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Capítulo 15 · Maternidade

A enfermeira

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A ENFERMEIRA Se um povo culto retrogradou até ás éras das barbaras chacinas tumultúarias, propagando a outros povos a sua raiva incontida até se confundirem na mesma luta de águias e de toupeiras, ora a se fulminarem entre as núvens, ora a se esmagarem na lama das trincheiras, se a guerra dos homens emfim, não perdeu, no seu conjunto a expressão de

feroz animalidade, a mulher, ao mrenos, mudou. Mudou; tornou-se mais consciente, mais arguta e sobretudo mais altruista. Ela já não lembra certas donas históricas de aspecto formidando, que armavam os filhos e lhes apontavam o caminho da guerra com dedos hirtos, muito mais viris que maternais; nem tampouco outras, que ao verem os maridos partir a terçar armas com o inimigo, se quedavam encolhidas em frente ao oratório, inertes como trapos, ou se descabelavam aos uivos pelos corredores dos seus castelos fechados a dupla volta de chave. Em face das grandes calamidades a mulher moderna, não es 

gota em esgares nem em soluços as suas energias, procura antes converte-las em força de ânimo e em arrimo para aquele a quem a guerra mais sacrifica: — o homem. Acordando do letargo em que ha tantos séculos tem vivido imersa, ela começa a perceber o valor da sua utilidade. Foi graças a essa compreensão, que o desencadear desta tempestade de fogo e de lama veio encontra-la de pé. Não sou eu quem o inventa, disseram-n'o os jornais de todo o mundo; proclamou-o a nobre França, patria do exemplo instructivo, ao afirmar que no dia da catastrophe, quando muita cousa de essencial se observou faltar nos seus quarteis e arse 

nais militares, na Cruz Vermelha, dirigida por Senhoras, nada faltava, tudo estava previsto, de tudo havia em quantidade, tudo estava em ordem. Assim, mal soou o toque de reunir, apareceu logo aparelhado e sereno o batalhão branco das enfermeiras, já habilitadas por um' curso severissimo ás disciplinas da profissão, já fortalecidas pela educação da vontade, e preparadas, portanto, para as terríveis eventualidades que o seu fino instinto lhes insinuara ao coração presago. Sabendo dominar o fluxo das lágrimas pelo sentimento do dever, dever para comsigo mesma, para com a pátria, e, sobretudo, para com o soldado, a mulher pôde servir

de apoio, de sugestão, de consolo e de bondade, na hora exacta em que tudo isso mais preciso se tornou no mundo! Quando as gerações futuras voltarem! os olhos para os quadros tumultuosos desta guerra, será nessas aves da tempestade, de faces palidas e brancos véos esvoaçantes, que encontrará uma superior expressão de beleza. Não foi, acreditai, pela variedade do traje nem a fantasia de uns dias de ventura, como a maficia de al 

guns insinuou, que a mulher se decidio a trabalhar nos hospitais de sangue e a exercer neles até os mais duros e abjectos mistercs. Se é apanágio seu o saber sofrer, timbem o é o saber suavisar, e estes dons naturais que ela agora aplicou tão superiormente, bastam para demonstrar aos incrédulos, que a independencia de acção que ela, a bem dizer instintivamente tem procurado, em nada lhe desvirtuou o sentimento nem tampouco a graça, de que ela foi em todos os tempos, e em todos os tempos será, a cmanação perturbadora e inspiradora... O feroz individualismo do homem não lhe consentio acompanhar

com justiça através das lutas seculares esse desdobramento da alma feminina, em que ela tem adquirido capacidades novas sem perder as virtudes antigas. Por isso ele a contempla agora com certa surpreza. Outr'ora, nas ambulâncias e nos hospitaes de sangue, a figura feminina era apenas entrevista em pensamento pelos feridos e os moribundos. Eles debatiam-se apavorados pelas visões terríficas das batalhas, a que a nossa imaginação, cá de longe, empresta grandezas de epopeia, mas de que eles, desiludidos, sentiram a realidade pungitiva: a confusão: a ferocidade; o medo; a imundicie; o sp/een... sem que para ate10

nuar tal desconforto um! terno coração se inclinasse sobre o seu soffrimento... Uma ou outra mulher que por vezes surgia entre a soldadesca era quasi sempre uma filha do povo, de gesto brusco, palavra rude, mixto de militar e de mulher: de farda e de saias, e que, para animar os que tremiam, matava-lhes a sêde a água ardente e os seguia mais como um camarada, do que como uma irmã. Não seria menos generoso o seu papel, porque a vivandeira expunha a vida pelo seu batalhão; não seria menos generoso, mas era outra cousa, cuja significação aventurosa se assemelhava á de um verdadeiro companheiro de armas.

As fervorosas Irmãs de Caridade que vieram depois, com os olhos fitos na sua Cruz e na sua Fé, eram menos femininas do que interpretes de idéias a que se associam as da Morte. Elas sabem fazer rezar, mas não sabem fazer sorrir nem transmitir aos feridos a ilusão da Ausente, daquela em que eles pensam sempre, sempre... E a ilusão é como o pão, alimenta. É o pão da alma, imaterial e divino, que se transfunde em resistência e em esperança... Sentindo brandos dedos amoraveis cortar-lhes o cabelo, em que a vermina pulula, ou descalçar-lhes os pés inchados e que de ha muito não

sentiam o refrigério da água; ouvindo doces vozes lerem, o que os seus olhos cegados pelos estilhaços dos obuzes já não podem lêr; vendo frageis braços femininos suportarem sem vergar, o peso do seu corpo imutilado, os infelizes teriam, como em uma doce sensação do amor e da familia percebido quanto antes erravam, quando emprestavam' á mulher moderna só um caracter vaidoso e frívolo. Bem no íntimo, cada um deles poderia concluir: «Elas são mais fortes e melhores do que eu pensava...»

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Sinopse

Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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