Universo da obra
Universo da obra
Está escrito que a maior parte dos grandes homens tiveram por mãi uma mulher superior. Goethe dizia ter herdado do pai a estatura e o modo sério de encarar a vida, e da mãi a natureza jovial e a fantasia criadora. Foram os dons maternos que o tornaram: amado, não só no seu país como no mundo inteiro, bem' sabido como é, que os homens de genia não
têm por patria só a terra em que nasceram. Foi isso o que fez dizer a um outro escritor da sua raça e do seu tempo o filosofo Schopenhauer, por ocasião da guerra napoleonica, escrevendo em latim ao Reitor da Universidade de lena: «Quando no, princípio deste verão os ruidos da guerra enxotaram as Musas da Universidade de Berlim, eu afastei-me com elas, convencido de que o meu destino me chamava mais a servir a humanidade pela cabeça do que pelo braço, e que a minha pátria era maior do que a Allemanha!» Se de artistas geniais fosse só composta a humanidade, a idéia da
guerra seria tão absurda para o mundo, quanto o é, ainda hoje, para a maioria dos individuos, a idéia da Paz Universal! Desgraçadamente predomina ainda o número dos que obedecem mais aos instintos da animalidade do que ás solicitações da Razão. Tambem Schopenhauer tinha herdado da mãi o sentimento do belo e a faculdade de o poder exprimir em: literatura, embora o seu sêr moral não lhe devesse nenhum benefício, porque ela ftão o soube nunca fazer feliz. Não faltou, por isso, quem tivesse atribuido a essa razão a antipatia manifesta do grande escritor pelas mulheres.
Seria na verdade querer tapar o Sol com uma peneira, negar a existência de mãis más e de má influência, mas é justo observar que a acção destas é quasi sempre inconsciente e desintencionada. Se a maior parte delas tivesse tido o espirito vasculhado por bons conselhos e uma educação firme e sã, o número das más seria ainda mais restricto e méramente constituido por perversidades doentias e irremediaveis! Não é com excepções que se argumenta. Sobre as boas sugestões morais exercidas pelas mãis perguntou um escritor francês do século XVIII:
Zs «Que poderão aprender de uma mulher um! principe ou um rei?» E ele responde: «O que S. Luiz aprendeu de Branca; Luiz XII de Maria de Cleves; Henrique IV. de Jeanne d' Albret. Entre sessenta e nove monarcas que tinham governado a França, sómentc tres amaram o seu povo e esses tres, cousa notavel, foram educados por suas proprias múis». L'avenir d'un enfant est touiours Poeuvre de sa mére, disse Na
poleão. Tambem ele, filho de um homem ocupadissimo, foi inteiramente dirigido pela mãi, mulher de grande energia. Avigorando no filho as qualidades de resolução e de coragem, ela não cogitou entretanto em insuflar-lhe o génio da guerra, que o celebrizou. Isso seria impossivel, porque maternidade e guerra são antíteses. Uma cria, outra destróe; uma é vida, outra é morte; uma é benção, a outra é maldição. É certo que a história consigna como heroinas tipos de mulher que armaram outr'ora os filhos soldados, incitando-os a partir para a guerra. Mas á clara luz da razão, e do sentimento essas mulheres não foram
heroinas, foram loucas, porque só a loucura póde explicar tão deshumano como terrivel gesto. A guerra é detestada pelas mãis; nenhuma delas, medianamente equilibrada, incitaria no animo do filho pensamentos que lhe fossem favoraveis, nem mesmo pela previsão absurda de que essa guerra o fizesse um dia subir os degráos de um trono como o da França! Não é para as carneficinas asselvajadas dos campos de batalha que as mulheres, mesmo as mais ambiciosas, dão á carne da sua carne, á alma da sua alma, o sossego do seu pensamento, a beleza do seu corpo, a esperança da sua velhice. Para as mãis, fóra as excepções
com as quais não argumento, o mundo tem uma significação mais elevada e o homem um destino cuja perfeição será completamente atingida, no dia em que raiar no mundo inteiro o Ideal da Bondade e da Justiça. Só então as mãis poderão abranger o universo com o olhar tranquilo, porque na sua consciência não pesará a dor de ter dado a vida, e ter criado filhos, para os vêr mutilar e matar a ferro e a fogo.
Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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