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Maternidade

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Maternidade

Capítulo 2 · Maternidade

Primeira Parte — I

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A felicidade basta-se a si própria, a dôr quer companhia. Não é só a criança inconsciente que, ao sentir-se magoada, ou ao julgar-se ameaçada, grita instintivamente pela presença materna, clamando as duas silabas divinas: — Mamã! Tambem os adultos, ao serem golpeados por um desgosto profundo, pensam na mulher que lhes deu a vida, na certeza de que nin 

guem no mundo o compreenderia melhor, nem compartilharia tão bem! o seu sofrimento. Assim, a cada refréga do destino; a cada vacilação da vontade, a cada sombra de perigo, verdadeiro ou imaginário, desses que se erguem pcr vezes diante dos passos de toda a gente, só por excepção haverá quem não evoque das nevoas do passado, onde ela se sumio para sempre, ou do proprio presente ainda aquecido pela sua existencia, a doce, a grande amiga consoladora. Tanto o amor materno é o eixo em que gravita o mundo do sentimento humano, que, se por qualquer circumstancia algum dos nossos astros se apaga ou es 

corre para o vasio do espaço, logo o nosso pensamento se volta para ele para que nos mantenha no equilibrio moral e nos sustente na altura. Se só as dôres que pungem, as grandes dôres profundas e silenciosas têm a faculdade de nos fazer sentir com toda a clarividencia a magnitude desse amor sem limites, a culpa é da natureza que não nos ensina senão a olhar para adiante. No desejo de evolver, na ansia de criar, a humanidade caminha desde a infancia com os olhos no futuro, mal lhe importando o que lhe está ao lado ou lhe ficou para trás. Lembrar, é função abstracta do espirito, excesso de sensibilidade,

cultivada mais pela inteligencia do que brotada das raizes naturais da Vida. Ninguem acende fachos para alumiar caminhos já andados, mas aqueles de que preciza evitar perigos ou em que haja alguma cousa a construir... Renovar, renovar, é a lei do mundo, e é no filho que a mãi se renova e continua. O amor dele por ela não tem a mesma razão egoista. Ser bom filho, é ainda por isso mesmo mais belo do que ser bom pai ou boa mãi. Escreveu Goethe que: «toda a pessoa que não tiver sentido veneração pelos pais não póde ser venerada pelos filhos. A corrente do Amor na familia preciza ser forjada em todos os seus élos com

a mesma liga de sinceridade e de resistência. Sabendo corresponder integralmente ao carinho com que foi criado o filho cede a um movimento menos animal do que oriundo do seu raciocínio ou dessa segurida natureza feita no homem pela civilização e de que afloram sentimentos tão delicados e subtis. É por isso mais raro e mais comovedor ver-se no meio da multidão um miancebo a defender uma velhinha, do que ver-se uma mulher ainda moça a defender uma criança. Por que? Porque se presume que esta mulher represente um papel de que a propria beleza a torne orgulhosa, e que lhe é imposto pela natureza

impulsiva e aquele cumpre uma ação deliberada pela delicadeza piedosa do seu raciocínio e da sua consciência. É do fundo dessa consciencia que o nome de mãi irrompe como um brado de socorro, sempre que um perigo nos ameaça ou que um grande desgosto nos faz sofrer... Esquecido na alegria ele é então lembrado na adversidade...

Maternidade

Sinopse

Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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