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Capítulo 21 · Maternidade

Os congressos

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OS CONGRESSOS Perdida a esperança de que a guerra seja de facto guerreada pelos homens, as mulheres começam a reunir-se para a combater. Elas procuram já darem-se as mãos através do oceano sem distinção de raças, de religião, de educação ou de classe. O coração tem em todas a mesma cór. Cansadas de rezarem sem terem sido ouvidas pelo Céo; cansadas de

suplicar aos homens seus companheiros a cessação de odios fratricidas; cansadas de chorar sem que as suas lagrimas tenham o poder de lavar a nódoa de tais crimes, tomaram a resolução de se unirem e fazerem! os congressos. O seu sonho não se restringe ás conveniências pessoais, alargou-se, emplumou-se, paira sobre o mundo. é o da paz permanente. Ninguem se ria da utopia. Tudo que é belo foi utopia antes de ser realidade. Que o vulgo chame aos propugnadores da paz permanente — de perseguidores de quimeras e sorria da sua loucura? Que importa !?; que procure arrefecer-lhes o entusiasmo ge 

neroso com as afirmações de que emquanto o mundo fôr mundo e o homem fôr homem, existirá a guerra? Que importa ainda?! Se não houvesse convencimento de que as dificuldades para a realização desse desejo são quasi insuperaveis, não seria preciso que estadistas de alta mentalidade as discutissem nem' que as mulheres organizassem congressos para as estudar. Mal sabentos ainda quais os meios por que as mulheres exercerão a sua propaganda pela paz, mas como em quasi todas as grandes evoluções sociais, eles serão naturalmente desempenhados, com maior eficacia, pelas pessoas mais modestas, como sejam

as professoras das escolas mixtas e populares. Os homens crescem depressa embora os povos andem de vagar. O menino de hoje é o adulto de amanhã, em que fica sempre alguma cousa da moral que lhe ensinaram na infancia. Por isso é preciso que nessa infancia lhe repitam com simpatia e persuasão, tudo quanto possa concorrer para o tornar humanitario, avesso a intrigas e aos odios da politica fazendo-os sentir que muitas vezes a causa das guerras, em que os mais inocentes são os mais sacrificados, reside em bem pouco: uma mentira; um gesto falso; um' nada, em que se extravasou toda uma perfidia.

Louvar diante de crianças façanhas de guerra é dar-lhes a saborear pastilhas venenosas. Antes da mestra, já a mãi, da nova doutrina, terá embalado o berço do seu filho com as cantigas em que se exalcem só ações de Bondade e de Justiça. Precisamos acalmar o coração do mundo. Basta de odios! Do berço á cadeira dos parlamentos o caminho, mesmo o mais curto, dá margem para a receptividade de muitas sugestões. Se a mai, a mestra, a irmã, a amiga, a amante, a esposa, emfim, toda a mulher a qual ele se chegue falar sempre ao homem contra a guerra em tom sincero, claro, apaixonado e persuasivo, esse ho 

mem acabará por se sentir penetrado do mesmo. sentimento de respeito pela vida humana. E nós não sabemos o que é a morte, mas sabemos o que é a vida e é justa que procuremos torna-la tão larga e tão util, quanto possivel. Quero crer que a morte seja a continuação das maravilhas que nos extasiam'; uma viagem talvez para um outro planeta rutilante e para o qual caminhemos sorrindo. Mas não basta crer, é preciso ter a certeza, e a unica certeza que nós mulheres temos neste mundo é que a vida dos filhos é-nos mais sagrada do que a nossa propria vida, para a não querermos defender a todo o

preço. De resto, para que tanta pressa em se sahir deste mundo? Ninguem deixará de passar a seu tempo pela porta fatídica. Dela, sabemos o que ha deste lado, mas que haverá do outro? O resultado da intervenção directa da mulher na sociedade futura, será um mal? será um bem? À minha intelivência mal nutrida, ainda entravada p.r obstaculos tradicionais que a não deixaram correr livremente para o destino que a atraiu, parece que essa intervenção lhe deva ser benéfica, porque lhe dará um elemento que até aqui lhe tem faltado: — o sentimento — e a tornará só com

isso mais equilibrada e mais justa. As qualidades femininas de observação, tino, sagacidade, moralidade e bom senso, se fundirão ás primazias da inteligencia masculina e do conjunto das duas espiritualidades resultará senão uma absoluta e inhumana perfeição, ao menos, quem' sabe? uma acção mais harmoniosa do que a que nos tem até hoje governado... Emquanto durou a guerra a mulher só teve uma ideia: atenuar com seu trabalho e a sua clemência os que nela eram sacrificados. A propaganda para a Paz Permanente ficou adiada para os dias de lucidez.

Não teria chegado o momento, de, tambem nós trabalharmos pelo mesmo ideal? Em Portugal a «Cruzada das Mulheres Portuguezas», nos Estados Unidos a Grande Commissão do Segundo Congresso Pan-Americano, na Hollanda a Liga Feminina «For Permanent Peace», na Australia, na Suecia, na Italia, na Argentina, desabrocha o mesmo esforço em prol do grande problema inquietador. Será ele decifravel? Esperemos que sim, mas, se o não fôr, não deixará por isso de ser um belo sonho e de concorrer, em muito, para o aperfeiçoamento moral das criaturas.

Vi um dia uma fita cinematográfica de que jamais me esquecerei: Civilização. Interrompendo os quadros convulsivos da guerra que teciam' a trama do seu episodio, aparecia de vez em quando uma marcha cerrada, anelante e imensa de mulheres de todas as idades e condições. Havia em' todas uma expressão resoluta e séria denunciadora do pensamento novo. Até onde poderão elas ir naquelle caminhar sem repouso?

Ninguem o póde imaginar ainda, mas sabe-se que elas não voltarão atraz e que o seu exército é cada vez maior e mais esclarecido.

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Sinopse

Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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