O rei da vela: a jaula dos devedores Teatro: A morta e O rei da vela · Capítulo 6 de 13
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O rei da vela: a jaula dos devedores

Abelardo II — {obedece de chicote em punho. A por­ ta de ferro corre pesadamente) .

M A I S C L IE N T E S

Os clientes aparecem atropeladamente nas grades, E ’ uma coleção de crise, variada, expetante. H om ens e mulheres mantêm-se quietos ante o enorme chicote de Abelardo

Abelardo I — Rua! Nem mais um negocio! Vou fe­ char esta bagunça. Vozes {da jaula) — Pelo amor de Deus! Por caridade! Eu não posso pagar o aluguel! Reforme! Vou á falência! Abelardo I — Rua! Ninguém mais pode trabalhar num ; paiz destes! Com leis monstruosas! As vozes — Eu tenho que fechar a fabrica! Não pode­ rei pagar os duzentos operários que ficarão sem pão! Tenha piedade! Inclua os juros no capital! Damos excelentes garantias! Abelardo I (a Abelardo II) — Feche esta porta! Não atendo ninguém! {Abelardo II faz estalar o chico­ te de domador) . As vozes — Blefaremos o governo! Me salve! Me salve! Abelardo I — Rua! Canalhas! Lá fóra sei como'*vo- cês me tratam! {Abelardo II fal-os recuar das gra­ des, brandindo o chicote e ameaçando com o revol­ ver) . Uma voz de mulher — Ai Jesus! Não temos o que co­ mer! Eu não saio daqui! Espero até a noite! Estou arruinada! As vozes irritadas — {Abelardo II procura fechar a porta de ferro) Canalha! Sujo! Tirou o nosso sangue! Ladrão! Não saimíos daqui! Um italiano — Pamarona! Momanjo isto capitalista! Uma franceza — Sale cochon! Si c’est possible! Con! Um russo branco — Svoloch! Um turco — Joge paga batéca! Non izacuta Jóge.

'Si As vozes (em côro) — Assassino! Abelardo I — Feche! Atire! (Abelardo II dá um tiro para o ar. Os clientes recuam gritando). Ele coire a porta de ferro ruidosamente). As vozes (abafadas) Cão! Rei da Vela! Pão duro! Uma voz de mulher (gritando do outro lado da porta) — Meu marido bebeu estriquinina ! Outra — Minha mãe tomou lysol! Outra — Meu pae se jogou do Viaduto! Abelardo I — Lysol! Estriquinina! Viaduto! E’ do que vocês precisam, canalhas!

M E N O S C L IE N T E

T elefone Abelardo II (atendendo) — A lô! E’ o padre! Aquele da entrevista! Está, reverendo! Vem j á . . . Abelardo I — Mas você marcou? Abelardo II — Não marquei nada. Abelardo I (toma o fone) — Bom dia, reverendo! Sou eu mesmo. Abelardo. . . Ah ! Com muitissima honra. . . Esperarei vossa reverendissima. Pode ser ás quatro horas? E n tã o ... sem d u vid a ... Beijo-lhe as mãos! Sempre ás suas ordens (Depõe o fone) Este padre é engraçado... Não me larga. . . Eu não sou eleitor. . . Ele não quer di­ ‘I nheiro . . .

i r Abelardo II — Quer a sua alma. . .

T E A T R O

Abelardo I — Evidentemente é um caso raro. Um homem preocupar-se comigo sem ser logo á vista. . . Quanto? Abelardo II — Ele prefere tratar desde já do seu testamento. Abelardo I — Inútil. Eu morro ateu e casado. Abelardo II — E’ isso mesmo que ele quer. A viuva cuidará bastante de sua alma que terá i d o ... para o purgatório. . . Abelardo I — Diga-me uma coisa, seu Abelardo, você é socialista? Abelardo II — Sou o primeiro socialista que aparece no Teatro Brasileiro. Abelardo I — E o que é que você quer? Abelardo II — Sucedel-o nessa mesa. Abelardo I — Pelo que vejo o socialismo nos paizes atrazados começa logo assim. . . Entrando num acordo com a propriedade... Abelardo II — De facto. . . Estamos num paiz semi- colonial. . . Abelardo I — Onde a gente pode ter ideas, mas não é de ferro. Abelardo II — Sim. Sem quebrar a tradição. Abelardo I — Se fôr preciso, o padre leva a sua alma tam bém ... Está c e r to ... Vamos examinar aque­ las propostas {senta-se e lê) — Carmo Belatine. . . Abelardo II — E’ aquele da fabrica de salchichas. . . O frigorifico. . . Que comprou o terreno da Lapa. Abelardo I — Edade?

AbelardoII — Trinta e nove anos. Abelardo I — Nivel de vida? ^ Abelardo II — Nivel baixo ainda. Faz a barba na terrina da sopa, com sabão de cosinha e gilete de segunda m ão. . . Abelardo I — Já fala o portuguez? Abelardo II — Ainda atrapalha. Abelardol — Gasta menos do que tira dos traba­ lhadores? Abelardo II — Muito menos! Abelardo I — Tem filhos grandes?

Abelardo II — Pequenos ainda. Abelardo I — Em bons colégios? Abelardo II — Sim. Oiseaux, Sion, São Bento. Abelardo I — Bem. Tome nota. Emprestamos em- quanto os pequenos estudarem. Quando as filhas começarem o serviço militar nas garçoniéres, e o pequeno tiver barata, e Mme. souber se vestir, emprestaremos então de preferencia á costureira de madame. O velho ahi terá mudado de nivel. Pos­ suirá automovel, casa no Jardim America. Cessa­ remos pouco a pouco todo o credito. Nem mais um papagaio! Ele virá aqui caucionar os titulos dos comerciantes a quem fornece. Executarei tudo um dia. Levarei a fabrica, os capitaes imobilizados e o ferro velho á praça. Abelardo II — E a míulher dirá que foram os operários que os arruinaram.

7.‘v' ‘m

Abelardo I — E foram de facto. Eu conto como factor essencial dessas coisas as exigências atuaes do ope­ rariado. O salario minimo. As ferias. Que diabo. As taes leis sociaes não hão de ser só contra o capital. . . Abelardo II — Não são não. Descanse. Eu entendo de socialismo. Olhe. A lei de ferias só deu um resultado. Não ha mais salario de semana ou de mez. E’ por dia de trabalho, ou por contrato. Somando bem, os domingos, feriados e dias de doença eram mais que as ferias de boje. Abelardo I — Bem. Guarde esta ficha nos Firmes. Feche o negocio. A mesma taxa. 0 sistema da casa. Chame a secretaria n.** 3. Quero ditar uma carta. {Abelardo Il^sae)

ABELARDO I E S E C R E T A R IA N. 3

A secretaria — (E’ uma moça, longa, de oculos e tran­ ças enormes e loiras. Veste-se pudicamente. Traz lapis e block-notes na m ão). — E’ para bater á maquina, seu Abelardo? Abelardo I — Não. Para estenografar. Nem isso. A senhora sabe redigir. Melhor do que eu. Faça uma carta. Sente-se ahi. {Sentam-se perto um do ou­ ' 1 tr o ). Dona A id a ... Aida lo ir a ... Aida de Wagner. Como é? Não precisa de um Radamés? A secretaria — Preciso que o senhor melhore o meu ordenado. O custo da vida augmentou no Brasil de 30%.

r

Abelardo I — Tenho todo interesse pelo custo de sua vida. . . Mas a senhora sabe. . . As vidas hoje estão dificeis para to d o s ... Não é mais como antiga­ mente . . . Que tranças! . . . Eu acabo me enfor­ cando nessas tran ça s!... Deixa? {procura tocar- lhe os cabelos) . A secretaria — Tenha modos, seu Abelardo! Abelardo I — Deixa? Malvada! A secretaria — Nunca. Eu sou romantica. Não vendo o meu amor! Abelardo I — Vamos fazer um pic-nic {aponta o divam sob a Gioconda) Debaixo daquela mangueira? A secretaria — Eu sou noiva. Abelardo I — Eu também. A secretaria — Mas eu sou fie l. . . Abelardo I — Bem! Depois não venha fazer vales aqui hein. Eu também sei ser fiel ao sistema da casa. Vá lá. Redija! Não. Tome nota. Olhe. E’ uma carta confidencial. A um tal Christiano de Ben- saúde. Industrial no Rio. Metido a escriptor. Re­ dija sem erros de portuguez. O homem foi critico literário e avançado, quando era prom to. . . Ele me escreveu propondo frente unica contra os ope­ rários. Responda em tese (a secretaria toma

nota) insinue que é melhor ele ser um puro poli­ cial. Manter vigilância rigorosa nas fabricas. Evi­ tar a propaganda comunista. Denunciar e perseguir os agitadores. Prender. Esse negocio de escrever

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livros de sociologia com anjos é contraproducente. Ninguém mais crê. Fica ridiculo para nós, indus- triaes avançados. Deante dos americanos e dos inglezes. Olhe, diga isto. Que a burguezia morre sem Deus. Recusa a extrema unçao. Cite o exem­ plo de proprio Vaticano. Coisas concretas. A ade­ são politica da egreja contra um bilhão e setecentos milhões de liras, o ensino religioso e a lei contra o divorcio. Tomá lá, da cá. Não vê que um alpinista como Pio X I põe anjos em negocios. Vá redigir e traga logo. Para seguir h o je . . . Ver se esse homem deixa de atrapalhar. Um sujeito feudal. Vitima do seu proprio sistema. Paga um^ salario medieval, 20$000 por quinzena.

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