Baladas Mouriscas IV
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 61
O Ciume de Abenamar
O sino da Alhambra ainda nao soara sua nota matinal sobre torre e campo; os baluartes de Bermeja brilhavam claros, prateados pela luz da manha, quando, erguendo-se de um leito sem orvalho algum de repouso, pois ali o sono cedera o lugar ao cuidado solitario, o bravo Abenamar pensou profundamente em como os amantes devem entregar o sono.
E quando viu nascer a manha, enquanto o sono ainda selava os olhos de Daraja, entre lagrimas, para aliviar a dor, cantou esta melancolica estrofe:
"A manha se ergueu, os ceus estao acesos; minha alma ciumenta ainda obedece ao dominio da noite. Por toda a noite chorei desolado, esperando ansiosamente a manha; e embora nenhuma luz do sol me toque, meu peito arde de ciume.
As estrelinhas tremulas desaparecem; seu brilho tornava clara minha tristeza. O sol sumiu de minha vista, sua luz se transformou em agua. De que serve o sol glorioso ter vindo da India em seu curso, trazendo a Espanha o fulgor do dia, se de meus olhos se esconde?
A manha se ergueu, os ceus estao claros; minha alma ciumenta ainda obedece ao dominio da noite."
Nota editorial: revisao poetica da peca "Abenamar's Jealousy", preservando a aurora da Alhambra e de Bermeja, a vigilia amorosa de Abenamar e o refrão em que a manhã exterior contrasta com a noite do ciúme.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 62
O Ciume de Adelifa
A bela Adelifa ve com ira, acesa em chamas de ciume, seu Abenamar contemplado pelas gentis damas mouras. E se acaso elas lhe falam, ou lhe tomam a mao, ela desfalece ao ver seu amado parado junto de outras senhoras.
Quando, entre companheiros seus, os mais bravos de sua raca, ele enfrenta o touro na arena e o desafia face a face; ou quando monta o cavalo de guerra e, saindo da tenda, entra com os companheiros em justa ou torneio, ela se senta apartada de todos; e, quando ele vence o premio, sorri em resposta ao sorriso dele e o devora com os olhos.
Nas festas alegres e nos saloes da Alhambra, segue-o quando ele pisa a danca nos bailes mouros festivos. E quando a maré da batalha sobe por toda a terra, e ele deixa a casa, obediente ao comando de seu honrado rei, ela ve o guerreiro partir com lagrimas e lamentacao, armado de heroismo para subjugar o inimigo soberbo e presunçoso.
Embora monte o corcel ardente para salvar as torres da patria, ela nao tem palavra alegre, nem benção, nem bom caminho. E se houvesse leve pretexto para rete-lo ao seu lado, em cadeias de amor o prenderia ali, fosse qual fosse a sorte da terra. Ou, se fosse justo que damas ousassem os terrores da luta, montaria sua gineta no rastro dele e o seguiria com prazer.
Pois tao logo, sobre a crista do monte, desaparece sua pluma brilhante, ela sente no coracao o aguilhao ciumento que lhe enche os olhos de lagrimas. Mas quando ele esta junto dela e sorri sob seu olhar, seu rosto fica palido de paixao pura, ainda que diga poucas palavras. Seus pensamentos estao sempre com ele; voam por sobre a montanha quando, na floresta áspera, ele caça o javali eriçado.
Em vao procura a cena festiva, entre danca e canto alegre; seu coracao por Abenamar deixou aquela turba leviana. Pois a paixao ciumenta, afinal, nao e fogo ignobil: e filha do amor ardente, sombra do desejo. Ah, quem ama com peito fervoroso e espirito constante deve sentir, no mais fundo do peito, as flechas da desconfiança.
Assim como o amante fiel, vendo vazio o assento da amada, sabe que o vento do amor pode mudar antes que tornem a encontrar-se, assim a esses tristes pressagios se juntam dores imaginadas: quem tem mais causa para amar tem tambem mais causa para temer.
Certa vez, quando a tarde placida se abrandava em noite, a bela Adelifa estava sentada com seu cavaleiro querido; e entao o sentimento represado, do fundo de seu espirito, subiu como tempestade de suspiros e tremeu em seus labios:
"Meu cavaleiro valente, que es para mim o mundo inteiro, claro espelho das armas vitoriosas, rosa da cavalaria, terror do inimigo valoroso, a quem todos os campeoes cedem, muralha e castelo do campo da bela Granada: em ti os exercitos da terra veem seu exemplo luminoso, e todas as esperancas de vitoria sobre ti se fundam.
E eu, pobre mulher que ama, nao tenho em ti menor esperança, pois para mim es a propria vida, vida de felicidade. Mas neste coracao ansioso e tremulo nascem estranhas dores de medo; nao te espantes se tantas vezes destes olhos fieis vires correr em torrentes as lagrimas pelo meu rosto, meio chamadas por meu amor por ti, meio por temores de dor.
Estes olhos sao como alambiques; quando se enchem de lagrimas, e a chama da paixao que destila esse orvalho. E de que fonte correm elas, senao da tristeza e do cuidado que se ajuntam em meu peito como nevoa e ali permanecem para sempre? Quando a chama e mais feroz e o amor chega ao seu auge, as aguas sobem a estes olhos amantes e me roubam a vista.
Pois o amor e dor duradoura e sempre anda com o pesar; so na fonte das lagrimas o coracao bebe alivio. Assim fogo, amor e medo reunidos trazem aflicao ao meu peito, com furia ciumenta, escura desconfiança, alarme e inquietude. Tudo isso arde dentro de mim e me atormenta ate o pranto; de dia e de noite, sem deleite, mantenho solitaria vigilia.
Por Ala, suplico-te, se es fiel a mim: quando as damas mouras se voltarem e pousarem os olhos em ti, nao tornes a olha-las, nem encontres seu riso com o teu; ou entao, meu Abenamar, eu me deitarei para morrer. Pois es galhardo, belo e bom; acalma os temores do meu peito, e se tao terno em teu amor quanto es bravo nas armas. E assim como te entregam o premio por valor no campo, mostra que tambem sabes render piedade a tua dama amorosa."
Entao Abenamar, sorrindo, deu-lhe um beijo de paixao: "Se e preciso", respondeu, "dar-te o penhor que pedes, dizer-te, Adelifa, que es o encanto de minha alma, e abrir meu peito mais intimo diante de teu olhar ansioso, este peito em cujo espelho brilha teu rosto em linhas de luz, deixa-me abrir a cela secreta para que tu mesma vejas o altar e a lampada ardente que sempre queimam por ti.
E se ainda assim nao te libertas do cuidado que tortura, ve a fe, o amor sem mancha que ali te esperam. E se imaginas que sou um cavaleiro perjuro, rogo que Ala faca descer ruina e praga sobre minha cabeca; e quando eu entrar em batalha contra o cristao, que eu pereça pelas lancas do inimigo.
Quando vestir minha armadura para as fadigas da campanha, que nunca mais use a palma da vitoria. Que eu definhe como cativo, em praia distante de Granada, e que a liberdade que desejo nunca mais seja minha. Que meus inimigos me atormentem na hora triste da necessidade; que meus amigos, por seu interesse, se mostrem frageis como junco.
Que meus parentes me neguem, que minha fortuna fuja, e que, no dia de minha morte, minhas esperancas do Paraiso passem em trevas. Ou, se eu viver livre para ver de novo meu amor, que encontre o destino que mais odeio: a porta de meu palacio, achar que algum amante vil te ganhou para si, e morrer de louco desespero, perdido e sozinho.
Portanto, minha vida, minha esposa querida, que toda tua dor seja curada; que tua confiança em minha fidelidade fique segura desde esta hora. Nao caiam mais tuas lagrimas de perola inuteis no po; nao perturbe mais teu peito o medo ciumento da desconfiança. Cre em mim pelo juramento que faço: entrego aqui meu coracao, e tudo que tenho de amor e cuidado, Adelifa, e teu. Crê que Abenamar trairia a propria vida se tivesse coragem de lançar fora a joia mais escolhida da vida."
Entao Adelifa sorriu para ele e, diante das palavras que ouviu, sobre o peito arfante dele pousou a face corada. E desde aquela hora afastou da mente todo pensamento ciumento, e a confiança voltou outra vez no lugar da escura desconfiança.
Nota editorial: revisao poetica da peca "Adelifa's Jealousy", preservando a progressao do ciume de Adelifa, sua fala diante de Abenamar, o juramento extremo do cavaleiro e a reconciliacao final.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 63
Funeral de Abenamar
Os mouros da altiva Gelves trocaram seus trajes alegres: o cafta, o manto trancado, o broche de fio torcido, as vestes vistosas, os mantos de trama rica e rara, os veus tremulos e a tunica brilhante, os mouros ja nao vestem.
Cansada esta sua força valorosa, pendem os braços vigorosos; ja nao lutam pela coroa diante dos olhos de suas damas. Estejam seus amores ausentes, ou brilhando diante deles, ja nao pensam em disputa ciumenta, nem prezam sorriso ou favor.
Pois o proprio amor parece morto hoje entre aquela galharda comitiva; junto ao esquife ouve-se o canto funebre, e cada um se une a melodia. Em silencio permanecem alinhados, vestidos de luto negro, pois o sombrio pano mortuario de Portugal pende sobre cada dorso.
Com os rostos voltados ao esquife onde Abenamar repousa, seus parentes ficam calados em meio aos clamores das damas. Milhares e milhares perguntam e olham o cavaleiro mouro; junto a sua cota de aço, ajoelham-se chorando, e depois desviam os olhos.
Alguns proclamam seus feitos famosos, seu espirito alto e bravo, e a coragem de aventura que o levara ao tumulo. Outros dizem que sua alma heroica definhou com o aguilhao do ciume; que desengano e abandono quebraram aquele grande coracao.
Que todas as antigas esperancas cederam sob a nuvem da dor, ate que seus anos verdes e jovens murcharam como folha. Choram-no aqueles que amou, e todo amigo fiel; e os que o caluniaram em vida ainda falam mal ate o fim.
Encontraram em seu aposento, onde pendiam suas armas de batalha, uma mensagem de despedida toda escrita na lingua moura:
"Meus queridos amigos, se algum dia em Gelves eu morrer, nao quero que em solo estrangeiro repousem minhas cinzas sepultadas. Levai-me, e abri minha cova em minha propria herdade; e nao ergais monumento algum para celebrar minha vida. Pois o desterro nao e mais terrivel onde abundam homens maus do que onde a patria sorri para vos, mas os bons jamais sao encontrados."
Nota editorial: revisao poetica da peca "Funeral of Abenamar", preservando o abandono dos trajes festivos, o luto coletivo em Gelves, as interpretações sobre a morte do cavaleiro e a mensagem final sobre sepultura, patria e exilio.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 64
Balada de Albayaldos
Tres feridas mortais, tres correntes rubras, a lanca crista abriu: na cabeca e na coxa, na cabeca outra vez; o bravo Albayaldos sente a morte perto.
A mao do mestre desferira o golpe, e longa fora a luta, dura tambem; agora, baixo, no sangue do peito, ele se revolve, e a dor, a dor e aguda.
Ergueu ao ceu o rosto banhado e disse em voz baixa: "Doce Jesus, concede-me por tua graça fazer ileso esta passagem para os mortos.
Deixa-me agora contar meus pecados, e concede enfim que eu suba a tua presença; e tu, mae querida, nao penses em meu passado.
Nao deixe o demonio, com temores, apavorar minha alma tremula; embora amarga, amarga seja a noite cujas nuvens escuras me cercam agora.
Se eu tivesse ouvido teu pedido, nao teria encontrado a desgraça; ainda que esta vida esteja perdida para mim, nao ponhas tua maldição sobre minha alma.
Nele, nele somente confio, a ele dirijo minha prece, ele que formou do po este corpo miseravel. Ele me redimira no Dia do Juizo.
E tu, Muza, um ultimo serviço te pedirei, meu caro amigo: aqui, onde morri, seja tua tarefa piedosa enterrar-me sob o alto pinheiro verde.
E sobre minha cabeça escreve um letreiro para contar como, neste solo, combatendo entre meus valentes mouros, eu cai. E dize ao Rei Chico como me voltei para Deus,
e desejei ser cristao no fim, e busquei a luz, para que o maldito Alcorao nao pudesse lançar minha alma ao sofrimento da noite eterna."
Nota editorial: revisao poetica da peca "Ballad of Albayaldos", preservando as tres feridas, a prece final a Jesus, o pedido a Muza e a inscricao funeraria sob o pinheiro.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 65
A Incursao Noturna de Reduan
Dois mil sao os cavaleiros mouros que sob o estandarte se reunem do poderoso Reduan, quando ele parte para devastar a terra. Com pilhagem e fogo consome campos e quintas fecundas; pela fronteira sobressaltada ouve-se o chamado as armas. Junto as torres de Jaen avança sua hoste; como relampago, Ubeda e Andujar veem disparar seus cavaleiros. Enquanto em Baeza todo sino conta a noticia pavorosa: "Armas! Armas!" ressoa na noite o alto alarme.
Tao silenciosamente galopam, aquela galharda cavalgada, que nem o som abafado da trombeta perturba a noite. Parece misturar-se ao sussurro das brisas em seu caminho, ao tinir dos arreios e ao alegre relincho dos cavalos. Mas agora, de colina e torre alta, correm archotes flamejantes; fogos de vigia ardem em cada monte, e elmo e cota reluzem. De posto em posto o sinal voa pela fronteira, e o toque de alarma convoca, e os burgueses despertos se levantam. Enquanto em Baeza todo sino conta a noticia pavorosa: "Armas! Armas!" ressoa na noite o alto alarme.
Ah, de subito o inimigo mortal caiu sobre a presa; mas firmes se erguem os cristaos e se armam contra o adversario. Os cavaleiros valentes tomam as lancas e lustram as cotas de malha; vem o soldado com a besta, e o campones com o mangual. Os orgulhosos fidalgos de Jaen, os leais homens de Andujar, e os senhores da torreada Ubeda perseguem os inimigos pagaos. Valentemente enfrentam o inimigo, sem voltar as costas em fuga; e mostram-se dignos dos feitos poderosos de seus pais. Enquanto em Baeza todo sino conta a noticia pavorosa: "Armas! Armas!" ressoa na noite o alto alarme.
Abrem-se as portas da aurora, e a luz do sol enche a terra; os cristaos saem dos portoes em ordem marcial. Fecham-se em combate, e a hoste paga e os cavaleiros cristaos da Espanha, a menos de meia legua da porta da cidade, lutam sobre a planicie. O estrondo da batalha sobe como trovao ate o ceu; de penhascos e florestas fogem ecos trovejantes. Ha choque de armas, espada e aco a retinir, cornetas mouras, pifaro e tambor, enquanto os esquadroes dispersos vacilam; ouve-se o gemido dos moribundos e o grito dos feridos por dores que ninguem pode curar. Enquanto em Baeza todo sino conta a noticia pavorosa: "Armas! Armas!" ressoa na noite o alto alarme.
Nota editorial: revisao poetica da peca "The Night Raid of Reduan", preservando a marcha noturna, os alarmes em Baeza, a reação crista e o combate ao amanhecer.
Bloco 2 - Revisao poetica - Parte 66
Cerco de Jaen
Agora Reduan contempla de longe as altas muralhas de Jaen; e, embora sorria em triunfo, ha temor em seus olhos. Jurara ele, cuja coragem ninguem acusava de falha, que subiria os muros e tomaria a cidade por assalto.
Mas em torno da vila, torres e muralhas cercam as ruas da cidade; e qual de seus esquadroes poderia escalar tal bastiao? Ele se detem, ate que uma a uma suas esperancas morrem; a alma se enche de angustia e o rosto de profundo desalento.
Observa a alta escarpa, mede com os olhos as torres erguidas acima dela, que parecem tocar o ceu. Altura sobre altura sobem ao firmamento, enquanto, brilhando de longe, cada archote nas torres de vigia arde como estrela funesta.
Seus olhos e o coracao se fixam na rica e real cidade; dos olhos lhe corre a lagrima da dor, lagrima viril. O peito se ergue em suspiros de tristeza e pesado descontentamento, e a cidade real ele dirige seu triste lamento:
"Ah, muitos campeoes perdi, bela Jaen, diante de teu portao; e contudo falei de ti levianamente, exaltado pela vitoria. A valentia de minha lingua foi maior que tudo que pude fazer; minha palavra ultrapassou a lanca e a espada de meu esquadrao forte e fiel.
Mesmo assim jurei, com coragem temeraria, que traria tuas torres abaixo, e faria teus subditos cativos do meu rei. Que em uma noite minha espada poderosa, antes do sol da manha, faria por tua grande cidadela o que seculos nao fizeram.
Empenhei minha vida nessa tentativa e jurei que cairias; mas agora estou impotente diante de teu alto castelo. Pois bem vejo que, antes que minha força te conquiste para meu rei, tu, inexpugnavel, traras sobre mim derrota e ruina.
Ah, fatal e a lingua apressada que consente tao depressa; e quem faz voto precipitado tem longo tempo para arrepender-se. Ah, tarde demais lamento agora a palavra que me trouxe a esta empresa, pois vejo que a morte me espera aqui enquanto tu vives em repouso.
Pois devo entrar pelos portoes de Jaen como conquistador, ou ser enviado para longe das felizes colinas de Granada, em desterro sem esperanca. Mas o pensamento mais duro e que jurei a Lindaraja: se Jaen me repelisse, eu nao voltaria mais a ela; nao mais feliz amante permaneceria ao seu lado, ate que a hoste guerreira de Granada humilhasse o orgulho de Jaen."
Entao, voltando-se aos guerreiros, o cavaleiro mouro pede seu conselho e aguarda a resposta com temor. Cinco mil guerreiros provados e fieis estavam perto, todos armados de broquel de couro, todos de espada e lanca.
"O lugar", respondem eles, "e forte demais, preso por muros altos; muitas sao as torres de vigia que o cercam em volta. Os cavaleiros e orgulhosos fidalgos que se veem sobre a muralha tem coracoes ousados, braços fortes, espadas e lancas agudas. O desastre sera tao certo quanto o nascer do dia; vitoria e saque sao premio escorregadio. Seria sabio, nesta empresa, renunciar ao combate: nem todos os mouros que Granada ostenta poderiam derrubar a soberba Jaen."
Nota editorial: revisao poetica da peca "Siege of Jaen", preservando a hesitacao de Reduan diante das muralhas, o lamento por seu voto imprudente, a promessa a Lindaraja e o conselho dos guerreiros contra o assalto.
A Morte de Reduan
Não recuou da promessa,
Reduan, o bravo,
da promessa que dera
ao rei de Granada
com tão alta ousadia.
E quando a manhã se ergueu
e acendeu os montes
com rubro fulgor,
ele pôs em ordem seus guerreiros
para o golpe derradeiro.
Com gritos, correm às muralhas
dez mil homens de combate,
resolvidos a plantar o crescente
nos baluartes de Jaen.
O toque da trombeta
ressoa no ar
em clarim vibrante;
os burgueses, sobre a muralha,
respondem com palavras de escarnio.
E, como rumor de trovão,
apressam-se os esquadrões ruidosos;
no dorso de seu cavalo ligeiro,
ele conduz o exército
pela planície.
À frente dos seus servidores
seguia o herói em marcha;
não se deteve por séquito,
nem por cortejo de armas ressoantes.
E aqueles que censuravam
o assalto temerário,
com ânimo fraco e covarde,
abandonaram seu chefe audaz
ou ficaram muito atrás.
Agora ele está sob a muralha
e vê erguer-se diante de si
o alvo da grande campanha,
prêmio sem preço de seu valor.
Por um instante sonha
que a tem sujeita aos seus braços;
sonha que foge da guerra
rumo a Granada.
Contempla com amor
cada ameia,
cada bastião sombrio e alto,
e na fantasia vê os crescentes
erguerem-se sobre a muralha cristã.
Mas de súbito um arqueiro
retesa o arco poderoso;
de súbito desce o virote
em voo certeiro.
Direta ao coração de Reduan
vai a flecha fatal;
ferido de morte,
o nobre herói jaz
sobre a veiga.
E enquanto jaz,
de seu leito de sangue,
em tom melancólico,
assim aos céus se lamenta
o herói robusto, embora desfalecente.
E antes que sua alma altiva,
na morte,
rompa a prisão do corpo,
o bravo Reduan toma
seu último adeus de Lindaraja:
"Ah, maior teria sido a glória
se me coubesse morrer
não assim, entre cristãos,
ouvindo o júbilo deles,
mas naquela cidade feliz,
reclinado aos teus pés,
onde tu, com mãos ternas e piedosas,
tivesses tecido
a minha mortalha.
Ah! se meu destino fosse
ainda uma vez contemplar teu rosto
e reconhecer amor e compaixão
nesses olhos,
com meu olhar derradeiro,
ainda que mil vezes a morte
tivesse dissolvido esta forma mortal,
tão logo tua figura surgisse diante de mim
em beleza radiante,
mil vezes um só olhar teu
me teria devolvido o alento
e chamado teu amante para junto de ti,
até mesmo das portas da morte.
Que importa, Lindaraja,
que eu, às portas de Jaen,
cidade que não se rendeu,
tenha encontrado meu fim?
Que importa que esta cidade soberba
jamais reconheça o sultão?
Por ti, e não por Jaen,
eu ergo agora meu lamento.
Choro por Lindaraja;
choro ao pensar que ela
talvez lamente, como refém e escrava,
em longo cativeiro.
Mas pior que isso:
que algum mouro altivo
te tome ao coração,
e que um novo amor faça partir
todos os teus pensamentos de Reduan.
E, demorando-se em tua beleza,
ele julgará muito melhor
conquistar a bela Lindaraja
que todos os despojos da guerra.
Contudo, eu pediria,
se Maomé, de quem fui servo,
algum dia do trono de Deus
olhar para esta cena sangrenta,
e julgar justo dar
recompensa adequada a todos os meus votos,
e ao valor com que ataquei
a cidade que não pude tomar,
que faça a tua constância
tão firme quanto a torre
da poderosa fortaleza de Jaen,
que resistiu ao poder mouro.
Agora, enquanto minha vida
reflui depressa,
meu espírito se oprime,
e Reduan, o guerreiro audaz,
afunda em seu repouso.
Oh, que minhas preces sejam ouvidas,
se o céu benigno assim permitir;
e que o rei me perdoe
pelo fracasso de meu voto.
E, Lindaraja, que minha alma,
quando tiver alçado voo
e trocado estes reinos da noite
pelos doces Campos Elísios,
contente nas alegrias e na paz
daquela morada celeste,
aguarde o momento feliz
em que outra vez nos encontraremos."
O Amante Idoso
De uma varanda elevada
Arselia olhava para baixo,
para a corrente cristalina
do dourado Tejo,
que cingia a cidade de Toledo.
Ora fitava os remoinhos
que enrugavam a cheia,
ora voltava os olhos para a terra,
para contemplar o descampado
e o bosque.
Mas em tudo quanto a cercava
buscava repouso em vão,
pois seu coração,
seu coração doía,
e ela não podia curar a dor.
Não era com galante cortesão
que sonhava a donzela moura,
nem com nobre emir
que comandasse a fortaleza
junto às águas do Tejo.
Era nas margens do Tornes
que se erguiam as torres soberbas
de renome,
onde o jovem alcaide amado pela moça
morava longe das cidades.
E nunca na corte de Almanzor
ele buscara honra,
embora habitasse alta Toledo
no pensamento
da bela Arselia.
E agora ela sonhava
com o grande dom do amor,
com o profundo deleite da paixão,
quando, longe das muralhas do palácio,
surgiu um estranho à vista.
Não era jovem galante,
ferido de amor,
aquele que ela viu
aproximar-se depressa.
Era o herói Reduan,
cujos anos de primavera
já tinham passado.
Vinha montado
num cavalo alazão,
e veloz se aproximou;
parou onde o sol deslumbrante
batia sobre a varanda.
E com ar pensativo
ergueu os olhos para a donzela,
pois de súbito o velho cavaleiro
sente todo o coração
arder em fogo.
E toda a geada
de seu corpo alquebrado
começa a acender-se
em desejo.
E enquanto em vão
quer esconder sua dor,
caminha de um lado para outro
diante das torres do palácio
que coroam a muralha de Toledo.
Com ira se inflama
o espírito da donzela:
"Vai-te daqui", ela grita,
"pois pode ser que amor por mim
se levante
em sangue como o teu?
A própria ideia me repugna;
teus cabelos, velho, são grisalhos,
tua calva e tua mão trêmula
denunciam uma idade caduca.
Ah, pouco deves estimar
meus anos de beleza e viço,
se queres uni-los
a uma vida que assim cambaleia
para o túmulo.
A decrepitude é agora tua sorte;
como ousas pedir
que encantos juvenis
partilhem essas vis enfermidades?"
E Reduan, o mouro,
ouviu suas palavras
e entendeu claramente o sentido.
Avançando até a varanda,
respondeu-lhe outra vez:
"O sol é rei de tudo;
sobre tudo mantém seu domínio.
E tu és como o sol:
teus encantos reconheço
e obedeço.
Tua beleza aquece de novo
as minhas veias,
e em seus raios, por certo,
sinto o ânimo alegre e corajoso
da juventude há muito esquecida.
Meu amor não pode ferir-te,
como a luz do sol não se perde
quando sua bondosa claridade
dissolve as cadeias
da geada."
Então, voltando-se,
Reduan desdobrou um pergaminho,
e nele havia uma inscrição
em caracteres de ouro.
Logo a donzela compreendeu
o sentido da legenda:
"Já que posso ousar,
posso possuir;
ainda não sou nada."
Ele mostra em seu escudo
um sol cercado
de raios ardentes,
e na borda havia escrito
um pequeno verso:
"Dois sóis distingo:
um em meu escudo,
outro nos olhos da beleza."
Então, diante do frio desdém
que viu em seu rosto formoso,
cobriu com véu transparente
o brasão de seu escudo.
"O sol em meu broquel", exclamou,
"deve render-se
diante da tua luz."
Mas como a donzela
ainda fazia beicinho
e o fitava com desprezo,
"O sol fingido", continuou ele,
"que aqui se vê claramente brasonado,
encobre-se e se esconde
diante do verdadeiro astro do dia.
E eu, eclipsado
pelo resplendor da beleza,
devo partir a cavalo."
E, ao dizer isso,
o mouro cravou fundo
as esporas no corcel
e afastou-se das margens do Tejo,
atravessando o prado verde.
A donzela moura
não se importou
se ele estava longe ou perto;
seus pensamentos voltaram
às doces fantasias
de seu cavaleiro ausente.
A Inconstância Repreendida
Enquanto no rubro sangue
do inimigo
eu avançava
até o peito,
e por minha gente,
por minha terra natal,
lutava mais bravo
que os melhores,
enquanto eu punha de lado
o manto leve,
e despia as dobras
de damasco,
e vestia a cota de malha,
despojo de inimigo
valente e audaz,
tu, moura inconstante,
vestias teu brocado perfumado,
e, de mãos dadas
com teu falso amor,
sentavas-te à sombra.
Assim, no escudo de teus pais,
plantas muitas manchas;
os pilares de tua antiga casa
jamais voltarão
a ser firmes.
Mas, ah, que Alá tome vingança
por teu engano cruel,
e que, chorando amargamente,
pagues a vingança
que te cabe.
Assim pagarás:
a felicidade de teu amante
não hás de partilhar,
não podes partilhar;
sentirás antes
a amarga zombaria
que tua vergonha de todos os dias
terá de suportar.
E que vingança será notar,
quando beijares sua fronte,
como tuas tranças douradas,
suaves e leves,
se misturam
aos cabelos de neve dele.
E que vingança será ouvi-lo
contar a ti seus amores,
louvando alguma moça moura,
ou ver seus filhos
subirem tua escada.
Sim, pagarás a pena,
quando, das doces margens do Genil,
passares às ondas tempestuosas
da corrente impetuosa do Tejo.
Ali não estarão os Abencerrages;
e de tua varanda
não ouvirás os cavaleiros
passarem com alto tropel
de cascos.
Então os pensamentos
dos dias perdidos
te hão de perseguir
e devastar teu espírito,
quando vires tuas glórias passadas
todas murchas,
todas apagadas.
Tudo terá ido embora:
aqueles doces e sedutores artifícios,
o rolo perfumado
da carta de amor,
as palavras
e os votos ruborizados
que trouxeram condenação
à tua alma.
Assim os instantes luminosos
do passado
se erguerão aos olhos da memória,
como ministros
portadores de vingança,
para zombar
da tua miséria.
Pois o tempo
é pai da aflição;
e aquele cuja vida é longa
conhece mil cuidados,
mil formas de injustiça.
Serás odiada na corte
e odiada no estábulo,
odiada na reunião alegre,
na dança e na festa.
Serás odiada
por toda parte;
e, ao pensar nesse ódio,
hás de atribuí-lo
ao negro delito
que cometeste.
Então apresentarás
alguma fraca defesa,
e invocarás a vontade de um pai,
que te forçou,
estremecendo,
a consentir
no ato mau.
Goza, então,
daquele que, assim constrangida,
escolheste para ti.
Mas sabe:
quando o amor quer seguir
seu próprio caminho,
despreza a carranca de um pai.
O Escravo de Galé de Dragut
Ah, alvo e escudo
da fortuna foi ele,
sobre quem choveram
golpes de ódio,
de amor que não alcançara
seu destino,
e das estranhas mudanças
da sorte.
Escravo de galé de Dragut,
ele, que outrora puxara
o remo penoso,
agora, entre os ramos frondosos
de um jardim,
trabalhava e chorava
em amarga angústia.
"Ó mãe Espanha!
Por tua praia bendita
meus olhos anseiam
impacientes;
pois tua joia mais escolhida
é minha noiva,
e ela espera
meu retorno.
Tiraram-me do banco
da galé;
puseram-me aqui
como escravo de jardineiro,
para que eu cuide
dos frutos e das flores
através de todas as mudanças
do ano.
Sábia escolha, de fato,
fizeram de mim!
Pois quando a seca
tiver ressequido o campo,
as nuvens que cobrem
meu coração
hão de dar chuva
em todas as estações.
Ó mãe Espanha!
Por tua praia bendita
meus olhos anseiam
impacientes;
pois tua joia mais escolhida
é minha noiva,
e ela espera
meu retorno.
Tiraram-me do porão
da galé;
foi pela graça
toda piedosa do céu.
Mas, mesmo nesta clareira
de jardim,
a fortuna desviou
o rosto.
Embora mais leve seja agora
minha sorte de trabalho,
mais pesada ela se tornou,
pois meus olhos,
turvos de lágrimas,
e meu coração
já não distinguem,
além do mar,
a minha praia natal.
Ó mãe Espanha!
Por tua praia bendita
meus olhos anseiam
impacientes;
pois tua joia mais escolhida
é minha noiva,
e ela espera
meu retorno.
E vós, exilados,
que longe
por tantas terras estrangeiras
vagueastes;
e que de cidades estranhas,
além-mar,
fizestes uma segunda pátria,
filhos degenerados
da gloriosa Espanha!
Uma coisa vos faltou
para vos manter fiéis:
o amor que nenhuma terra estranha
poderia partilhar,
a coragem
capaz de subjugar o destino.
Ó mãe Espanha!
Por tua praia bendita
meus olhos anseiam
impacientes;
pois tua joia mais escolhida
é minha noiva,
e ela espera
meu retorno."
O Lamento do Cativo
Onde as planícies da Andaluzia
enfim terminam
na costa rochosa,
e as vagas do mar espanhol
rugem contra seus limites,
mil castelos em ruína,
que outrora foram
o orgulho altivo
da elevada Cádis,
em dias há muito passados
olhavam para baixo,
sobre a maré.
E no mais alto de todos eles,
em disposição melancólica,
um cativo solitário
esteve de pé
naquela tarde tempestuosa.
Pois deixara o barco maltratado
que jazia perto da terra,
batido pelas águas,
e ali buscava
repousar a alma
e gastar a dor.
Enquanto então,
como fúrias,
o vendaval começava a soprar
do oriente,
e, com estrondo de trovão,
as vagas se rompiam embaixo.
Ah, sim,
sob o levante feroz,
os brancos cavalos selvagens
empinavam-se;
com fúria crescente,
as ondas avançavam
contra aquelas muralhas.
Mas mais tempestuosos
eram os pensamentos
que enchiam seu coração
de amarga dor,
quando voltou os olhos lacrimosos
mais uma vez
para contemplar o mar.
"Ó mar inimigo",
estas palavras enfim romperam
de seu peito arfante,
"sei que volto para morrer,
mas a morte ao menos
é repouso.
Deixa-me então,
em minha praia natal,
vagar outra vez
em liberdade,
pois só aqui há abrigo,
pois aqui, por fim,
é o lar."
E então,
como fúrias,
o vendaval começava a soprar
do oriente,
e, com estrondo de trovão,
as vagas se rompiam embaixo.
Foram as margens do Tejo
que, a mim criança,
deram casa e criação;
terra ingrata,
que me deixa consumir
sem resgate,
como escravo.
Pois hoje, agora,
homem moribundo,
voltei outra vez,
e devo depositar meus ossos
nesta praia,
a mais distante da Espanha.
Não é apenas a espada do exílio
que me corta o coração;
não é apenas o amor por aquela
de quem me mandaram partir;
nem apenas sofrer,
esquecido por todos os amigos.
Mas, ah,
é o golpe tríplice
que me leva ao fim."
E então,
como fúrias,
o vendaval começava a soprar
do oriente,
e, com estrondo de trovão,
as vagas se rompiam embaixo.
"O fogo com que arde meu peito,
ai de mim,
tua brisa mais fresca
jamais poderá apagar;
nem tua onda mais fria
poderá apaziguar
sua fúria.
A terra não pode trazer consolo
ao ardor da minha dor,
e em vão seriam derramadas
sobre ele
as águas de todo o oceano.
Pois ele é como o sol flamejante
que afunda no leito do mar
e, ainda com ardor intacto,
ergue a cabeça
na manhã seguinte.
Assim, do mar,
a chama de meu sofrimento
me expulsou mais uma vez;
e aqui desembarco,
sem esperança,
nesta praia árida."
E então,
como fúrias,
o vendaval começava a soprar
do oriente,
e, com estrondo de trovão,
as vagas se rompiam embaixo.
"Oh, não me chames,
oh, não me chames,
voz de outros anos;
o fogo que arde em meu coração
secou a fonte das lágrimas.
E, embora meus olhos
bem pudessem derramar
essas gotas amargas de dor,
a seca da tristeza
que a si mesma consome
extinguiu a chuva curativa.
Aqui, deixai-me clamar
por aquela
que um dia chamei de minha,
pois bem sei
que a moça amorosa
por mim se lamentou.
É por causa dela
que apresso minha fuga
através do mar e da terra;
e agora,
entre a praia
e o rugido do oceano,
tomo minha posição final."
E então,
como fúrias,
o vendaval começava a soprar
do oriente,
e, com estrondo de trovão,
as vagas se rompiam embaixo.
Então, inclinando-se para a terra,
agarrou o solo
com mão ansiosa;
beijou-o,
e com água misturou
a areia sedenta.
"Ó tu", disse ele,
"pobre solo e corrente,
no plano do Criador
és o fim e o começo
de tudo quanto
faz de nós humanos.
De ti se erguem
miríades de paixões
que agitam o peito humano;
a ti, por fim,
quando tudo termina,
elas descem
para encontrar repouso.
Tu, Terra,
foste minha mãe;
e quando estas dores acabarem,
serás minha prisão,
de onde não poderei
mais passar."
E então,
como fúrias,
o vendaval começava a soprar
do oriente,
e, com estrondo de trovão,
as vagas se rompiam embaixo.
E agora viu
que os ventos em guerra,
varrendo a baía,
haviam golpeado
o batel maltratado
e o levado embora.
"Ó céu compassivo",
clamou alto,
"minhas esperanças
são como aquela barca:
dispersas pela tempestade,
jazem sem jamais
alcançar seu alvo."
E de súbito,
dos céus carregados,
desceu a noite escura;
e em sua disposição melancólica
o cativo deixou a altura.
Alcançou o barco,
com mão trêmula
agarrou o remo trabalhoso,
e, voltando-se
para a onda espumante,
deixou sua praia natal.
"Ah, bem sei
que sobre o peito do oceano,
quando a tempestade sopra alto,
será encontrado repouso
se a terra firme
nega descanso ao coração.
Agora deixe o mar inimigo
perceber que não temo
nenhum de seus poderes,
mas antes peço
que sua vingança
caia sobre minha cabeça."
Para dentro da noite
virou o batel,
enquanto flutuava longe,
atrás dele,
o lamento do cativo,
como uma flâmula
ao vento.
E então,
como fúrias,
o vendaval começava a soprar
do oriente,
e, com estrondo de trovão,
as vagas se rompiam embaixo.
Recolham as Velas!
Uma barca turca
estava no mar,
no ensolarado mar da Espanha,
à vista dos rochedos
que Hércules fez
limites do oceano.
E um homem,
escravo cativo de Celimo,
enquanto as vagas cresciam ferozes,
escutava o mestre do navio
dar esta ordem
à tripulação:
"Recolham as velas!
Recolham as velas!
O vendaval furioso
sobe depressa!
Recolham as velas!"
Violentos caíram sobre eles
os ventos contrários;
o navio, indefeso,
era arrastado.
E com a inundação do oceano
misturavam-se
as gotas trovejantes
do céu.
E quando as nuvens cor de tinta
se rasgavam,
o relâmpago de fogo
faiscava.
E entre a tripulação
tomada de terror,
apenas uma voz
era ouvida:
"Recolham as velas!
Recolham as velas!
O vendaval furioso
sobe depressa!
Recolham as velas!"
E havia um sentado
sobre o convés,
em miséria de cativo,
cujas lágrimas corriam
misturadas à cheia,
à cheia do céu
e do mar.
Perdido na tempestade
de seus pensamentos,
murmurou com ternura
uma prece,
cujas palavras tristes
eram repetidas
pela montanha
de seu desespero:
"Recolham as velas!
Recolham as velas!
O vendaval furioso
sobe depressa!
Recolham as velas!"
"Se sou cativo
e escravo,
virá o tempo
em que Deus
me trará livre
para pisar outra vez
o meu próprio solo,
minha terra natal.
Então toda a minha antiga glória
retornará a mim
para sempre.
Até lá, minha alma,
sê paciente
e espera
esse dia feliz!"
"Recolham as velas!
Recolham as velas!
O vendaval furioso
sobe depressa!
Recolham as velas!"
A Fuga do Cativo
A bela Florida repousava,
num dia de verão,
dentro de um jardim verde e formoso
que ficava junto ao rio.
E alegremente pediu
que ele, seu esposo,
contasse à esposa querida
a causa de seu cativeiro,
a história de sua vida.
"Conta-me agora,
esposo amado,
peço-te que me contes a verdade:
quem foram teus pais,
e que terra conheceu
teu nascimento
e tua criação?
E por que te levaram
cativo daquele lugar?
E quem te deu liberdade
para trilhar
o caminho de volta ao lar?"
"Sim, eu te direi,
esposa gentil,
e direi a verdade,
pois terna é a luz
que vejo
dentro de teus olhos azuis.
Em Ronda meu pai
ergueu seu castelo
sobre a altura;
e foi em Antequera
que minha mãe
viu primeiro a luz.
A mim, para este escuro cativeiro,
os mouros covardes
armaram cilada,
justo quando a paz terminara
e a guerra
ainda não fora declarada.
Levaram-me acorrentado,
para trocar-me por ouro;
Vélez de la Gomera
foi a cidade
onde fui vendido.
Sete dias cansados,
e para cada dia
uma longa e cansada noite,
puseram-me no bloco de leilão,
diante dos olhos do povo.
Mas nem cavalheiro mouro,
nem esposa moura,
ofereceu um maravedi sequer
pela vida
do cativo entristecido.
Por fim veio um mouro infame,
em ricos trajes,
e deu mil peças de ouro
para fazer de mim
seu escravo.
Conduziu-me à sua casa elevada
e mandou que ali eu ficasse,
zombado por seus servos mais baixos
e carregado de correntes.
Ah, vil foi a vida
que me impôs,
e profunda vingança jurei.
Ah, negra foi a vida
que me deu,
e duros os trabalhos
que suportei.
De dia eu batia
o cânhamo amontoado,
cortado na planície da veiga;
à noite,
dentro do moinho escuro,
moía para ele
o grão.
E embora o próprio milho
que eu moía
eu desejasse tomar por alimento,
ele punha uma rédea
em minha boca
para que eu nada comesse.
Por isso agradou ao Deus
que governa os céus,
a terra e o mar,
que a senhora
daquela poderosa casa
olhasse para mim
com ternura.
E quando o mouro foi caçar,
num feliz dia de outono,
ela veio à minha prisão
e retirou minhas correntes.
Mandou que eu me sentasse
junto dela,
e respondi com alegria.
Ah, muitos presentes nobres
ela me deu
naquela noite.
Banhou-me,
lavou minhas feridas
e deu-me roupas novas,
muito mais brilhantes
do que convinha
ao corpo de um escravo.
E naquela noite
partilhamos o deleite do amor,
pois me tornei alegre e ousado.
E pela manhã
ela me deu
cem coroas de ouro.
Abriu os portões
e, sorrindo,
mandou que eu fosse livre
outra vez.
Fugimos,
por medo de que aquele cão mouro
matasse a ela
e a mim.
E assim agradou ao Deus
que governa a terra
e os céus acima
provar sua profunda compaixão
e a grandeza de seu amor.
E assim, terminado
meu triste cativeiro,
terminados meus dias
de errância,
Florida,
em teus braços amorosos
repouso como outrora."
Peças: O Espanhol de Orã; A Tourada de Gazul; A Noiva do Zegri; As Bodas de Andalla; Os Brincos de Zara; O Lamento por Celin.
O Espanhol de Orã
Muito galante era aquele cavalheiro,
guerreiro cavaleiro da Espanha,
que servia o rei em Orã
com espada e duas lanças.
Mas, com a devoção do coração
e o fogo ardente da paixão,
servia também uma doce donzela africana,
de origem alta e nobre.
E ela era tão bela quanto nobre,
e bem sabia retribuir
a devoção de um amante
e a coragem de um cavaleiro.
Numa noite de verão,
quando tornavam a trocar seus votos,
ouviram o alarme chamar às armas
através da planície escurecida.
A aproximação dos inimigos
despertara a guarda
e fizera soar
o rumor guerreiro.
A lua de prata lançara seu raio
sobre os escudos redondos;
os escudos enviaram o aviso
às silenciosas torres de vigia,
e as torres de vigia
mandaram suas notícias
em chamas que acenderam o céu.
E os fogos chamaram os sinos no alto
para tocar claros alarmes;
aquele rebate despertou o amante
preso nos braços da dama.
Ah, duramente sentiu no peito
o aguilhão da honra feri-lo;
mas o apelo do amor que o retinha
feria-o ainda mais fundo.
Era covardia demorar-se
e recuar diante do inimigo;
mas, ah, era ingratidão
deixá-la naquele estado.
Pendente ao pescoço do amante,
ela viu que ele empalidecia,
tomava a espada
e lançava um olhar à cota de malha.
E, num ímpeto de suspiros e lágrimas,
curvou a bela cabeça:
"Ergue-te, meu senhor,
cinge tuas armas
e entra na luta", disse ela.
"Que minhas lágrimas molhem este leito;
este leito de alegria será,
sem ti,
tão doloroso quanto o campo triste de batalha.
Arma-te, arma-te e vai à guerra!
Escuta, escuta: os inimigos se aproximam.
Teu general espera;
que ele não censure tua nobreza de cavaleiro.
Severa será sua visita contra ti
por covardia neste dia,
pois severo é o crime,
em qualquer clima,
dos soldados que traem.
Bem podes deslizar despercebido
até o acampamento,
sem tua espada.
Não atenderás minhas lágrimas,
meus suspiros?
Vai-te sem uma palavra.
Teu peito não é feito de carne,
pois, ah, não podes sentir;
não precisas de armas no combate,
pois ele é duro como aço."
O espanhol olhou para ela,
com o coração cheio de orgulho;
ela o prendia com força,
e mesmo suas palavras
o retinham ao lado dela.
"Senhora", disse ele, beijando-a,
"apesar de tuas palavras insensatas,
és tão doce como sempre
aos olhos fiéis de teu amante.
E já que nesta noite
apelaste ao amor e à honra,
tomo minhas armas e parto,
pois é justo que a ti eu ceda.
Vou para a batalha,
e meu corpo busca o combate;
mas minha alma permanece atrás,
em teu seio de prazer.
Oh, concede-me, Senhor e Mestre,
buscar o acampamento abaixo;
deixa-me tomar o nome esta noite,
e partirei contente,
levando espada, lança
e cota de malha
contra o inimigo."
A Tourada de Gazul
O rei Almanzor de Granada
mandou soar a trombeta;
convocou todos os senhores mouros
das colinas e planícies ao redor.
Da veiga e da serra,
do Bétis e do Genil,
vieram com elmos e couraças
de ouro e aço retorcido.
Celebram, em realeza e pompa,
a festa santa do Batista;
fecharam a ampla arena
junto ao portão da Alhambra.
Em trajes de negro
listrados de prata,
dentro do círculo armado de tendas,
oito mouros são postos
para enfrentar o touro
diante do rei.
Oito senhores mouros,
de valor provado,
braço forte e seguro,
suportam o ataque das feras
quando elas irrompem.
Os feitos que cumpriram,
os despojos que ganharam,
enchem todos de esperança e confiança;
mas antes que o sol apareça alto no céu,
todos mordem o pó.
Então soa claramente a trombeta,
então retumba o tambor alto:
Abri espaço, abri espaço para Gazul;
escancarai, escancarai a porta.
Sopra, trombeta, ainda mais clara;
bate, tambor, mais forte:
o alcaide de Algava
vem combater o touro.
Primeiro passou diante do rei,
curvando-se com reverência;
depois inclinou-se à rainha
e às infantas enfileiradas.
Então voltou-se à graça de sua dama,
e ela lhe lançou da varanda
uma faixa
mais branca que a neve.
Escorregadia está a areia
com o sangue vivo
dos senhores abatidos;
mas, orgulhoso,
no centro dela
Gazul toma posição.
As damas olham
com o peito suspenso,
e os senhores
com olhos ansiosos;
mas firme ele estende o braço,
e seu olhar é calmo e elevado.
Três touros são soltos contra o cavaleiro,
e dois vêm rugindo.
Ele se ergue alto no estribo,
estendendo o rejón,
e em cada fera furiosa
desfere no peito tal golpe
que ela cambaleia às cegas
e recua,
atravessando a areia.
"Vira-te, Gazul, vira-te",
grita o povo;
o terceiro vem por trás.
Baixa até a areia
mantém ele a cabeça;
suas narinas farejam o vento.
Os montanheses que conduzem os bois,
do lado de fora,
murmuram baixo:
"Pensa agora este alcaide soberbo
atordoar Harpado assim?"
Não vem ele do Guadiana,
nem vem do Genil,
nem de Guadalarif da planície,
nem de Barves da colina.
Mas onde as águas claras do Xarama
irrompem da floresta,
sob os carvalhos foi criado
este touro soberbo e majestoso.
Escura é sua pele dos dois lados,
mas o sangue ferve por dentro;
e a pele parda resplandece
como se estivesse em fogo
quando ele raspa a terra para a luta.
Seus olhos são azeviche,
assentados em anéis de cristal de neve;
mas agora fitam o inimigo
com um único fulgor vermelho de bronze.
Na fronte do touro
os chifres se erguem juntos e próximos;
saindo do crânio largo e enrugado,
parecem punhais.
Seu pescoço é maciço,
como o tronco
de velha árvore nodosa,
onde a juba hirsuta do monstro
se enrola como vagas.
Suas pernas são curtas,
suas coxas grossas,
seus cascos negros como a noite;
como um mangual robusto
ele mantém a cauda
na ferocidade de sua força.
Como algo fundido em ferro,
ou talhado da rocha,
Harpado do Xarama se ergue
para suportar o choque do alcaide.
Agora cala-se o tambor;
perto, perto eles vêm.
Três vezes se encontram,
três vezes recuam.
A espuma branca de Harpado
jaz sobre o peito
do cavalo negro;
a espuma branca do cavalo
sobre a fronte parda de Harpado.
Mais uma vez avança contra a lança;
mais uma vez,
ó destemido.
Mais uma vez, mais uma vez;
em pó e sangue
deves tombar à ruína.
Em vão, em vão
rasgas a areia
com o casco furioso.
Em vão, em vão,
nobre fera;
vejo, vejo que vacilas.
Agora teu pescoço
há de receber,
agudo e frio,
o punhal severo do alcaide.
Laçaram-lhe os pés;
seis cavalos são trazidos,
e arrastam Harpado para longe
com rumor alto e jubiloso.
Inclina-te agora, senhora,
de teu lugar,
e concede o anel de prêmio
a Gazul de Algava,
que derrubou Harpado.
A Noiva do Zegri
De todo o sangue dos Zegris,
o chefe é Lisaro;
ninguém maneja o rejón como ele,
nem lança melhor o dardo.
Do lugar de seu domínio
parte antes da aurora;
de Alcalá de Henares
cavalga em veste de luto.
Não cavalga agora
como outrora o vistes correr
ao campo alegre de Toledo,
para arremessar sua vigorosa cana.
Não veste gambesão de seda,
nem rica bordadura
de robe lavrado em ouro,
nem turbante,
nem tahali cravejado.
Nenhuma ametista ou granada
brilha sobre sua fronte;
nenhuma manga carmesim,
tecida por donzelas em Túnis,
o enfeita agora.
O cinturão é negro,
o punho da espada é fosco,
mas a lâmina embainhada
permanece brilhante.
Cobriram seu cavalo berbere
com traje sombrio,
mas ainda são leves
seus cascos.
Quatro bons cavaleiros,
do sangue dos Zegris,
saem com Lisaro.
Nenhuma lança reluzente
denuncia sua aproximação,
mas seus dardos
ainda são robustos.
Em trevas e rapidez
cavalga cada cavaleiro armado;
a espuma na rédea
podeis vê-la clara,
mas nada mais é branco.
O jovem Lisaro,
enquanto avançam,
tira o barrete.
Entre suas dobras
guarda um ramo
de árvore escura e lustrosa.
Se aquele ramo de louro
estivesse longe,
muito pesado
seria seu coração.
A bela Zayda
dera em segredo
esse sinal
ao seu Zegri.
E sempre, enquanto cavalgavam,
ele olhava o dom da amada.
"Deus sabe", disse ele,
"qual será o destino;
talvez eu seja morto em breve.
Ainda és minha,
embora seja escasso
o sinal da esperança
que antes floresceu.
Mas em meu túmulo
ainda terei
o querido sinal
da minha Zayda."
Assim meditava o jovem Lisaro,
quando, adiante no caminho,
pôde vê-los cavalgando devagar.
Então esporeou o cavalo
em sua ira.
O pai enfurecido,
os parentes da odiosa casa de Zayda,
combateram bem naquele dia;
mas, na peleja,
o Zegri conquistou
sua esposa.
As Bodas de Andalla
"Levanta-te, levanta-te, Xarifa,
põe de lado a almofada dourada;
levanta-te, vem à janela
e olha com toda a cidade.
Da guitarra alegre e do violino
fluem notas de prata,
e o lindo alaúde fala
entre o sopro senhoril da trombeta.
Bandeiras brilhantes,
de janelas iluminadas,
ondulam por toda parte;
e a alta, alta pluma
do noivo de nossa prima
flutua soberba no ar.
Levanta-te, levanta-te, Xarifa,
põe de lado a almofada dourada;
levanta-te, vem à janela
e olha com toda a cidade.
Ergue-te, ergue-te, Xarifa;
vejo o rosto de Andalla.
Ele se inclina ao povo
com graça calma e principesca.
Por toda a terra de Xeres
e pelas margens do Guadalquivir,
nunca cavalgou noivo
tão bravo como ele,
tão bravo e belo, nunca.
Aquela alta pluma
que ondula sobre sua fronte,
de púrpura misturada ao branco,
creio que foi trançada por Zara,
com quem ele se casará esta noite.
Levanta-te, levanta-te, Xarifa,
põe de lado a almofada dourada;
levanta-te, vem à janela
e olha com toda a cidade.
Que tens, Xarifa?
Por que teus olhos baixam?
Por que ficas longe da janela
e não olhas com toda a cidade?
Ouvi-te dizer em tantos dias,
e decerto disseste a verdade,
que Andalla cavalga sem igual
entre toda a juventude de Granada.
Sem igual ele cavalga,
e aquele cavalo branco como leite
segue sob seu mestre altivo
com passo majestoso e lento.
Então levanta-te,
oh, levanta-te, Xarifa,
põe de lado a almofada dourada;
sem seres vista,
aqui atrás da treliça,
podes olhar
com toda a cidade."
A dama Zegri não se levantou,
nem pôs a almofada de lado,
nem veio à janela
olhar com toda a cidade.
Mas embora seus olhos
repousassem no joelho,
em vão seus dedos se esforçavam;
e embora a agulha
apertasse a seda,
nenhuma flor Xarifa tecia.
Um belo botão de rosa
ela havia traçado
antes que o ruído se aproximasse;
esse belo botão
uma lágrima apagou,
caindo lenta de seus olhos.
"Não, não", suspira ela,
"não me mandes levantar,
nem pôr minha almofada de lado,
para olhar Andalla
com toda a cidade que olha.
Por que não te levantas, Xarifa,
nem pões tua almofada de lado?
Por que não olhas, Xarifa,
com toda a cidade que olha?
Ouve, ouve como a trombeta cresce,
e como o povo grita!
Ele para junto ao portão
do palácio de Zara;
por que continuas sentada,
por quê?"
"Junto ao portão de Zara
para o par de Zara;
nele hei de reconhecer
o jovem de olhos escuros
que me jurou fidelidade
com lágrimas
e foi meu amante?
Não me levantarei,
com olhos sombrios,
nem porei minha almofada de lado,
para olhar o falso Andalla
com toda a cidade
que olha."
Os Brincos de Zara
"Meus brincos! Meus brincos!
Caíram no poço,
e o que direi a Muça
não posso, não posso saber."
Assim, junto à fonte de Granada,
falou a filha de Albuharez.
"O poço é fundo,
lá embaixo jazem,
sob a fria água azul.
Muça os deu a mim
quando disse seu triste adeus,
e o que direi quando ele voltar,
ai, não posso saber.
Meus brincos! Meus brincos!
Eram pérolas engastadas em prata,
para que, estando meu mouro longe,
eu jamais o esquecesse;
para que jamais escutasse
outra língua,
nem sorrisse
para a história de outro,
mas lembrasse
que ele havia beijado meus lábios,
puros como aqueles brincos pálidos.
Quando ele voltar
e souber que os deixei cair no poço,
oh, que pensará Muça de mim?
Não posso, não posso saber.
Meus brincos! Meus brincos!
Ele dirá que deveriam ter sido
não de pérola e prata,
mas de ouro
e brilho cintilante;
de jaspe e ônix,
e diamante claro,
mudando com a luz que muda,
em radiância insincera.
Dirá que a uma mente mutável
não convêm bem
gemas imutáveis.
Assim ele pensará;
e o que direi,
ai, não posso saber.
Pensará que, quando fui ao mercado,
demorei-me pelo caminho;
pensará que dei ouvido disposto
a tudo quanto os rapazes
pudessem dizer.
Pensará que a mão de outro amante,
presa entre minhas tranças,
soltou dos ouvidos
onde ele os havia posto
meus anéis de pérola.
Pensará que, brincando assim
ao lado deste poço de mármore,
minhas pérolas caíram;
e o que direi,
ai, não posso saber.
Ele dirá: sou mulher,
e somos todas iguais.
Dirá que amei
enquanto ele esteve aqui
para sussurrar sua chama;
mas que, quando partiu para Túnis,
rompi minha promessa virginal,
não pensei mais em Muça,
nem cuidei de seu sinal.
Meus brincos! Meus brincos!
Ó poço infeliz, infeliz!
Pois o que direi a Muça,
ai, não posso saber.
Direi a verdade a Muça,
e espero que ele acredite:
que pensei nele pela manhã
e pensei nele ao entardecer;
que, meditando em meu amante,
quando o sol já se fora,
eu segurava seus brincos na mão,
sozinha junto à fonte;
e que minha mente estava além do mar
quando eles caíram de minha mão;
e que profundo jaz seu amor
dentro de meu coração,
como eles jazem
dentro do poço."
O Lamento por Celin
À porta da antiga Granada,
quando todos os ferrolhos estão cerrados,
ao crepúsculo,
na porta da Veiga,
ouve-se um tropel.
Ouve-se um tropel,
como de cavalos
pisando devagar;
e uma voz de mulheres chorando,
e um pesado som de luto.
"Que torre caiu?
Que estrela se pôs?
Que chefe vêm estes lamentar?"
"Uma torre caiu,
uma estrela se pôs.
Ai, ai de Celin!"
Três vezes batem,
três vezes clamam,
e escancaram as portas.
Abatidos entram,
e em pranto avançam.
Em linhas sombrias
reúnem-se sob o pórtico oco,
cada cavaleiro segurando na mão
uma tocha negra e flamejante.
Molhado está cada olho
quando passam,
e tudo ao redor é lamento,
pois todos ouviram a desgraça:
"Ai, ai de Celin!"
Ontem um mouro o matou,
do sangue dos Bencerrajes;
foi na justa solene,
enquanto os nobres
estavam ao redor.
Os nobres da terra estavam ali,
e damas luminosas e belas
olhavam de suas janelas gradeadas,
para partilhar a visão altiva.
Mas agora todos os nobres lamentam,
e as damas choram,
pois ele era o cavaleiro amado
de Granada.
"Ai, ai de Celin!"
À frente dele cavalgam seus vassalos,
em ordem, dois a dois,
com cinzas espalhadas nos turbantes,
visão digna de piedade.
Atrás dele vêm suas quatro irmãs,
cada qual envolta
em véu negro.
Entre as batidas sombrias
do tambor,
erguem sua história dolorosa.
Quando o tambor abafado para,
ouvis o lamento
das irmãs sem irmão;
e todo o povo,
de perto e de longe,
clama:
"Ai, ai de Celin!"
Oh, belo jaz ele no esquife,
sobre o pano púrpura,
a flor de toda a juventude de Granada,
o mais belo de todos.
Seus olhos tão escuros
estão fechados;
seu lábio rosado
está pálido.
A crosta de sangue
jaz negra e baça
sobre sua malha brunida.
E sempre o tambor rouco
interrompe o lamento;
seu som
não parece som da terra:
"Ai, ai de Celin!"
A donzela moura
está à treliça;
o mouro está à sua porta.
Uma moça torce as mãos,
outra chora profundamente.
Até o pó
os homens inclinam a cabeça,
e cinzas negras espalham
sobre suas roupas bordadas
de carmesim, verde e azul.
Diante de cada porta
o esquife para;
então explode o alto lamento,
de porta e treliça,
de cima e de baixo:
"Ai, ai de Celin!"
Uma mulher muito velha
sai para fora
quando ouve o povo clamar.
Seu cabelo é branco como prata,
seu olho vidrado
como chifre.
Foi ela quem o nutriu ao peito,
quem o nutriu
há muito tempo.
Ela não sabe
por quem todos se lamentam,
mas logo saberá bem.
Com um grito profundo
rompe a multidão
quando seus ouvidos recebem o lamento:
"Deixai-me beijar meu Celin
antes que eu morra.
Ai, ai de Celin!"