Universo da obra
Universo da obra
Devo cessar aqui o fastidioso relato histórico que me vi obrigado a fazer, primeiro por essa inclinação que temos nós, os que servimos no exército, a falar de movimentos, manobras e campanhas, e além disso para estabelecer os fatos, fixar os lugares e marcar a época precisa dos acontecimentos.
Agora começo meu romance, que por certo não há de ser um romance militar, quero dizer, um livro de guerra com episódios de combates, mas uma história de sentimento, história íntima; nem eu poderia fazer outra coisa, pois careço de imaginação para urdir tramas e preparar golpes teatrais. O que vou referir é verdadeiro; se assim não fosse, eu não o conservaria tão vivo, por desgraça, no livro fiel da minha memória.
O coronel do corpo de que acabo de falar era um oficial belíssimo: chamemo-lo X... Os nomes não vêm ao caso, e prefiro mudá-los, porque teria de nomear pessoas que ainda vivem, o que seria, pelo menos, mortificante para mim.
Comandava um dos esquadrões outro oficial, o comandante Enrique Flores, jovem pertencente a uma família de magnífica posição, garboso, bem-apessoado, de maneiras distintas, e que às qualidades de que acabo de falar acrescentava uma não menos valiosa: a de ser absolutamente simpático. Era desses homens cujos olhos parecem exercer desde logo, sobre a pessoa em quem se fixam, um domínio irresistível e grato.
Talvez por isso o comandante Flores fosse idolatrado por seus soldados, muito querido por seus companheiros e o favorito de seu chefe, porque o coronel não tinha outra vontade senão a de Enrique. De modo que ele era o árbitro em seu corpo, e os generais sob cujas ordens havia servido, conhecendo a influência que exercia sobre seu chefe e seu prestígio entre a tropa, não perdiam ocasião de agradá-lo, de cumulá-lo de atenções e de fazê-lo entrever uma próxima e honrosa promoção.
Como era a época em que se galgavam os degraus dos mais altos postos com mais facilidade do que nunca, murmurava-se que o coronel seria promovido a general, e que então Flores ficaria com o comando de seu corpo, talvez com a mesma patente que aquele tinha.
Além disso, e isto é de supor, Flores era perigoso para as mulheres, era irresistível, e mil relatos de aventuras galantes, que revelavam sua incrível fortuna em assuntos de amor, circulavam de boca em boca no exército.
Flores, por sua parte, não perdia oportunidade de fazer uso de seus relevantes dotes; e embora o exército, naquele tempo, não fizesse outra coisa senão marchar em direções opostas e cruzar rapidamente as cidades, o comandante, sem descuidar de seus deveres, encontrava momentos propícios para galantear as mais formosas jovens dos lugares por onde passava, não lhe sendo nada difícil consumar uma conquista em breves dias e, às vezes, em horas.
O fato é que não saía de uma cidade um pouco importante sem levar consigo doces e gratas recordações dela, nem deixavam de verter lágrimas por ele os olhos mais formosos de uma povoação.
Já se sabia; tão logo se tocava o sinal de selar para preparar a partida, tão logo se ouviam os toques de marcha, enquanto nós outros passávamos indiferentes pelos povoados e pelas cidades e só nos ocupávamos em arrumar nossas malas e comprar provisões, Enrique, depois de dar as ordens necessárias a seus capitães, sempre tinha de escrever um pequeno bilhete de despedida, sempre se apartava por um momento da coluna para galopar, em um de seus soberbos cavalos, em direção à casa de suas amadas de um dia, para apertar-lhes a mão e receber, em troca de ternos olhares, um lenço úmido de lágrimas, um cacho de cabelos, um retrato ou um anel. Que ventura a desse homem!
Não: e devo confessar aos senhores que Flores era sedutor; sua fisionomia era tão varonil quanto bela; tinha grandes olhos azuis, grandes bigodes louros, era hercúleo, bem formado, e tinha fama de valente. Tocava piano com habilidade e bom gosto, era elegante por instinto, tudo o que vestia lhe caía maravilhosamente, de modo que era o dândi por excelência do exército.
Pródigo, garboso, alegre, zombeteiro, altivo e até um tanto vaidoso, possuía justamente todas as qualidades e todos os defeitos que as mulheres amam e que são eficazes para cativá-las.
Por isso as moças mais bonitas de Querétaro, primeiro, e depois de Guadalajara, morriam de vontade de dançar com ele, gostavam de apoiar-se em seu braço e saboreavam com delícia sua conversa cintilante de graça, salpicada de agudezas engenhosas e, sobretudo, galante.
Enrique era o tipo completo do leão parisiense em sua expressão mais elegante, e desprendia-se dele, se me é permitida esta figura, esse delicado perfume de distinção que caracteriza as pessoas de bom-tom.
Ainda mais. Flores era jogador e, por uma exceção à regra conhecida, ganhava muito. Parecia mesmo que um gênio tutelar velava por esse jovem e lhe abria sempre, risonho, as portas do santuário do amor, do prazer e da fortuna. Era certo que, quando nós estávamos quebrados, Flores tinha no bolso algumas centenas de onças de ouro e ricas joias que valiam um tesouro naqueles tempos.
Flores jamais esquivava a ocasião de prestar um serviço, e seus amigos o adoravam por sua generosidade.
Detive-me na descrição do caráter do primeiro dos meus personagens porque tenho nisso o meu propósito: desejo que os senhores o conheçam perfeitamente e compreendam de antemão a razão de vários acontecimentos que tenho de narrar.
Tal era o comandante Enrique Flores.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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