Universo da obra
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PERFIS FEMININOS No negregado pórtico desta guerra, eternizar-se-ha o vulto de uma mulher, como uma figura de anjo enluarado. Da candidez dos seus véus se irradia uma claridade de redenção; da onda azul do seu olhar profundo, uma clemência infinita. Abriram-lhe rosas de sangue na alvura da carne sem com isso obscurecerem a sua fronte christã nem lhe
apagarem dos lábios finos a palavra da verdade que neles resplandecia. Por que foi fuzilada miss Cavel? Por ter sido piedosa e por não ter mentido. Dera escapúla a prisioneiros belgas ameaçados, encaminhando-os para um país neutro e não negara o facto quando lh'o perguntaram. Não tinha medo nem tinha remorsos. Que fizessem o que julgassem e entendessem do seu dever. Ela cumprira o seu. Só tinha praticado o bem. As suas mãos finas e diligentes haviam pensado sempre com igual solicitude ferimentos de amigos e de inimigos, procurando suavisa-los com o bálsamo da sua enternecedora paciência.
A quem tem uma consciência assim, a morte não intimida. Edith Cavel fica na história funesta destes dias trágicos, como o Simbolo da compaixão e da veracidade. Ela representa a Vida diante da Destruição; a Sinceridade em face do Embuste; o Amor em frente do Ódio. Por um movimento de generosidade semelhante, ia todos os dias, toc, toc, toc, uma maãizinha de aldeia percorrer no seu burrinho não sei quantos quilómetros para levar aos pobres soldados esfalfados e se
dentos água de uma nascente cristalina e mel fabricado pelas abelhas da sua horta. Nada mais simpatico nem enternecedor do que o sacrifício dessa velhinha de oitenta anos cavalgando por entre sebes erriçadas de armas inimigas, grandes extensões, só para ir amenizar os lábios seccos dos soldados com uma gotinha de água fresca. Onde rria a sua velhice encontrar tamanha energia senão na Bondade, suprema força da vida” Quantas figuras femininas perpassaram por entre as linhas fúne
bres deste capítulo da história! nem sabemos agora, nem talvez o saberemos nunca... Só a Russia trouxe para ele um contingente trágico. De restc a Russia sempre foi um país de tragédias onde as mulheres têm sabido ser grandes patriotas, grandes revolucionárias, grandes idealistas, grandes sofredoras e as melhores civilizadoras da sua raça. Na história da Russia dos Cezares está ainda para ser revelada ao mundo a parte tomada pelas mulheres em prol dos oprimidos. Filhas, algumas, de familias ricas, faziam-se médicas ou professoras para irem propagar idéias e iluminar os pobres mujiks embrutecidos e explorados.
De noite ou de dia, ao vento, á neve, ao Sol, sem conforto, sem companheiros, sem glorias, elas caminhavam ror estradas cansativas apoiadas apenas ao bordão da sua caridade. Escas, melhor do que as outras, que muis tarde se fardaram como soldades para combaterem como tais, souberam servir e sacrificar-se por um idéal! Foi para fazer fundo a essas feições de santidade que se inventaram no passado as tintas de ouro das Iluminuras classicas, em que a história desta guerra deveria fixar tambem a figura esguia, delicada e loura de uma rainha. A Rainha da Bélgica. Ela irrompeu desse charco de san
gue e de lama, como um lirio de um paúl, toda aureolada pelo duplo martirio de vêr o seu Reino e o seu povo ofendidos, e ofendidos pela sua pátria de nascença. À maior dôr deste cataclismo coube dentro do coração de uma mulher. E é tão evidente o seu desgosto e tão sublime a sua coragem, que ela já aparece á imaginação popular como uma imagem de santa medieval, capaz de transformar em rosas o azinhavre das próprias decepções. Nunca houve guerra por que a mulher se interessasse tanto. No
mundo galante dos salões a fantasia do luxo desaparece como a cinza ao vento. O desejo de proteger os que sofrem e de levar-lhes um éco de solidariedade cria a invenção carinhosa da afilhadagem. Todas as senhoras e todas as meninas querem ter um afilhado, entre os soldados do «Front», a quem escrevem, a quem mandam cousas e a quem querem bem. Para os socorrer multiplicamse benefícios e vendas de caridade. A Princesa Victoria da Inglaterra escreve a todas as grandes damas dos países aliados pedindo a cada uma, uma simples pérola dos seus adereços para com elas fazer o maior colar do mundo, destinado a adornar
o pescoço de alguma milionária americana ou turbante de algum rajah das Indias fantasistas... Infinitamente mais preciosa do que o fio de pérolas da Princeza é a força de ânimo dessa modesta religiosa que nos está a sorrir da porta do seu convento. Quem é? Uma filha de S. Vicente de Paula, ainda moça, se bem que Superiora num asilo de velhinhos pobres.
Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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