Baladas Mouriscas III
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 41
A Cortesia de Celinda
Azarco, em seu balcão, estava com o humilde Cegri. Ele falava, e Cegri escutava em humor triste e desatento; pois Azarco lia os proprios feitos, escritos em pergaminho aberto, mas o invejoso Cegri ouvia o relato com ira e amargo tormento. E, pela porta de Elvira, onde se abre uma vista larga e livre, notou como Febo lançava seus raios sobre o mar espanhol; e, baixando os olhos para a terra, para ver como a cena do verao mudara de cor, do verde radiante para o negro, viu que, pela porta, passava uma luz que nao era do dia, cujo esplendor, como nuvem deslumbrante, eclipsava os raios do sol. Aquela presenca mudou a cor da terra, retirou o veu sombrio, e transformou em vivo verdor a folhagem do vale.
"Ate agora", disse Azarco, "a cena encheu meu coracao de dor; mas ela se refresca com o rosto de Celinda, ou a paixao me transtorna a mente. Ah, com razao os homens louvam sua beleza, pois seu poder transcendente eleva o espirito humano e o enche de deleite."
E, ao vê-la entrar, o mouro tirou o barrete, inclinou-se para honrá-la e falou em acentos suaves. Celinda fez uma cortesia ate o chao; tal favor nao era pequeno. Sua saudacao bondosa satisfez as ternas esperanças do cavaleiro. E alegre e sombrio, alternadamente, por sucesso tao rapido, conteve mil palavras de amor que poderiam expressar sua alegria.
E, seguindo-a com olhos ansiosos: "Muito te devo", disse ele, "tu que recompensas com tal dom minha simples cortesia. Esse favor, embora imerecido, doce dama, permanecera contado entre aqueles dons escolhidos que nenhuma conta pode medir. Sua memoria bastara para afugentar as dores que moem o cuidado; e, suavizando-os, transformara os males da vida em raro premio de gloria."
Com isso, Celinda despediu-se e desapareceu de sua vista; e, pensando orgulhosamente em seu sorriso, Azarco logo se retirou.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a cena do balcão, Cegri como ouvinte invejoso, a Porta de Elvira, a imagem luminosa da entrada de Celinda e a cortesia que Azarco interpreta como favor precioso.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 42
A Desolação de Gazul
A menos de meia legua de Gelva, o cavaleiro estava desmontado, apoiado em sua lança erguida, e amargo era seu humor. Pensava na maldição de Celinda e na mente voluvel de Zaida: "Ah, Fortuna", clamou, "para mim sempre foste ingrata." E de seu peito valente rompeu uma tempestade de suspiros irados, enquanto atos e palavras de angustia lhe subiam a memoria.
"A perda de Celinda conto por nada, nem temo sua vontade perversa; seria tolo, assim amaldiçoado por ela, se ainda amasse tal dama."
Em furia, enquanto falava, arrancou da terra a ponta da lança, e contra um carvalho nodoso a estilhaçou em tres pedaços. Arrancou os arreios que pendiam sob a sela, rasgou o favor de sua dama como com presas de leao: a fita de seda, brilhante de ouro, que trazia na crista, atada ali pela amada Celinda, agora por ele amada nunca mais. E, quando a colera se fez loucura, tirou do peito o retrato dela; cuspiu sobre ele e dirigiu zombarias aquele rosto.
"Por que me vestiria em roupas de alegria, se meu coracao esta ferido, por maldições que tao mal pagam o amor obediente que levei? Despido como estou de toda esperança, melhor e seguir nu, pois o manto negro de minha alma e apenas cuidado que me atormenta. Vingo-me daquele carvalho, furado pelo aço de minha lança: deliro, pois, ah, as arvores que firo nao sentem como mulheres."
Tirou o freio de seu cavalo.
"Vaga como quiseres", disse ele. "Assim como dei liberdade a Zaida, dou liberdade a ti."
O cavalo veloz galopou e desapareceu de vista; em humor melancolico, o cavaleiro, sem montaria e sem elmo, seguiu sozinho pelo caminho solitario.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a cena perto de Gelva, a lembrança de Celinda e Zaida, a quebra da lança, a destruição do favor e do retrato, e a libertação simbólica do cavalo.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 43
Gazul Apaixonado
Nao conquistou Marte maior parte de trofeus e renome do que o grande Gazul levou consigo da cidade murada de Gelva; e quando chegou a Sanlucar, sua dama o recebeu, e a taça de sua felicidade, enfim, transbordou ate a borda. Sozinhos, os amantes felizes ficaram numa clareira de jardim; entre as flores, aquelas horas venturosas fugiram para a sombra da tarde. Com dedos habeis, Celinda teceu uma grinalda, onde pôs as petalas rubras da rosa e o reseda perfumado. Trançou-lhe um boldrie, rodeado de violetas, pois violetas sao para amantes, e com ele lhe cingiu a cintura. Depois amarrou-lhe na cabeça a guirlanda florida.
"Teu rosto e delicado e belo como o de Ganimedes", disse ela; "e se o grande Jove te visse agora, mandaria sua aguia descer para levar-te aos saloes palacianos que coroam o alto Olimpo."
O bravo Gazul tomou sua dama e beijou-a com um sorriso.
"Nao poderia ser tao bela", disse ele, "a jovem que, por seu engano, trouxe ruina ao reino troiano e incendiou suas torres, como tu es, senhora de meu coração e rainha de meu desejo."
"Se, de fato, pareço bela a teus olhos, que o rito nupcial una para sempre a mim e ao esposo de meu coração."
"Ah, meu sera o ganho", disse ele, e beijou-a com deleite.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a cena no jardim, as flores da grinalda, as referências a Marte, Ganimedes, Jove, Olimpo e Troia, e a promessa final de união nupcial.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 44
A Inconstância de Celinda
Gazul, como bravo touro que se firma para enfrentar o destino, fugiu da fronte cerrada da bela Celinda e chegou ao portao de Sanlucar. O mouro monta uma egua alazã; cinzentos sao seus arreios. O mouro desesperado veste trajes que mostram sua dor. O branco e o verde que outrora usava cedem lugar a dobras sombrias; os tons purpura do amor sao agora trocados por tristeza e luto. Seu manto mourisco e branco e azul; o azul era semeado de estrelas, mas agora uma cobertura como nuvem mancha o brilho estrelado. Da cabeça lhe descem fitas de seda riscadas de negro, e seu barrete azul ele torna a tingir em cores de dor e aflicao. So se veem tons de verde estendidos sobre o cinto da espada, pois por aquela lamina o sangue dos inimigos sera derramado em vinganca. A cor do manto que trazia no braço e como a poeira da arena escura quando se encharca de sangue. Negros como as botas que calca, negro o ferro de seu estribo, e vermelhas de ferrugem antiga as rosetas em seus calcanhares. Nao leva lança nem chuço de ponta, pois aquele que outrora portava foi quebrado em estilhaços diante da porta de Celinda. Traz uma adarga redonda, cujos quartéis mostram a lua cheia lançando pelas nuvens seu raio ineficaz. Pois embora cheio esteja seu disco, as nuvens eclipsam a luz de prata; e o mote diz: "Bela, mas cruel; de negro coracao, embora tao brilhante." E como Celinda arrancara as asas que, em brava aventura, sustentavam seu voo, nenhuma pluma mais ondula sobre seu elmo. Era meio-dia de uma quarta-feira quando Gazul chegou ao portal de Gelva, e foi direto a praca do mercado para entrar no jogo de justa. O governador da cidade olhou-o com espanto, e nenhuma dama reconheceu o cavaleiro, tao escuro era seu disfarce. Como se fossem brandos como cera, ele atravessou os alvos com dardos de cana oca crescida na vega. Ninguem podia resistir ao mouro; os justadores viraram e fugiram, pois por seus feitos se revelou o nome temido do guerreiro. As liças estavam em confusao, mas calma havia em sua fronte quando, erguendo os olhos ao ceu, respirou um voto desesperado:
"Quisera Deus que a maldicao de Celinda se houvesse cumprido! E que as lanças de meu agressor tivessem varado meu peito! E que as damas que tiveram pena de mim me houvessem amaldiçoado onde estou! E que, tombando bravamente, eu me tornasse heroi da terra! Que socorro nenhum me viesse, pois isso seria alto arrebatamento para ela, a leoa irada que roga por minha morte!"
Falou, esporeou o corcel veloz e partiu para a planicie, jurando, diante dos olhos de Celinda, que jamais voltaria.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a transformação visual do traje de Gazul, o mote da lua eclipsada, a chegada a Gelva, o torneio com dardos de cana e o voto desesperado diante da lembrança de Celinda.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 45
A Tourada
Mal terminara a zambra, e ja o rei de Granada, Abdeli, chamava sua corte para sentar-se no circulo de Vivarrambla; de nobre linhagem eram a noiva e o noivo cujas nupcias preparavam a luta entre cavaleiros valentes e touros dentro da praca. E, quando na arena o poderoso touro foi solto, direto ao combate mortal um guerreiro esporeou seu corcel. Seu manto era de esmeralda, de tecido adamascado, e esperança havia em seu capuz dobrado como em seu manto verde. Seis escudeiros foram com ele ao circulo, para ficar ao lado do senhor; brilhante verde era sua libré, assim ordenara o amo. Esperança era o augurio de seu amor; a libré da esperança ele vestia, mas ao lado cada escudeiro seu trazia um florete cortante. Cada florete fiel era negro de cor e embainhado em prata; logo o povo reconheceu o cavaleiro por seu porte audacioso: Gazul, o bravo, foi reconhecido assim que o viram. Com dignidade graciosa tomou seu posto sobre a areia, e, como um segundo Marte, empunhou o florete na mao. Com coragem firme fitou o touro, que escarvava o chao ate a poeira da arena misturar-se ao ceu. Todos se aterrorizaram a vista; e entao, com velocidade mortal, os chifres agudos como pontas de aço, ele avança contra o cavalo. O bravo Gazul estava atento para aparar o golpe ameaçador, salvar seu corcel e, com um so golpe, abater o atacante. O touro valente, de cabeça baixa, avançando para a luta, sentiu de mao habil a lamina temperada penetrar-lhe a propria vida. Profundamente ferido, no chao sangrento onde firme estivera, o guerreiro chifrudo tombou enfim, banhado no sangue do coracao. Ainda assim, sobre seu leito rubro jazia, a coragem enfim apagada. Diante de tal feito, os aplausos da assembleia encheram o ar; saudaram o cavaleiro cuja bravura e destreza haviam feito aquilo, matado o heroi do circo e salvado seu belo corcel, e dado tanto prazer ao rei, e a bela Celinda, a rainha da Espanha e a todo o seu cortejo ali reunido.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive o contexto cerimonial da zambra e das nupcias, Abdeli e Vivarrambla, o verde de esperança de Gazul, os seis escudeiros e o desfecho do touro na arena.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 46
Amantes Reconciliados
Tao logo Celinda, em furia, fechou depressa sua gelosia e desprezou o mouro ingrato por seus serviços passados, sua paixao, ao refletir, mudou-se e terminou em arrependimento; ela ansiava ver de novo o mouro e fazer-lhe reparacao. Pois na danca do amor feminino percorrem todos os estados, e os coracoes mais verdadeiros sao os mais dados a mudar. E quando viu o cavaleiro galhardo, diante de todo o povo, quebrar a lança em estilhaços contra o muro de seu palacio, e quando viu seu manto verde trocado por cinza de luto, tomou logo o manto com alegres botoes de prata. Tomou o capuz purpura entrançado de brocado de ouro, cujas franjas e bordas eram todas ornadas de perolas. Trouxe um gorro coberto de safiras e esmeraldas: o verde era sinal de esperança; o azul, de rancor ciumento morto. Com plumas ondulantes de verde e branco enfeitou um capuz de neve, e armou com duas pontas de aço uma lança de madeira de laranjeira, pois as cores do homem exterior indicam o humor interior. Tambem pôs uma borda verde brilhante em torno de uma adarga, e este era o mote: "E loucura esquecer um amante verdadeiro." Primeiro soube onde o ousado Gazul era hospedado naquele dia, e contaram-lhe como sua chegada havia adiado o jogo dos justadores. Em sua casa de recreio mandou que ele a encontrasse face a face; e disseram-lhe como Celinda ansiava por seu amado abraço. Tres vezes perguntou ao mensageiro se tudo nao era brincadeira, pois muitas vezes e perigoso crer na noticia que mais desejamos; as esperanças dos amantes sao, muitas vezes, espinhos de rancor e inquietacao. Disseram-lhe que as palavras eram verdadeiras; e, sem mais fala, ele partiu para alcançar a gloria dos olhos de sua dama. Encontrou-a num jardim onde a doce manjerona se misturava as violetas azuis, num perfume que arrebatava todos os ventos. O almíscar e o jasmim se uniam em folha, ramo e flor, erguendo em torno dos amantes um fresco caramanchao perfumado. A folha branca combinava com sua pele de lirio; a vermelha, com o peito pulsante dele. Pois ela era a rainha sem mancha da beleza; ele, a imagem do valor. Quando o mouro se aproximou dela, mal ergueu os olhos, aturdido pela expectativa que ela levantara tao alto. Celinda, com rubor tremulo, saiu e tomou-lhe a mao; falaram de amor como viajantes perdidos em terra estrangeira.
Entao disse o mouro: "Por que me concedes agora trilhar os caminhos mais doces do amor, eu que em tua ausencia vivo apenas das lembranças de teu rosto? Se falasses de Xerez", disse ele, com olhos acesos, "toma agora minha lança: como o esposo de Zaida, deixa-me morrer neste instante. E que um dia eu te encontre repousando nos braços de um rival, e que ele, por todas as tuas artes de amor, seja ternamente acariciado, a menos que o mouro cuja calunia me tornou odioso aos teus olhos tenha abusado de teu ouvido com fraude covarde e traicao."
A dama sorriu; leve estava seu coracao, e sentiu novo arrebatamento. E, como cada flor que enchia o caramanchao, cresceu o amor entre eles, pois pouco basta para reviver o amor que e verdadeiro. Ajudado pela mao de sua dama, apressa-se em vestir as joias; e sobre o dorso de seu corcel lança rico jaez, uma testeira de tecido purpura, toda cravejada de ouro, e plumas purpuras, fitas e gemas de preço incalculavel. Apertou a dama contra o coracao, sussurrou palavras de alento, e entao montou para Gelva, a fim de unir-se ali as justas.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a reconciliação após a ruptura, a simbologia das cores verde/azul, o mote da adarga, o jardim perfumado e a partida final de Gazul para Gelva.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 47
Chamado às Armas
Quando o sol mergulhava no oceano, em miríades de belas cores, e joias de mil tons tingiam as nuvens do ar, o bravo Gazul, em Acala, com toda a sua hoste, conteve as rédeas: eram quatrocentos nobres, os corações mais firmes da Espanha. E mal chegara à cidade quando a ordem foi dada:
"Agora fazei soar vossos tiros e bestas até a abóbada do céu! Que tambores de guerra, trombetas e clarins misturem seu clamor; Zulema, rei de Túnis, agora desembarca na costa da Espanha, e com ele cavalgam, em armas aliadas, Marbello e seu séquito."
E embora entrasse à noite sem tocha nem lâmpada, a gloriosa Celinda era o sol sobre seu caminho. E quando entra na cidade, logo se dá novamente a palavra:
"Agora fazei soar vossos tiros e bestas até a abóbada do céu! Que tambores de guerra, trombetas e clarins misturem seu clamor; Zulema, rei de Túnis, agora desembarca na costa da Espanha, e com ele cavalgam, em armas aliadas, Marbello e seu séquito."
Gazul desmontou do cavalo e apressou-se até sua noiva; ela estava sentada, triste e sozinha, e ao vê-lo suspirou. Ele lançou os braços em torno da moça; ela recuou de seu abraço, e, enquanto ele a fitava espantado, escondeu o rosto ruborizado.
Ele disse: "E possível que te esquives de meu abraço?"
Antes que ela respondesse, uma só voz rasgou o ar ao redor:
"Agora fazei soar vossos tiros e bestas até a abóbada do céu! Que tambores de guerra, trombetas e clarins misturem seu clamor; Zulema, rei de Túnis, agora desembarca na costa da Espanha, e com ele cavalgam, em armas aliadas, Marbello e seu séquito."
"Ah, traidor", respondeu ela, "quatro meses estiveste longe, e em vão esperei, dia após dia, alguma notícia tua."
E humildemente respondeu o mouro: "Mereço eu a culpa? Quem deixa a lança para tomar a pena pratica ato vergonhoso."
Caíram nos braços um do outro no instante em que se deu a ordem:
"Agora fazei soar vossos tiros e bestas até a abóbada do céu! Que tambores de guerra, trombetas e clarins misturem seu clamor; Zulema, rei de Túnis, agora desembarca na costa da Espanha, e com ele cavalgam, em armas aliadas, Marbello e seu séquito."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive a abertura ao pôr do sol, Acala, os quatrocentos nobres, o refrão militar sobre Zulema de Túnis e Marbello, e o contraste entre reconciliação íntima e chamado urgente às armas.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 48
Gazul Caluniado
Gazul, desesperado, sai da alta porta de Villalba, maldizendo a fortuna cruel que o deixara desolado. Imovel, vira em Granada que lutas entre inimigos os grandes Abencerrajes e os Andallas levantavam. Nao invejava os mouros que estavam em favor junto ao rei; nao cobiçava as honras que posto e dignidade trazem. So lhe importava que Zaida, com o coracao suave desviado por palavras mentirosas de calunia, houvesse lançado fora seu amor. E, pensando em seu belo rosto, em seu porte altivo e nobre, o peito do mouro valente ergueu um suspiro de dor.
"E quem me trouxe este desprezo, quem traiu minha esperança, e a ti, bela Zaida, tornou falsa a teu proposito? E quem fez meus despojos de guerra, a palma e a folha de louro, murcharem sobre minha fronte, curvada sob o peso da tristeza? Foram alguns coracoes de negra traição que cruzaram teu caminho com mentiras e te mudaram em leoa acuada por caçadores. O linguas de maldição! O caluniadores de minha fama! Ladroes de minha honra cavaleiresca, nada ajuntais senao vergonha. Nao sois mais que cidadelas de fraude e castelos de engano; quando dais vossa sentença, pisais a lei sob os pes. Que Ala faça descer sobre vossas tramas crueis a ira divina, para que sintais meus sofrimentos na mesma desventura que a minha. E que aprendais, impiedosos, quao pesada e a vara que traz sobre a crueldade humana o castigo de Deus. Vos que professais, em palavra e ato, seguir a senda da verdade, sois mais vis que os lobos noturnos que devastam o redil tranquilo."
Assim seguiu cavalgando aquele cavaleiro mouro, consumido pela chama da paixao, desprezado e repelido por Zaida, a bela dama mourisca. Entao falou as ondas dançantes da corrente sagrada do Tejo:
"Ah, se tivesses lingua para contar minha historia por toda parte! Para que todos soubessem, os que te contemplam a tarde, a noite ou pela manha, rumando para o oeste, até o feliz Portugal, os sofrimentos que suportei."
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive Villalba, Abencerrajes, Andallas, Zaida e o Tejo, bem como o lamento de Gazul contra a calunia, a honra roubada e as linguas falsas.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 49
O Desespero de Gazul
Na vasta praça de Sanlucar foi visto o bravo Gazul, adornado em brilhante aparato de purpura, branco e verde. O mouro partia para a justa que tantos guerreiros levava a Gelva, para ali celebrar a tregua entre os reis. Amava uma bela donzela mourisca, filha dos bravos que lutaram no cerco de Granada; Granada foi seu tumulo. Ansioso por falar a moça, vagava pela praça; com olhos penetrantes, espreitava as muralhas que guardavam a bela. E por uma hora, que pareceu anos, esperou ali, impaciente; mas quando viu a dama subir ao seu balcão, pensou que a longa hora da espera aquela visão tornara breve. Descendo de seu paciente cavalo, diante de sua chama, caiu de joelhos e beijou o pavimento em nome dela. Com voz tremula, falou-lhe:
"Nao posso, nao posso encontrar, em justa onde tu estejas perto, desastre e derrota. Outrora eu vivia sem coração, sem parentes nem linhagem; mas tudo isso e meu, se tu tens algum pensamento por mim. Da-me algum sinal; se nao para que reconheças teu cavaleiro, ao menos para adorná-lo, dar-lhe força e socorro no combate."
Celinda ouviu em duvida ciumenta, pois alguns, com arte invejosa, haviam-lhe dito que a bela Zaida ainda reinava sobre o coração do guerreiro. Respondeu-lhe em furia tempestuosa:
"Se na justa entrares com o sucesso que desejo, e que todos os teus juramentos quebrados pedem, nao alcançarás a praça de Sanlucar tao orgulhoso como quando la estiveste pela ultima vez. Mas ali encontrarás, desconsolado, olhos brilhantes de amor e escuros de odio. Conceda Deus que, na justa mortal, os inimigos que despertaste lancem contra ti o dardo que nao se apara e te atravessem, mentiroso, o coração. Que teu cadaver, envolto no manto, seja arrastado por cavalos pelo chao. Vens buscar vingança, mas pouca vingança teras. Teus amigos nao te darao auxilio; teus inimigos te pisarao no campo. Pois tu, matador de mulheres, entao receberas dos homens teu destino final. As donzelas que enganaste nao sentirao dor de luto; seu auxilio foi maldicao, tua morte sera seu alivio."
O mouro era verdadeiro em coração e alma; pensou que ela falasse em gracejo. Ergueu-se nos estribos: queria apertar-lhe a mao.
"Senhora", disse ele, "lembra bem aquele mouro de proposito feroz e sombrio sobre quem exerci minha vingança; sentiste a maldicao que agora pronuncias. E quanto a Zaida, arrependo-me de ter gasto nela meu amor. Desdem por ela e amor por ti governam juntos minha alma. A chama em que por ela ardi a crueldade dela converteu em gelo. Tres anos malditos, para ganhar seu sorriso, em feitos cavaleirescos trabalhei; e nada alem de sua traição me trouxe meu fiel serviço. Ela me rejeitou sem remorso, porque pobre era minha sorte, e deu, porque o miseravel era rico, seu favor a outro mouro."
Celinda, ao ouvir estas palavras, fechou impaciente a gelosia; e aos olhos ardentes do amante pareceu que o ceu se apagava em noite. Um pajem veio subindo a rua a cavalo, trazendo ao cavaleiro seus ligeiros ginetes, com plumas e arreios todos ornados, bem selados com ricas coberturas. A lança que trouxera ao entrar o cavaleiro brandiu com alma ferida e arremessou contra a muralha: ponta e haste, diante daquela porta orgulhosa, em miríades de fragmentos caíram. Mandou que mudassem de verde para cinza as plumas e arreios daquele dia de todos os corceis de seu cortejo. Em furia desconsolada, partiu de Gelva e nao puxou as redeas ate chegar ao portao de Sanlucar.
Nota editorial. Revisao poetica a partir do texto publico de Project Gutenberg. Mantive Sanlucar, Gelva, Celinda e Zaida, a maldicao da dama, a defesa de Gazul, o fechamento da gelosia e a quebra da lança diante da porta.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 50
A Vinganca de Gazul
Nem Rodamonte, o africano, senhor de Argel altivo, rei da costa meridional de Zarza em seu dominio, sentiu furor tao terrivel quando por Doralice amada travou combate com Mandricardo, em luta dura e cerrada, como o que ardia no peito do ousado Gazul, naquele dia, quando, alem da guarda de Sidonia, saiu armado, em galhardia, disposto a cometer um feito que mortal nenhum ousaria.
Por isso mandou que lhe trouxessem o cavalo berbere e a cota de malha; da espada, em bainha escura, pendia a sombra junto ao flanco. Em Fez, um cativo cristao a forjara em longo labor, servo do rei, mestre em armas de fino tempero e vigor. Mais preciosa era a Gazul que todos os reinos de seu senhor.
Vestia, sob as armas, um alquizel de tom tostado; e, para ocultar os pensamentos de sangue, nao levava alta lanca ao lado. Partiu depressa para Jerez, e, na pressa de sua jornada, pisou a veiga em toda parte com a ferradura disparada. Logo cruzou o vau sonoro das aguas do Guadalete, perto do antigo porto que ao vale ainda promete um nome famoso ao vao antigo, que as aguas conservam ate hoje: Santa Maria foi chamado, desde que os cristaos venceram a Espanha.
Cruzado o rio, feriu o cavalo, pois temia chegar ao portao de Jerez em hora imprudente, cedo ou tarde sem razao. Pois Zaida, sua propria Zaida, desprezara o amante leal, casando-se com rico mouro, senhor de Sevilha, principal; sobrinho de um castelao, principe mouro de poder, que em Sevilha era senescal de castelo e torre a reger.
Por esse enlace maldito perdera o tesouro da vida; o mouro ganhara o tesouro, e agora pagaria a medida. A segunda hora da noite soara quando, no corcel valoroso, passou pelo portao de Jerez, resoluto em feito perigoso. E eis que a morada de Zaida chegou com semblante sereno, meditando vinganca sangrenta contra aquele lar de veneno.
Pois havia de passar o portal e derrubar o noivo no chao; mas antes devia cruzar o patio largo para alcancar seu inimigo entao. E devia atravessar a multidao que no patio se apinhava, iluminando o palacio do mouro com tochas que cada mao levava. No meio, Zaida saiu, com o amante ao seu lado; ele viera entre padrinhos para toma-la por noivado.
E o bravo Gazul sentiu o peito saltar de furia ante a visao; ira de leao tinha na alma, no semblante a noite em carvao. Mas conteve entao a raiva e, manso sobre o cavalo, aproximou-se com sorriso cortes, para que ninguem pudesse impedi-lo. E quando chegou ao cortejo, onde todos estavam reunidos, sobre o punho da espada possante de subito pousou os dedos.
E em voz que todos ouviram: "Mouro vil, covarde e baixo, a doce, a formosa Zaida jamais sera tua esposa. E nao me chames traidor: desafio-te frente a frente; poe a mao sobre a cimitarra, se tens coracao valente."
E com tais palavras desferiu um golpe, golpe cruel e certeiro; alcancou o mouro no peito, traspassando-o por inteiro. Caiu o desventurado; aquele golpe o deixara entre os mortos. "Que morra agora por seus atos", disseram todos, em torno. Gazul defendeu-se com bravura, e ninguem lhe conteve a saida; cravou as esporas no cavalo e desapareceu na noite.
Nota editorial: revisao poetica da peca "Vengeance of Gazul", preservando o eixo narrativo da vinganca contra o noivo de Zaida, a referencia cavaleiresca inicial a Rodamonte e Mandricardo, a travessia do Guadalete e a cena publica do golpe no patio.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 51
Gazul e Albenzaide
"Ainda que saibas lancar a lanca como quem arremessa um junco, nao fales de coragem, pois teus crimes mancham a honra de tua casa. Nao procures a festa nem a danca, queridas de toda dama moura; o nome de valor nao te pertence: teu nome e o de um covarde.
Depoe tambem o manto belo, o veu e a gabardina; nao te gabes mais de ouro e pedras, pois desonraste tua linhagem. Vejas, porem, tuas armas: sao simples, pobres, bem talhadas; e nelas quem perdeu o nome pode ainda reconquista-lo.
E tu, Albenzaide, guarda teus desejos proporcionais ao teu estado; pois muitas vezes de vontades soltas nascem esperancas tresloucadas. Foge de teus pensamentos: tem asas, e a ambicao ligeira os ergue a altitudes vazias, onde o intento se desvia, muda e se perde.
Nao te lances ao mar de onde sopram as brisas, ora com brusco desprezo, ora com brandas lisonjas. Pois a liberdade, uma vez perdida, dificilmente se recupera; e mais dificil ainda quando a perda cai sobre mao e coracao sem culpa."
Assim falou Gazul, senhor mouro de fama clara e honra brilhante; mas, como a um mendigo covarde, a bela Zaida desprezou o amante.
Nota editorial: revisao poetica da peca "Gazul and Albenzaide", preservando o tom de admoestacao moral, o contraste entre bravura aparente e honra perdida, e o fechamento amargo com o desprezo de Zaida por Gazul.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 52
As Armas de Gazul
"Lustra-me agora a cota de malha, sem demora, meu pajem; pois, se o fogo da dor me consome, tua pressa sera uma idade. E tira do meu barrete as verdes plumas do orgulho, que Azarco outrora me dera quando tomou sua noiva.
Poe em seu lugar penas negras, e escreve nelas este mote: 'Pesado como chumbo esta agora seu peito, oprimido por cuidado de chumbo.' Retira tambem os diamantes, e, onde brilhavam, engasta gemas negras, para que todos saibam o feito que me fere.
Pois, se tirares tais pedras, isso anunciara a todos a sorte escura e funesta que sobre mim caiu. Da-me botas simples, sem fulgor algum de joias; pois aquele a quem o mundo foi falso deve caminhar de luto.
Da-me tambem a lanca de guerra, de ponta duplamente acerada, que pelo sangue dos cristaos foi temperada em campo aberto. Bem quero que minha boa lamina volte a brilhar, polida, se eu puder partir em dois o corpo de meu inimigo.
E pendura em meu boldrie a melhor de minhas dez espadas; negra como a meia-noite e a bainha, e com todo o resto se ajusta. Traze-me o cavalo que o escravo cristao me deu em troca do pai, em Jaen; nenhum outro resgate exigi dele jamais.
E ainda que nao esteja ferrado, apressa-te e traze-o aqui; pois, se temo traicao nos homens, das bestas nao temo traição. As correias ricas de esmalte ordeno que ponhas de lado; e prende as rosetas ao meu calcanhar com tiras de couro escuro."
Assim falou em alta voz o bravo Gazul, numa sombria noite de terca-feira; sombria era a vespera, enquanto se armava para a vitoria na peleja. Pois naquele dia chegara a noticia de que sua bela moura desposara seu inimigo mais amargo, o odiado Albenzaide.
O mouro era rico e poderoso, mas de linhagem nao muito alta; sua riqueza pesou mais, diante de uma moça leve, que tres anos de constancia. Ferido no coracao ao ouvir tal nova, Gazul ficou vestido em armas; e nao e estranho que, desarmado pelo amor, contra o amor sacasse a espada.
E Venus, no horizonte, mostrara seu primeiro raio, quando ele deixou Sidonia e tomou, direto, o caminho de Jerez.
Nota editorial: revisao poetica da peca "Gazul's Arms", preservando a preparacao ritual de luto, a troca dos ornamentos verdes por sinais negros, a convocacao das armas e do cavalo, e a motivacao final: o casamento de Zaida com Albenzaide.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 53
O Torneio
As temporas lhe brilhavam com despojos e grinaldas de amor, quando o forte Gazul chegou a Gelvas para provar sua destreza de justador. Montava uma fogosa egua malhada, que varria a planicie como o vento; e, no entanto, todo seu impeto cabia sob freio leve e atento.
A libré de seus pajens era purpura, verde e vermelho vivo, cores alegres como a primavera que em seu peito havia florido. Todos traziam lancas cinza-pardas, todos montavam ginetes ligeiros; plumas entre as orelhas dos animais, ricos arreios descendo pelos flancos inteiros.
Ele proprio, sobre o cavalo brioso, levava o escudo redondo; e nele se via nova divisa gravada em largo campo. Ali figurava a fenix: morria em ninho flamejante, e de suas cinzas e po parecia erguer-se outra vez radiante. Na margem do escudo lia-se o mote: "E duro ocultar as chamas do amor quando uma vez se acenderam dentro do peito em ardor."
Agora as damas tomam seus lugares, cada justador monta o cavalo; dos homens a pe e dos cavaleiros voa rapido o dardo carregado. E aparece a bela Zaida, que em dia sem fortuna o mouro amara; desde entao, esse amor em aversao se muda. Sua traicao lhe ferira o peito, e aquela que fizera o mal lamentava, arrependida, entre a festa clara e triunfal.
Com ela estava Zafira, a quem o marido concedia mais ventura e felicidade que nos reis de Granada reinaria. Quando ela olhou para o bravo Gazul, seus feitos renovaram-lhe a dor; quanto mais via, mais seu coracao se rendia ao antigo fulgor. Ora corava de desejo, ora empalidecia de inveja; seu peito era como raio incerto que na balanca treme e lampeja.
Alminda viu a bela dama estremecer em subita aflicao, e falou, esperando que ela abrisse o segredo de seu coracao. E Zaida, turbada, respondeu: "Um subito pensamento de mal me atravessou a mente e causou esta angustia fatal." "Melhor seria", disse Alminda, "conter da fantasia o voo; pois o pensamento pode roubar das horas felizes todo o gozo."
Entao disse a donzela de Jerez: "Com isso me mostras claramente que nao sentiste o dente negro da inveja, nem conheceste o que e desdem. Se o conhecesses, tua alma se moveria a piedade por meu desespero, pois me contorco e morro de agonia que nao divides em teu peito."
Zafira tomou-lhe a mao, e ao redor fez-se silencio, enquanto, em confusao ruidosa, os justadores roçavam o terreno. Entraram as tribos berberes, de mantos variados vestidas; puseram-se em companhias contra a paliçada erguida. Soaram trombetas barbaras, os cavalos assustados empinaram; rinchos, bufos e cascos no solo por todos os lados ecoaram.
Entao tropa encontra tropa, e coracoes valentes buscam o combate fingido da festa; lançam dardos pela areia e escudos trespassam. Por longo tempo os bandos lutam, ate que naquele dia festivo o clamor, o choque e o aplauso morrem em silencio definitivo. De bom grado teriam pedido que o proprio tempo detivesse o carro de Apolo; odiavam ver a sombra do poente e da estrela vespertina o retorno.
E mesmo depois do sol posto, quem ainda distinguia um adversario voltava contra a tarja o dardo pesado com vigor nao diminuido. Feito o assalto, descarregadas as lancas, ouviu-se a voz do juiz; ordenou aos arautos que soassem a tregua, e a larga liça ficou vazia.
Nota editorial: revisao poetica da peca "The Tournament", preservando a divisa da fenix, o mote do amor aceso, o arrependimento de Zaida diante de Gazul, o dialogo com Alminda e a cena final do combate simulado ate a tregua.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 54
O Lamento de Abenumeya
O jovem Abenumeya, herdeiro real de Granada, era bravo diante do inimigo e galante com a dama amada. Pela formosa Felisarda seu coracao fora enredado, filha do valente Ferri, capitao da guarda armada.
Pela veiga do Genil seguia montado em seu cavalo alazao, sozinho, alimentando a alma ansiosa com melancolico pensamento. As cores que vestiam a paisagem eram sombrias como a cena de sua vida passada, em que a sorte nada lhe dera senao pena.
O manto era cinza de ferro, salpicado de flores purpuras, que brotavam entre dor e aflicao, como esperanca de horas futuras. No saio, de tom acafroado, haviam colunas bordadas, para mostrar que os temores da suspeita tinham provado sua constancia.
Seu escudo trazia a lua, com uma faixa purpura acima, para mostrar que o medo da inconstancia sempre nasce junto ao amor. Levava um pendao azul sob o ferro de sua lanca, para mostrar que amantes tantas vezes erram, enganados por ciume e desconfianca.
O capuz era tecido de ouro e de seda carmesim clara; no barrete, uma pluma de garca, e por baixo uma esmeralda. Sob tudo corria este mote: "Esperanca longa demais e morte." Assim saiu ele adornado, mas armado da cabeca aos pes: lamina temperada, punhal, e cota de aco torcido. Baixo, preso ao arco da sela, pendia o elmo para a cabeca; e, enquanto seguia seu caminho, o guerreiro suspirou e disse:
"O Felisarda, donzela carissima, guarda em tua memoria aquele que na alma escreveu teu nome em letras fundas e escuras. Pensa que, por ti, em cota de malha, ele sempre cavalga ao campo; na direita deve erguer a lanca, na esquerda apertar o escudo. E deve escaramucar na planicie, e enfrentar a braveza da batalha, e ser ferido, pois armas nunca protegem do ciume a alma."
E enquanto falava, o mouro solitario, de dentro das dobras do manto, com muitos suspiros que queimavam o ar, desenrolou uma folha escrita. Tentou em vao le-la, pois seus olhos estavam cegos de pranto; nuvens de tristeza se erguiam e escondiam-lhe as letras do pensamento. A pagina umedecia-se com lagrimas que corriam em larga enchente, mas o sopro dos soluços e suspiros secava de novo o papel dolente.
Novas feridas sentiu ao ve-la; e, quando procurou sua causa, seu espirito voou para Granada sobre as asas do pensamento. Lembrou-se do Albaicin, do palacio de sua senhora, dos capiteis dourados e alegres, dos muros de antiga memoria. E do jardim que havia atras dele, onde a palmeira se via, curvada sob o peso dos frutos, com verde coroa que a cingia.
"O senhora de minha alma", disse, "tu que me chamas teu, com que facilidade teu amor poderia derrubar todas as barreiras da ventura. Mas o tempo, que minha constancia e tua inconstancia mostrara, fara o mundo conhecer meu peito firme e tua lingua de traicao. Maldito o dia em que, por ti, busquei a bela Granada; estas duvidas ansiosas podem nublar-me a fronte, mas nao guardam teu pensamento. Meus inimigos crescem; tua crueldade torna mais amarga a ausencia; mas nada pode abalar minha constancia, e ninguem pode ferir-me."
Nisso, desde Alpujarra, soou alto o toque de alarma. Ele correu como quem joga a vida para salvar a dama ou morrer.
Nota editorial: revisao poetica da peca "Abenumeya's Lament", preservando a heráldica amorosa, o mote da esperança mortal, a carta enevoada por lágrimas, a memória do Albaicín e o chamado final de Alpujarra.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 55
O Amante Desalentado
Apoiava-se no punho do sabre, pisava o proprio escudo; ao chao lançara a lanca que fazia render seus inimigos. A bride pendia no arco da sela, as redeas estavam presas; sua egua entrou livre no jardim, para pastar e vagar sem pressa.
Sobre uma amendoeira florida fixou olhar ardente; suas folhas estavam murchas pelo vento que poe as flores em ruina. Assim, no parque ajardinado de Toledo, esperava Abenamar, que, por Galliana formosa, vigiava o portao do palacio.
As aves reunidas nas torres abriram as asas para voar; e, de longe, o veu de sua dama viu flutuar pelo ar. E diante dessa visao de deleite, que lhe curava a dor do espirito, o mouro exilado ganhou coragem, e a esperanca voltou consigo.
"O Galliana, bem-amada, por quem esperas agora? E o que tornou traicoeira minha fortuna e tua promessa? Juraste que eu seria teu, e, no entanto, foi ontem apenas que nos encontramos; sem saudacao, seguiste por teu caminho.
Entao, no meu silencio de angustia, vaguei pensando: se isto trouxe o dia de hoje, que trara o dia de amanha? Feliz o mouro livre de paixao, nascido em paz ou tumulto, que, sem dor de odio ou amor, pode dormir ate a manha.
O amendoeira, tu provas que as horas aguardadas de ventura podem tantas vezes converter-se em dano, como murcham tuas flores claras. Imagem triste tu es de tudo que me abate; e em meu escudo te levarei como brasao da minha desventura.
Pois floresces em muitas flores ate que o vento te arruina; e de ti e verdadeira esta palavra: 'A estacao nao foi benigna.'"
Falou; e sobre a cabeca do corcel fez passar a redea da bride; e enquanto refreava o docil cavalo, nao podia refrear sua dor. Tomou entao o rumo de Ocana, sobre a verde planicie do Tejo.
Nota editorial: revisao poetica da peca "The Despondent Lover", preservando a cena de Abenamar diante do palacio, a aparicao do veu de Galliana, a queixa amorosa e a amendoeira como emblema da esperanca arruinada.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 56
Amor e Ciume
"Se nao queres que em uma hora tua esperança de abril se veja crestada, dize-me, Tarfe, dize-me a verdade: como poderei acaso ver Zaida? Falo da estrangeira, da esposa ha pouco casada, de cabelo dourado, que em cada madeixa conta outro encanto, pois e bela em extremo raro.
Aquela a quem todos os nobres mouros erguem louvores ate o ceu, deixando as finas damas da terra a definhar sob tal descredito. Visito a mesquita todos os dias e espero ve-la aparecer; espero ve-la onde a turba e a festa prolongam a noite em prazer.
Mas, custe-me o que custar, nao consigo encontrar a bela dama. Ah, agora meus olhos velam-se em lagrimas, testemunhas certas de meu ciume em chama. E dize-me, Tarfe, que minha raiva tem causa bastante, pois desde que sou hospede em Granada, queira Deus que Granada eu jamais tivesse visto.
Meu senhor me abandona todas as noites, e so retorna quando vem a manha; foge de meus carinhos como de pena, minha propria presenca lhe causa dor. Pouco se importa comigo, se apenas noutro lugar puder reinar. Pois, se nos encontramos no jardim, ou se estamos no aposento, seus atos provam seu afastamento: nem palavras tem para mim.
E se eu lhe digo: 'Minha vida!', ele responde: 'Minha querida', mas com frieza que congela meu coracao de subito medo. E enquanto tento fazer sua alma revelar um pensamento traidor, ele me vira as costas, como se meu tremulo temor nada fosse.
E quando me prendo a seu pescoco, baixa os olhos, inclina a face, como se, pensando em outros bracos, quisesse fugir do meu enlace. Seu peito se ergue em desgosto, como suspiro arrancado ao inferno; meu coracao bate em suspeita escura, e toda minha felicidade se apaga.
E se lhe pergunto a causa, diz que a causa esta em mim: que sou vaidosa, que sou voluvel, que a outro peito estou ligada. Como se, desde que conheci seu amor, eu mostrasse o rosto a janela, ou tomasse outra mao na minha, ou buscasse a arena, a justa ou a corrida; ou como se meus passos fossem vistos vagando por lugar suspeito.
Caia sobre mim a maldicao do Profeta, se, para guardar o pacto nupcial e servir o prazer de meu senhor, nao mantive exata a lei do Alcorao. Mas por que hei de gastar o tempo recordando perguntas tao fastidiosas? Tu conheces a caca a que ele corre, e, no entanto, escondes tudo em silencio.
Nao, nao jures: nada acreditarei; teus juramentos sao rede de passarinheiro. Ai da dama que cai no laco que preparaste. Pois os homens sao traidores, todos eles, e todas as promessas atraiçoam; como letras escritas sobre a agua, somem quando o fogo do amor esfria.
Para cumprires tua bela promessa, quantas horas tens no dia inteiro, quantas ocasioes na estrada aberta, ou em casa quando os ferrolhos prendem. O Deus! Que pensamento e este? Sufoco, presa de subito por esta dor aguda de agonia. Segura-me, Tarfe, antes que eu caia."
Assim chorou Adelifa, ao pensar na busca de Abenamar; nos bracos do mouro Tarfe caiu, e ficou ofegante contra seu peito.
Nota editorial: revisao poetica da peca "Love and Jealousy", preservando a confissao de Adelifa a Tarfe, a suspeita sobre Zaida, a frieza conjugal, a defesa da propria fidelidade e o desmaio final provocado pelo ciume.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 57
O Cativo de Toledo
Sobre o mais alto cume da montanha, que se ergue em seu orgulho e ve seus picos refletidos na cristalina corrente do Tejo, o banido Abenamar, preso por cadeia de cativo, olha a estrada real de Madri, que corta a planicie poeirenta.
Mede, com olhos consumidos, os montes que se estendem entre o lugar de seu desterro e sua doce terra natal. Seus suspiros e lagrimas de dor ja nao suportam freio; e assim, em palavras de angustia, ele profere sua queixa:
"O sombrio e o exilio que torce o coracao em desgostos e fecha os labios em silencio entre inimigos sem piedade.
O estrada de altas aventuras, que levas tantos bandos a esse pais ingrato onde se erguem as torres de minha terra, pais que meu valor tantas vezes coroou de gloria, terra que me deixa definhar aqui, eu, que lhe ganhei renome.
Tu que socorreste tanto cavaleiro, nao tens ajuda para mim, que definho no alto de Toledo em miseria de cativo? E sobre tua cavalaria famosa no mundo que firmo minha palavra de censura; e porque te amo mais que tudo tua frieza me envergonha.
O sombrio e o exilio que torce meu coracao em desgostos e fecha meus labios em silencio entre inimigos sem piedade.
O carcereiro do feroz Reduan, com crueldade ainda mais funda que a de um fidalgo, trancou esta torre-prisao; e nesta fronteira me colocou, para definhar sem repouso, vigiando, da aurora ao poente, seus inimigos cristaos.
Aqui estou posto como torre de vigia para o senhor de Santiago e para uma senhora real que quebra a palavra empenhada. E quando clamo em angustia e busco alivio no canto, com ameacas ameaçam minha vida, ate que o silencio cubra minha dor.
O sombrio e o exilio que torce meu coracao em desgostos e fecha meus labios em silencio entre inimigos sem piedade.
E quando permaneço em silencio, meus carcereiros me julgam mudo; e se falo em palavras brandas, dizem que blasfemo. Assim, pervertendo gravemente o sentido de tudo que digo, a turba enfurecida poe em meus labios a mordaça do silencio.
Assim, somando erro sobre erro, meus inimigos acusam seu prisioneiro, ate que o ultraje de meu coracao rouba a fala de minha lingua. E enquanto minha palavra trai a paixao de meu peito triste, meus inimigos nada percebem do que meu silencio diz.
Que Deus confunda o juiz perverso que causou minha miseria e nao teve coracao piedoso para suavizar sua sentença. O sombrio e o exilio que torce meu coracao em desgostos e fecha meus labios em silencio entre inimigos sem piedade."
Nota editorial: revisao poetica da peca "The Captive of Toledo", preservando o cativeiro de Abenamar, a paisagem do Tejo, a interpelação à estrada de Madri, o carcereiro de Reduan e o refrão sobre o exílio que fecha os lábios entre inimigos.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 58
O Brasao de Abenamar
Coberto por sombria fortuna, vassalo de quem desprezava, queixando-se do mundo invernal, e pela dama deixado ao abandono, o infeliz Abenamar chorava, pois sua terra fora cruel: levara-o a sorte de dor e a lar estrangeiro o entregara.
Um mouro estrangeiro tomara o trono e em Granada se assentara em estado. Muitas queridas de sua alma reclamava com amor insaciado; ele, vil de rosto e covarde de peito, ganhara a senhora do cavaleiro, cujos anos floridos de bela juventude por direito eram de Abenamar.
Mas o favor real decretara que ali reinasse um tirano estrangeiro, pois muitas galés o reconheciam senhor e mestre nos mares da Espanha. Ah, talvez a propria Zaida, ingrata como seu sexo mudavel, tivesse escolhido esse emir, para ferir em escarnio a alma de Abenamar.
Foi esse pensamento que fez chorar os olhos do cavaleiro abatido, quando pensou nos sofrimentos passados, nos labores e no presente destino; nas esperancas tornadas desengano, na riqueza em maos alheias, na agonia do amor traido, na honra perdida e nas terras confiscadas.
E como sua lealdade recebera do rei tao mau pagamento, chamou seu pajem e ordenou-lhe que trouxesse logo um pintor destro. Pois queria que ele pintasse, em grande, em cores, muitas divisas novas, e escrevesse seus sofrimentos no escudo: um so brasao nao bastaria.
Primeiro, um campo verde, ressequido e crestado; um carvao em mil chamas ardido, como suas antigas esperancas, por fim tornado po e cinza. Depois, um avaro rico em ouro, que encerra uma joia brilhante por medo de que o ladrao a roube, embora ela ja nao lhe possa dar prazer.
Um belo Adonis morto sob a presa cruel do javali. Uma aurora de inverno em ceus palidos; um dia de verao tornado crepusculo. Um jardim formoso, verde e claro, devastado e rasgado por golpes de aco; ou destruido em seus canteiros alinhados e pisado pelo calcanhar comum.
Assim falou o bravo mouro de coracao partido, ate que suas lagrimas e suspiros em luta se converteram em furia feroz; entao esperou a pintura com olhos ansiosos. Pede que alguem lhe traga um cavalo; da boa egua ja nao quer saber, pois as mulheres lhe fizeram mal, e ela e mulher em seu sexo.
As plumas amarelas, azuis e brancas arranca da borda do barrete; nao as levara mais consigo, pois sao as cores que Zaida veste. Ja nao se importa com o amor de mulher; agora despede-se de sua cidade e jura que nao tornara nem buscara morar em Granada.
Nota editorial: revisao poetica da peca "The Blazon of Abenamar", preservando a perda politica e amorosa de Abenamar, o pedido ao pintor, a serie de emblemas para o escudo e o rompimento final com Granada e com as cores de Zaida.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 59
A Inconstancia da Mulher
Um cavalheiro forte e valoroso, cujo valor Granada conhecia, rico de muitos despojos de amor, partiu Abenamar em galhardia. Sobre o barrete, ricamente tingido, trazia um rolo escrito; dizia: "So o amor faz o consolo de minha alma."
O barrete e a fronte escondiam-se sob capuz verde; plumas violetas e brancas viam-se acima de sua cabeca. Entre a borla e a coroa brilhava um circulo de esmeralda; a legenda da joia dizia: "Tu es minha unica esperanca."
Montava um cavalo malhado, com ricos arreios ornado; e ao lado esquerdo, tilintando, pendia poderosa cimitarra. O braco direito vestia pano da cor fulva do leao, e na ponta da lanca, erguido alto, voava um pendao turco.
Quando chegou ao campo de Daraja, viu Daraja em pe, ao lado de seu proprio amor perfido, segurando-lhe a mao. Fez-lhe o sinal costumeiro, e entao se demorou um instante, pois a angustia ciumenta lhe encheu o peito ao ver o sorriso carinhoso.
Feriu o cavalo ate o sangue; num salto ruidoso avancou. A donzela mourisca voltou-se para ele: ah, havia amor em seu olhar. Ah, bem viu ele seu destino sem esperanca; e, em seu animo ciumento, o coracao que nada temia em combate foi submerso em mar de tristeza.
"O falsa, sem fe e sem constancia", disse, "que e isto que vejo? Assim o pressagio de minha alma vejo enfim cumprir-se. Vergonha que um vil janizaro, de credo e raca cristaos, alvo das festas da clara Alhambra, tenha tomado agora meu lugar.
Onde esta o amor que confessaste, a promessa, o beijo, a lagrima, e todas as ternas juras que me sussurraste ao ouvido? Tu, mais fragil que o junco seco, mais mutavel que o vento, mais ingrata que o coracao mais duro entre todas as mulheres.
Nao me espanto com o que vejo, nem clamo vinganca; pois es mulher ate o fundo, e nesse nome esta tudo."
O galhardo mouro deteve o corcel, a face ardia de colera; os homens viram que todo seu porte altivo se tornara sombra e furia.
Nota editorial: revisao poetica da peca "Woman's Fickleness", preservando o aparato de Abenamar, a divisa amorosa, o encontro com Daraja e a amada perfida, a explosao de ciume e a transformacao final de galhardia em sombra e furia.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 60
Rei Juan
"Abenamar, Abenamar", disse o monarca ao cavaleiro, "mouro es tu entre os mouros, creio, e doce encanto das damas. No dia em que primeiro repousaste sobre o seio de tua mae, houve em terra e mar prodigio que aos cristaos trouxe inquietacao. O mar ficou quieto como moinho arruinado, e os ventos calaram em repouso; a lua vasta, vasta, desceu ao meio-dia, rubra no oeste tempestuoso. Se assim nasceste, bem podes desprezar abrir esses labios teus para que deles voe mentira traicoeira em resposta a palavra minha."
"Nao menti", respondeu o mouro, e inclinou a altiva cabeca diante do rei cuja ira podia lançar sua vida entre os mortos. "Nao me rebaixaria a trair minha linhagem com mancha de falsidade, ainda que pela verdade minha vida fosse o preço a pagar. Sou filho e escudeiro de pai mouro, que combateu os cristaos; e uma dama cativa de nome cristao foi sua bela esposa. Eu, filho dessa mae branda, que me ensinou junto ao joelho, sempre ouvi que devia ser verdadeiro e ousado, de lingua franca e livre; que a arte do mentiroso e o coracao vil levam a casa da condenacao. E ainda devo ouvir minha querida mae, pois ela me fala do tumulo. Da-me entao minha tarefa, o rei, e pergunta o que quiseres: darei a ti a palavra verdadeira, pois por que haveria de recusar?"
"Dou-te graça por teu rosto aberto e pelas palavras cortes que usas. Que castelos sao aqueles no monte onde crescem a palmeira e o pinheiro? Sao tao altos que tocam o ceu, e de ouro brilham seus pinaculos."
"No fogo do poente cintilam, senhor, os azulejos coloridos da Alhambra; e, um pouco mais baixa, a torre de Alijire sorri sobre a veiga. Muitas maos de arte sutil lavraram seus corredores de colunas. O mouro cujo pensamento e engenho criaram tais obras por muitas luas recebia a cada dia paga principesca: quinhentos dobloes de ouro. A cada dia deixava o labor habil, e sua recompensa lhe era negada; nem menos perdia que o custo de seu trabalho quando punha a mao em obra. E ali vejo o Generalife, com seu pomar verde e amplo; ali crescem a maca e a pera, orgulho de Granada. Caem sombras da muralha elevada da alta torre Bermeja; ha muito floresce como castelo forte, sede do poder do Soldao."
O rei se inclinara e dera ouvido as palavras que o guerreiro dizia; e enfim falou, erguendo a cabeca diante da multidao reunida: "Eu te tomaria agora, com voto fiel, Granada, por minha noiva. A rainha de rei Juan teria, creio, trono e coroa de orgulho. Nessa mesma hora eu te daria dote que bem serviria a teu desejo: a cidade de Cordova seria tua, e a mesquita da soberba Sevilha."
"Nao peças, rei, pois uso o anel de esposa fiel e verdadeira; alguma donzela graciosa, ou viuva vestida em seus lutos, e esposa para ti. Eu me apego ao rei mouro que me estreita ao peito, pois bem sei que se pode ver que, de todas, sou a que ele mais ama."
Nota editorial: revisao poetica da peca "King Juan", preservando o dialogo entre o rei e Abenamar, a prova de verdade, a descrição da Alhambra, Generalife e Bermeja, e a resposta final de Granada como esposa fiel do rei mouro.