g a ... Pois bem! 0 Rei da Vela não será indigno do Rei do Phosphoro !. .. {agita o revolver) . Heloisa — Abelardo— Não faça essa loucura. Vamos recomeçar. Fugiremos daqui para bem longe! Va mos. . . Abelardo I — R ecom eçar.. . uma choupana lirica. Co mo no tempo do romantismo! As soluções fóra da vida. As soluções no teatro. Para tapear. Nunca! Só tenho uma solução. Sou um personagem do
I meu tempo, vulgar, mas logico. Vou até o fim. O meu fim ! A morte no terceiro acto. Schope- '! nhauer! Que é a vida? Filosofia de classe rica de sesperada! Um. trampolim sobre o Nirvana! {gri~ ta para dentro) 01a! Maquinista! Feche o pano. Por um instante só. Não foi atôa que penhorei ,A . uma Casa de Saude. Mandei que trouxessem tudo para cá. A padiola que vae me le v a r... {fita em
silencio os espectadores) Estão ahi? Se quizerem assistir a uma agonia alinhada esperem! (grita) Vou atear fogo ás vestes! Suicidio nacional! So lução do Mangue! (Longa hesitação. Oferece o revolver ao Ponto e fala com ele) Por favor, seu Cireneu. . . (Silencio. Fica interdicto). Vê se afasta de mim esse fosforo. . . >
O ponto — Não é mais possivel! Abelardo I — Como? Não é possivel? O autor não li g a ria ... Então? O ponto — Mas a crise ... A situação m u n dial... O imperialismo. Com o capital extrangeiro não se brinca ! Abelardo I — Está bem. (para Heloisa) Tu, meu cravo de defunto, dá-me o ultimo beijo! (enlaçam-se).
O pano encobre a sena. Ouve-se um grito terrível de mulher e luna salva de sete tiros de canhão. Quando reabre, Heloisa soluça jogada sobre a maca. Abelardo está caído na cadeira de rodas que centraliza a sena. O telefone resoa. Ela soluça. Si
lencio prolongado. O telefone insiste.
Abelardo I — Não atenda. . . E’ o ladrão. Está telefo nando para ver se eu já morri. Truque de cinema. ríi Mas como no teatro não se conhece outro, ele usa o mesmo. Virá até aqui. Para nós o identificarmos! Olhem! (Ouve-se um ruido á direita) E’ ele! Pssit! Heloisa! Pára de chorar! (Silencio absoluto
o ruido cresce, persiste. ^Abelardo arqueja e acompanha com enorme interesse. Sorri) Barulho de gazua! E’ ele! (a porta estala. Abelardo II surge, embuçado, de casquete, exageradamente ves tido de ladrão. Tirou os bigodes de domador. Traz nas mãos uma lanterna surda. Deixou o monoculo. E’ quasi um gentlem an).
OS M E S M O S E A B E L A R D O II
Abelardo I — Meu alter ego! Foi um suicídio authen- tico. Abelardo matou Abelardo.