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O Monstro do Rio Pinheiros

Universo da obra

O Monstro do Rio Pinheiros

Capítulo 1 · O Monstro do Rio Pinheiros

A Margem Que Chamou

Camila Duarte recebeu o vídeo às 05h46, quando ainda tentava decidir se levantava ou fingia mais dez minutos de sono. O celular vibrou no criado-mudo, caiu no chão e continuou vibrando entre um chinelo e um livro aberto de cabeça para baixo. Ela pegou irritada, preparada para mensagem de fornecedor, alerta de chuva ou mais uma foto de capivara enviada por morador que achava ter descoberto a vida selvagem sozinho.

O remetente era Douglas, fiscal de campo da concessionária ambiental. A mensagem vinha com três palavras: isso é seu?

O vídeo tremia. Alguém filmava de dentro de um carro parado na Marginal Pinheiros, vidro meio aberto, faróis refletindo na água escura. A imagem mostrava a margem oposta, perto de uma comporta antiga, onde a vegetação crescia torta entre lixo, barro e placas de obra esquecidas. No início, nada se mexia além de sacolas presas nos galhos. Depois a água levantava.

Não como peixe. Não como capivara. Alguma coisa grande deslocava a superfície de baixo para cima, arrastando lama, fazendo a margem ceder em pedaços. O motorista xingava, a câmera perdia foco, voltava. Por dois segundos, uma forma comprida aparecia junto ao concreto: pele escura, ou lodo; costas arqueadas, ou tronco; algo parecido com uma mão agarrando a borda, dedos longos demais, ou raízes molhadas enganando a luz.

Então vinha o som.

Baixo, quase coberto pelo trânsito. Uma voz rouca chamava: Mauro.

Camila pausou. Voltou. Aumentou o volume. O carro ao lado buzinava, um caminhão passava, a pessoa filmando dizia meu Deus do céu. Por trás de tudo, o rio parecia chamar de novo.

Mauro.

Ela levantou sem perceber. O quarto estava frio, a janela embaçada, a cidade começando a clarear daquele jeito cinza que São Paulo chamava de manhã por falta de alternativa. Camila abriu a resposta para Douglas e digitou: onde?

A resposta veio rápido: comporta velha depois da ponte. Sumiu um catador lá ontem. Bombeiros acharam carrinho, não acharam ele. Vídeo caiu em grupo de morador. Chefe quer você antes da imprensa.

Camila olhou outra vez para a forma na água. Seu trabalho era técnico, pelo menos no contrato. Monitoramento de fauna, relatório de avistamento, avaliação de risco, educação ambiental quando alguém confundia saruê com rato mutante. O rio vinha melhorando em partes, piorando em outras, e a cidade adorava transformar qualquer bicho que sobrevivesse ali em milagre ou ameaça. Ela passara os últimos meses dizendo em entrevistas curtas que natureza não volta limpa só porque aparece em vídeo.

Mas aquele som não era bicho.

Às 06h30, ela estava na margem com bota de borracha, colete refletivo e café queimado em copo de posto. Douglas esperava perto da viatura da concessionária, rosto amassado de noite mal dormida. Dois bombeiros conversavam junto à fita de isolamento. Um guarda municipal tentava afastar curiosos que fingiam caminhar com cachorro para olhar melhor.

"Nome do desaparecido?", Camila perguntou.

Douglas apontou para o rio com o queixo. "Mauro Cândido. Catador. Sessenta, talvez. Morava debaixo do viaduto quando não ia para albergue. Pessoal da ciclovia conhecia."

Mauro.

Camila não disse que ouvira o nome no vídeo. Ainda não. "Quem filmou?"

"Motorista de aplicativo. Já apagou, já repostaram, já chamaram de monstro, jacaré, sucuri, demônio, obra do governo e vingança do rio. Escolhe."

"Jacaré não chama pelo nome."

Douglas encarou. "Você ouviu também."

Ela olhou para a comporta. Era uma estrutura antiga, concreto manchado, grades enferrujadas, parte da passarela interditada por corrente. A água ali parecia mais parada que no resto do rio. Na margem, o barro guardava marcas profundas: sulcos arrastados, pegadas humanas, rodas do carrinho de Mauro e uma depressão larga junto à borda, como se algo pesado tivesse subido e descido.

Camila agachou. O cheiro era pior perto da água: esgoto velho, óleo, planta apodrecida, metal. Uma garça passou por cima e pousou longe, sensata. Ela fotografou as marcas, mediu com régua, recolheu amostra de lama. No meio do barro, encontrou escamas pequenas, translúcidas, grudadas em fiapos de pano azul.

"Peixe?", Douglas perguntou.

"Talvez."

"Você fala talvez quando é ruim?"

"Falo talvez quando ainda não quero mentir."

Um dos bombeiros se aproximou. "Doutora, achamos isso na grade."

Era um pedaço de camisa, azul desbotada, preso a uma barra de ferro. Na peça, havia um crachá plastificado, sujo de lodo. Camila limpou com o polegar usando luva. A foto mostrava um homem magro, barba branca, olhar desconfiado. Nome: Mauro Cândido. Abaixo, em letras pequenas: Frente de Trabalho - Desassoreamento 2007.

"Ele trabalhou aqui?", Camila perguntou.

Douglas franziu a testa. "Como catador?"

"Não. Na obra."

O bombeiro apontou para a comporta. "Essa parte foi reformada em 2007. Teve acidente, acho. Meu pai falava de um funcionário que caiu."

Camila segurou o crachá. "Mauro caiu?"

"Não sei. Eu era moleque."

O guarda municipal gritou para alguém sair da fita. Camila levantou. Uma mulher de casaco marrom estava do outro lado do isolamento, olhando para a água como se procurasse rosto. Tinha uns quarenta anos, cabelo preso, sacola de mercado na mão.

"A senhora conhecia Mauro?", Camila perguntou.

A mulher olhou para ela. "Ele dizia que o rio devolvia quem chamava direito."

Douglas suspirou. "Dona, afasta da fita."

"Ele falava com a água toda noite", a mulher continuou, ignorando. "Não era loucura. Era dívida."

Camila se aproximou devagar. "Que dívida?"

A mulher apertou a sacola. "Pergunta da obra. Pergunta de 2007. Pergunta por que fecharam a comporta antes de tirar todo mundo."

Antes que Camila respondesse, a água bateu na estrutura de concreto. Uma vez. Duas. Três. Como pancada de mão aberta do lado de dentro.

Todos ouviram.

O rádio de Douglas chiou. O guarda parou de falar. O bombeiro deu um passo para trás. Camila olhou para a comporta, para a grade enferrujada e para a faixa de água escura atrás dela.

A voz veio baixa, arrastada, grudada no concreto.

Camila.

Dessa vez, não havia caminhão cobrindo. Não havia vídeo tremido. O rio chamou seu nome com a voz de uma pessoa que ela não conhecia.

A mulher de casaco marrom começou a chorar sem fazer barulho.

No barro, perto da marca larga, alguma coisa subiu com a água e encostou na bota de Camila. Um osso comprido, limpo demais, amarrado com arame velho a uma placa metálica.

Na placa, quase apagado, lia-se: Trecho interditado. Equipe 4.

O Monstro do Rio Pinheiros

Sinopse

Camila Duarte, bióloga contratada para monitorar a fauna que voltou às margens do Rio Pinheiros, é chamada depois que vídeos de um animal enorme circulam pela cidade e um catador desaparece perto de uma comporta desativada. O que parece lenda urbana ganha forma em marcas na lama, ossos limpos demais e relatos de gente que ouviu o rio chamando pelo nome. Para descobrir o que se move sob a água escura, Camila precisa encarar uma contaminação antiga, uma obra abandonada e uma culpa familiar enterrada na margem.

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