Baladas Mouriscas II
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 21
O Renegado
Pelos montes de Moncayo, vede, armado para a lida, cavalga o pagao Bobalias, Bobalias, alma traida.
Sete vezes foi ele mouro, sete vezes, tremendo, a Cristo se voltou; na oitava, o demonio o enganou, e a cruz crista rejeitou; tomou de novo a fe de Maome, que em menino aprendera e guardou.
Era o mais forte entre os mouros, e cartas vindas de longe lhe haviam dito que Sevilha se armava para a guerra.
Arma navios e galeras, infantaria e cavaleiros, e direito as aguas do Guadalquivir seguem seus pendões guerreiros.
As bandeiras que no plaino de Tablada, sobre o acampamento, se desdobram, tremulam acima de trezentas tendas de seda, brocado e ouro que assombram.
No centro, o pavilhao do pagao mandam erguer; no alto pousa uma pedra de rubi, joia rara de se ver.
Brilha ao romper da manha; e quando a noite, por fim, cobre o mundo inteiro, derrama um raio como luz de dia, quando o sol arde por inteiro.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o nome Bobalias, a oscilacao religiosa como eixo dramatico da peca e o tom de romance curto, com imagens de marcha militar e brilho cerimonial.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 22
A Torre de Ouro
Bravo Arbolan jazia preso dentro da Torre de Ouro; por ordem do rei, ali ficavam quatro guardas de tesouro. Nao fora por haver contra o rei tramado traicao sem pudor; mas porque os encantos de Guhala tinham vencido o seu amor.
"Guhala, Guhala, meu peito saudoso ha de clamar; este triste voto agora pronuncio: ver-te ainda, ou morrer sem te olhar."
Ja nao eram livres aqueles membros fortes; a vinganca mandara prender em ferros suas maos e pes, mas a mente nao pôde deter. Quao dolorosa era a sorte do guerreiro! Toda esperança, enfim, se perdeu; e, de pe junto a janela, com voz suspirante, assim gemeu:
"Guhala, Guhala, meu peito saudoso ha de clamar; este triste voto agora pronuncio: ver-te ainda, ou morrer sem te olhar."
Voltou os olhos para as margens onde o Guadalquivir corria; "Rei desumano!", gritou em dor, "cumpro o que tua ordem queria. Mandas que carreguem meus membros de ferro; teu cruel sentinela vigia a porta de minha prisao; mas quem dira minha falta singela?
"Guhala, Guhala, meu peito saudoso ha de clamar; este triste voto agora pronuncio: ver-te ainda, ou morrer sem te olhar."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Preservado o refrão de Guhala, o motivo do amor tratado como crime e a imagem da Torre de Ouro como prisao fisica, em contraste com a mente livre de Arbolan.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 23
O Canto Fúnebre por Aliatar
Ja nenhuma tahalia azulada tremula na fronte de cada guerreiro; ja nenhuma cimitarra recurva mostra ao dia o dourado de seu coldre altaneiro. Os turbantes africanos, outrora moldados nas praias do Marrocos, hoje trazem despida a coroa em tufos: nao ha penas tremulando sobre os rostos. Todos vestem trajes de luto, arnes proprio para hora tao ferida; mas, quatro a quatro, a grande multidao pela lenta procissao se derrama, comovida. Ah, Aliatar! Bem conhecia os soldados de seu exercito fiel, soldados cujo canto aflito da dor do peito ergue o fel.
Tristes marchamos pela rua cheia, enquanto roucas trombetas bramam e tambores batem como tormenta.
A fenix que em ouro brilharia na dobra alta do estandarte ondulante, mal encontra brisa alegre para abrir no alto a asa vacilante. Era como se o fogo da morte, pela primeira vez, lhe houvesse apagado o alento; pois sobre o mundo a tribulacao desenrolara o manto do desalento. Nao havia brisa para abencoar o chao; a planicie jazia arfando em aflicao; sob o sudario de seda arrastado, Alfarez passava, carregado pela multidao.
Tristes marchamos pela rua cheia, enquanto roucas trombetas bramam e tambores batem como tormenta.
Pois Aliatar, numa manha triste, montou seu cavalo e tocou a corneta; cem mouros atras dele cavalgavam, mais ligeiros que o vento seus corceis pela vereda. Para Motril dirigiram o curso, enquanto inimigos cercavam a cidade-castelo; ali jazia o irmao de Aliatar, encerrado pelos adversarios naquele dia funesto. Maldita a hora, maldito o dia em que ele saltou para a sela! Nunca mais dali desceria para desafiar inimigo ou acolher amigo a janela; nem sabia que a hora estava perto em que seu leito seria o esquife aberto.
Tristes marchamos pela rua cheia, enquanto roucas trombetas bramam e tambores batem como tormenta.
Naquele dia foram enviados os cavaleiros do mestre, como se partissem para jogos e justa galharda; e Aliatar, em seu caminho, foi traido por cruel emboscada. Com espada e cota de malha o cercaram, e feriram o guerreiro ate o chao; ferido fundo, de cada veia sangrava sobre a planicie em solidão. Os furiosos inimigos, em luta mortal, puseram em fuga seus poucos seguidores; tomados de panico, fugiram, e o deixaram morrer sem vingadores.
Tristes marchamos pela rua cheia, enquanto roucas trombetas bramam e tambores batem como tormenta.
Ah, tristemente veloz a noticia voou ate Zaida, na cidade silenciosa; sem fala ela se sentou, enquanto cada pensamento lhe trazia nova tristeza dolorosa. Entao suas lagrimas correram em cheia maior que o rio de sangue das feridas dele abertas; como perolas deslumbrantes, as gotas riscavam a beleza palida de suas faces desertas. Dize, Amor, ja viste alguma vez donzela mais bela e cavaleiro mais ousado? E se nao viste sua morte, nem as lagrimas de Zaida em pranto desolado, ata bem a venda sobre teus olhos, para que jamais contemples tal quadro.
Tristes marchamos pela rua cheia, enquanto roucas trombetas bramam e tambores batem como tormenta.
Nao apenas os olhos de Zaida se molham, pois sua alma jamais o esquecera; muitos coracoes, em igual medida, trazem a dor que aquela dama sofrera. Sim, todos os que bebem a agua doce onde se encontram Genil e Darro, todos da linhagem dos ousados Albaicins, que entre os principes de Alhambra brilham claro: as damas choram o alto guerreiro, espelho de amor e cortesia; os bravos o lamentam como par, os principes, como companheiro de alegria; os pobres o pranteiam, de coracao sangrento, seu abrigo na hora do sofrimento.
Tristes marchamos pela rua cheia, enquanto roucas trombetas bramam e tambores batem como tormenta.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a marcha repetitiva do refrão, os nomes e topônimos centrais e o registro elegíaco. A escolha "O Canto Fúnebre por Aliatar" privilegia o sentido cerimonial de "dirge".
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 24
O Navio de Zara
Era a donzela mourisca, a mais bela entre as belas, cujo nome, entre os cavaleiros mouros, era culto nas cidadelas. Era sabia e modesta, como sempre foi sua gente, e nos patios do palacio de Alhambra servia a rainha, diligente. Filha de Hamete, de linhagem real era ele, e tinha por feudo o poderoso castelo da vila de Baja. Agora, triste e pesarosa, todo o dia chorava sentada, e seu coracao cativo pensava ainda no califado distante, que, nas duras passagens da guerra, saíra do dominio muculmano e era agora senhorio do rei Fernando da Espanha. Pensava no cerco sombrio, no vale deserto de Baja, quando longa foi a luta e faltou alimento a homens e animais; e seu pobre pai, forçado a render-se, entregou o castelo, pois caiam as torres, caiam depressa seus guerreiros leais. E Zara, linda Zara, ele entregou aos cuidados da nobre Condessa Palma, que amava a donzela sem enganos. A condessa viera a Baja quando a rainha Isabel chegou, para devastar com espada e chama a vega formosa da cidade. E a condessa perguntou a Zara se sabia alguma arte, a agulha ou o bastidor de bordado ensinado as jovens cristas; e como fazia passar as horas quando, as margens do Guadalquivir, vivia na Alhambra, princesa daquela terra. E, enquanto seus olhos se enchiam de lagrimas, respondeu a mourisca: "Era eu quem fixava o fio de prata em vestes tingidas; era eu quem, com dedos habeis, cobria de renda de ouro as roupas deslumbrantes, floridas em veludo e brocado. As vezes tomava o alaude e tocava para as dancas; as vezes confiava minha voz fraca a alguma aria de romance; mas agora, neste instante, conservo apenas uma arte, uma arte triste: chorar, lamentar o banimento que para sempre me fere o peito. E como foste tu, so tu, cujo pao e cujo teto salvaram minha vida, choro as lagrimas mais amargas porque sou escrava. Mas se te dignares, senhora querida, a tornar mais leves as horas que passo sob teu teto, em escuro cativeiro, peço-te que construas para mim, se aprovares o desenho, uma barca de oceano, bem talhada para cruzar a agua revolta. Que seja veloz, que seja forte, e deixe para tras todas as embarcacoes quando, nas vagas do mar, sentir o vento favoravel. Lancemo-la da praia inclinada; e, quando o vento estiver alto, e as ondas ferozes misturarem sua espuma ameacadora ao ceu, baixaremos a vela grande, para que a tempestade nao nos leve e nos varra para os recifes ocultos em alguma baia africana. E no topo elevado do mastro devera ficar esta inscricao, escrita nas letras usadas em toda terra crista:
'Este navio e lancado em muitas tormentas, aporta em muitas praias; e o vasto mar, sob o vento, ele percorre velozmente. E como o coracao humano, que nao traz tesouro nem ganho ate que, sacudido pela dura desventura, conheca o mar da dor.'
E que, na franja pendida em torno dessa inscricao, haja outra legenda dizendo, em lingua arabe:
'Ah, quem dera Ala, o misericordioso, enviasse a todas as minhas miserias cativas um fim rapido e feliz.'
Disse a condessa: "Construir esse navio, penso, me agradaria; tais tarefas talvez aliviem ou dissipem as dores de teu coracao. E, Zara, quando vier o verao, e os ventos e as aguas estiverem livres, construiremos nossa barca, ergueremos a vela e partiremos pelo mar."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a estrutura narrativa em verso corrido, a fala longa de Zara, as duas inscricoes do navio e os nomes Baja, Alhambra, Guadalquivir, Condessa Palma, Fernando e Isabel. "Bark" foi tratado como "barca/navio" para preservar tanto o objeto simbolico quanto a clareza em portugues.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 25
Hamete Ali
Hamete Ali segue seu caminho rumo a cidade; sua tunica e de verde vivo, com faixas de rosa escarlate, sinal de que nenhum desalento conhece esse errante ousado. O braco que traz o aco torcido reflete o brilho do sol, e preso a ele por muitos nos pende seu capuz verde. Sobre o barrete azul-celeste voam duas plumas leves: uma e verde como o verao; a outra, azul como o ceu. Nao veste essas cores para mostrar-se escravo da paixao; sao emblemas da vida que bate em seu peito valente. Mas sombria e a cor de sua lanca, sombrio tambem seu escudo, onde serpentes se espalham sobre um campo de ouro. Suas linguas venenosas tremem, e ouvidos se erguem diante delas, para mostrar como coracoes maldizentes espalham veneno pela terra. No centro, um mote escrito, que todos podem ler, foi tracado em caracteres arabes, ah, bom seria que todos o escutassem: "Nada, senao a inocencia do coracao, pode salvar-me do golpe com que as serpentes da calunia fariam cair sua vitima." Montado num potro malhado, cavalgava pela encosta do vale, o mais bravo dos mouros valentes e outrora orgulho de Granada. Descendo em furia da ousada ladeira de Ubeda, atravessou o vale e subiu ate a fortaleza de Baza. Ainda desafiando o poder da Fortuna, enfim seus pensamentos vazaram, pois a Fortuna fora cruel; e, em palavras de desgosto, como se culpasse a serpente desenhada em seu escudo, rompeu a torrente de seu peito, e irado o guerreiro disse:
"O destruidores da esperança mais clara que conheci em anos passados! O nuvens que encobrem o sol ardente da ventura! O praga do amor, o ruina de aspiracoes puras! Vermes vis, que roem e consomem os tesouros mais seguros! Nao tenteis mais banir-me de minha propria terra natal, para que, em meu lugar de honra, fiqueis vos, escravos invejosos. Tambem tenho amigos, cujas espadas sao afiadas, cujo amor e forte e leal; a eles confio minha defesa, por astucia ou por aco. E, Fortuna, faze o teu pior; nao esta escrito, por Ala, que seu cavaleiro morra no banimento.
"Nao permitas que, nos peitos generosos daqueles cujo sangue corre em minhas veias, que ao meu lado ficaram como fieis campeoes, essas aspides malditas, cujas imagens enchem a borda de meu escudo, plantem pensamentos de vileza com que me fazem mal. O justo ceu impede que suas palavras manchem a honra de meu nome, pois puro e fiel e meu coracao, por mais que meus inimigos me difamem; e Zaida, linda Zaida, ante uma palavra que me ofendesse, fecharia os ouvidos em ira desdenhosa e maldiria a lingua caluniosa. E, Fortuna, faze o teu pior; nao esta escrito, por Ala, que seu cavaleiro morra no banimento.
"Nao, Fortuna, nao gires mais tua roda; pouco me importa que ela pare, nem te peço que arranques o cravo que a fixa ao capricho dos homens. Ah, que eu nunca precise dizer-te, quando chamar por teu auxilio: deixa-me atingir o cume da felicidade, qualquer que seja minha queda! E quando eu vaguear longe daqueles que amo, que jamais se erga nuvem para turvar minha esperança de retorno e esconder-me de seus olhos. Contudo, sem duvida, os ausentes sao muitas vezes os mais esquecidos, ate que aqueles que amaram de perto, na ausencia, ja nao amem. E, Fortuna, faze o teu pior; nao esta escrito, por Ala, que seu cavaleiro morra no banimento.
"E ja que e meu infeliz destino, pelas artimanhas crueis da calunia, ser privado por tantos anos dos sorrisos luminosos de Zaida, que aqueles que dizem que sou falso, e pronunciam o nome de Celinda, nao alcancem no fim senao vergonha e desonra. Nao e justo que a estas palavras e a estes temores ansiosos, a estas queixas desvairadas, o deus do amor feche ouvidos descuidados. Sim, mereco melhor sorte, a sorte que torna mais certa a fama dos que suportam no exilio a lingua caluniosa. E, Fortuna, faze o teu pior; nao esta escrito, por Ala, que seu cavaleiro morra no banimento."
Assim falou; e eis que diante dele viu erguer-se a cidade, com muralhas e torres franzindo em forca sobre a terra fertil. Viu tambem os estandartes reluzentes de Almanzor no alto, balancando na brisa suave que enchia o ceu de verao. E os que estavam sobre as muralhas, tao logo o avistaram, saíram em corrente pela grade levadica para saudar o cavaleiro; pois maravilhavam-se com o corcel empinado que cruzava a planicie, maravilhavam-se com sua voz de trovao e palavras de desdem profundo. E, Fortuna, faze o teu pior; nao esta escrito, por Ala, que seu cavaleiro morra no banimento.
E quando entrou na cidade e galopou ate a praca, viu nas sacadas damas brilhantes, de rosto descoberto; paradas, fitavam-no com olhos de amor e gestos de alegria, felizes por ver entre elas cavaleiro tao forte e tao belo. E todo o povo de Baza saudou sua chegada com clamores, seguindo a cauda de seu cavalo de rua em rua cheia. Seu coracao encheu-se de gratidao, seu peito encheu-se de orgulho; e, tirando o barrete, inclinou-se e mais uma vez bradou: "E, Fortuna, faze o teu pior; nao esta escrito, por Ala, que seu cavaleiro morra no banimento."
Levaram-no a casa do alcaide, e ali houve grande banquete. Homens bravos e belas mulheres juntavam-se em multidao. As trombetas soaram em alegre melodia; ressoaram as trompas mouriscas, e o canto de jubilo foi repetido por cada castelo ao redor. Descendo de seu potro, ele pousou a lanca de lado e saudou toda a multidao que enchia a vasta plaza. Entao, da rua, apressou-se para a torre forte do lugar, e, enquanto seguia, mil vezes seus labios ainda repetiam: "E, Fortuna, faze o teu pior; nao esta escrito, por Ala, que seu cavaleiro morra no banimento."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o brasao das serpentes, a fala contra a calunia, o desafio repetido a Fortuna e os nomes Hamete Ali, Zaida, Celinda, Almanzor, Ubeda e Baza. A palavra "plaza" foi preservada no fim por cor local iberica.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 26
O Amor de Zaide
Entao Zaide ficou arrebatado e fitou com olhos serenos, pois se aproximava o instante em que seu desejo seria pleno. Propicio era o momento, feliz era a hora, quando tudo quanto ansiara vinha, enfim, a sua mao agora.
E disse: "Tres vezes feliz e o muro, feliz e a grade, embora de meus ternos bracos, Zaida, te mantenha na saudade; pois enquanto viveres na terra, minha Zaida, seras minha, e o coracao que bate em meu peito, enquanto bater, sera teu. Feliz e a relva verde, verde, onde repousam teus pes, pois a pressao de teu pe delicado a erva jamais esquecera; jamais esquecera o calcanhar branco, branco, que passou pela senda, deixando atras de si, por toda parte, o rastro de neve e chama. Mas muito mais feliz sera o cavaleiro, se algum dia Ala enviar a esta escura separacao um fim luminoso e em paz. Pois me parece que as horas que passam sem tua presenca querida vestem o traje sombrio de dor que usam as criancas orfas. Busco ter-te comigo, pois somente aos fracos falta a felicidade que eles nao ousam procurar. E, se a sentenca da morte e nossa, ela nao vira mais depressa porque recusamos pensar nela nesta praia venturosa. Mas antes que chegue esse decreto de morte que nos enche de temor, conceda-me Ala a graca de repousar em teus bracos. E se, nessa suprema ventura, o destino favorecer meu desejo e o amor for coroado, contente entregarei a sorte da vida. O querida Zaida, bem-aventurado entre milhares e aquele que pode dizer que nesse peito, nesses bracos, por um instante repousou. Vem, querida, para junto de teu Zaide, e entrega-lhe teu amor; tu o sabes bravo, bom e gentil, acima de todos os cavaleiros. Ao reconhece-lo como amante fiel, teras por companheiro quem, na lista do valor, e campeao acima de todos. O dominio de tua beleza deveria ser absoluto como a morte; mas, ah, quantos mundos entao cairiam em noite sem fim! Vem, pois, bela Zaida, vem depressa a estes bracos que esperam, e deixa-me conquistar enfim o premio da vitoria sobre teus encantos. E uma divida que me deves; ah, que a divida seja paga."
Entao Zaida ergueu-se e mostrou-se vestida em sua beleza, e o mouro exclamou: "Que Ala permita que teu sol sempre brilhe, para iluminar com todo o seu esplendor esta minha vida solitaria! E embora minha lingua gaguejante esteja muda, como alaude quebrado, e, no maior esforço para louvar-te, fique sem voz, ela ao menos pode anunciar-te, alto como estrondo de trovao, o servico que te devo e a paixao que sinto."
A dama mourisca sorriu com isso e falou em tom terno: "Se tudo quanto essa tua lingua silenciosa disse se mostrar leal, se todos os teus votos vierem do coracao, e todos os teus suspiros pesados nascerem de um peito imutavel, de um espirito constante, juro que concederia teu desejo e seguiria tua vontade. Mas, ah, temo que teu amor ardente nao me traga repouso; temo que essas palavras de mel que tao leves voam de teus labios por fim se mostrem presa de serpente, a ferir-me ate a morte."
Entao o mouro lhe jurou: "Se algum dia esse for o fim, que a terra firme sob meus pes se abra inteira e me devore! E que a luz bendita do sol, simbolo de minha esperança, seque estes olhos e me deixe tateando em noite eterna!"
Com isso, os amantes uniram maos e coracoes, e, com um beijo, selaram todos os votos de amizade e promessas de ventura. Seu amor era forte e solido, e constante deveria permanecer, ate que a morte encerrasse o cativeiro e quebrasse a corrente de ouro.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o tom cortês e hiperbólico da declaração de Zaide, a hesitação prudente de Zaida e o juramento final. O título conserva Zaide como forma do original desta peça, distinto de Zaida.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 27
O Ciúme de Zaida
Amigo gentil da linhagem de Bencerraje, que juizo guardas de tudo quanto os humores mutaveis de Zaida diante de teus olhos revelam? Agora, por minha vida, juro que a todos ela entregaria a vontade; mas, por minha morte, juro que a todos se mostra ainda infiel. Chega-te, amigo, e escuta enquanto te mostro esta carta, que escrevi, em amarga dor, a formosa dama. Nao repitas o que te leio, pois seria vergonha mortal que, admirando tu o rosto dela, a calunia lhe manchasse o nome:
"O donzela mourisca, que, como o tempo, sempre em voo, levas sorrisos e lagrimas, com encanto mutavel, a cada peito, teu amor nao passa de mascara, e com mao mesquinha espalhas migalhas de esperança a todos os que te cercam. Contigo nao ha outra lei de amor e gentileza senao aquela que te de alegria e guirlanda de sucesso. A cada nova pluma que tuas aias prendem em teus cabelos escuros, a cada veste de nova cor, mudam teus pensamentos e fantasias. Reconheco que es mais bela que a mais bela flor que, ao rubor da aurora, enfeita o caramanchao do verao. Mas, ah, as flores nas horas de verao mudam ate murchar, e tu es mutavel como a rosa que fenece na sombra. E embora sejas o espelho do cortejo cintilante da beleza, teu peito tem uma mancha; tua mente, uma ferida mortal. Pois sobre todos igualmente derramas o brilho de teu sorriso, e esta e a traicao com que enganas o mundo. Nao alego em minha queixa que tua formosura esteja maculada porque tuas palavras sejam crueis, porque teu coracao seja duro. Quisera Deus que fosses insensivel como o oceano selvagem, e nao tao afavel e suave com todos os que te encontram. Ah, mais doce e o fruto demorado, que chega por ultimo no tempo; ah, mais doce e o fruto da palmeira que, para alcançar, e preciso escalar. Ai! Foi somente ontem que um estrangeiro chegou a cidade: ofereceste-lhe teu coracao e mandaste que o guardasse como seu. O Zaida, dize-me, como foi isso? Pois muitas vezes te ouvi dizer que eras minha, e que a mim teu coracao fora entregue. Tens mais de um coracao, falsa menina, ou e a inconstancia que te faz dar a esse hospede estranho o coracao que possuo? Um so coracao e meu, e esse eu entreguei a ti. Se tens muitos, e meu amor insuficiente para os teus? O Zaida, quanto temo por ti; minhas veias ardem de colera. O Zaida, volta-te mais uma vez para mim e deixa o estrangeiro partir. Assim que ele sair de teu lado, veras que seus juramentos eram vazios e que suas promessas se espalharam ao vento. E se dizes que nao podes sentir as dores que a ausencia traz, e porque teu coracao nunca conheceu os murmúrios brandos do amor. E porque tua mente voluvel me abandonou aqui a definhar, como velho escravo esquecido no patio deste teu palacio. Ah, pouco te importas comigo, com todos os meus prazeres perdidos; em teu orgulho pensas apenas, falsa dama, nos teus. E sera fraqueza que ainda me ordena cegar para todas as tuas faltas e trazer assim tua bela imagem gravada em minha mente? Pois, quando amo, a menor ofensa, ainda que breve seja a dor, e atroz como o golpe traicoeiro que fere um coracao fiel. E uma mulher, com um olhar hostil, com uma so carranca, pode lancar desespero no peito do homem cujo espirito a venera. Recebe, pois, este conselho; e o ultimo que respirarei a ti, embora eu saiba que estas minhas palavras se perderao nos ventos: fui o primeiro a quem deste o carinhoso abraco e as promessas de tua alma, naquela hora de felicidade. Ah, guarda a fe daqueles dias jovens! Tua honra e teu renome nao deves manchar com amor cruel, com o frio gesto da traicao. Pois nada na vida e firme e seguro se a fe resolveres descartar, e a luz do sol da alma mais bela e muitas vezes a primeira a se estragar. Nao assinarei esta carta, nem porei nela meu nome; pois nao sou aquele homem feliz a quem veio a mensagem do amor, aquele que em teu aposento ouviu, arrebatado, teus doces acentos, quando, sobre teu peito arfante, eu, teu escolhido amor, repousei. Mas bem reconheceras a mao que escreveu esta carta para teus olhos, pois a consciencia te lembrara tua voluvel traicao. Dissimula como quiseres, e representa com arte de mulher teu papel: tu sabes que ha apenas um que carrega por ti um coracao partido."
Assim leu o valente castelao da torre do castelo de Baza; depois selou o escrito e o enviou ao aposento da donzela mourisca.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a estrutura de carta, a voz ciumenta do remetente, a ausencia de assinatura e as imagens de mascara, fruto tardio, palmeira, escravo esquecido e coracao partido.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 28
Zaida de Toledo
Sobre um balcao dourado, que ornava alto palacio, lugar onde as damas vigiavam cada passante, enquanto o Tejo, com manso murmúrio, levava suas aguas suaves a tocar o grande contraforte com ondas claras e azuis, esta Zaida, radiante em seus encantos, flor das donzelas mouriscas; e, com a mao arqueada de neve, sombreia os olhos inquietos, procurando a longa estrada poeirenta que conduz a Ocaña, o lampejo da armadura cavaleiresca e o tropel dos cavalos apressados. O brilho da esperança amorosa acendeu-lhe o rosto de rubor, mas rugas de amor ansioso cobriram-lhe a bela fronte; pois ela espera ver se pela estrada sobe um guerreiro alto: o altivo Bencerraje, aquele a quem ama acima de todos. A cada vulto que desponta e mancha a vega clara, ela se sobressalta, perscruta com rosto mudavel e força a vista; pois toda forma robusta que ve na estrada distante parece-lhe o Bencerraje que seu peito anseia saudar. E muitos objetos longinquos que se erguiam a sua vista enchiam toda a sua alma de arrebatamento, atraindo seus olhos ansiosos; mas, quando chegavam mais perto, ela se voltava em meio desespero: sua visao a enganara; Bencerraje nao estava ali.
"Meu querido, meu Bencerraje, se ha pouco percebeste que eu trazia colera no peito e teimosia no orgulho, ah, que meus olhos conquistem perdao, pois estavam molhados de lagrimas. Por que nao hás de me perdoar? Por que nao hás de esquecer? Arrependi-me daquele humor, e pus em mim mesma a culpa, e pensei, talvez tenha sido minha a falta, pois, no jogo da justa, nao havia rosto entre os cavaleiros tao carregado de cuidado quanto o teu, tao triste e abatido; sim, pensei que a culpa era minha. E, contudo, se refletires com pensamento imparcial, nao me zanguei contigo sem causa, por todo esse teu estranho descuido. Descuido que nao nasceu de falsidade nem de palavras minhas, mas das acusacoes caluniosas feitas por uma lingua mentirosa. E agora te peço perdao, se nao e tarde demais; ah, toma tua Zaida ao coracao, pois ela esta desolada. Pois, se a perdoares e a fizeres tua outra vez, juro que nunca te arrependeras, amor querido, de assim a teres contentado. E lei de honra, que tu nunca quebraras, que o segredo das doces horas de amor nao se torne coisa publica; que jamais falhes no amor, nem caias em frieza, para com tua pequena mourisca, que te deu tudo."
Assim falou; e Bencerraje, montado em seu bravo baio, chamava-a da rua, onde se demorava alegre e gracioso. E depressa ela desceu ate ele, para lhe entregar, antes que partissem, os bracos redondos, o colo de marfim, o peito e o coracao.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a cena de Toledo, o Tejo, Ocaña, a espera no balcão e a fala de reconciliação de Zaida. "Bencerraje" foi preservado conforme a grafia do original nesta peça.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 29
Zaide Repreendido
"Olha, Zaide, deixa-me dizer-te: nao passes por minha rua, nem venhas tagarelar com minhas aias, nem tratar com meus criados; nao lhes perguntes por quem espero, nem quem me vem visitar, que bailes procuro, que vestido julgo mostrar melhor minha beleza. Ja basta que, por tua causa, tantos me digam face a face que eu, moura sem juizo, persigo um amante sem juizo. Sei que es homem valente, que abateste mais inimigos cristaos do que tens gotas de sangue nas veias. Es cavaleiro galhardo; sabes dancar, cantar e tocar melhor que os melhores que encontramos num dia de verao. Tua fronte e branca, tua face e rubra, tua linhagem e famosa, e entre os levianos e alegres apareces sempre em primeiro lugar. Sei quao grande seria minha perda se perdesse alguem como tu; sei, se algum dia te conquistasse, quao grande seria meu ganho. E se fosses mudo desde o nascimento, silencioso como a sepultura, toda mulher poderia adorar-te e chamar-se tua escrava. Mas seria melhor para nos dois que eu me afastasse de ti: tua lingua e demasiado solta, teus modos demasiado livres. Vai procurar outro coracao que suporte teus caminhos, alguma mulher que, para garantir tua constancia e teu silencio, possa erguer dentro de teu peito seu castelo alto e forte, e colocar um carcereiro em teus labios, para trancar tua lingua infiel. Ainda assim, tens dons que as damas amam; teu porte ousado e brilhante rompe todo obstaculo que as separe do deleite. E com tais dons, amigo Zaide, estendes a mesa do banquete, e mandas que provem o prato tao doce, sem dizer palavra. Mas aquilo que fizeste comigo, Zaide, vai custar-te caro; feliz teria sido tua sorte se nao tivesses mudança a temer. Feliz, se quando tua armadilha serviu para fazer tua a presa, tivesses fechado a gaiola de ouro antes que o passaro fugisse. Mal teus passos apressados sairam do jardim de Tarfe, e ja te vangloriavas de tua hora de ventura e de minha vergonha. Dizem-me que a mecha de cabelo que te dei naquela noite tiraste do peito, diante de todo o povo, e a entregaste a um mouro de baixo nascimento, que tomou os cachos e os amarrou em teu turbante, perante o mundo que ria. Nao te peço que a devolvas, nem que guardes a reliquia; mas digo-te que, enquanto a trazes, minha vergonha e amarga e profunda. Dizem que o desafiaste, e juras que ele se arrependera por todas as verdades que disse de ti. Quisera Deus que nao fossem verdades! Quem nao riria ao ouvir-te culpar os murmúrios que revelam teu segredo, embora tu mesmo nao pudesses ocultá-lo? Nenhuma palavra tua pode limpar tua culpa, nem ganhar meu perdao; pela ultima vez minhas palavras e meu olhar se dirigiram a ti."
Assim falou, em ira, a dama ao altivo guerreiro da raca de Abencerraje, e desviou o rosto: "E justo", disse ela, "que o mouro cuja lingua se mostrou cruel comigo encontre na sentenca de minha lingua a retribuicao que merece."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o tom de repreensao direta, a critica a indiscricao de Zaide, a imagem da gaiola de ouro, a mecha de cabelo e a sentença final da dama.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 30
A Inconstância de Zaida
O formosissima Zaida, cujo rosto arrebata meus olhos! O formosissima Zaida, em cujo sorriso vive minha alma! A mais bela das donzelas mouriscas, e ainda assim, em humor vingativo, acima de todas as mouriscas, manchada de negra ingratidao. De teus cabelos de ouro o amor entrelacou muitos laços, e almas de homens livres, ao te verem, muitas vezes ficam cegas. Mas dize-me, orgulhosa, dize-me: que prazer podes ganhar ao mostrar ao mundo um coracao tao voluvel e vao? E, ja que nao podes ignorar minha adoracao, como pode teu coracao terno tratar assim teu amante? Nao te basta levar embora minhas esperancas mais queridas? Precisas destruir toda a minha esperança, minha vida, e deita-la em ruina? Meu amor fiel, doce inimiga, que mal o recompensas! E em troca dele me das apenas frieza e desprezo. Tuas promessas, teu penhor de amor, atirarias ao vendaval; bastou serem teus, falsa menina, para que todos ganhassem asas. Lembra como, naquele dia, deste muitos sinais de amor, e prodigalizaste o beijo que me dizia seres minha. Lembra, bela Zaida, embora a memoria te traga dor, tua ventura quando, sob tua janela, cantei minha canção amorosa. De dia, diante da janela, eu via minha querida passar; a noite, no balcao, eu te falava de meu amor. Se eu me atrasava, ou a ausencia me detinha longe de tua vista, o ciume furioso perturbava teu coracao, e teus olhos brilhavam de lagrimas. Mas agora que te afastaste de mim, venho saudar teu rosto, e tu me mandas partir e nao passar mais por tua rua. Mandas que eu nao te olhe mais, nem ouse sequer escrever a carta ou o bilhete de amor que outrora te dava prazer. Sim, Zaida, todos os teus favores, teu amor, teus votos, mostram-se falsos e sem fe, desde que tu mesma te tornaste infiel. Mas por quê? Es mulher, nascida para a falsidade voluvel; prezas os que te desprezam, e desprezas os que te amam. Eu nao mudo; tu mudaste, cujo coracao outrora respirava meu nome; mas quanto mais teu peito se faz gelo, mais feroz arde minha chama. Por toda a tua frieza, eu pagaria com amor e desejo, pois paixao fundada em boa fe jamais pode morrer.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o tom de queixa amorosa, a acusacao de volubilidade, a memoria da janela/balcao e o contraste final entre frieza e chama.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 31
A Desolação de Zaide
Era a hora em que Tita desperta do leito de Aurora, e sobre o mundo seu rosto radiante rompe, em beleza costumeira, quando passou um mouro em triste aparato; Zaide era seu nome. Ia disfarçado, porque seu coração sofria com a chama consumidora do amor. Nao trazia escudo, nao apoiava lança, nao montava cavalo de guerra; nao assumira pluma nem manto, mote nem brasao escrito. Ainda assim, no flanco vazio de seu manto, uma palavra se lia, clara, na lingua mourisca do povo: "Definho pelo desdem." Uma capa pobre lhe cobria os ombros, pois, quando pobre e a veste, a nobreza e mais honrada porque se mostra mais obscura. Se aparecia em pobreza, era o amor que assim o fazia; ate que o amor lhe desse a riqueza que buscava, iria em luto. E ainda viaja pelos montes e evita os lugares dos homens; ninguem contempla sua miseria no campo ou no pantano solitario. A bela Zaida nunca esquece que ele e principe de toda a terra e senhor dos castelos que se erguem em Granada. Mas ouro, prata ou brocado jamais suprem a falta de honra numa linhagem nobre cujos crimes a mancharam de negro. Pois a luz do sol nunca limpa o ceu quando a noite estendeu seu manto, mas somente quando desperta a gloria da manha. Ele vive seguro de cuidado ciumento, guardando o dote sem preço que raramente cabe aos coracoes amantes ou aos filhos da riqueza e do poder. Pobre e sua roupa, mas ao lado aparece uma lamina preciosa; e por segurança de espirito que nenhuma outra arma carrega.
Foi o amor que o enviou assim a vagar, longe da casa de Granada, e pela formosa Zaida ele definha de amor: o rosto mais belo que, pela graça de Deus, o sol jamais iluminou. Longe da corte e do mercado ele vive, pois assim deseja o rei; e, contudo, Alfaqui, amigo do rei, e pai da formosa donzela. Amigo do rei, apoio do trono, filho de monarca ele e, e jurou que nunca mouro algum sera esposo de sua filha. Nao tem sossego enquanto o soberano nao contempla a beleza da filha. Mas ela apertou a mao do bravo Zaide e sorriu ao seu carinho, e disse que ser somente dele era sua unica felicidade. E depois de muitas jornadas largas, cansado do banimento, ele avista a alta torre onde esta encerrada sua donzela mourisca.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o retrato de Zaide como nobre empobrecido pelo amor, a inscricao "Definho pelo desdem", a tensao de honra familiar e a chegada visual a torre onde Zaida esta presa.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 32
O Lamento de Zaida
As roucas trombetas da manha ja expulsavam o sono; soavam quando a noite fugidia dava tregua ao dia. O alarido da multidao atarefada cessou ante aquele som doce, no qual, por um instante, altos e baixos acharam paz e alivio. So o pio da coruja noturna quebrava o silencio, enquanto de longe se ouvia o rumor do povo que despertava; e, no meio do silencio, veio o som de Zaida chorando, pois toda a noite, com medo da morte, vigiara enquanto outros dormiam. E, ao suspirar, cantou em voz alta uma melodia melancolica: "E quem desejaria morrer", dizia ela, "ainda que a morte fosse sem dor?"
Pois linguas maldosas, querendo ganhar-lhe favor com mentira, haviam-lhe dito que o ousado Gazul ordenara sua morte; e assim ela vestiu trajes de mouro, deixando os seus de lado, e, ao bater da meia-noite, tomou o caminho de Xerez.
E, ao suspirar, cantou em voz alta uma melodia melancolica: "E quem desejaria morrer, ainda que a morte fosse sem dor?"
Montava um palafrem ligeiro, e mal o grande Gazul poderia exceder o ardor de que seu peito estava cheio. Ainda assim, a cada passo que o palafrem dava, ela virava a cabeca, temendo ver algum inimigo seguindo-lhe a trilha.
E, enquanto seguia, cantava em voz alta uma melodia melancolica: "E quem desejaria morrer, ainda que a morte fosse sem dor?"
Para fugir aos olhos da suspeita, enfim deixou a estrada do rei e tomou, por um atalho, a jornada rumo a Sevilha. Com redeas soltas fez seu bravo cavalo correr depressa, mas, para o medo dela, ele parecia uma rocha no caminho rude.
E, enquanto seguia, cantava em voz alta uma melodia melancolica: "E quem desejaria morrer, ainda que a morte fosse sem dor?"
Tao secretamente queria prosseguir que segurava a propria respiracao, embora, com uma tempestade crescente de suspiros, lhe inchasse o peito de neve. Aqui e ali fazia alto e inclinava a cabeca para ouvir se passos ressoavam; entao, segura, renovava a carreira veloz.
E, enquanto seguia, cantava em voz alta uma melodia melancolica: "E quem desejaria morrer, ainda que a morte fosse sem dor?"
Sua fantasia, no ar silencioso, podia ouvir vozes sussurrantes: "Farei de ti um sacrificio para o querido Albenzaide." Essa imaginacao lhe tirou o folego; sem vida, por fim, quase caiu, e agarrou-se ao arco da sela, pois o medo lhe minara o espirito.
E, enquanto seguia, cantava em voz alta uma melodia melancolica: "E quem desejaria morrer, ainda que a morte fosse sem dor?"
Avistou a orgulhosa Sevilha; mas a escuridao mandou que esperasse ate a aurora, quando desmontou diante do portao de um parente. Rapidos voaram os dias; e quando, enfim, soube a alegre verdade, que fora enganada, retornou feliz a Xerez.
E, enquanto seguia, cantava em voz alta uma melodia melancolica: "E quem desejaria morrer, ainda que a morte fosse sem dor?"
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o motivo de fuga noturna, o medo da falsa sentença de Gazul, os topônimos Xerez e Sevilha, o nome Albenzaide e o refrão sobre a morte sem dor.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 33
A Maldição de Zaida
E Zaida Cegri, desolada, a quem o cruel lance do destino, numa unica hora, pela lamina erguida, fizera de esposa viuva em pranto, curvava-se sobre o corpo de Albenzaide, vertendo lagrimas quentes, com alto choro. Brilhantes como o ouro da Arabia resplandeciam seus cabelos soltos; e enquanto, como se quisesse estancar o sangue, mantinha a mao sobre a ferida, fixou os olhos em Gazul, ainda atacado por seus inimigos.
"Foi furia cruel, nao amor ciumento, que moveu este ato perverso." Assim comecou, com voz tremula: "E eu rezarei a Deus para que tua violencia traicoeira tua vida covarde venha pagar. E que, no meio da jornada, descendo a bela cidade murada de Sidonia, possas, sozinho e sem retirada, encontrar o valente Garci-Perez; e que, espantado ante sua vista, percas todo o vigor de tua forca; que tuas redeas cedam entre dedos paralisados, e que nao encontres abrigo em teu escudo. Que ali a morte subita ou a vergonha do cativeiro apaguem todo o teu valor, salvo o nome. Tuas vestes guerreiras tu transformas em libré de escravo; tua cota de aco ja nao e couraca, nem arnes de homem bravo. Quando chegares a Sidonia, para encontrar tua amante, que suspeita imunda lhe vire o coracao do amor para odio mortal. Vai-te! Nao sigas mais o curso do amor sem fe e dos votos falsos. Permanecer fiel a alguem como tu seria apenas o mais negro perjurio. Nao temo, cao, tua espada poderosa; volta-te, traidor, volta e sai de minha vista, pois nasceste para mudar de intento e lancar toda lealdade ao vento. Ignobil e tua origem, pois amantes de nobre linhagem nao trazem coracoes rancorosos como o teu. E aqui rogo que Deus traga sua maldicao sobre tua alma; que na guerra, na paz e no amor encontres fracasso repugnante; e que a dama de Sanlucar, a quem desejas por noiva, da entrada de seu castelo te expulse em seu orgulho. Esposa viuva, de coracao sangrento, ouve-me um instante antes que nos separemos! Desconfio de teu servico cavaleiresco; ouço tua voz com profundo nojo."
Ferido no coracao por palavras tao duras, o mouro permaneceu dentro do palacio; dissesse o que dissesse, so encontrava sua palavra va desperdicada ao vento.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a cena de Zaida Cegri sobre o corpo de Albenzaide, a acusacao a Gazul, os nomes Garci-Perez, Sidonia e Sanlucar, e a intensidade de maldicao que conduz a fala.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 34
O Torneio de Zaide
Zaide prometera uma festa a todas as damas de Granada, pois, em sua ausencia, faltaram terrivelmente os jogos festivos; e, para cumprir a promessa que o nobre homem fizera, chamou os amigos para se unirem a ele em danca e serenata. Haveria divertimento de toda especie; os jovens, vestidos de branco, deveriam, sem que as damas soubessem, conduzir a camisada. E antes que o brilho da aurora pudesse tingir a encosta do vale, o mouro alegre ja saira, com os amigos ao lado. Reuniu em torno de si uma companhia, e formaram alegre cortejo: eram cinquenta fidalgos, dos nomes mais nobres da Espanha. Antes do amanhecer partiram para surpreender as damas e ver, com olhos abertos, tudo que os vestidos de neve ocultavam. Cingiram a fronte com guirlandas de pequenas flores doces e claras; numa mao cada um trazia uma cana, na outra, uma vela branca. E os clarins comecaram a soar, e a trombeta e a corneta mourisca; gritos, clamores e altas vivas desceram pela rua. Da direita para a esquerda o tumulto espalhou-se pela esplanada, e o invejoso Albaicin respondeu com mil ecos. Os cavalos assustados galopavam em meio aos gritos do povo; a cidade tremeu ate os alicerces com o tilintar de seus guizos. No meio da multidao uns correm, outros gritam; "Parem, parem!", dizem os velhos; entao todos se ordenam e avancam pelo caminho da Alcazaba. Outros seguem de Vavataubin para Alpujarra, pela rua dos Gomelas ou para a praca de Vivarrambla. Agora toda a cidade esta de pe, de muro a muro elevado; ondulam com gritos ou se juntam em torno da torre e do alto castelo. As damas mais delicadas e mais dadas ao sono despertam com o alarido e espiam das janelas. E ali se veem cabelos desalinhados presos por maos de lirio; colo de neve e peito descoberto aparecem diante do publico. E, no desalinho do sono e no receio ansioso, cada dama mourisca se surpreende com lagrimas repentinas. E muitos coracoes se encheram naquela noite de inquietacao febril, quando uma donzela alta olhou pelo vidro, de peito branco e arfante. Muitas mocas mouriscas foram vistas pelos foliões naquela noite, ora correndo em confusao, ora parando de susto; mas ninguem viu a bela Zaida, a nao ser pela vista da memoria. E Zaide, na escuridao, com Muza por guia, apressava-se pela cidade. Que multidao ia ao lado deles! Que barulho, que tumulto, que grito, que gracejo e brincadeira! Nao teria fim, se o sol nao houvesse trazido o dia. E entao os foliões principais reuniram outra vez suas fileiras, para encerrar a folia com uma palavra: "Para casa; acabou o jogo."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o carater festivo da camisada, os topônimos granadinos, Muza como guia, o contraste entre tumulto publico e ausencia de Zaida, e o fechamento brusco da festa ao amanhecer.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 35
A Queixa de Zaide
O bravo Zaide anda de um lado a outro, impaciente, pela rua onde sua dama, do balcão, costuma saudar seu cavaleiro, e aguarda ansioso a hora em que ela mostrara o rosto diante da gelosia aberta e falara com ele abaixo. O mouro esta cheio de furia desesperada, pois ve fugir a hora em que, dia apos dia, o raio deslumbrante do sol dourava aquela cabeca; e detem-se a remoer, em humor sombrio, pois por ela somente anseia. Que poderia acalmar o fogo do desejo feroz que lhe arde no peito? Enfim a ve mover-se com toda a graca de sempre; ve-a e apressa-se para o antigo lugar de encontro. Pois como a lua, quando a noite e escura e nuvens de tormenta voam, surge atras do bosque mal iluminado e clareia o ceu da meia-noite; ou como o sol, quando tempestades de nuvens negras dominam, emerge por um instante e mostra o rosto palido; assim Zaida, no balcão, ficou em beleza reluzente, e o cavaleiro por um momento a contemplou e conteve a colera. Zaide, debaixo do balcão, aproximou-se com o coracao tremulo; parou e, olhando para cima, falou a sua dama querida:
"Bela donzela mourisca, que tua vida, sempre guardada por Ala, te traga a plena fruicao daquilo que desejas; e se os criados de tua casa, os pajens de meu salão, mentiram sobre tua honra, que a perdicao caia sobre todos. Pois vêm a mim e murmuram baixo, sussurrando em meu ouvido que desejas renegar-me, teu fiel cavaleiro; e dizem que foste prometida a um mouro de riqueza e orgulho, que te levara para a casa do pai e te reclamara como esposa, pois veio cortejar-te das vastas terras de seu senhor; e dizem que sua cimitarra e afiada e seu coracao, chama de fogo. E se isso, bela Zaida, e verdade, ajoelho-me a teus pes, implorando que me digas a verdade e lances fora o engano; pois toda a cidade fala, ainda fala, de nosso amor, e as linguas da calunia se movem para tua culpa e meu escarnio."
A dama enrubesceu, inclinou a cabeca, e entao respondeu ao mouro:
"Querido coracao meu, de todos os meus amigos o mais certo amigo, chegou o tempo de nossa amizade ter fim breve. Se todos, de fato, conhecem essas noticias, como tu mesmo declaras, dize-me, por favor, quem em toda a cidade primeiro revelou esse segredo. Pois se a vida que agora levo continuar, morrerei. Ela e alegrada pelo amor, mas torturada por agonia sem esperança. So Deus sabe por que devo ser brinquedo de destino cruel. So Deus sabe quem e o homem que diz que sou falsa contigo. Bem sabes que Zaida te amou longa e fielmente, embora sua antiga linhagem, cavaleiro mouro, seja mais do que te cabe; e bem conheces as altas censuras de meu pai. Sabes como minha mae me amaldiçoa com maldicoes terriveis porque espero por ti de dia, e por ti espero a noite. Embora venhas de longe ao anoitecer, ainda assim te demoras. Dizem que, para calar a fala comum, ja e tempo de eu me casar e ser conduzida, em veu de noiva, por algum mouro afetuoso a sua casa. Ah, muitas sao as belas damas, altas e de rosto formoso, que ardem em Granada por ocupar meu lugar invejado. Olham-te com olhos amorosos e chamam da janela; e, Zaide, mereces bem a mais brilhante de todas, pois tu mesmo voltaste, e ainda voltarás, teus olhos amorosos para as donzelas mouriscas que ardem por teus abraços."
Entao, com rosto abatido, o mouro deu esta resposta, enquanto mil pensamentos de tristeza invadiam seu peito valoroso:
"Ah, pouco pensei", disse ele, "e pouco sabia que tu, minha linda Zaida, algum dia me tratarias assim; e pouco pensei que farias este ato cruel e, com teu coracao mutavel, farias sangrar assim o meu. E tudo isso por alguem indigno, um homem que nao poderia reclamar que lhe sacrificasses teu amor, tua vida, teu nome. E es tu aquela que ha muito tempo, quando a tarde velava o ceu, me disse com terno sorriso, do alto balcão: 'Zaide, sou tua, tua, tua ainda hei de ser, e tu, querido de minha alma, es para mim a propria vida'?"
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a cena do balcão, a acusacao de novo pretendente, a resposta ambigua de Zaida e a replica final de Zaide com a promessa antiga repetida.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 36
O Amor de Guhala
O mais bravo jovem que jamais conteve as redeas sobre a planicie florida de Granada, cavaleiro cortês, de coração gentil, perfeito na arte das justas; bem destro em guiar o corcel veloz e famoso por cada feito de guerra; e embora seu coração fosse de aço quando encontrava o inimigo na batalha, era cera diante dos olhos de sua dama e se derretia aos suspiros amorosos dela. Era como diamante claro entre os golpes de espada da peleja, e, na hora festiva da zambra, gracioso como a flor do verão. Ao falar, mostrava uma mente generosa, onde engenho e sabedoria se uniam; e, embora suas palavras nao despertassem inveja, pesava cada frase que dizia. E, contudo, azul era seu manto, tingido pelo violeta da tristeza; pois a bela Guhala, donzela mourisca, lançara seu encanto sobre o coração dele. Assim sua capa de açafrão trazia a cor que era emblema do desespero; no turbante e na borla repousavam as tintas que oferece um ceu de agosto; pois amor ansioso havia em sua mente, e o amor ansioso e sempre cego. Com mal uma palavra abandonou a dama que definhava por sua causa; pois, quando ele vestia traje de festa, a alma dela vestia o manto do luto. E agora seguia em viagem para Jaén, no dia da justa; e para Guhala, deixada sozinha, todo vestigio de prazer desaparecera. Embora a orgulhosa donzela de rosto sem par mil corações quisessem abraçar, ela amava apenas um, e depressa correu para dizer seu pensamento a Arbolan:
"O Arbolan, meu mouro, meu querido, decerto teu amor se tornou fraco! A menor desculpa pode fazer-te partir e rasgar com dor este coração ansioso. Ah, se ao menos me fosse concedido montar meu cavalo e seguir-te; como te espantarias entao ao ver a coragem do amor verdadeiro em mim, cujo pulso em ti bate tao debilmente."
Assim, ver Arbolan partir enche de tristeza o coração de Guhala. A donzela mourisca, enquanto ele seguia, jazia enferma em seu leito de luto. Suas aias mouriscas procuram saber o segredo desse golpe repentino; perguntam a causa que a prostra, tentam curar a triste doença cuja origem suas palavras fingidas escondem. E menos numerosos, em verdade, sao os vincos dobrados que o mouro traz no turbante do que os ardis que a mente de Guhala sabe encontrar em busca de segredo. Somente a Zara, que ela conhece como unica amiga num circulo de inimigos, irmã de seu amante leal, ela revelara a causa secreta. E buscando ocasião adequada para falar com verdade e lingua discreta, enquanto as lagrimas lhe saltam dos olhos, abre assim seu coração sangrento:
"O Zara, Zara, ate o fim seras minha amiga fiel. Quao cruel e a sorte que suporto: o perigo de teu irmão me faz temer! E por sua ausencia que eu choro; adoeço, esperando seu retorno!"
Tais foram as palavras de Guhala. A donzela aflita e perdida de amor nao encontrou mais força nem fala; mas, desfalecendo, caiu ao chão, pois a força do amor jamais teve arte para encher de vida um coração que definha.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o retrato cavaleiresco de Arbolan, a simbologia das cores, a partida para Jaén, a confissao de Guhala a Zara e o desfalecimento final.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 37
Azarco de Granada
Azarco deixou para tras o coracao quando partiu de Sevilha; e a graciosa Celindaja, como refem, firme o prendia. O coracao que seguiu com o mouro foi-lhe emprestado pela donzela; e, na partida cheia de lagrimas, "Guarda-o bem", disse ela.
"O luz de meus olhos perturbados, quando chegares ao combate, vestido em cota de dupla prova, como convem a cavaleiro galhardo, que o amor leal e a constancia sejam tua melhor malha, nas horas solitarias da ausencia, quando a fe ameaça falhar. As mouriscas que encontrares serao deslumbrantes em graca, de engenho sem par e coracao generoso, e belas de face. Essas, na danca, podem seduzir teu peito a nao pensar mais em mim; mas nenhuma jamais te adorara como eu, tua escrava, te adoro. Pois viver sozinha, sem ti, intocada pelo medo ciumento, e mais do que meu pobre coracao suporta, tao querido es para mim. Se algum dia, em saloes festivos, encontrares algum perigo para minha paz, Azarco, desvia o olhar e freia o capricho dos teus olhos. Pois e pelos olhos errantes que os inimigos da constancia se multiplicam. Que Ala e o profeta tornem teu caminho seguro e claro; e que um pensamento seja teu lá fora, e o de Celindaja fique aqui."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o motivo dos dois coracoes, a fala de Celindaja como conselho antes da guerra, a advertencia contra os olhos errantes e a invocacao a Ala e ao profeta.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 38
Azarco Repreendido
"Puxa as redeas, puxa as redeas um instante, e acalma teu cavalo apressado, que salta sob a espora furiosa que lhe faz sangrar o flanco. Aqui eu quero, desnorteada por minha dor, neste mesmo lugar, lembrar-te as horas felizes que tu, infiel, esqueceste. Quando, sobre teu corcel fogoso, descias por esta rua, e apenas junto a minha janela paravas para fitar meu rosto. Ao pensar em toda a tua crueldade, definho como escrava ferida; meu coracao queima desde que tocou esse teu peito gelado. Quantas promessas fizeste para ganhar-me como tua! Nossos juramentos foram mutuos; eu sou fiel, enquanto tu te tornaste traidor. Meus olhos ontem te estremeciam; hoje ja nada temes; pois o amor nao e igual dois dias em mil anos inteiros. Pensei que teu nome fosse para mim penhor da mais terna esperança; e que tu tambem tomarias por penhores verdadeiros meu beijo e meu suave carinho. Que foram tuas palavras ardentes senao iscas para cegar os olhos da vitima? Agora, a salvo da hora da traição, nao carrego rancor na mente. Mas melhor teria sido conhecer a verdade quando eu queria conhece-la, e escutei tuas palavras suplicantes e li teu voto escrito. Nao, nao me dês desculpas vazias, pois nenhuma delas te peço; fala verdade aquela que agora enganas: elas te servirao nessa tarefa. E, se aceitares meu conselho, esquece estes olhos, este coracao; esquece minha dor por teu descaso; esquece-me, e parte."
Assim ao mouro Azarco clamou a bela Zaida, e fechou a gelosia, tomada pela maré crescente da tristeza. Ele esporeou o cavalo e partiu, espalhando poeira atras de si, e amaldiçoou a estrela que fizera seu coracao inconstante como o vento.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a fala de acusacao de Zaida, a memoria da janela, a critica aos votos falsos e o fechamento com Azarco amaldiçoando sua propria inconstancia.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 39
A Despedida de Adelifa
A bela Adelifa arrancava os cabelos, e suas faces estavam sulcadas de cuidado, quando viu o bravo Azarco subir a borda da alta galera. Lançou poeira sobre a cabeça, torceu as mãos de lirio e derramou lagrimas ardentes, maldizendo o dia amargo que levava embora o deleite de seu coração.
"Tu, que es o capitão de minha gloria, e general de meu coração sangrento, guardião de todo pensamento que conheço, e companheiro de minha sorte de dor; luz que ilumina meu rosto feliz, ventura da morada de minha alma; por que precisas desaparecer de mim, espelho em que a mim mesma vejo? Azarco, faze-me entender o que ordenas que eu faça: devo ficar e esperar por ti? Ah, tediosa sera essa espera. Tu partes para a guerra, mas temo que outra guerra te aguarde aqui. Pensas que em algum ninho campestre me poras segura em repouso. Ah, se minha ausencia te causar dor, que meu amor te acompanhe naquela planicie. A força sozinha de teus braços valentes te dara vitoria na luta. Minha fidelidade, Azarco, e teu escudo; ela te protegera no campo. Hás de voltar com a vitoria, pois a vitoria embarca contigo. Mas diras, querido Azarco, que e preciso temer a leveza das mulheres. Como entre soldados armados, assim veras: cada mulher tem uma mente diversa. E ninguem jamais, sem ti, me vera em dança ou folguedo; nem irei aos concertos, mas ficarei em solidao em casa. As mouriscas nunca dirao que me visto em trajes de festa; seria vao embelezar o corpo cuja alma esta no mar com a tua."
Com isso, Celinda apareceu, irma de Bahata, alta e radiante; isso trouxe ao fim sua despedida, mas nao seu pensamento escuro e ansioso.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o embarque de Azarco, o luto gestual de Adelifa, a promessa de recolhimento durante a ausencia e a interrupcao final com a chegada de Celinda.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 40
A Despedida de Azarco
"Agora selai-me o tordilho prateado, o corcel de nobre raça, e dai-me o escudo de Fez, e ajustai minha forte couraça; dai-me uma lança de duas pontas, de tempera fina e certeira; e, com o elmo de aço rijo, aquele meu gorro purpura. Suas plumas unem o tom do açafrão a crista branca da garça, e um longo ramo de cinza tremulante. Dai-mo, pois, antes que eu parta, e vestirei o capuz azul que a formosa filha de Celin, minha Adelifa, mais amada, um dia me deu para usar. Trazei tambem o broquel quadrado de metal, que ramos circulares entrelaçam com louros, em cujas folhas de ouro brilham esmeraldas reunidas. Adônis, apressando-se para a caça, foge de sua amada celeste; os javalis da montanha fogem diante dele, e 'Morre' diz o mote."
Assim falou o mouro Azarco, quando a guerra comecava, ao robusto Almoralife, de Baza, filho de Zelma. Almoralife, bravo e sabio, muitos menestreis cantam, cavaleiro que em Granada era contado entre seus reis. E quando trouxeram o broquel de ouro, ele soltou mil suspiros por bravo Adônis e seu destino, morto pelo javali selvagem.
"O Adelifa, alma minha, alegra-te e nao murmures; ate o fim conserva alegria, quando os vermes forem teu destino. Meu dia de vida deve ser curto, tua firmeza deve ser longa; embora sejas mulher, diferente de teu sexo, sê forte. Nao sejas como Vênus, embora em forma sejas de fato sua igual, pois ela esqueceu na ausencia e levou seu amado a morte. E quando estiveres sozinha, em meu rosto e semelhança fixa os olhos; nao admitas ninguem que me ofenda e surpreenda teu coracao suave. Entre tristeza e queixume, o amor segue seu caminho mutavel; muitas vezes torna triste o alegre, e alegre o triste. Entao, observa, amor, observa em meu retrato o apelo mudo dos olhos abertos; pois esta pintura encantada pode falar, respirar e sentir. Pensa em como esses olhos derramam muitas lagrimas quando anseiam por teu rosto; e deixa que essas lagrimas conquistem tua paciencia para esperar meu retorno."
Nesse momento Galvano veio dizer que o navio e o vento favoravel o aguardavam, e que todo o seu exercito estava ansioso por zarpar. O mouro partiu para a vitoria; nao era escravo do prazer. Seu coracao galhardo estava sempre pronto a cumprir a promessa que fizera.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a enumeração das armas, o emblema de Adônis, os nomes Almoralife, Baza, Zelma e Galvano, e a fala de Azarco a Adelifa sobre firmeza, retrato e espera.