Baladas Mouriscas I Literatura Mourisca · Capítulo 3 de 13
Obra Menu

Baladas Mouriscas I

Baladas Mouriscas

Baladas Mouriscas

Tradução métrica original em inglês por Epiphanius Wilson, A.M. Revisão Literunico em português brasileiro.

O Amor de Fátima

Na manhã de São João Batista, ao romper claro do dia,

os mouros pelos campos de Granada saíram em luzida companhia.

Galopavam sobre a relva os cavalos; no ar, as lanças cintilavam,

e os pendões tecidos pelas damas suas cores desfraldavam.

As aljavas resplandeciam, de ouro e seda em brocado;

o mouro que ali via sua amada seguia mais bem-aprumado,

e aquele que amor não tinha buscava algum amor ganhar.

Das torres da Alhambra, vendo aquele cortejo militar,

estavam duas damas mouras, ambas feridas de amor:

uma era Zarifa; Fátima, a outra, tinha esse nome e essa dor.

Unira-as terna amizade, até que, tomadas de ciúme,

seus olhares se encontraram diante de um cavaleiro em alto lume.

Disse Zarifa a Fátima: "Como o amor te marcou a face!

Onde rosas floresciam, agora o lírio nasce;

e tu, que antes falavas de amor, permaneces muda e recolhida.

Vem, vem à janela contemplar a festa colorida!

Abindarraez passa agora; todo o seu cortejo está à vista;

em Granada ninguém ostenta comitiva mais seleta."

"Não é o amor, Zarifa, que me rouba a cor da face;

nenhuma paixão ansiosa neste peito triste nasce.

É verdade: estou pálida, calada, sem alegria;

pois sinto falta do rosto de meu pai, que Alabey matou em fúria.

E, se eu quisesse o dom do amor, mil cavaleiros viriam

lutar por mim, fiéis, naquela planície florida.

E todo amor que eu desse, cada um me devolveria.

Quanto a Abindarraez, cujo coração e valentia

tu louvas da janela, com tão arrebatado encanto..."

A dama se calou: aos pés das duas ajoelhava-se o cavaleiro amado.

O Fanfarrão Repreendido

"Se és valente na hora da batalha

como és ousado no tumulto do prazer;

se sabes fazer voar as lanças

como lanças palavras a correr;

se na vega sabes combater

como sabes louvar os olhos das damas;

se mostras a cavalo ao menos metade

da arte que mostras entre danças e palmas;

se recebes, com brio de justa,

o desafio da lança mortal,

e no jogo das cimitarras

és ligeiro como em dança festal;

se estás pronto no campo aberto

como és ágil na praça em festa;

e encaras a frente da batalha

como encaras a formosa que te presta;

se vestes tua malha brilhante

tão leve quanto o traje de gala,

e ouves o chamado da trombeta

como se fosse o alaúde de tua dama;

e se, como na hora dos jogos,

fazes girar o junco rumoroso,

contra o fosso do campo inimigo

esporeias teu corcel estrondoso;

se, quando o inimigo está face a face,

te gabas como tantas vezes fizeste,

quando longe se alinhavam suas fileiras

e a luta feroz ainda não começara;

vai, Zaide, vai à Alhambra,

e ali defende tua fama de soldado;

pois toda língua ali se move,

e todos dizem teu nome, zombando.

E se temes ir sozinho,

leva outros em teu socorro;

teus amigos estão ao teu chamado,

e Zaide não precisa ter medo.

Não é no pátio do palácio,

entre damas reluzentes,

que o bom soldado, pela língua,

prova ser valente entre os combatentes.

Não é ali que suas mãos demonstram

o que podem fazer na guerra;

mas onde o choque do ataque prova

o coração sem medo e o braço de ferro.

Vai, pois, ao campo ensanguentado,

e deixa tua espada cantar teu louvor;

mas o silêncio é mais eloquente

entre os cortesãos do rei, meu senhor."

Assim escreveu Tarfe, o cavaleiro mouro,

com o peito tomado de furor,

e por onde passava sua pena ardente

rasgava a página frágil com seu ardor.

Chamou seu pajem para junto de si:

"Busca agora o salão da Alhambra", disse,

"e diz em segredo a Zaide

que esta epístola vem de mim;

e sussurra, para que ninguém mais ouça,

que espero a sua vinda

onde a corrente cristalina do Genil

lava os pilares daquele portão do palácio."

A Despedida do Almirante

A frota real, de velas palpitantes, espera na baía;

e o bravo Mustafá, o almirante, deve partir ao romper do dia.

Veste depressa o capuz e o manto de muitos matizes,

e põe sobre a fronte o turbante ornado de pérolas e amuletos felizes;

acima da cabeça, plumas de várias cores ondulam largamente;

como lua crescente, a cimitarra pende-lhe ao flanco reluzente.

À janela, ele contempla o mar; e eis que, sobre as águas a tremular,

flutua pela baía o chamado para embarcar.

Soprai, trombetas; clarins, erguei vosso cantar!

Bate, timbale, o alarme a ressoar.

Que pífano agudo, flauta e sacabuxa façam soar

o chamado ao nosso almirante, a salva ao nosso rei no mar!

O altivo turco pousou o sapato escarlate no estribo,

e com leveza saltou para a sela, em gesto vivo.

Era árabe o seu corcel; na crina e nos jarretes aparecia

pelo lustroso, macio como seda, branco como neve ao meio-dia.

Só uma marca havia em seu flanco, gravada funda e escura:

a letra F, em escrita árabe, como sinal de sagrada figura.

Pela cor de seu cavalo queria que todos pudessem ver

que a alma do almirante do rei era branca, leal e limpa em seu ser.

Ah, veloz e cheio de ardor era o animal que naquele dia levou

Mustafá, alto almirante, até a praia que a onda golpeou!

O altivo turco parte ao amanhecer, para Malta conquistar,

mas conquistas ainda maiores seus homens hão de alcançar;

pois alto está seu coração, e sua alma se inclina à morte ou à vitória,

e ele se detém quando vem do mar distante o som de guerra e glória.

Soprai, trombetas; clarins, erguei vosso cantar!

Bate, timbale, o alarme a ressoar.

Que pífano, flauta e sacabuxa, em acordo,

proclamem: a bordo! A bordo!

Tua pinaça te espera no cais, senhor almirante, a bordo!

E, ao ouvir o chamado, o Amor responde por ele assim:

"Ó fortuna cruel, para onde mandas o guerreiro fugir de mim?

Devo buscar-te no oceano, onde rugem vento e vagalhão?

Devo buscar-te ali porque em terra te busquei em vão?

E pensas que o oceano, cruzado por minha vela brilhante,

com todas as suas águas e rios em número transbordante,

poderá apagar o fogo ardente que em meu peito vem arder,

e acalmar a febre de minha alma por uma hora sequer?"

Assim, em pensamento amargo, Mustafá apressado chegou

a uma varanda; até a aurora, diante daquela casa caminhou.

Contou e recontou todas as angústias do coração,

e, quando a noite escura começou a abrir-se em clarão,

surgiu na varanda a causa de todos os seus suspiros;

mas havia sorriso em seus lábios rosados e luz em seus olhos vivos.

"Ó formosa Zaida", começou ele, fitando-lhe o rosto em paixão,

"se minha presença à tua janela pesa sobre tua paz e teu coração,

concede-me um penhor, um só penhor de amor, eu te peço,

e deixa-me beijar tua mão de lírio antes que eu parta sem regresso."

"Entristece-me tua partida", respondeu a dama com brandura,

"e não preciso de penhor para dizer-te que sou fiel até a sepultura.

Mas, se um sinal precisas ter, toma este antes de partir;

foi feito por estas minhas mãos: guarda-o junto ao peito, a sentir."

O mouro ergueu-se nos estribos e tomou-o de sua mão:

era uma faixa de ouro e seda, para ornar elmo em ocasião.

Nela estava a roda da fortuna, traçada por agulha sutil

- ah, Fortuna, que ali o deixava abatido e febril!

E, quando ele se deteve, ouviu voltar o tumulto e o clamor;

vinha da frota, lá na baía, e ele conhecia bem aquele teor.

Soprai, trombetas; clarins, erguei vosso cantar!

Bate, timbale, o alarme a ressoar.

Que pífano, flauta e sacabuxa, em acordo,

proclamem: a bordo! A bordo!

Tua pinaça te espera no cais, senhor almirante, a bordo!

Oh, esperai, meus inimigos; não me chameis tão depressa ao campo!

Deixai-me aqui colher triunfos de conquista mais branda e de outro encanto!

Este é o fim do meu desejo, o alvo de minha intenção:

que a mão de Zaida esteja na minha, e seu coração pulse junto ao meu coração.

Então falou a bela sultana, deixando cair terna lágrima:

"Não chores pela dor presente, pois a alegria futura se aproxima.

Velozes são as asas do Tempo, e trazem dia mais claro;

e, quando vier o dom esperado, nunca mais será passado."

Então o coração do mouro bateu alto de alegria;

seus suspiros transformaram-se em sorrisos naquele dia.

Em silencioso êxtase, fitou os olhos da senhora;

depois cavalgou para a frota que o esperava, pois o vento era favorável naquela hora.

Mas, enquanto seu corpo embarcava e seguia ao mar sem fim,

deixou o coração para trás, preso a Zaida e longe de si.

Soprai, trombetas; clarins, erguei vosso cantar!

Bate, timbale, o alarme a ressoar.

Que pífano agudo, flauta e sacabuxa façam soar

o chamado ao nosso almirante, a salva ao nosso rei no mar.

Moriana e Galvan

Era a princesa Moriana,

no alto de um castelo,

que jogava cartas com Galvan, o mouro,

para seu deleite singelo.

Muitas vezes ele perdia as apostas,

muitas moedas, bem sei;

quando Moriana perdia,

dava-lhe a mão para beijar.

Depois de horas de prazer,

Galvan, o mouro, adormeceu;

e logo a dama viu um cavaleiro

descer pela montanha escarpada.

Sua voz erguia-se em tristeza,

seus olhos vinham molhados de pranto;

pois a formosa Moriana

seu coração jamais esquecera.

Por ela, no dia de São João,

quando colhia flores,

os mouros a tinham feito cativa

sob as torres de seu pai.

Moriana ergueu os olhos

e viu seu amado cavalgar;

e em suas faces o senhor mouro

distinguiu lágrimas a brilhar.

Em fúria inflamou-se seu espírito,

e assim lhe falou, irado:

"Que tens, gentil senhora?

Por que teus olhos correm em lágrimas?

Se mouros meus te fizeram mal,

juro que morrerão;

se alguma de tuas donzelas

causou-te esta aflição,

o açoite sobre seus ombros

vingará sua maldade.

Ou, se teus parentes cristãos

fizeram tua alma sofrer,

com exércitos conquistadores

irei suas províncias invadir.

As armas de guerra que visto

são para mim trajes de festa;

para mim, o fragor da batalha

é doce tranquilidade.

Os mais duros labores do guerreiro

encontro com firme alegria;

para mim, a vigília que dura a noite inteira

é como sono suave."

"Nenhum mouro teu, nestes salões,

causou-me esta dor;

nenhuma donzela em meu aposento

mostrou-me desdém;

nem meus parentes cristãos

fizeram meu espírito lamentar,

provocando-te, em vingança,

a invadir suas terras.

É vão esconder dos olhos de Galvan

a causa profunda de minha aflição:

é que vejo, lá embaixo, pela encosta,

um cavaleiro armado passar.

E essa visão arranca minhas lágrimas

das fontes mais fundas do coração;

pois aquele cavaleiro é tudo para mim:

meu marido e meu amor."

Logo a face do mouro se acendeu de raiva,

até o vermelho vencer o moreno;

e ele ergueu o punho cerrado

como se fosse derrubá-la.

Rangeu os dentes em paixão feroz,

os lábios rubros de sangue;

chamou seus escravos e ordenou

que cortassem a cabeça da dama.

Mandou que a amarrassem e a levassem

primeiro ao alto da montanha,

para que ela sofresse a sentença

à vista de seu marido.

Mas tudo o que a dama respondeu,

quando foi levada à morte,

foram palavras de fé e lealdade

levadas em seu último alento:

"Vede: morro cristã,

e aqui repito meus votos

de fidelidade àquele cavaleiro,

meu amado e legítimo esposo."

O Pai Enlutado

"Levanta-te, levanta-te, cabeça encanecida,

que loucura te causa demora?

Matas porcos na manhã de quinta-feira

e comes carne em dia de jejum.

Já faz sete anos desde a primeira vez

que pisei o vale e o bosque errante;

meus pés estavam nus, minha carne ferida,

e todo o meu caminho manchado de sangue.

Ah, tristemente procuro em vão

a filha do imperador, que se foi,

feita prisioneira por mouros infames

na manhã de São João.

Ela colhia flores na planície,

arrancava rosas dos ramos,

e no pomar de seu pai

a encontraram e levaram embora."

Moriana ouviu essas palavras,

recolhida no abraço do mouro;

e as lágrimas que brotaram de seus olhos

molharam o rosto moreno de seu captor.

O Alcaide de Molina

O alcaide de Molina, ah! que furiosa era sua corrida,

quando cravou as esporas brilhantes no flanco da montaria;

as rédeas pendiam soltas do freio pela estrada branca,

pois seu intento era apressar o cavalo, seguir sem demora ou pausa.

Montava um ruão grisalho e com o vento competia;

as brisas em torno dele roçavam como tempestade na erma planície.

Na praça de Molina, enfim, deteve-se em posição,

e com voz de trovão lançou esta ordem à multidão:

Às armas, às armas, meus capitães!

Soai, clarins; trombetas, ressoai;

e que o timbale trovejante

lance desafio ao inimigo.

"Deixai agora festas e banquetes; cingi-vos de aço!

Deixai os leitos do deleite, onde o sono vos prende em seu laço.

A pátria chama por socorro; todos devem obedecer,

pois a liberdade de vossos pais está hoje em vosso poder.

Ah, dura pode ser a luta, e vasto pode ser o custo;

mas nenhum laço de amor deve deter-vos, ou tudo estará perdido.

Em peitos onde mora a honra, não há lugar, em horas assim,

para brincar ao lado de uma dama ou ajoelhar-se aos seus pés."

Às armas, às armas, meus capitães!

Soai, clarins; trombetas, ressoai;

e que o timbale trovejante

lance desafio ao inimigo.

"Sim, na hora do perigo, longe o cativeiro do prazer!

Que a honra tome lança e corcel para ao chamado da pátria responder.

Pois os que, covardes, recusarem enfrentar o inimigo na peleja

cairão sob os pés de todos, feridos por golpe ainda mais duro.

Quando a bela coroa da honra se oferece aos valentes,

e perigos se abrem em torno do Estado, fundos como a morte,

é justo que braços fortes e corações robustos tomem a espada poderosa

e desçam ansiosos à luta pela terra dos pais."

Às armas, às armas, meus capitães!

Soai, clarins; trombetas, ressoai;

e que o timbale trovejante

lance desafio ao inimigo.

"Deixai, pois, as vestes de seda, o brocado reluzente;

vesti-vos todos de couro e aço retorcido.

Em cada braço esquerdo penda o escudo, guardião seguro do peito;

tomai a cimitarra curva e apoiai a lança em riste.

Encarai a sorte do dia, pois fugir será em vão:

só o covarde e o fanfarrão estão agora condenados a morrer.

E que cada peito viril mostre, na luta que se aproxima,

valor tal que o próprio Marte, em fúria, pudesse exibir."

Às armas, às armas, meus capitães!

Soai, clarins; trombetas, ressoai;

e que o timbale trovejante

lance desafio ao inimigo.

Ele falou; e, às suas palavras valentes, que pela praça ressoaram,

até os mais covardes da cidade resolveram ousar e agir.

Movidos pelo fogo ardente da honra, saíram em tropel pelo portão;

plumas ondulavam no ar, lanças e alfanges reluziam.

Cabeças turbantadas, faces ferozes, sorrisos apagados pela ira,

corcéis suados, esporas brilhantes e mãos cerradas em fúria

seguiram os estandartes ondulantes que para a vega se lançavam,

e muitas vozes repetiam as palavras do alarme selvagem.

Às armas, às armas, meus capitães!

Soai, clarins; trombetas, ressoai;

e que o timbale trovejante

lance desafio ao inimigo.

E, como cordeiros tímidos que se ajuntam balindo no redil

ao verem o lobo furioso avançar-lhes sobre a garganta,

as formosas donzelas mouras, de olhos úmidos e ainda flamejantes,

reuniram-se na praça pública e encheram o ar de clamores.

E embora, como mulheres delicadas, fosse inútil tomarem armas,

repetiam em voz alta as palavras do alarme.

Ao céu clamavam por socorro; e, enquanto ao céu rezavam,

chamavam os cavaleiros que amavam para armá-los para a batalha.

Às armas, às armas, meus capitães!

Soai, clarins; trombetas, ressoai;

e que o timbale trovejante

lance desafio ao inimigo.

Os primeiros nobres mouros, a escolhida tropa de Molina,

precipitaram-se para fora da cidade, a fim de conter os invasores.

Ali, formados em esquadrão, com armas luzentes avançaram,

como cavaleiros e nobres senhores, para acudir à necessidade da pátria.

Doze mil cristãos cobriam a planície, doze mil guerreiros provados;

incendiavam casas, ceifavam o trigo, pela ampla vega espalhados.

E os guerreiros de Molina manejavam suas lanças furiosas,

erguendo, em sua própria língua árabe, o grito de reunião.

Às armas, às armas, meus capitães!

Soai, clarins; trombetas, ressoai;

e que o timbale trovejante

lance desafio ao inimigo.

Os Amores de Boabdil e Vindaraja

Onde se ergue a cidade de Antequera, na planície meridional,

a cativa Vindaraja senta-se e lamenta em vão sua sorte.

Enquanto Chico, rei da orgulhosa Granada, não descansa noite nem dia,

pois, entre todas as damas mouras, é Vindaraja quem ele mais ama.

E, enquanto nada lhe dá consolo, nada seca o seu pranto,

não é o trabalho da escravidão nem a cela que lhe traz espanto;

pois, embora seu corpo permaneça em Antequera,

seu coração está em Granada, sobre a colina da Alhambra.

Ali, enquanto o monarca mouro anseia por tê-la ao seu lado,

ainda mais vivo é o desejo de Vindaraja de tornar-se esposa de um rei.

Ah! tarda muito o instante que lhe trará liberdade;

em cada segundo parecem voar mil vezes mil anos.

Pois pensa no régio Chico, e seu rosto se molha de lágrimas,

sabendo que a ausência muitas vezes faz esquecer o coração mais terno.

E até o amante mais fiel pode sentir suspeita

por quem, em terra distante, guarda coração firme como aço.

Então, para resolver suas dúvidas ansiosas, toma um dia a pena

e escreve ao régio Chico, em Granada longínqua.

Ah, longa foi a carta em que lhe contou seu estado,

confinada em cela solitária, cativa desolada.

Enviou-a por um cavaleiro mouro e selou-a com seu anel;

ele era alcaide da Alhambra e ficava junto ao rei.

Viera, enviado pelo rei, à torre de Antequera,

para saber como vivia Vindaraja naquele cárcere.

O mouro foi fiel ao encargo, guerreiro forte e leal;

e Chico tomou a nota de amor e, trêmulo, rompeu o selo.

Quando viu a página aberta e leu o que continha,

estas foram as palavras com que a dama se queixava de sua dura sorte:

A Carta de Vindaraja

"Ah, infeliz é a donzela ferida de amor, como eu, em cativeiro,

pois a liberdade já foi minha, e eu era feliz dia e noite.

Sim, feliz, porque sabia que me tinhas dado teu amor,

dom precioso aos corações solitários, acima de todos os dons.

Bem poderias esquecer-me, embora fosse traição dizer

que a chama de teu régio peito já se extinguiu.

Ainda assim, embora tantas vezes os corações amantes sofram na ausência,

sei que, se há votos fiéis, os teus serão fiéis.

É duro, de fato, para os amantes esmagar o pensamento duvidoso

que alguma hora solitária traz ao peito que medita.

Não há segurança para o amor quando definham longe dos olhos

a forma, o sorriso e os olhos vivos que foram seu encanto.

Nem posso, confesso, sentir-me certa de teu voto.

Quantas damas mouras se reúnem agora ao teu redor!

Quantas formas mais belas e luminosas cercam teu trono,

capazes de transformar em cera um coração de aço ou pedra!

E, se há de fato razão para eu acusar teu coração,

é a demora que mostraste em tomar minha defesa.

Por que não são enviados exércitos para romper estas grades

e trazer de volta ao lar a donzela moura, favorita do rei?

Uma donzela cujos olhos se tornaram fontes de lágrimas,

pois pensa em ti e chora por ti através destes anos ausentes.

Crê-me: se fosses tu o cativo em correntes,

minha vida de alegria, para salvar-te, eu drenaria o sangue do coração.

Ó rei e senhor, se ainda sou tua amada,

como nos dias em que cheguei à colina da Alhambra,

envia resgate à tua querida, ou teme que seu amor desfaleça,

pois o amor que precisa de sol murcha na sombra.

E, no entanto, não posso duvidar de ti; se o sopro da suspeita

esfriasse meu coração, esse instante seria a morte de Vindaraja.

Não penses, se me esquecesses ou me repelisses de teus braços,

que a vida teria para Vindaraja outros encantos.

Foi teu orgulho ter amado uma princesa, agora escrava;

foi meu orgulho obedecer inteiramente à tua vontade.

E, se deste cárcere eu saísse, livre outra vez,

para sentar-me e ouvir tuas palavras de amor na planície da Andaluzia,

meu pensamento mais luminoso seria saber que tu, o rei,

julgaste justo libertar uma escrava infeliz para fazê-la tua rainha.

Dura é aqui a sorte da servidão, pesada é minha corrente;

das grades da prisão olho para fora em lamento vão.

Mas essas são coisas leves e ociosas: minha única, minha só aflição

é não poder ver teu rosto e acolher tua carícia.

Só essa paixão pode rasgar meu peito;

só ela me faz desejar a morte, fim de meus sofrimentos.

As pragas da vida nada são para mim; sua única alegria é esta:

ver-te, ouvir-te, e corar sob teu beijo.

Ai! talvez esta noite, ou amanhã pela manhã,

os senhores que aqui me têm por escrava em triste cativeiro

possam, julgando-me leviana, lançar mão de seus ardis

para que eu me torne cristã e abandone minha antiga fé.

Mas digo a eles, e choro ao dizê-lo, que jamais deixarei

o credo pelo qual meus pais lutaram em séculos remotos.

E, no entanto, eu poderia renegá-lo, não fosse esse credo divino,

que em vão luto para negar, pois, ah, esse credo é o teu."

O rei Chico leu a carta de sua dama e a pousou em silêncio;

depois aproximou-se da janela e olhou a cidade.

Perdido em pensamento, ponderou cada linha terna,

e lágrimas súbitas e um suspiro de dor denunciaram sua pena interior.

Chamou por tinta e papel, para que o coração de Vindaraja

soubesse que ele a recordava e buscava curar sua ferida.

Dir-lhe-ia que a ausência que lhe causava temores

apenas a tornara mais querida em todos aqueles anos tristes.

Dir-lhe-ia que seu coração sofria por ela não estar perto,

sim, muito mais triste que escrava moura acorrentada na fronteira sul.

Então escreveu a carta à querida escrava moura,

e esta foi a mensagem terna que o régio Chico lhe enviou:

A Carta do Rei

"Tuas palavras me feriram gravemente, pois, formosa moura,

como pudeste pensar que aquele que te ama mais que a vida

pudesse cair em tamanha traição?

Sua vida nada vale sem saber-te feliz em tua sorte;

e, enquanto o sangue vermelho bater em seu coração, jamais serás esquecida.

Feriste-me porque teu coração desconfia de mim como de um leviano;

não sabes que, quando a paixão verdadeira toma um discípulo,

o esquecimento não pode apagar a imagem impressa na alma,

a menos que a traição sombria reine desde o início em seu peito.

E se, porventura, em horas cansadas, pensei que a mente de Vindaraja

pudesse achar em algum cavaleiro mais feliz consolo para sua escravidão,

contive o pensamento; expulsei a visão, cheia de morte,

pois antes de perder minha confiança em ti eu entregaria a vida em batalha.

Ainda assim, nem mesmo a dúvida que sopraste me dá licença para esquecer;

e, ainda que eu quisesse que teu rosto deixasse de encher minha visão,

é a própria separação que nos prende mais estreitamente, passem séculos,

e forja a corrente eterna que une alma a alma.

E ainda que tal ideia fosse apenas visão selvagem de minha mente,

em mil mundos este coração não acharia rosto para trocar pelo teu.

Na vida, na morte, seria o mesmo; e quando ao céu erguermos o olhar,

no centro da própria bem-aventurança teus olhos encontrarão meu ardente olhar.

Pois olhos que contemplaram teu rosto prontamente reconhecerão

que Deus esgotou, ao fazer-te, todos os tesouros de seu trono.

E meu coração confiante responderá, enquanto me incendeia as veias,

que ouvir falar de ti é ver-te; e ver-te é desejar-te.

Contudo, se eu não pudesse contemplar por um instante minha Vindaraja,

como viajante no deserto eu morreria por seu sorriso.

É o anseio por sua presença que faz brotar para mim a fonte da vida

e acalma o sofrimento secreto que nenhum olho, senão o dela, pode ver.

Só nesse pensamento meu espírito encontra frescor e deleite;

ele é mais doce que a luta, mais doce que a glória do combate.

E se algum dia eu esquecesse seu peito arfante e seus olhos risonhos,

sua palavra terna e suas carícias suaves, Vindaraja, eu morreria.

Se o rei me ordenasse apressar-me para libertar-te das correntes,

crê-me, querida dama, jamais ordenaria em vão.

Nada que ele exigisse seria maior que o preço que eu pagaria

se nos altos salões da Alhambra eu pudesse ver-te outra vez alegre.

Ninguém diga que sou remisso ou descuidado de teu destino sombrio;

o Amor vem instigar-me a cada hora e não deixa meu zelo diminuir.

Se a ocasião chamar, entrego a mim mesmo, minha alma, para libertar-te;

aceita esta oferta se quiseres: aguardo tua palavra de joelhos.

Sofres, nobre dama, vencida por essas fantasias?

Ah, minha alma enche-se de dor diante desse pensamento agonizante.

Saber que Vindaraja definha, oprimida de cuidados,

basta para tornar a morte bem-vinda, se eu pudesse salvá-la.

Sim, o mundo saberá que eu morreria não apenas pela ventura

de estreitar-te no abraço do amor e acender-me em teu beijo terno.

Isso, de fato, seria prêmio pelo qual até um covarde ousaria morrer;

eu morreria para fazer-te feliz, ainda que não compartilhasse tua sorte.

Então, mesmo se eu falhasse em retirar o fardo posto sobre minha amada,

mesmo se não pudesse provar meu amor resgatando minha donzela moura,

meu amor teria este testemunho: primeiro, tua confiança sublime;

depois, minha morte por ti, escrita no rolo do tempo futuro.

Sim, minha morte; pois, se eu perecesse, seria consolo pensar

que dor mais negra ou amarga não poderias beber na terra.

As flechas da tristeza estariam gastas; poderias rir do poder da fortuna.

Ainda que eu te perdesse, esse pensamento me alegraria na hora final.

Mas creio que o destino pretende - guarda esta previsão contigo -

que todo amor que minha paixão deseja logo encontre pleno fruto.

Minha paixão cresce depressa; e, se há medida para o amor,

crê, querida, que tudo se resume em mim.

Julga-te cruelmente ofendida, tuas graças tendo tanto poder de abençoar,

se algum de teus escravos, sendo tu rainha, te oferecesse menos.

E aceita esta garantia empenhada: o esquecimento não poderá rolar

sobre a imagem de tua beleza gravada nesta alma enamorada.

Afasta, pois, teus pensamentos ansiosos; que se vão com o vento,

como nuvens sombrias dispersas ao nascer do dia.

Pensa que agora é teu escravo aquele que, ao cortejar-te, era teu rei;

pensa que nem a manhã mais brilhante lhe trará contentamento

até que ele encontre, em teus olhos ternos, a luz de outros instantes,

e as portas do Paraíso se abram em teu abraço cálido.

Já que sabes que a morte ferirá a mim e a ti com golpe igual,

é justo que, enquanto vivermos, nossos corações ardam com esperanças iguais.

Não atormentes mais teu amante com queixas de que ele possa mudar;

querida, muitas vezes essas perguntas amargas afastam o amor mais terno.

Não, não sonho com afastamento, pois teu Chico, para sempre,

pensa na imagem de sua Vindaraja apenas para adorá-la."

A Infanta Sevilha e Peranzuelos

Nas torres mais altas de Toledo,

Sevilha mantinha-se no alto;

tão maravilhosamente bela era ela

que o amor cegava ao contemplá-la.

Estava entre as ameias

e olhava a paisagem,

onde o Tejo corre entre bosques,

flores e verdes clareiras.

E viu, na larga estrada,

a figura de um cavaleiro;

montava um corcel malhado,

e todas as suas armas reluziam.

Sete mouros levava acorrentados,

e, a um braço de distância,

vinha um mouro vil, da costa de Marrocos,

armado em dupla couraça.

Seu cavalo era veloz; seu rosto

trazia carranca guerreira;

e, em sua fúria ardente,

amaldiçoava a barba de Maomé.

Gritou, ao aproximar-se em galope:

"Detém-te agora, cão cristão;

vejo à frente de teus cativos

meu pai, preso em grilhões.

E os outros são irmãos de meu sangue,

e amigos que desejo libertar;

se entregares todos eles,

hei de pagar-te ouro e resgate."

Quando Peranzuelos o ouviu,

fez girar o cavalo em volta.

Com a lança em riste, avançou em fúria

para lançá-lo ao chão;

sua cólera súbita e seu ataque vieram

velozes como o som do trovão.

No primeiro encontro, o mouro cambaleou

e caiu da sela por terra;

e o cavaleiro cristão, desmontando,

pôs o calcanhar no pescoço do inimigo.

Decepou-lhe a cabeça dos ombros

e, reorganizando sua comitiva,

apressou outra vez a jornada

pela planície de Toledo.

A Despedida de Celin

Triste, ele olha uma vez mais para aqueles altos bastiões,

as torres e ameias rendilhadas que se erguem ao céu;

e Celin, a quem o rei, em ira, baniu de Granada,

chora ao voltar-se para deixar para sempre a terra natal amada.

Não tem esperança de refazer os passos do exílio;

não tem esperança de ver de novo o belo rosto de sua dama.

Então, suspirando fundo, seguiu caminho,

e, enquanto ia, assim dizia:

"Vejo-te brilhar de longe,

como estrela radiante no arco do céu.

Granada, rainha e coroa da formosura,

escuta meu lamento e chora minha dor.

Vejo estender-se diante de meus olhos tua margem verde e bela,

teus prados e jardins salpicados de flores.

O vento que se demora por essas clareiras recebeu o tributo

de muitos cálices trêmulos, molhados pelo orvalho do céu.

Das margens do Genil, muitos ramos se inclinam sobre a água;

a linha verde e fértil daquela vega se estende do rio à muralha.

Ali, damas risonhas procuram a sombra que lhes dá prazer,

e a relva aveludada fica marcada pelos passos de muitos cavaleiros.

Vejo-te brilhar de longe,

como estrela radiante no arco do céu.

Granada, rainha e cidade da formosura,

escuta meu lamento e chora minha dor.

Ó fontes e mananciais que cintilais naquela encosta,

e correis em torrentes ondulantes por prados e jardins,

se algum dia as lágrimas que de meu peito sobem a estes olhos tristes

misturarem às vossas águas felizes seus rios de amargura,

acolhei-as em vosso seio com amor, pois o amor lhes ordenou

contar a dor que me consome e que em meu coração se esconde.

Vejo-te brilhar de longe,

como estrela radiante no arco do céu.

Granada, rainha e coroa da formosura,

escuta meu lamento e chora minha dor.

Ó ventos suaves do céu, cujo som vive nas árvores ondulantes,

cujo hálito perfumado me devolve mil memórias,

vós correis sob o arco celeste como a vaga do oceano

que bate desde a baía do Guadalquivir até os confins da terra.

Ah, quando chegardes a Granada - e que o grande Alá envie

sua guarda para guiar-vos ao fim dessa doce jornada -,

levai convosco meus suspiros e soprai-os aos ouvidos

dos inimigos que me fizeram tão mortal injustiça,

e daquela que me tem por querido.

Contai a todos a agonia que suporto no banimento,

para que ela partilhe minha tristeza

e meu inimigo, o rei, se comova.

Vejo-te brilhar de longe,

como estrela radiante no arco do céu.

Granada, rainha e coroa da formosura,

escuta meu lamento e chora minha dor."

O Retorno de Celin

Agora Celin queria alegria, e marcou um dia festivo,

para aliviar a dor da ausência de sua dama.

Chamou logo os bravos Abencerrages e Gulanes,

amigos de seu peito, para acompanhá-lo ao preparar seus salões nobres.

Em segredo mandou que viessem, e em segredo que partissem,

pois o dia de júbilo devia passar despercebido a seu inimigo;

olhos atentos e ouvidos curiosos vigiavam em toda parte,

mas ele buscava apenas um dia feliz que reparasse

o castigo vil e sem causa imposto pelo rei.

"Pois, na mais ampla prisão, há miséria para mim,

e o coração mais forte se quebra se a mão não está livre."

Ordenou a todos os seus seguidores que se vestissem à maneira cristã,

com mantos rústicos e grosseiros, de cores vivas e alegres;

com fitas de seda nos gorros, gorros de ponta alta,

com blusas soltas, mantos e gabardinas castanhas.

Mas ele próprio vestiu roupas sóbrias, de branco e cinza leonino,

emblemas da dor sem esperança em que jazia o guerreiro.

E os pensamentos de Adalifa, de suas palavras e olhos luminosos,

deram cores de adequada tristeza ao seu disfarce sombrio.

Vinha com propósito de realizar algum feito grande e glorioso,

para afastar os pensamentos tristes que faziam sangrar o peito.

"Pois, na mais ampla prisão, há miséria para mim,

e o coração mais forte se quebra se o braço não está livre."

Pela porta de Granada entra uma cavalgada imponente,

de corcéis ajaezados e cavaleiros vestidos de aço;

todos erguem aclamações quando Celin surge à vista:

"O primeiro no torneio, o mais bravo na luta!"

E a donzela moura Cegri corre depressa à janela,

para ver o cortejo reluzente e ouvir os gritos de alegria.

Chama todas as suas criadas para notar como, livre do infortúnio,

o galante Celin retorna: ele é o cavaleiro das damas.

Elas conhecem a história de seu destino e de sua desonra imerecida,

e contemplam com ardor o esplendor de seu rosto.

Não é preciso contar seus feitos no campo, suas façanhas valorosas:

as damas de Granada já as ouviram e conhecem bem.

"Pois, na mais ampla prisão, há miséria para mim,

e o coração mais forte se quebra se o braço do guerreiro não está livre."

A beleza de Granada enche a porta de Elvira nesta noite;

pescoços se estendem, faces se acendem quando Celin aparece.

Histórias sussurradas passam pelos grupos, e corações indignados se inflam,

ao lembrar o que em Granada aconteceu àquele herói cavaleiro.

Agora mil guerreiros mouros aspiram à fama de Celin,

e mil damas o contemplam com apaixonado desejo.

Falam de Adalifa, a quem ele fizera seu voto,

embora nem palavra nem página escrita ainda os unisse.

"Pois, na mais ampla prisão, há miséria para mim,

e o coração mais forte se quebra se os braços do guerreiro não estão livres."

A cidade aguarda sua chegada, pois a festa está preparada;

ricos e pobres, altos e baixos, todos partilharão a celebração.

Há guerreiros cheios de esperança de vencer o prêmio da justa,

e damas desejosas de um sorriso dos olhos de Celin.

Mas, quando a notícia da alegria chegou aos ouvidos de Adalifa,

seu coração amoroso foi tocado pela dor e cheio de ciúme.

Ela escreveu a Celin, pedindo-lhe que não promovesse grande festa,

pois o pensamento de tal júbilo trazia lágrimas aos seus olhos.

O mouro recebeu a carta quando Granada já surgia à vista;

imediatamente voltou a cabeça do corcel para as alturas de Jaén,

e trocou pelas cores do luto sua veste branca de festa.

"Pois, na mais ampla prisão, há miséria para mim,

e o coração mais forte se quebra se o braço do guerreiro não está livre."

Baza Revisitada

Veio o bravo Celin, valente filho do castelão

da fortaleza de Álora e da ventosa planície de Alhama.

Veio ver a grande Baza, onde, em dias passados,

recebera do pai de Zara o louvor daquele velho guerreiro.

O mouro fitou a fortaleza poderosa, as torres todas desoladas,

o castelo alto que tocava o céu, a muralha e o portão.

Saudou a cidadela arruinada como se fosse sua terra natal,

pois ali sua ventura fora completa enquanto Zara lhe tomava a mão.

E contra a cruel inconstância da Fortuna lançou furiosas palavras,

pois o coração lhe enviava loucura ao pensamento, e tudo o que dizia era desvairado.

"Ó deusa que na terra governas o destino humano,

em que te ofendi, para que minha vida esteja desolada?

Ah! muitos foram os triunfos que das mãos de Zara recebi,

quando, na justa ou na dança, ela me sorria outrora.

E agora, embora persiga sem cessar igual fortuna,

nada posso colher de tua mão senão desastre e desonra.

Desde que o rei Fernando trouxe seu exército para cercar a bela Baza,

minha sorte tem sido sorte miserável, de angústia sem mistura.

Ainda assim, Fernando foi bondoso comigo, com toda a sua arte régia:

ganhou meu corpo para seus braços, mas não pôde ganhar meu coração."

Enquanto assim falava, lançou fora o manto que vestia;

era verde, listrado de vermelho e branco, forrado de cinza sombrio.

"Melhor convém à minha sorte, melhor convém a esta desventura,

não o verde, nem o branco, nem o púrpura, mas o cinza de peregrino.

Não peço plumas para elmo ou gorro, nem o verde vivo da natureza,

pois a esperança desapareceu de minha vida e do que poderia ter sido.

E de meu escudo apagarei o brasão que agora é vão:

o lince cujos olhos se fixam na presa que deseja alcançar.

Pois os olhares que lanço ao redor encontram o vil desdém da Fortuna;

e apagarei também a legenda, como inscrição maldita.

Estava escrita em claras letras cristãs, para que todo o mundo lesse:

'Meu bom braço direito pode ganhar-me mais, embora curto seja seu alcance,

do que tudo quanto sei pela vista ou pelo ilimitado campo do pensamento.'

A tahala azul que tremula brilhante sobre minha fronte armada

combina mal, em cor tão viva, com a sorte que agora encontro.

Lanço fora este gorro vistoso, que traz o tom púrpura;

não porque meu amor seja infiel, pois reconheço sua constância,

mas pelo temor de que possa haver, aos olhos da donzela,

um amante mais digno de seu amor que este cavaleiro infeliz."

Com isso tomou a lança na mão e a pôs em riste;

e pela planície, de espora sangrenta, avançou o triste Celin.

Sobre o pescoço do cavalo lançou as rédeas, que ficaram pendentes,

para que o corcel tivesse liberdade de escolher o caminho.

E disse: "Meu cavalo, segue bem tua jornada,

e abre caminho para encontrar a ventura que ainda me escapa,

embora esteja sempre em meu pensamento.

Nem freio nem rédea conterão agora teu curso pelo campo,

pois freio e bridão só uso para fugir da infâmia."

Zara Cativa

Em Palma, pouca alegria encontrou a formosa Zara;

sentia-se escrava, embora nenhuma corrente a prendesse.

Pelas torres de Palma vagava apartada de todos os hóspedes;

pois, se Palma tinha seu corpo, Baza guardava seu coração.

E, enquanto seu coração se fixava em um só homem,

seus encantos também prenderam o peito de um bravo cavaleiro,

chamado Celin Andalla.

Ah, infeliz, infeliz donzela: em seu profundo desespero,

não sabia que dor seu rosto fizera aquele cavaleiro suportar.

E embora a condessa Palma se esforçasse, com muitos serviços gentis,

por mostrar-lhe afeto e acalmar a angústia que lhe torcia a alma,

Zara, levada pela tempestade de seu amargo cativeiro,

nunca baixou as velas para dar alívio ao coração sofrido.

E, buscando consolo junto a outra donzela cativa,

contou a dor amarga que a mais ninguém revelava.

Contou-a enquanto as lágrimas corriam rápidas, sem alcançar alívio;

pois, creio, tornou-se ainda mais aguda sua dor ao dar dor a outra.

E disse à companheira, apertando-lhe a mão terna:

"Nasci na alta Granada, minha amada terra natal;

por anos, nos pátios da Alhambra, minha vida correu serena.

Eu era princesa do reino e serva de uma rainha.

Em seus aposentos privados servi noite e dia,

e as joias mais preciosas de sua coroa ficavam sob minha guarda.

Entre todas as donzelas que conhecia, eu era sua favorita;

e, ah, minha senhora real, eu a amava, amava-a de verdade.

Laço mais estreito não tive na terra que aquele que me prendia ao seu lado;

nenhum laço mais estreito: eu a amava mais que todo o mundo.

Mas acima de tudo na terra amei o galante cavaleiro mouro,

o bravo Celin, que é somente meu, e de quem sou o único encanto.

Sim, ele era bravo, e todos reconhecem o valor de sua espada;

sim, e por isso o amei mais que aos monarcas da terra.

Por mim ele viveu, por mim lutou, por mim chorou e se lamentou,

quando me viu nesta casa de cativeiro, como navio lançado aos escolhos.

Chamou aos céus, e os céus foram surdos a seu grito amargo,

pois vítima da luta dos reis, da guerra sangrenta, fui eu.

Foi meu pai quem primeiro lhe ordenou buscar nosso forte retiro.

Quisera Deus que ele jamais tivesse vindo ao castelo de Baza!

Quisera Deus que jamais tivesse vindo, cavaleiro armado,

postar-se entre os soldados sob o comando de meu pai.

Ele veio, veio aquele valente mouro, descansar sob nosso teto.

Seu corpo servia a meu pai; seu coração obedecia só a mim.

Que perigos enfrentou naquela altura severa do castelo!

Ganhando o louvor de meu pai, ganhou ainda mais favor aos meus olhos.

E quando a cidade foi atacada pelas hostes cristãs,

minha alma tremeu em solidão sob terrores ainda mais ferozes.

Pois perdi meu pai, e perdi meu bravo amado;

aqui definho sozinha, súdita e escrava.

E, contudo, o mouro, embora tenha deixado comigo seu coração amoroso,

temo que talvez tenha esquecido que possuo sua melhor parte.

Agora a agulha que manejo é testemunha do estado

de servidão que hoje sinto com o coração desconsolado.

E aqui, sobre o tecido, seja escrito em língua árabe

o mote que contará como meu coração é torturado.

Lê-se aqui: 'Se levaste meu coração quando partiste a cavalo,

lembra que eu mesma, minha alma viva, fiquei para trás.'

E do outro lado eu bordaria estas palavras:

'Jamais falhará a palavra que um dia pronunciei diante de teu rosto.'

Na borda inferior, este mote claro ficaria:

'A promessa que te fiz constante permanecerá.'

E por fim acrescento esta linha, a última e a melhor:

'Jamais encontrarás inconstância neste peito imutável.'

Assim corre o bordado do amor, e no centro aparece

uma fênix, pintada com clareza, ave que vive anos eternos.

Pois ela, das cinzas frias da vida em seu último declínio,

toma esperança, abre as asas e sobe outra vez pelos caminhos do céu.

E ali um caçador retesa o arco, desenhado com fio hábil;

e por baixo há uma palavra que diz: 'Não, não atires contra os mortos.'"

Assim falou a donzela moura, e em seus olhos havia lágrimas de dor,

embora na agulha ocupada parecesse encontrar alívio.

E a bondosa condessa chamou de longe:

"Zara, que tens? Onde estás?

Chamei-te, e ainda assim não me respondeste."

O Rei Ciumento

Eram oito fortes guerreiros contra oito, e dez contra dez valentes,

quando Aliatare formou um bando aliado a homens muçulmanos,

para justar, naquele dia, com canas carregadas no soberbo círculo de Toledo,

contra a altiva hoste de Adelifa, diante de seu senhor, o rei.

O rei anunciara por proclamação o jogo cavaleiresco,

pois as trombetas alegres cantavam trégua naquele mesmo dia;

e Zaide, rei da alta Belchite, jurara que a guerra cessaria,

e com Tarfe de Valentia confirmara a paz.

Mas outros espalharam a notícia, que voou como fogo de boca em boca:

o rei estava loucamente enamorado, pois ainda era jovem,

e entregara a Celindaja a ordem daquele dia.

Havia, junto ao rei, cavaleiros que ela gostava de ver em combate.

Agora se abrem as liças; e eis que um bando deslumbrante,

os sarracenos, em corcéis alazões, salta sobre a areia.

Seus mantos arrastados brilham como casca de laranja dourada;

capuzes verdes pendem dos ombros e tremulam ao vento.

Levam escudos reluzentes, ornados de cimitarras em fileira,

mas cada lâmina mortal é engenhosamente feita em arco de Cupido.

Uma legenda brilhante se vê, disposta em letras acima:

"Fogo e Sangue" diz o mote; fala de guerra e amor.

Em dupla fila segue uma companhia de guerreiros;

vêm os ousados Aliatares, montados em corcéis árabes.

A libré que vestem é tingida de vermelho carmesim,

e flores e folhas, em relevo branco, cobrem-lhe a superfície.

O globo do céu, semeado de muitas estrelas e constelações,

sustentado sobre os ombros de Atlas, é o brasão que mostram.

E um mouro de Aliatar traz este mote,

escrito em uma flâmula: "Resisto através do cansaço."

Seguem os Adelifas: raça poderosa são eles.

Sua armadura é mais rica; seus mantos, mais vistosos.

De vivo cravo é o tecido, enriquecido por faixas de açafrão;

e, como favores, véus esvoaçam sobre o alto dos elmos.

Um globo trazem nos escudos, mas está ferido e quebrado

por um selvagem com porrete, que lhe desfere muitos golpes;

e uma vara, e sob ela este mote conta a história,

escrito todo em caracteres árabes: "Os fortes prevalecem."

Depois destes saltam à praça os oito Azarques,

e com ar de soberba arrogância galopam ao redor da arena.

De azul, púrpura e ouro pálido são os mantos que vestem;

em vez de plumas, trazem amuletos pendendo no ar.

No braço esquerdo levam escudos pintados de verde fulgurante.

Ali se desenha a esfera do céu, sobre a qual se veem duas mãos.

O mote, "O verde é supremo", aparece escrito claramente;

sua arrogância explica a todos o vivo tom daqueles escudos.

Então o rei espuma de raiva ao ver zombado seu amor delirante,

e seu coração se enche de pensamento amargo quando surge o escudo altivo.

Chamou o alcaide de sua fortaleza, Celin, seu homem provado,

apontou para Azarque e, rubro de cólera, gritou:

"Sobre esse escudo soberbo farei eu mesmo o sol se pôr;

ele opera contra mim algum mal, como amuleto maligno."

Azarque tomou a lança pronta; seu braço forte lançou-a alto;

a haste leve subiu entre as nuvens e desapareceu no céu.

E aqueles cujos olhos a seguiram sentiram vertigem ao vê-la;

não sabiam para onde voara, nem onde iria cair.

As damas dos burgueses comprimiam-se em muitas janelas

para ver o dardo erguer-se de sua mão com tanta destreza.

E os que estavam sentados na plataforma junto ao rei

inclinaram-se para trás, a fim de ver quão bem o galante mouro lançava a cana.

E, quando Azarque avançava e depois recuava em fuga,

"Que Alá te guarde, bravo cavaleiro!", gritava o povo.

"Minha maldição sobre ele; há de morrer", respondeu o rei ciumento.

Mas Celindaja não prestava atenção à cavalgada;

seus lábios estavam secos, sua garganta árida,

e seu coração, tomado de medo doloroso.

Pediu que lhe trouxessem frutas, mas em vão tentou

com suco de qualquer árvore terrena apagar sua febre.

"Que se encerre o divertimento", decretou o rei irado.

A justa já ia avançada, e todo juiz cansado concordou.

E, enquanto fechavam as liças vazias, ouviram a ordem real:

"Prendei, prendei Azarque, traidor desta terra."

As fileiras duplas de cavaleiros que conduziam o cortejo da justa

lançaram à praça aberta as lanças inúteis de cana.

Então tomaram depressa a lança de aço e, baixando-a para a luta,

conforme o desejo do rei, investiram contra o cavaleiro.

Pois armas e razões sempre se mostram inúteis

para conter as paixões de um rei enamorado.

O outro bando veio para salvar Azarque de seus inimigos,

mas o bravo mouro lhes acenou com a mão antes que fechassem combate.

Então bradou com calma: "Embora o amor, ao que parece, não respeite lei,

é justo que conserveis a paz hoje e vos retireis das liças.

Não, senhores, baixai vossas lanças antes que seja tarde;

e deixai que nossos adversários ergam as suas, sinal do ódio apaixonado.

Assim, sem sangue, concedam-se vitória e derrota.

Só o derramamento de sangue torna uma mais amarga ou mais doce,

pois armas ou razão se provam sem valia

para conter as paixões de um rei enamorado."

Por fim agarram o mouro que resiste; correntes lhe prendem as mãos.

E o povo, tomado de ira, organiza-se em grupos.

Colocam guardas em cada ponto, apressados em libertá-lo;

mas onde está o bravo comandante que os conduzirá à vitória?

E onde o líder que há de bradar e acender-lhes o coração para a luta?

Não passam de fanfarrões vazios, rondadores da noite,

degoladores e ociosos necessitados; e assim termina o tumulto.

Azarque jaz na prisão, abandonado pelos amigos.

Pois, ah, armas e razão se mostram impotentes

para desviar o propósito de um rei enamorado.

Só Celindaja implora à turba covarde:

"Salvai-o, salvai-o, amigos generosos, devolvei-me meu mouro."

Está na varanda e, daquele lugar alto,

lançaria o corpo sobre as pedras para salvá-lo da desonra.

Sua mãe envolve a jovem chorosa com o braço murcho.

"Insensata", sussurra-lhe ao ouvido, "em nome de Maria, acalma-te!

Corres loucamente para a morte com essa exibição desesperada.

Certamente conheces bem esta verdade, se alguém pode conhecê-la:

armas e razão se mostram impotentes

para desviar o propósito de um rei enamorado."

Veio então uma mensagem do rei, na qual o monarca dizia

que a casa onde viviam seus parentes deveria tornar-se prisão.

Então Celindaja, branca de raiva, respondeu:

"Ide ao rei e dizei que escolho como minha prisão,

por muitos e muitos dias, a memória de Azarque, na qual doravante vivo;

mas a traição de um monarca meu coração não perdoará.

Pois a vontade de uma mulher fraca jamais se mostrará impotente

para desviar o propósito insensato de um rei que está enamorado.

Ai de ti, Toledo! Em tempos antigos, diziam

que te chamavam para vingar a cabeça de um traidor.

Mas agora não é contra traidores, e sim contra homens leais e verdadeiros,

que te chamam à vingança devida a corações vis.

E o Tejo murmura suavemente em suas ondas frescas e livres,

e se apressa de Toledo para alcançar o mar poderoso."

Antes que dissesse mais, prenderam a dama e a levaram ao portão,

onde o alcaide do castelo se assentava em julgamento solene.

Os Amantes de Antequera

O bravo Hamete conteve o cavalo e, da garupa, inclinou-se

para saudar a bela Tartagona, que o viu com contentamento.

Era filha de Zulema, que repelira muitos inimigos

do castelo sobre a colina, que mantinha em Archidora.

Por trinta e seis anos conteve o exército cristão,

vigilante guardião, sem medo da mais forte tropa adversa.

E agora, pelo caminho conhecido, secreto e seguro,

guiado pela nobre dama, apressava-se o galante mouro.

As sentinelas sob a muralha estavam descuidadas, ou dormiam;

não deram por Hamete quando ele desceu pela encosta.

E, ao alcançar a planície, a vinte pés dali,

prendeu depressa o corcel, para que não se afastasse.

Então voltou-se para a dama moura, como se fosse falar;

lançou-lhe os braços à cintura e beijou-lhe a face.

"Ó deusa de meu coração", disse, "por atos hei de provar,

se me nomeares empresa elevada, quão fiel é meu amor.

Em Granada sou grande e muito honrado tenho sido,

tanto pelo rei Fernando quanto por Isabel, sua rainha.

Meu nome é alto, minha linhagem longa; contudo, nenhum dos meus

alcançou o grau de glória que os homens reconhecem em mim.

Narváez é cavaleiro de renome, perito em amor e armas;

no castelo de Antequera guardou bem as fronteiras.

Jarifa era donzela cativa; ele amou Jarifa ternamente,

e muitas vezes visitou a jovem em sua cela de prisão.

E, se isso pode ser feito com honra e coração virtuoso,

o que ele fez com Jarifa, eu faria contigo."

Uma estrela brilhava no alto, sobre o peito da noite;

o guerreiro tomou seu rumo e conduziu a dama por sua luz.

Chegaram ao pé de uma rocha alta e ficaram à sombra,

onde mil e mil folhas de hera formavam um caramanchão de beleza.

Ouviram o ginete pastar e bater os cascos enquanto comia,

e o Amor sorridente abriu as asas sobre os amantes.

Mas, antes que alcançassem o caramanchão agradável,

viram diante de si uma tropa estranha e selvagem,

armada dos pés à cabeça, de semblante sombrio.

Sim, setenta homens, espada em punho, cercaram dama e cavaleiro:

eram ladrões da montanha, e eles tremeram ao vê-los.

De comum acordo, aqueles salteadores caíram sobre Hamete,

como cães que, ao chamado do caçador, avançam sobre o veado acuado.

Ardeu de uma só vez o coração do mouro, com cólera e chama de paixão,

para salvar a vida e, mais que a vida, a honra de sua dama.

Ergueu-se de pronto e de pronto sacou sua poderosa espada;

mergulhou no bando de ladrões e não pronunciou palavra.

Nenhum jogo de justa foi jamais tão vivo quanto o combate que travou;

em braços e coxas, com golpes mortais, a lâmina cortante se enfurecia.

Embora certa fosse sua morte, ainda assim, com o coração a falhar, rezava

para que, até sua dama escapar, essa morte fosse adiada.

Mas, no escuro, uma pedra mortal, lançada sem aviso,

cravou-se em sua fronte e o estendeu por terra.

O sopro abandonou-lhe o peito arfante;

e, de sua mão sem nervo, a espada caiu ruidosamente ao chão,

diante daquele bando sangrento.

E quando a donzela se viu em poder daqueles infames

e viu a cidade envolta na escuridão da hora,

nenhuma dor que mulher já sentiu igualou a sua dor,

e nenhum desespero como o dela jamais será conhecido.

Aqueles vilões não viram suas madeixas, que brilhavam como fios de ouro;

só a luz de verão revelaria sua maravilhosa beleza.

Não notaram a cadeia reluzente de ouro e finas joias

que, à luz do dia, pareceria cingir-lhe o colo de marfim.

Mas ela tomou depressa a cimitarra que antes seu amado trazia;

jazia na relva úmida, encharcada de sangue até o punho.

E, caindo sobre a ponta ensanguentada,

atravessou o próprio peito.

Tartagona exalou o último suspiro,

lamentada até por aquele bando de ladrões.

Ali ficou, abraçando na morte o rosto sem vida do amado:

ele, modelo de valor; ela, espelho da graça feminina.

Desde aquela hora se conta a história, enquanto muitas lágrimas caem,

dos amantes da vega junto aos muros de Antequera.

Louvam a nobre dama e amaldiçoam o bando de ladrões,

e chamam-na a Lucrécia da bela terra da Andaluzia.

E, se quem ouve a história duvidar que seja verdadeira,

siga pela estrada da montanha até que Ronda surja à vista;

ali deve deter-se, e, procurando, poderá rastrear a história

em letras profundamente talhadas na face rochosa da montanha.

A Trégua de Tarfe

"Ouvi, cavaleiros católicos,

que fitais Granada noite e dia,

em cujo ombro esquerdo está a cruz,

a cruz carmesim, vosso brasão brilhante.

Se alguma vez vossos jovens corações sentiram

a chama do amor que traz deleite,

como Marte irado, em couraça de aço,

sente o ardor feroz do combate;

se é vossa vontade, dentro de nossos muros,

unir-vos à justa com cana carregada,

como costumáveis, sob estas torres,

manejar a lança sangrenta da guerra;

se o tumulto sem sangue na praça

pode servir em lugar da batalha,

e, vestindo agora o manto de seda,

deixais de lado a cota de aço;

seis tropas de sarracenos estão aqui;

seis tropas cristãs, com escudo e corcel,

estejam prontas, quando o dia for fixado,

para entrar na justa da cana.

Pois não é justo que a guerra furiosa,

que incendeia os telhados da cidade,

acenda com fogo inútil

o peito terno de nossas damas.

Apesar de tudo que aqui sofremos,

nossas damas estão ao vosso lado;

elas vos têm piedade nesta guerra feroz,

neste labor do longo cerco.

Entre as durezas do sítio,

que o prazer conceda breve repouso;

pois a guerra sempre deve ter sua trégua,

e aliviar um pouco nossos pesares.

Que consolo ao corpo gasto pela guerra,

que bendita soltura para toda alma:

pôr de lado o escudo e a malha,

e vestir por uma hora as plumas da paz!

E àquele que for vencedor

entre os justadores do jogo,

empenho minha palavra de cavaleiro,

em sinal de sua fama valorosa:

eu mesmo atarei em seu braço direito

o favor de minha dama luminosa;

ela o deu com sua própria mão branca,

mão tão bela quanto branca."

Assim Tarfe, valente mouro,

escreveu amplamente sua proclamação;

ele, escudeiro favorecido do rei Darraja,

pregou o cartel em seu escudo.

Foi no dia em que se fez a trégua,

pelo ousado mestre de Calatrava,

para mudar os quartéis de seu acampamento

e conferenciar com os inimigos.

Seis jovens mouros Tarfe enviou

na comitiva do bravo Abencerraje,

seus parentes de raça e de casa,

para encontrar os sitiadores na planície.

Em cada tenda houve acolhida calorosa;

e, quando exibiram o desafio,

o mestre concedeu-lhes o pedido

de participar da justa no dia de Páscoa.

Com palavras corteses respondeu

àquele cartel ousado; e uma cavalgada

de cristãos, com guardas mouros,

tomou o caminho de Granada.

O aspecto da guerra foi logo abandonado;

o arsenal fechou sua porta de ferro;

e todos vestiram os trajes de damasco

que usavam em alta festividade.

Jovens mouros e donzelas se aglomeraram,

de rosto alegre, na praça da cidade;

uns montavam seus corcéis, outras sentavam-se e trançavam

favores brilhantes para seus cavaleiros usarem.

Aqueles severos antagonistas de guerra,

como amigos, encontram-se dentro da cidade;

e em paz apertam as mãos,

esquecendo por um dia o passado.

E chega o galante Almarada

- não menos bravo que o próprio Tarfe, creio -,

senhor de uma formosa dama moura,

que governa o amante como rainha.

Cem mil favores ela lhe concede,

em público ou em segredo,

para mostrar ao amado que sua vida

é de Almarada enquanto viver.

E certa noite nublada,

cortina própria ao seu humor amoroso,

o galante mouro escalou as altas colinas

e ficou no terraço da Alhambra.

Chegando, viu uma donzela moura

de pé a uma janela aberta;

deu-lhe muitas joias preciosas,

e muitos outros presentes também.

Falou e disse: "Minha formosa senhora,

embora eu nunca o tenha ofendido,

Darraja permanece à espreita,

por bem ou por mal, para me fazer dano.

Esses teus olhos, que prendem mais corações

do que estrelas mostra o céu;

que matam mais mouros com flechas de amor

do que o mestre mata com sua espada;

quando se enternecerão diante de meu sorriso?

E quando tu, meu amor, cederás?

Deixa Tarfe ir, com suas palavras grandes,

enquanto o braço de sua espada é impotente!

Vês que não sou como ele;

suas palavras altivas, tão raramente verdadeiras,

estão cheias de vanglória; aquilo de que se gaba,

este braço firme meu pode realizar.

Meu braço, minha lança, ah! bem se sabe

quantas vezes, na hora mais escura da batalha,

salvaram a orgulhosa cidade de Granada

de render-se ao poder cristão."

Assim falou o amoroso Almarada,

quando Tarfe chegou e ouviu as palavras;

e, enquanto o ouvido lhe captava a mensagem,

sua mão direita agarrou a espada.

Contudo, julgou que alguma tropa cristã

rondava pela escuridão;

e, tomado de terror diante da ideia,

virou-se em ansiosa pressa para fugir.

Darraja despertou com o ruído

e falou a Tarfe em voz alta;

reconheceu-o pelo manto azul,

pois fora ele quem dera aquele manto ao mouro.

Os Dois Cavaleiros Mouros

Sobre duas éguas fortes e velozes,

brancas como a asa nevada do cisne,

sob a porta arqueada de Granada

passaram Tarfe e o rei de Belchite.

Igual beleza marca as damas que servem;

iguais cores tremulam nas pontas de suas lanças.

Enquanto Tarfe se ajoelha aos pés de Celia,

o rei é escravo de Dorelice.

Com cintos de verde e azul-celeste

os galantes cavaleiros estão belamente cingidos;

seus mantos brilham em laranja dourado,

e verdes são as vestes que trazem.

Ouro e prata, lado a lado,

cintilam na orla de seus trajes;

e, misturadas aos metais, reluzem

as luzes de muitas pedras preciosas.

Seus véus são tecidos em cinza-ferro,

melancólica cor da dor;

e sobre suas cabeças as plumas sombrias

mostram tristeza e desolação.

Cada qual leva em seu escudo

insígnias pintadas que revelam fielmente

sua paixão e seus tormentos,

em muitos tons escuros e sombrios.

No escudo do rei brilha sua empresa:

uma dama sentada, de beleza extrema;

um monarca, de olhos baixos,

ajoelha-se diante dela.

Sua coroa jaz aos pés da dama,

para que ela a despreze e pise;

acima, há um coração em chamas,

e assim se conta sua dor.

"No gelo nasce esta chama de amor" -

tal legenda circunda a imagem -

"e o fogo feroz em que ardo

é nutrido pelo sopro do gelo."

Na fronte a dama traz uma coroa;

sua mão direita sustenta

um cetro real, dourado e brilhante,

para mostrar que reina sobre todos os corações.

Na mão esquerda leva um orbe,

pois todo o mundo deve sentir seu poder;

ali jaz prostrada a Fortuna, e a dama

detém com o pé a roda que gira.

Mas o escudo de Tarfe está vazio e nu,

para que Adelifa não se mova

em ciúme furioso ao saber que ele,

seu rival mouro, amava Celia.

Apenas pinta em seu escudo

um pacífico ramo de oliveira e olhos

que brilham em rosto formoso,

como pequenas estrelas no céu de outono.

E no ramo de oliveira resplandece

esta legenda: "Se teu raio ardente

me consome com o fogo do amor,

cuida para que eu não murche."

Esporearam os cavalos ao verem

que as damas notavam sua aproximação;

e, quando chegaram ao fim do caminho,

disse o rei a Dorelice:

"As deusas que reinam no alto

falam com inveja de tua beleza;

se céu e glória são teus dons,

por que devo eu sentir as penas do inferno?

Ah, diz-me qual é teu desejo.

E a luz do céu traz mais prazer

que possuir monarcas por escravos

e ser herdeira de um rei?

Não te peço doce favor,

nem amor nem honra de tua mão;

apenas que me escolhas

como servo de teu menor comando.

Os mais escolhidos nobres do reino

desejam a glória desse ofício;

o soldado mais humilde, com deleite,

morreria para provar-se teu escravo.

Cada vida, cada coração está a teus pés;

podes viver com mil corações.

E, se não quiseres atender meu pedido,

ouve o aviso que te dou.

Pois há damas na corte

que de bom grado consentiriam em meus desejos,

e a formosa Bendarrafa, há pouco,

enviou estas palavras ciumentas:

'Essas cartas e essas linhas escritas,

por que não lhes adivinhas o sentido?

Não estão gravadas em teu coração

como tua imagem amada está no meu?

Por que permaneces ausente tanto tempo?

Não pode ser que estejas morto.'"

Então calou-se o rei e permaneceu em silêncio,

enquanto Tarfe dizia à sua Celia:

"Celestial seja teu nome, Celia;

celestial calma repousa em tua fronte.

Contudo, todo o brilho de teu rosto

tua crueldade agora obscurece.

Pareces feiticeira como Circe,

pois Circe podia encobrir o céu.

Ah, deixa que o sol apareça outra vez,

e manda fugir as nuvens da escuridão!

Ah, quisera Deus que na festa,

no dia consagrado ao Batista,

eu pudesse lançar meus braços em torno de ti

e levar-te para longe de tua casa.

Mas não digas que está em teu poder

conceder-me tudo ou matar minhas esperanças;

pois aprenderás que o mundo inteiro,

mesmo em cerco, não pode dobrar minha vontade.

A França pode contar quantas vezes

lutei no campo de tendas,

e forcei a dobrar o joelho

seus mais altos paladinos.

Venci muitos cavaleiros valentes

que traziam lírios no escudo;

e na planície de Vandalia subjuguei

muitos guerreiros da Cruz Vermelha.

Os mais nobres eu teria feito render-se

na sangrenta planície de Granada,

se não recuasse diante de sangue tão vil

a honra de minha espada macular."

Nesse instante, as trombetas chamaram às armas;

sem uma só palavra de despedida,

cada cavaleiro voltou-se da dama de seu coração

e esporeou o corcel em fuga impetuosa.

A Decisão do Rei

Entre mil mouros sábios

vindos da Andaluzia,

havia um mouro antigo, senhor da terra:

chamava-se Rei Bucar.

Por muitos anos esse sábio vivera

com a dama que mais amava;

e por fim convocou as Cortes,

como sua amante lhe pedia.

Marcou-se o dia em que seus senhores

e homens comuns se reuniriam;

e falaram ao rei das necessidades de seu vasto reino,

enquanto o rei permanecia em seu assento.

Muitas foram as leis que aprovaram nesse dia;

e entre elas uma lei dizia

que o amante que tomasse uma donzela por amor

deveria casar-se com a escolhida;

e quem quebrasse essa ordenança

pagaria por ela com a cabeça.

Todos concordaram que a lei era boa,

salvo um primo do rei,

que veio postar-se diante dele

com queixa e interrogação:

"Esta lei que agora Vossa Alteza

impôs aos seus vassalos

não me agrada, embora muitos corações

ela tenha deixado exultantes.

Só a mim entristece, e traz

desastre à minha vida;

pois a dama que mais amo

já é mulher casada.

Casada está, e mal casada;

mau marido lhe coube.

Muitas vezes a piedade enche meu coração

por sua sorte aflita.

E esta única coisa te digo, rei,

que a ninguém mais foi contada:

se penso que seu amor é prata,

ela pensa que o meu é ouro."

Então falou o Rei Bucar em resposta,

e esta sentença proferiu:

"Se teu amor é mulher casada,

a lei não tem pena para ti."

Almanzor e Bobalias

O rei Almanzor dormia certa noite,

e, ah, bendito era seu sono;

nem todos os sete reis mouros

ousariam romper seu repouso.

Mas o infante Bobalias

lembrou-se dele e clamou:

"Desperta, desperta, tio querido!

E vem depressa ao meu lado.

Manda buscar as escadas

que pertencem a meu pai, o rei;

e as sete mulas que as carregam

traze à minha presença.

Dá-me também os sete mouros robustos

que lhes hão de ajustar os arreios,

pois o amor, o amor da condessa

jamais consigo esquecer."

"Malcriado és tu, sobrinho,

e jamais te emendarás;

o mais doce sono que já dormi

tu vens trazer ao fim."

Trouxeram então as escadas

que pertenciam a seu pai, o rei;

e, para levar a carga pela estrada,

trouxeram sete fortes mulas.

E sete mouros robustos,

por quem as mulas foram ajaezadas,

seguiram até os muros da condessa;

ali, ao pé daquela torre,

detiveram a cavalgada.

Nos braços do conde Alminique

a condessa repousava;

o infante tomou-a pela mão

e a apertou contra o peito.

A Infanta Moura e Alfonzo Ramos

Sob a sombra de uma oliveira

estava a formosa infanta;

um pente de ouro trazia nas mãos

e bem ornava os cabelos.

Ergueu os olhos ao céu e viu,

naquela manhã tão cedo,

um grupo de lanças e homens armados

vindo do Guadalquivir.

Com eles vinha Alfonzo Ramos,

almirante de Castela.

"Sê bem-vindo, Alfonzo Ramos!

Bem-vindos sejam cavalo e aço.

Que notícias trazes de minha frota,

que novas de dor ou ventura?"

"Hei de contar-te as notícias, senhora,

se me assegurares a vida."

"Fala, Alfonzo Ramos;

tua vida estará segura."

"Sevilha, Sevilha caiu

nos braços do mouro berbere."

"Não fosse minha palavra, tua cabeça hoje

aos abutres teria sido lançada!"

"Se minha cabeça estivesse perdida,

a tua pagaria o custo."

Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 20

A Tourada de Zulema

Era um senhor valente, cavaleiro alegre e galhardo, como estrelas no quinto ceu luzia o seu valor bizarro. Na paz, afeito as artes do grande coro de Apolo; na guerra, espadachim que Marte admiraria em solo. Seus altos feitos estavam na pagina mais clara da historia, e com razao o tinham por espelho de sua era e gloria. Grandes feitos cumpriu com ponta de lanca e ganhou coroa, antes que o rosto rubro se cobrisse de barba boa. E assim, por todo o mundo, em harpas de menestrel era louvado, tanto pelo vigor do braco quanto pelo porte ousado. Os proprios inimigos, que fizera render-se na peleja, tremendo diante de seu valor, pediam que Deus o proteja. E a propria Fama, tao ligeira, cuja voz como fogo corre, cansou-se de contar os feitos que seu nome socorre. Para narrar perigos, fugas e resgates, de modo verdadeiro, queria asa mais veloz e lingua de som mais inteiro. Tal era Zulema, tal era ele, guerreiro de renome, filho daquele Zulema que em Toledo deu seu nome. Ah, clara fama deixou o pai, que nunca ha de morrer: a gloria do filho maior a fara sempre viver. Ora, sucedeu certa vez que chegasse a porta elevada de uma cidade: era Avila, em dia de festa celebrada. A praca imensa, quando entrou, parecia jardim em flor; cada cavaleiro trazia plumas, cada dama, seu esplendor. Estranha lhe pareceu a cena, pois o mouro, criado no sul, nunca vira Castela tao alegre sob o ceu azul. Viu os Adelifas no pavilhao do rei, em nobre companhia, e pediu, tendo a prece aceita, juntar-se a cavalaria. Mas, quando deram consentimento, temeram que o poder de Zulema superasse, na justa, o melhor castelhano da arena. Ainda assim, mil vezes pediram que o ceu lhe desse ventura, e mil vezes admiraram sua mourisca vestidura. Muitas damas lhe deram sinais e sorrisos, ao ve-lo passar, e, vendo sua beleza viril, suspiravam sem se ocultar. Entao os guardas, pela mao, recebem Zulema e o conduzem, e entre os mais altos nobres um lugar de honra lhe produzem. Seu assento ficou, em honra, entre damas claras e risonhas, entre guerreiros de Castela, de coragem sem vergonhas. Subitamente, mais veloz que o vento, mais feroz que um cometa, o touro de Jerama, famoso, irrompeu pela praca repleta. Ah, bravo era no fulgor dos olhos, feroz no coracao; a fronte lembrava nuvem de tormenta, cada corno, um lancao. As narinas abertas bufavam fogo; curto e grosso era o pescoco; a pele, negra como a nuvem que no cume faz alvoroço. Diante de sua chegada fugiu a multidao, em alarme, ate que a praca ensolarada ficou vazia de todo enxame. Restaram apenas os que a cavalo se mantinham ante o inimigo: ora tremiam de medo, ora inflamavam-se de abrigo. Esperavam bom divertimento, julgando po-lo ao chao, mas o heroi andaluz escapava a cada investida e estocada em vao. E as vezes, em galhardo ataque, derrubava-os da sela; feria-os com o corno selvagem e pisava a poeira sobre ela. Ah, grande foi a vergonha dos cavaleiros vencidos; nao ousavam erguer os olhos aos balcoes floridos. Pois aqueles olhos suaves ja nao pousavam no derrotado, mas no monstro forte e soberbo que os havia dominado. As damas do assento real voltaram-se entao a Zulema, e uma, a mais bela de todas, oculta em estranho diadema, por tras do veu lancava raios, como o sol no alto se aviva quando nasce e apaga as estrelas da meia-noite fugitiva. Fez-lhe um sinal e falou-lhe direto do coracao, cuja lingua mora nos olhos da mulher: ah, que precisa funcao. Pediu-lhe que redimisse o dia e vingasse cada cavaleiro que caindo no po sofrera ante o inimigo altaneiro. E o mouro, com gracioso gesto, consente e desce do assento; mas antes, com olhar e lenco, envia terno pensamento a linda donzela mourisca que o chamara para a lida, e lhe enchera o peito de amor naquele dia de vida. Ao saltar para a areia, parecia voar sem demora, pois o amor lhe dera asas ao aceno de sua senhora. E quando o touro viu aproximar-se, na areia sangrenta, seu alto e ousado adversario, com punhal na mao atenta, rugiu como trovao; com os cascos revolveu o chao poeirento; tremeu a plaza, e a torre do castelo repetiu o som violento. Por tanto tempo sujeito a mao humana, e em sujeicao nascido, julgou sujeitar tambem o homem a casco e corno erguido. Zulema partiu contra a fera; altos gritos quiseram conte-lo, mas ele sabia que a vitoria viria ao ataca-lo e vence-lo. O touro saltou sobre ele e, rosto contra rosto, em frente, ficaram por um instante, enquanto o silencio caiu sobre a gente. Com ousada mao direita Zulema sacou a lamina aguda; golpe apos golpe, entre sangue e po, caiu sobre a fera muda. O animal espantado recuou diante de tamanho assalto, e o povo bradou aplauso, e o proprio rei curvou-se alto. O touro, cabeca erguida, rugiu desafio ao cavaleiro, quando Zulema se voltou e saltou ao combate derradeiro. Ah, crueis foram os golpes que choveram sobre o flanco espumoso; na areia, o sangue da vida caiu como outono chuvoso. Ruge, bufa, escarva o chao; o po vermelho sobe ao ar; ora aqui, ora ali, em dor furiosa o monstro veem voar. Volta-se para ver que novo inimigo lhe cruzou a passagem, mas, quando Zulema o encara, detem-se e recua da imagem. Pela terceira vez comeca a luta; o touro, em muitos rugidos, volta-se ao adversario, espuma e sangue nos beiços partidos. O mouro, enraivecido por ver de novo a fera diante de si, dá-lhe, com mao certeira, o golpe fundo, fatal, ali. Essa ferida, enfim, abriu a porta por onde entra a morte; e, tombando para o po, a fera exala o ultimo sopro forte. Quando o touro cai, a praca cheia ressoa em aclamacao; em muitos cavaleiros arde a inveja, em muitas damas, paixao. Os mais altos nobres da terra abracam o vencedor; ele ve rubor de desejo em muitos rostos de amor. E a Fama tocou sua trombeta e voa de cidade em cidade, e Apolo toma a pena e escreve o titulo de sua majestade.

Nota editorial. Revisao poetica a partir da traducao-base automatica e do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a arquitetura narrativa do romance, os nomes proprios e o tom hiperbólico-cavaleiresco. A palavra "plaza" foi preservada uma vez para manter o sabor iberico da cena; "praca" foi usada no restante para fluidez em portugues.

1/1
Menu

Fazer anotação