Universo da obra
Universo da obra
A MULHER DIRIGIDA No silêncio concentrado em que se pesam as grandes resoluções, a mulher decidio representar por todos os modos o seu papel de utilidade na hora da guerra e fez-se: artífice, farmaceutica, médica, enfermeira, dactilógrafa, estenografa, electricista, expedicionaria, factureira, droguista, servindo do mesmo modo á sciencia, á industria e ao comercio. E não se atreveu só a exercer
oficios mais ou menos resguardados pela sombra das telhas, fez-se tambem maquinista, estafeta, vendedora ambulante, cocheira, recebedora nos trens, e muitos outros misteres que a sua inteligencia ou a sua força fisica lhe permitiam praticar. Muitas que desconheciam ainda as suas próprias aptidões, porque nenhum acidente da vida as tinha posto em evidência, tiveram com a guerra a revelação da sua capacidade. Chamadas pela urgência do momento a substituirem os homens em trabalhos até então alheios á sua interferência, acudiram sem hesitação ás determinações que lhes eram' impostas. Nem só a necessidade de mante
rem o lar, sem chefe; nem só o sentimento egoistico de preencherem o lugar do marido ausente para o conservarem até á sua problemática volta, as decidiram a aceitar encargos para que não estavam preparadas. Outra razão as impelio: a de consagrarem o seu esforço á pátria e aos que pela pátria morriam, mas consagrarem-no sem retórica, nem scenas sentimentais, só com um trabalho nunca esmorecido. Bem: atilados andaram os povos beligerantes procurando utilizar-se a tempo da inteligencia feminina, até então ignorada... Essa improvisada organização representou para a vida das nações o mesmo que o carvão aceso nas locomo
tivas. Foi a utilitária Inglaterra quem primeiro se lembrou de aproveitar essa colaboração que já em tempos de paz lhe tinha sido em vão oferecida pelas sufragistas, o que vem confirmar a opinião de que as mulheres só são tomadas verdadeiramente a sério pelos homens, quando lhes são precizas. Entretanto, cosendo em sua casa ou varrendo as sargetas das ruas, tecendo nas fabricas ou semeando nos campos, bordando á luz da sua lâmpada caseira ou alinhando cifras num escritório bancário, a mulher, ninguem o ignora, procurou sempre cumprir conscienciosamente as suas atribuições, não só pelo seu capricho como porque sabe que desconfiam dela...
No posto de silêncio em que até hoje permaneceu ela tem notado o movimento de tudo, que o Tempo, esse mestre supremo e decifrador de segredos, vai arrastando após si... Tivesse ela permanecido na imobilidade apática de outros dias e nem a França, nem sobretudo a Inglaterra, poderiam ter resistido ao embate que sofreram; porque não ha guerra sem munições. E quem fez as munições? Foram as mulheres. Foram as mulheres... É pungitivo lembrarmo-nos que
os seus dedos macios, nascidos para outros destinos suaves e embaladores, se tivessem ocupado nesse horrendo mister de fabricar balas mortiferas. Nos seus despropositos a guerra cometeu ainda mais este crime: o de conseguir que até mesmo mulheres se sujeitassem ao tremendo papel de operarias da Morte! Com o proposito de estudar numa resposta o espirito feminino, um reporter perguntou um dia a uma dessas artífices se ela não se sentia cúmplice nos assassinatos que os seus explosivos estavam destinados a com» meter. A moça respondeu logo, com manifesta extranheza que não déra nunca ás munições que fabricava ou
tra atribuição que não fosse a da defeza da sua terra e dos seus irmãos. Esta reesposta sintetiza maravilhosamente bem todo o pensamento da mulher sobre a guerra. Nenhuma admite, nem pelo raciocinio, nem pelos simples impulsos do sentimento, a idéia das ofensivas. Matar? Só em legitima defesa e em desespero de causa. Um homem, mesmo de espirito, mesmo artista, como Leonardo da Vinci, cuja sensibilidade ficou tão delicadamente perpetuada nesse delicioso sorriso da Gioconda — póde conceber planos de monstruoso malefício, como o do «Tank», de que ele foi o primeiro a esboçar a fórma grotesca e a acção n
brutal. São as anomalias de um génio de antiteses: criar um sorriso enigmático, de beleza eterna, e uma maquina pesadona de esfacelar carne humana! Uma mulher, mesmo a mais imaginosa, mesmo a mais engenhosa, jámais acolheria idéias de destruição. Na pequenez do seu cérebro e estreiteza da sua visão, ela tem uma concepção mais larga dos destinos da humanidade... Batalhar, para que? Para as conquistas territoriais? Os países maiores nem sempre são os mais felizes. Para alcançar a glória de uma opinião?” Não ha glórias eternas; tudo é efêmero no mundo. Com o correr dos dias, mesmo cidades de pe
dra e ferro desaparecem da superficic do globo; os povos mudam, a lingua altera-se, até os climas se transformam... Guerra, só a das idéias, não feita com o ferro e Oo sangue, mas com o pensamento e a palavra. Ha preconceitos inabalaveis aos embates da razão como certos rochedos aos embates do mar. Rebelarmonos contra eles é o mesmo que procurarmos interceptar com os braços abertos a passagem de um comboio, c este, que vem de não sei onde, e vai para toda a parte, carrega dentro de si tanta agonia que não será mão que lhe ponhamos ao menos algumas pedrinhas nos trilhos a vêr se descarrila...
Em absoluto a guerra é um producto da barbaria, e, convencionalmente, o resultado de um' preconceito que ensina que a honra das nações só se póde lavar com o sangue. Ha outras maneiras de fazer resplandecer a verdade e a justiça e miseravel papel faria a diplomacia se os não conhecesse. A maior indignidade da guerra está, principalmente, em que, quem em duas penadas a decreta, não a faz, mandando para o matadouro os que só almejam uma cousa: viver e trabalhar em paz e que muitas
vezes pelas suas idéias políticas ou crenças religiosas são infensos á luta armada. Um, ou dous cnos antes de acabada a guerra, a Inglaterra publicou uma estatística do trabalho feminino que dizia existirem então um milhão quatrocentas e oitenta mulheres exercendo misteres que até essa data só tinham sido desempenhados por homens. Assim como na Grã - Bretanha, havia em França toda uma população de mulheres empenhadas num só es
forço: o serem úteis á sua gente e ao seu país. Fecharam-se os pianos, para se dedilhar em maquinas de escrever; guardaram-se rendas e sedas para se envergarem os linhos brancos da Cruz Vermelha. Nos campos arados, as charruas eram conduzidas por mãos femininas. Os berços saíram dos cantos das alcovas para o ar livre das eiras, onde os bêbês choramingavam ou dormiam emquanto as mãis se agitavam labutando ao sol. Não havia vagares para embalamertos nem para os doces extases maternais, porque era absolutamente preciso fazer produzir a terra, tirar-lhe do seio duro o pão para o povo:
Em todas as profissões, que foram multiplas, e algumas contraditórias entre si, a que a mulher se consagrou, fe-lo de modo perfeito. Ficou assim provado que ela não é só inteligente por excepção. A guerra prestou-lhe ao menos esse serviço... Tudo acabou; póde falar-se livremente. Chegou o momento das mãis entrelaçarem os seus corações numa cadeia bastante viva e nervosa com que procurem estrangular o fantasma negro que lhe rouba os filhos. O mundo muda; outra socieda
de desponta e ninguem poderá dizer, desde já, que papel representará nela a mulher. Seja qual for, que lhe não falte nunca o sentimento de Bondade activa e lúcida, capaz de, pelo seu influxo, realizar essa cousa em que ainda devemos crêr, ap2zar do grande baque que sofreu azora: o ideal da Fraternidade Humana... O pano de scena fechou-se sobre o primeiro acto, mas o drama tem muito enredo e muitas consequências para poder ser curto. Oh! ele durará, durará...
Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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