Universo da obra
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COMO ENCARA A MULHER A IDEIA DA GUERRA A mulher não crê nas vantagens apregoadas pelos adeptos da guerra de que ela seja um mal necessario, que apurã energias e dá ás nações que a praticam elementos novos de vitalidade e de progresso. Para a mulher, a guerra é sempre sinónimo de desastre, é a negação de tudo que ella sonhou, desde que lhe acendeu
no cerebro a luz da consciência, de tudo quanto ela desejou e criou... A seu vêr a guerra representa só o instinto animal grosseiro e impetuoso; a mesma força que faz estraçalharem-se entre si os animais inferiores, mesmo os mais insignificantes. Por isso ela pergunta com tristeza e espanto: — De que servirá então ao homem o raciocinio?! Se ele se deixa vencer pelos mesmos impetos dos bichos selvagens, onde o poder superior e preclaro da sua Razão? Ele sabe que desde o seu primeiro vagido até á sua ultima lágrima, faz parte de uma guerra ferocissima e perene, em que mesmo os elementos mais imponderaveis, como
o ar e o perfume, têm infinitas legiões de inimigos que o atacam e que se devoram entre si. À vida não é outra cousa senão» uma guerra incessante em que a destruição de uns aproveita á nutrição de outros. Mas o homem que mata o homem, a que principio ou a que leis da criação universal obedece? A nenhuma. Ele só mata por vaidade, por egoismo, por inveja; nem a vaidade, nem o egoismo, nem a inveja merecem um alimento tão nobre! A mulher não compreende de um modo absolutamente perfeito a
conhecida formula: — Queres a paz? Prepara-te para a guerra. E não a compreende, porque no seu modo de pensar toda a criatura que se destina a alguma cousa sentirá forçosamente necessidade de a cumprir. “Quem traz uma arma constantemente comsigo, disse Maurice Daunay, acabará por querer fazer uso dela». E que o não faça. O desejo sopitado de um exercito de homens preparados para uma acção violenta, e constrangidos a modorrarem em calmaria, tem tambem uma influência que, por invisivel, não deixa de ser poderosa: a influência do pensamento, a influência telepática da vontade, silenciosa, persistente, hu
mana e cuja vibração tem o poder de abalar até as nuvens, quanto mais a outros seres da mesma espécie. Emquanto houver quarteis haverá guerras. A mulher não crê que, voltando da guerra mutilado, surdo ou cego, inutilizado emfim, para o resto de toda a sua vida, o homem' pense ainda na vantagem de se dirimirem pelas armas em 'massas colectivas as questões internacionais... Ele viu a Morte muito de perto para não compreender o que a Vida exige de cada ser. E essa convicção crescerá á proporção que os dias forem passando, logo que o sino de rebate, que reu13
niu a todos na hora da refrega, deixe de badalar por ter cessado a tempestade. Será chegada então a hora do aleijado sentir o seu isolamento .. A mulher não crê que um' povo, que tenha o sentimento da dignidade e da honra, precise, para poder cumprir o seu dever na hora do perigo, de se sujeitar á obrigatoriedade de uma disciplina que lhe tolhe a liberdade individual. Nesta guerra teria sido menos consciente e menos admiravel o Exer
cito da Inglaterra do que os dos demais paises? A mulher não crê na afirmação de que, sempre após uma guerra a nação que nela se tenha empenhado apresente fenomenos novos de força e de vitalidade. No seu pensamento, essa é uma ilusão que se confunde com a da convalescença de um indiduo escapo de uma doença em que encarou a Morte de face. É facil confundir-se então o bem estar da volta á saude, com uma energia nunca antes experimentada... A verdade é que toda a doença, seja ela qual fôr,
deixa depressões no organismo de quem a sofreu... A sensação de maior robustez não passa nesse caso de uma ilusão... A mulher não compreende que homens, investidos das mais altas e mais graves responsabilidades, consintam na trama, e teçam eles proprios rêdes de intrigas e de desavenças capazes de arrastarem á guerra outros homens, pacificos, trabalhadores, necessitados de ordem, e de sossego, tanto da sua, como de alheias terras. À mulher não compreende que ainda haja neste tempo povos capazes de invadirem de surpresa paises de outras gentes, só pelo ambicioso
desejo de riquezas, levando tudo diante de si a ferro e fogo; agora o o que ela compreende é que sendo a sua terra materialmente invadida, o seu lar e a vida dos seus ameaçados, todo um povo se erga a retribuir os golpes com que é ferido. É a defesa sagrada da sua carne e do seu amor. Eu compreendo Joanna d”Arc, revol:. tada contra o extrangeiro que espesinha a sua terra e a sua gente, alucinada pelas suas visões, a expôr os seios virgens ás lançadas do inimigo em combates sangrentos e desesperados. Eu moça, eu forte, eu livre, vendo o meu pais invadido, o sangue dos meus jorrando em' ondas, saíria tambem portas a fóra gritando a ple
nos pulmões contra os barbaros. É humano. Mas o que ela pensa é que é exactamente preciso coibir uma vez por todas a possibilidade de ofensivas, sobretudo das ofensivas imprevistas e que arrastam ás grandes lutas sanguinolentas. A diplomacia deve ser exercida por pessoas de alto criterio politico e grande equilibrio moral. Não serão as espadas que hão de governar o mundo, mas o Pensamento. Até hoje a mulher tem imaginado no homem'o magno poder da vida. Se tem ouvido dizer que o valor das nações está na competencia dos seus filhos, seu engenho, sua moral, sua intelectualidade, excluiu-se sempre
desse numero, menos por modestia do que pelo habito tradicional de não ser contada como valor. Para ela só o homem representa o povo. Mas estão se acendendo as luzes no altar do seu espirito e já começa a divisar, num doce bruxolear incipiente, o vulto de uma grande Ideia a realizar...
Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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