Universo da obra
Universo da obra
«O homem tem nas mãos o destino dos povos e a mãi tem nas mãos o destino dos homens». Este aforisma atribue ao papel da mulher na sociedade a maxima dentre todas as responsabilidades humanas. Quer dizer que o homem nascido e criado pela mulher, dirigido pela mulher, será tanto mais digno quanto mais sabiamente ela lhe tiver ensinado na infancia e na adolescên
cia a respeitar a vida e a considerar todas as suas bellezas morais. Mas para sugestionar ideais superiores não basta 0 coração, nem essa especie de instinto que tão maravilhosamente segreda ao ouvido das mãis cousas encantadoras; é tambem precizo cultura, compreensão das paixões e das suas fraquezas. Na sua — Philosophia de Direito, disse Larmonier que «nas sociedades modernas são as mãis que nos dão os nossos primeiros sentimentos e as nossas primeiras idéias. É a mãi quem reconhece o caracter e o genio do filho, aplaude a sua vocação, ampara-o contra a má disposiçãc paterna, consola-o, fortifica-o e entrega-o por fim 'á sociedade».
O escriptor refere-se ás sociedades cultas, áquelas em que a mulher elabora, não só pelo influxo da sua intuição como pela da reflexão, na arquitectura de um edificio de que ela constróe apenas o alicerce, mas com firmeza, para que a obra do futuro não corra o risco de se desmoronar pela base. Se é certo que as almas nascem já com as suas tendencias, suas qualidades ou defeitos, é tambem inegavel que a acção vigilante e o conselho atilado que impele sem violencia, póde melhorar os fracos e aperfeiçoar os fortes. Por acreditar que as mãis têm nas mãos o destino dos homens, foi
que o celebre Scheridan concebeu a idéia de fundar na Inglaterra uma Educação Nacional para as mulheres. «As mulheres nos governam, disse ele, procuremos torna-las perfeitas. Quanto mais esclarecidas forem, melhor nos esclarecerão. Da cultura do espirito feminino depende a nossa cultura. É com a mulher que a natureza escreve no coração do homem». É possivel que Scheridan tivesse ido longe de mais, não serei eu quem negue nem quem o afirme, na crença em que estou de que, se a influencia do sentimento feminino é inegavelmente imensa na vida do homem, as aptidões masculinas para a alta
cultura são innegaveélmente superiores ás da mentalidade da mulher. Não sei até onde sentimento se possa separar de inteligencia, se são porém cousas distintas, visto que ha estúpidos bons como ha inteligentes perversos, deve-se educar o coração como se educa o cérebro fazendo-o compreender todas as modalidades, embora infinitamente versáteis da vida humana. Para essa educação que a mulher deve infiltrar no espirito do homem sem que ele mesmo o perceba, porque a sua vaidade não o toleraria de outro modo, é que ela se deve preparar no sentido de tornar o seu espirito cada vez mais clarividente e mais justo.
Por emquanto, entre nós, pelo menos, a mulher é ainda uma vítima do seu meio. Ela se deixa” imbuir pelas idéias que ouve debater á sua volta e muitas vezes mesmo excede, sem reflexão, em palavras impensadas certas opiniões que não podem, e de facto não estão de acordo com o seu modo mais intimo de sentir. É porque essas ignoram o que está no fundo da sua consciencia poi que hunca as ensinaram a olhar para dentro. Embora pareça estúpido o dizer-se, creio que teriamos alguma cousa a aprender em nós mesmas se prestassemos atenção a todos os indicios de forças que latejam sepultadas em nossa inteligencia, como
vestigios de um passado perdido ou como formação inda mal esboçada de um futuro diverso... A «Escola para Mulheres» a que se referia Scheridan, não era para doutoras, mas para combate aos erros centenários e ás tradições injustas que ameaçam continuamente a tranquilidade do Lar: — O homesweet home! — em que um poeta da sua raça consubstanciou a suprema harmonia e a mais perfeita felicidade do universo. Que lindas coisas saberiamos da Humanidade se, de cada uma das 5
suas civilisações, conhecidas ou presumíveis, nos tivesse ficado uma obra, em que os dedos imparciais da Historia tivessem gravado os feitos e os exemplos maternais do seu tem» po; e isso sem comentarios, sem atavios, sem o recurso de sugestões pelo adorno da palavra estilisada, só pela exposição dos factos em'si. No Egito, na India, na China antiquissima, nos povos mais exoticos, mais impenetraveis ou mais barbaros, veriamos com assombro religioso heroicidades, abnegações e virtudes, de nos fazerem dobrar os joelhos e erguer as mãos dando graças ao céu. Nessa imensa biblioteca de indice uniforme, quantas maravilhas
imprevistas comoveriam o nosso sentimento... Em prosa larga, o escritor francês Aimé Martin, escancara em um dos seus livros as portas de uma prisão e concita o leitor a olhar para dentro. «Lá vereis, diz ele, no meio de um punhado de homens que vão ser executados, um moço de fronte ampla, e radiosa que se ocupa em' escrever os seus ultimos pensamentos. E Barnave, um dos maiores oradores da assembleia constituinte, o ri
val de Mirabeau. Nesse instante terrivel ele pensa em sua mãi, é à ela a quem escreve agradecendo a coragem que o anima e com que momentos depois subirá ao cadafalso... E é, ainda, com o mesmo espirito que aconselha á irmã querida: — “É minha mãi quem deve educar teus filhos, ela lhes comunicará essa alma corajosa e franca que faz vs homens e que foi para meu irmão e para mim superior a todo o resto «a nossa educação. Como se advinhasse a tempestade que se desencadearia um dia sobre os filhos adorados, essa mulher energica tinha-os apercebido de coragem com que pudessem enfrentar a Dor e a propria Morte».
Foi esse mesmo amor profético que ditou a uma rude camponeza sem instrucção, insuflar no seu filho o gosto pela sciencia quando em pequenino lhe explicava sem outro auxilio mais do que o do seu entusiasmo e simples bom' senso, as maravilhas da natureza, cujas interpretações lhe deram depois a ele tamanha celebridade! Como a bondosa mãi de Kant, foi a de Cuvier, que instintivamente guiou o filho nos seus primeiros passos para os caminhos mais convenientes á aplicação do seu espirito. E assim muitas outras mãis felizes e ignoradas terão penetrado as tendencias dos filhos antes mesmo que eles
as tenham compreendido, ou antes: terão procurado desenvolver neles os seus próprios anelos, transmitindolh'os mais perfeitamente pela palavra do que mesmo pela herança do sangue.
Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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