Universo da obra
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A MULHER DIRIGENTE Mas nesta guerra a mulher não foi só a enfermeira sem sono e sem cansaço, procurando adoçar pela magia dos seus cuidados o mal produzido por uma causa injusta; não foi só a grande vítima, lezada no que tinha de mais querido no seu coração, foi tambem: iniciadora e organizadora de associações múltiplas e variadas, que ela não soube só criar, mas administrar com proficiência e
vantagem. Como jornalista, nem mesmo nos dias de maior terror a pena lhe desfaleceu entre os dedos nervosos. Ninguem trabalhou mais, ninguem escreveu melhor durante todo o periodo da guerra, do que essa admiravel parisiense chamada Yvonne Sarcey, que, a par e passo que iluminava o seu jornal com páginas sugestivas e patrióticas, transformava as salas da sua redacção em enfermarias e fundava as já célebres Maisons Claires, asilos hospitalares para os filhos doentes dos soldados pobres. Assim, ao relampaguear dos obuzes, a bondade, que é a maior força da mulher e a sua expressão
mais peregrina, toda se desabrolhou e rescendeu como um jardim na tempestade. A «União das Mulheres de França» fez milagres: fundou a Associação de Socorros Nacionais que distribuia vestimentas, sopas, leite, mesadas, e arranjava trabalho para as que lh'o pediam. Ocupava ela mesma innúmeros operários; espalhava dinheiro pelos soldados; fundou cantinas e refúgios; acudio a Franceses e a legionários; distribuio livros e revistas pelas trincheiras e organizou espectaculos para distracção dos combatentes que, fartos de guerra, ouviam como dons do céo os enredos de amor...
Esse clamor piedoso não era só da francesa. Em Londres, como em Paris, surgiram em todos os bairros, como por encanto, casas montadas e servidas por damas da sociedade em benefício dos artilheiros surdos, dos cégos, dos orfãos, das viuvas dos soldados mortos na guerra. Nessa faina de socorrer, proteger, compensar, auxiliar, as senhoras transformavam palácios em' hospitais, castelos em oficinas e jardins em'crêches. Descerrando os olhos, abrasados pelo fogo das batalhas, o soldado sorria muita vez ao ver sobre a sua cabeça, decorando tectos sumptuosos, rondas de sílfides delicadas, ou querubins de carnação rosea. E não
cei em que enternecedoras cousas deveriam pensar nos parques de luxo as estátuas das deusas, se ás suas pupilas de pedra fosse dada a ventura de contemplar as criancinhas protegidas...
Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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