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Capítulo 22 · Maternidade

Oração da bandeira

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ORAÇÃO DA BANDEIRA Oração proferida no Campo de S. Cristovam pela autora ao entregar aos alunos da Escola Militar a bandeira que lhes foi oferecida pelas Senhoras brasileiras. Em 7 de Setembro ce 1922.

ORAÇÃO DA BANDEIRA Estremeci de jubilo na hora supremamente honrosa para mim, em que a nobre comissão de senhoras, que humilde e imperfeitamente aqui estou representando, me incumbiu de passar para as vossas mãos varonis a bandeira que os seus dedos amoraveis teceram com tamanho carinho quanto entusiasmo e paixão patriótica.

Quiseram essas senhoras, minhas conterraneas, que fosse uma voz de mulher que vos transmitisse com a sua dadiva o seu pensamento, e eu, receiando não o poder atingir em toda a sua magnitude, procurei expressa-lo pelo que sinto no meu. À afinidade dos sentimentos femininos conseguirá talvez que eu o não atraiCOB ss Eis-me pois diante de vós, não como oradora, para o que me falecem os atributos da eloquncia, da sonoridade da voz e do fulgor das imagens, que dão á filosofia dos conceitos o brilho que seduz e a harmonia que arrebata, mas como alma em

que todas as almas femininas se resumem, alma maternal e amiga, cheia de fé em vós, cheia de esperança nos destinos claros da nossa grande Patria comum. Soldados! Entre vós que me ouvis, e a quem com todo o coração me estou dirigindo neste instante de vibração comovida, haverá quem tenha aprendido a lêr, no seu curso primário, em algum dos meus livros infantis, e de um deles talvez mesmo tivesse decorado certa pequena pagina, por ocasião das solenidades festivas da Escola, pagina ha perto de trinta anos frequentemente recitada pelos colegiais brasileiros e que tem por

titulo estas palavras — «A nossa Bandeira» — É um hino. Foi o primeiro que se escreveu sobre tal assunto para os leitores pequeninos do nosso pais,e a que só aludo agora para vos relembrar a sinceridade do meu culto por essa representação simbolica da nossa nacionalidade. As palavras que a mão comovida e nervosa da escritora traçou então nesses curtos periodos sugestivos, se não são as mesmas com que ela agora vos está falando, querem significar o mesmo sentimento de amor, de justiça e de respeito pela Humanidade. Sem esses preitos não ha grandes Patrias. Que esta bandeira com tanto ardor trabalhada e com tanto entusiasmo cfe 

recida pelas senhoras desta cidade, vos inspire sempre bons pensamentos, que ela vos guie com intrepidez e orgulho em bem da terra amada em que nascemos, mas jámais vos incite a atacar em' outras o direito e a paz dos seus povos. À mulher brasileira só admite o armamento dos seus filhos pela certeza em que está de que as armas jámais serão nas suas mãos objecto de ofensa ou de conquista, mas sempre de salvaguarda e de defesa. Nas pátrias antigas a bandeira nacional é sobretudo o simbolo do passado; reflectem-se nela séculos longos de glória guerreira, nem sempre pura; toda a evolução do po 

vo, desde os primordios confusos em que as primeiras tribus nómades acamparam á confluência de dous rios, formando com o primeiro centro rudimentar de comercio, o nucleo primacial da patria; toda a historia da nação, entretecida de dores e alegrias, ora lugubre e torva, em' periodos de opressão e desgraça, ora radiosa e sublime, em: épocas de expansão, de exaltação colectiva em torno de um ideal'de beleza superior, a bandeira as reflecte, as representa, as incarna. Para nós, povos novos do continente novo, a bandeira não é lembrança, não é memória, não é passado; é desejo, é sonho, é ideal, é futuro! Os anos de vida dos povos

contam-se por séculos, e nós só agora comcemoraremos o primeiro aniversario da nossa vida. O nosso passado é de ontem; as nossas energias, a nossa capacidade de acção no mundo, a eficiencia do nosso esforço colectivo de trabalho honcsto, a elevação, a nobreza dos nossos ideais de justiça ec de perfeição moral, só no futuro se poderão praticar e utilmente afirmar na terra, em beneficio dos homens. E é o sentimento dessc futuro, o presentimento dessa grandeza, a certeza certa desse fim, que aos nossos olhos avidos e sofregos a bandeira do Brasil representa. Por isso a vêdes cheia de estrelas... Nós mulheres, pacifistas como o

nosso sentimento nos determinou que fossemos desde que a nossa inteligencia se abrio ao sol da razão, e o nosso coração pôde adivinhar a dôr mesmo antes de a sentir, nós, as mulheres, a quem a Maternidade esclarece, precisariamos exprimir-nos em linguagem peregrina, de tão claros termos, tão convincentes, que todos os homens nos entendessem, na atenção que nos prestam e que até ha bem pouco nos negavam, porquanto para os homens, a lingua em que nós falavamos, em' que vasavamos todo o espirito do nosso ser, tinha apenas um nome — Utopia — e nenhum sentido mais! Mas as horas que passam mudam, com as suas sucessivas

vagas de luz e de sombras, o aspecto e o vulto real das cousas e das ideias universais, O que era apenas suposta nevoa obscurecendo o horizonte, aparerece-nos depois aos olhos como solida montanha, por cuja encosta se despenham rios e onde o arvoredo ergue frondes de tufosa ramagem. O pacifismo das mulheres já não ilude ninvnem. Ele já não é sómente um traço imarinario e longinquo na politica de todos os povos; é um porto, onde ancoram frotas de guerra, frotas combativas não pelo dominio, não pela usurpação, não pela gloria do renome vão cu da fortuna incerta, mas pela Justiça e pela Fraternidade!

Notai que eu não uso aqui da palavra Bondade, sentimento mais de piedade que de Justiça, de nolição que de acção; este brota, espontaneo das almas, aqueles, nascem! do raciocinio. Saber raciocinar, ser capaz de faze-lo, é grande virtude de povos talvez a maior. Em nenhum momento da historia do Mundo este convencimento fez penetrar tão profundamente em nosso peito de mulher as suas raizes vivas e ardentes e nunca tão nitidamente compreendemos todas quanto a manutenção da paz entre as nações mal dispostas é mais dificil, mais nobre e mais exigente de sacrifícios altos e dolorosos que a guerra, a que os homens embai 

dos são quasi sempre levados, ás tontas, por impulsos tão repentinos quanto transitorios de paixão. Saber elucidar, saber distinguir a Verdade, saber resistir, saber dominar os assomos irreflectidos da cólera momentanea com altivez, com razão imposta pela vontade e pela reflexão forçadamente serena, é virtude tão excelsa que atinge á sublimidade suprema e torna o homem superior a si mesmo! É este o sonho de todas as mulheres; é pelo menos este o sonho de todas as Mais! Ao ofertar-vos em nome das minhas conterraneas a bandeira tecida pelos dedos diligentes com o pensamento em vós, que sois o sangue vi1a

226 AATERNIDADE vo e moço da nossa patria adorada, eu quereria que a sua projecção desenhasse no sólo fecundo da nossa terra a sombra de uma outra bandeira, espiritual, em que se casassem todas as côres do prisma; uma outra bandeira até aqui nunca desenhada pelas mãos do egoismo, nem vista pelos olhos da inveja ou da ambição arvorada em mastros da terra ou do mar, uma bandeira em que todas as outras bandeiras do Cilobo se contivessem harmonizadas, a bandeira da Humanidade, a Bandeira Universal! Se o nosso estandarte não é o unico em que fulguram estrelas, é, todavia o unico em que se reproduz o Céo! Encurva-se nele como se en 

curva sobre a Terra, a massa azul do firmamento, lampéjante, palpitante de astros! E o Céo é de todos! O tesouro das estrelas é cabedal comum de todos os homens capazes de erguerem ao alto a vista do pensamento! Soldados! Entrego-vos em nome da mulher brasileira, o lábaro celestial, o estandarte das estrelas, o pavilhão da Paz!»

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Sinopse

Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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