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O crime do Canal 4

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O crime do Canal 4

Capítulo 1 · O crime do Canal 4

A Edição Que Nunca Foi Ao Ar

Helena Diniz recebeu o arquivo às 04h13, horário em que a cidade costuma parecer inocente por falta de testemunhas. O apartamento estava escuro, exceto pela luz azul do notebook aberto sobre a mesa da cozinha e pelo visor do micro-ondas marcando uma hora errada desde a última queda de energia. Ela tinha dormido no sofá, de calça jeans, com uma manta nos pés e uma pilha de contas vencidas ao lado do controle remoto. O som da notificação atravessou o sono como ordem de switcher: seco, curto, impossível de fingir que vinha de sonho.

O remetente era um endereço sem nome, formado por letras e números que pareciam gerados para sumir depois do envio. O assunto dizia apenas: VT 4 - bruto antes do corte. Helena ficou alguns segundos olhando para a tela sem tocar no mouse. Havia sete meses que ela evitava qualquer coisa com as iniciais VT, como se a sigla ainda pertencesse à ilha de edição do Canal 4 e pudesse chamar junto o cheiro de café queimado, carpete úmido e produtor executivo gritando pelo interfone. O anexo tinha 1,8 gigabyte e um nome de arquivo antigo: canal4_noite_1705_preair.mov.

A data bateu antes da memória completar a frase. Dezessete de maio. O dia em que César Avelar morreu ao vivo.

Helena levantou, foi até a pia e bebeu água direto da torneira. O gesto trouxe gosto de metal e a deixou mais acordada. César Avelar tinha sido o rosto do Canal 4 por vinte anos: sorriso de campanha beneficente, voz de cobrança pública, dedo em riste contra prefeito, empresário, delegado e qualquer pessoa útil à audiência das sete. Morreu no meio do bloco local, diante de três câmeras, depois de anunciar uma reportagem sobre fraude em merenda escolar. A emissora cortou para intervalo em menos de cinco segundos. Na volta, uma âncora substituta chorava diante do teleprompter. No dia seguinte, a nota oficial falou em mal súbito, equipe médica, respeito à família e luto da comunicação regional.

Helena não trabalhava mais lá. Fora afastada quatro meses antes, depois de registrar em ata interna que uma denúncia contra a Santa Casa do Leste havia sido retirada do ar por pedido comercial. O canal chamou aquilo de quebra de confiança. Ela chamou de pauta comprada. O processo trabalhista ainda andava, lento e caro, com advogados que pediam provas escritas de conversas feitas sempre por porta entreaberta. Desde então, sobrevivia editando vídeos de casamento, aulas de curso livre e material institucional de uma clínica odontológica que fazia implantes com música épica.

O download terminou às 04h27. Helena desconectou o roteador antes de abrir o arquivo. Era hábito antigo, desses que o corpo conserva depois que a cabeça tenta ser prática. Copiou o vídeo para um HD externo, depois para um pendrive guardado dentro de uma lata de fermento no armário. Só então abriu o player.

A imagem começou preta por três segundos. Em seguida apareceu o estúdio principal do Canal 4, ainda vazio, com luzes parcialmente acesas, bancada limpa, câmera dois apontada para o lugar do apresentador e o painel de LED mostrando a vinheta congelada do jornal. No canto inferior, o timecode corria: 18:41:12. A transmissão entraria no ar às 19h. Helena reconheceu a rotina. Antes de qualquer jornal, havia esse intervalo sem pose em que o estúdio parecia uma sala de cirurgia aguardando paciente.

Uma voz masculina falou fora de quadro. "Abre ponto do César. Teste de retorno." Era Rui Lemos, operador de áudio. Helena reconheceria aquela voz mesmo abafada por parede. Outra voz respondeu, mais baixa, talvez do switcher: "Ele ainda não chegou." A câmera três moveu um pouco, mostrando Marina Sales, repórter de política, sentada na cadeira de convidados, olhando para as próprias mãos. Marina não aparecera no jornal daquela noite. A versão oficial dizia que ela estava em externa no bairro do Limão, cobrindo enchente.

Helena pausou. Voltou dez segundos. Marina estava mesmo ali, no estúdio, usando blazer vermelho, cabelo preso, microfone de lapela já fixado. Parecia pálida. Na tela, alguém entrou pela lateral e entregou a ela uma folha dobrada. A repórter leu, olhou para a régua de luz acima da bancada e disse alguma coisa sem áudio. O operador abriu o canal tarde demais, pegando só o final: "...não foi isso que combinei."

O vídeo cortou para barras coloridas. Não era erro de arquivo. Era corte bruto, inserido antes da edição final. Helena anotou o timecode no bloco de papel que ainda mantinha ao lado do computador. 18:42:03 - Marina no estúdio. Folha dobrada. Áudio cortado. A mão dela tremia menos do que esperava. Trabalho técnico, quando chegava, empurrava o medo para depois.

A imagem voltou às 18:48:31. César Avelar entrou no estúdio com uma pasta azul debaixo do braço e o paletó aberto. Não parecia doente. Parecia irritado. Passou pela bancada sem cumprimentar Marina, falou com alguém no ponto e pediu que tirassem "a menina" da cadeira. Marina levantou antes que qualquer funcionário tocasse nela. César apontou a pasta para a régua de luz. "Isso aqui entra no terceiro bloco ou eu falo no primeiro." A voz dele saiu pelo microfone de lapela ainda desligado para transmissão e aberto para gravação interna.

"César, o roteiro já fechou", disse uma voz feminina. Lígia Paes, diretora de jornalismo. Helena parou o vídeo outra vez. Lígia tinha aparecido no velório com óculos escuros, abraçando a viúva diante das câmeras. No inquérito interno, declarou que César chegara indisposto, com dor no peito, e que todos foram surpreendidos durante o jornal.

No bruto, Lígia parecia tudo menos surpresa.

César abriu a pasta azul e tirou três folhas. "Fechou porque você fechou errado." Marina voltou para perto da bancada, segurando a folha dobrada contra o corpo. O operador de áudio murmurou alguma coisa. Alguém mandou baixar o canal dele. O som ficou limpo demais, focado apenas no apresentador e em Lígia. Helena reconheceu esse tipo de limpeza. Quem gravara o bruto queria preservar aquela conversa. Ou queria que alguém a ouvisse depois.

"Você vai derrubar anunciante por vaidade?", Lígia perguntou.

César riu sem graça. "Eu vou derrubar um morto antes que ele vire trilha de campanha."

A frase fez Helena aproximar o rosto da tela. Um morto. Não uma fraude, não uma denúncia, não uma fonte. Um morto.

O vídeo pulou para 18:56:09. Agora o estúdio estava cheio: assistente de piso, maquiadora, operador de câmera, Marina junto à saída lateral e César sentado na bancada. A pasta azul havia desaparecido. Lígia entrou em quadro, pegou o teleprompter impresso da mão de um assistente e riscou uma linha com caneta preta. César acompanhou o gesto sem piscar. "Se você riscar, eu falo de cabeça", disse. Lígia se inclinou para perto dele, fora do alcance da câmera principal. O microfone continuava aberto. "Você não sabe o que está segurando."

Helena escreveu a frase inteira. A mão agora tremia.

Às 18:59:44, alguém no switcher começou a contagem para o ar. Cinco, quatro, três. O arquivo manteve o áudio interno, sem a música da abertura. Helena viu César endireitar o paletó, fechar o rosto de apresentador e encarar a câmera dois. O jornal começou. Nos primeiros minutos, tudo parecia igual ao material exibido naquela noite: acidente na Marginal, greve de professores, corpo encontrado em terreno baldio. Helena lembrava vagamente da edição pública, assistida depois pela internet, já com a morte de César transformada em manchete nacional.

A diferença surgiu no intervalo entre o segundo e o terceiro bloco. Durante a pausa comercial, César tirou o ponto eletrônico do ouvido e colocou sobre a bancada. Lígia apareceu na lateral do estúdio, furiosa, gesticulando para a técnica. Marina segurava uma bolsa pequena e tentava sair pela porta de serviço. Um homem de camisa cinza bloqueou a passagem. Helena conhecia aquele homem: Samuel Prado, segurança patrimonial, contratado depois que a emissora recebeu ameaças de um vereador. No vídeo, Samuel não protegia ninguém de ameaça externa. Mantinha a repórter dentro do prédio.

"Se ela sair, acabou", César disse.

"Se você falar, acaba para todo mundo", Lígia respondeu.

O comercial terminou. César recolocou o ponto. A câmera dois acendeu. Ele sorriu para o público e leu a chamada sobre merenda escolar como se nada houvesse acontecido. A reportagem exibida na versão pública mostrava depósitos sujos, notas fiscais e uma entrevista de rua. No bruto recebido por Helena, no momento em que o VT deveria entrar, a tela do switcher exibiu outra prévia durante dois segundos: uma sala de hospital, uma maca coberta, o logotipo da Santa Casa do Leste no canto e a pasta azul de César sobre uma mesa metálica. A imagem sumiu rápido, substituída pelo material de merenda.

Santa Casa do Leste. A pauta que derrubara Helena.

Ela parou o vídeo e ficou ouvindo a geladeira estalar no silêncio da cozinha. A denúncia que ela tentara manter no ar quatro meses antes envolvia mortes em uma ala terceirizada, prontuários reescritos e uma empresa de consultoria ligada a políticos locais. Lígia retirara a matéria alegando inconsistência documental. César, na época, apoiara a decisão em reunião, dizendo que o canal não podia comprar briga com hospital sem corpo, laudo e família disposta a aparecer.

No arquivo, César parecia ter encontrado o corpo.

Às 19:37:12, o apresentador recebeu uma folha fora de quadro. Leu, amassou devagar e colocou no bolso interno do paletó. A voz técnica disse pelo ponto aberto: "César, segue roteiro." Ele olhou para a câmera errada, a três, que não estava no ar. Por um segundo, seu rosto deixou de ser rosto de televisão. Virou rosto de homem que percebeu tarde demais onde estava sentado.

"Boa noite de novo", ele disse para a câmera dois, fugindo do texto do teleprompter. "Antes da próxima reportagem, eu preciso corrigir uma informação que este jornal deixou de entregar."

Helena conhecia a sequência pública. Na transmissão exibida, nesse exato ponto, César levara a mão ao peito, respirara mal e caíra para o lado. O canal cortara para intervalo.

No bruto, antes da queda, havia mais doze segundos.

Lígia gritou do switcher: "Corta."

O operador não cortou. Ou não conseguiu. César continuou: "O homem encontrado no terreno do Jardim Arapuã não era indigente. Era funcionário da Santa Casa. Ele tentou entregar documentos a este canal."

Marina, fora de quadro, disse: "César, para."

Ele virou uma folha da pasta azul, que reaparecera sobre a bancada sem que Helena percebesse quando voltara. "Se eu não terminar, procurem o Canal 4 bruto. Procurem quem mudou o terceiro bloco."

Então ele caiu.

Não como no vídeo público, sem aviso. No bruto, a mão dele foi primeiro ao ponto eletrônico. Puxou o fio, arrancou do ouvido e deixou cair sobre a bancada. Depois levou a mão ao bolso interno, onde guardara a folha amassada. O corpo tombou para a direita. A câmera dois perdeu o foco por meio segundo. No áudio interno, Rui Lemos gritou por médico. Lígia gritou por intervalo. Samuel segurou Marina pelo braço. E uma voz que Helena não reconheceu, calma demais para a cena, disse perto de algum microfone aberto: "Ele entrou no roteiro errado."

O arquivo terminou em tela preta.

Helena ficou imóvel diante do notebook. A primeira claridade da manhã já aparecia atrás da cortina da cozinha. Na rua, um ônibus freou no ponto, alguém arrastou uma grade de comércio, um cachorro latiu três vezes. A vida comum ensaiava começar enquanto César Avelar morria outra vez na tela dela, agora com doze segundos devolvidos.

O celular vibrou sobre a mesa. Número desconhecido.

Ela deixou tocar. O aparelho parou e recebeu uma mensagem: "Você abriu o bruto. Não procure Marina em casa. Procure onde ela ficou fora do ar."

Helena olhou para o arquivo, para o bloco cheio de horários, para a lata de fermento no armário. Depois abriu uma pasta nova no computador e nomeou com o único título que ainda fazia sentido: Canal 4 - crime ao vivo.

O crime do Canal 4

Sinopse

Helena Diniz, produtora de jornalismo afastada após denunciar manipulação de pauta, volta ao antigo Canal 4 quando uma edição nunca exibida aparece em seu e-mail. No vídeo, o apresentador mais popular da emissora anuncia a própria morte vinte minutos antes de cair ao vivo durante uma transmissão local. A versão oficial fala em infarto. A fita mostra outra coisa: cortes de câmera, ponto eletrônico aberto, uma repórter retirada do estúdio e uma voz técnica dizendo que o morto entrou no roteiro errado. Para descobrir quem escreveu a cena final, Helena precisa atravessar ilhas de edição, camarins trancados, arquivos apagados e colegas que aprenderam a vender silêncio como audiência.

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