Universo da obra
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- Mau negócio para o senhor, meu amigo; foi um louco. O general em chefe está indignado contra o senhor, e Deus o tire bem da entrevista que vai ter.
Logo Valle chegou ao quartel-general e foi anunciado ao chefe do Exército do Centro, que despachava em seu gabinete com o secretário.
- Que entre! - disse com voz seca, levantando a cabeça com aspecto irritado.
- O senhor é o comandante Valle? - perguntou, ao entrar o jovem.
- Sim, meu general; ontem fui reduzido à prisão e recebi ordem de apresentar-me ao senhor; ignoro que causa houve para isso.
- Ignora, hein? Sua consciência não o acusa de nada?
- De nada, meu general.
- O senhor está traindo, comandante; é um mau mexicano. Na noite em que saiu a Zacoalco com sua coluna, encontrou-se com um correio que vinha de Guadalajara; ele falou com o senhor, e então o senhor abandonou sua tropa e foi com ele a Zacoalco para ler seus documentos e respondê-los, depois do que voltou novamente em sua companhia. Despachou-o adiante e, em vez de seguir o caminho reto, tomou um de través para dirigir-se, não à fazenda de Santa Ana, mas ao povoado de Santa Anita, contrariando as ordens que lhe haviam sido dadas. E isso porque uma partida inimiga estava na fazenda e o senhor precisava que sua tropa não a visse. De modo que o senhor está espionando nossos movimentos e dando conta deles aos franceses? Sabe o que sua conduta merece? Sabe que desejo dar um exemplo terrível no exército, que tire a vontade dos covardes ou dos traidores de desonrar nossas bandeiras? Sabe, desgraçado?
- Meu general, no informe que lhe deram do que fiz na noite do dia 5, acrescentaram um fato inteiramente falso e desnaturaram os outros. Não havia tal força inimiga na fazenda de Santa Ana, e apelo aos donos dela, que ali estão e podem declarar. Além disso, o homem que encontrei não era correio, mas um moço do senhor R... de Guadalajara, que vinha a Zacoalco em busca de uma carruagem, pois a que trazia esse cavalheiro se despedaçara no caminho. Tenho motivos de gratidão para com essa família e quis tirá-la do apuro. O capitão X..., que deve estar aqui agora, chegara a Zacoalco à tarde com um coche; lembrei-me disso, mas como desconfiei que, com simples recado, o capitão emprestasse sua carruagem, abandonei a coluna por duas horas e vim ao povoado pedir ao capitão esse favor, que afinal me concedeu. Voltei com a carruagem, despachei o moço adiante, como era natural, e se tomei um caminho de través para não encontrar a família, foi porque não queria tornar conhecido a ela meu serviço e porque desejava evitar suas manifestações de agradecimento. Eis minha conduta explicada; quanto à falta que cometi abandonando meu esquadrão por duas horas, é certa, e mereço castigo. Também é certa a contravenção às ordens que acabava de receber, dirigindo-me à fazenda de Santa Ana; mas não fiz senão passar pelo povoado de Santa Anita, e com uma hora de atraso estive em meu ponto.
O general parecia refletir com essa explicação, dada por Fernando com acento de verdade.
- De modo - tornou a perguntar - que essa carruagem que se facilitou ao senhor R... foi o senhor quem a conseguiu, e não o tenente-coronel Flores?
- Eu, senhor, e não ele, pois, segundo ele mesmo lhe informa, fui eu que encontrei o moço na noite do dia 5, regressei a Zacoalco e voltei a despachá-lo com a carruagem.
- E quem lhe disse que é seu chefe quem me informa?
- Adivinho, senhor; ele me odeia...
- Mas como o senhor R... não o viu?
- Lembre-se, senhor, de que lhe foi informado que tomei um caminho de través para evitar seu encontro, e essa é a razão pela qual não me viu e pela qual seguramente ignora que fui eu quem lhe enviou o coche.
- Pode ser que tenha razão - disse o general ao secretário em voz baixa. - Aqui há seguramente um equívoco. O senhor R... não nos disse que houvesse visto Flores?
- Não, senhor; disse que ele tomara um caminho lateral para não o encontrar, lembre-se.
- Pois é verdade, e o informe coincide perfeitamente; apenas omite o da carruagem.
- Então Flores pecou de leviano ao acusar este rapaz. Lembra que dia o senhor R... nos disse que sua carruagem se quebrara?
- No dia 5, senhor, e esse dia, disse-nos ele, havia saído de Guadalajara pouco antes de os franceses entrarem.
- Que dia saiu Flores de Sayula para Santa Ana?
O secretário consultou alguns papéis e respondeu:
- Saiu no dia 5 à tarde, senhor, e não marchou diretamente para Santa Ana; antes foi desempenhar a missão que lhe foi confiada. Na tarde do dia 7 regressou, segundo o parte do general Arteaga; no ato voltou a sair, e no dia 8 chegou a Santa Ana, segundo sua comunicação, que veio com o informe a respeito deste comandante.
- De modo que ele não pôde ser quem conseguiu o coche para o senhor R... em Zacoalco na noite do dia 5?
- Não, senhor, porque estava muito longe desse povoado.
- Nem pôde encontrar no caminho o senhor R...
- Creio que não, porque esse senhor parece que chegou a Sayula no dia 6 à noite e continuou seu caminho, chegando aqui no dia 7; assim é que não puderam se encontrar, porque o coronel não estava no caminho nesses dois dias.
- Que dia o senhor saiu para Santa Ana? - perguntou o general a Fernando.
- No dia 5 de manhã, senhor. Cheguei a Zacoalco, dei ração à cavalhada e continuei minha marcha às sete da noite para a fazenda, aonde cheguei no dia 6, como parece que lhe foi informado.
O general voltou a consultar a comunicação de Flores.
Não havia dúvida, estava explicada a conduta do comandante acusado.
Só faltava indagar se houvera forças inimigas em Santa Ana, como parecia assegurar-se, e perguntar ao capitão X... se havia emprestado a carruagem.
- Bem - disse o general -, amanhã poremos completamente em claro a conduta do senhor, que, segundo sei, há tempos não inspira a seus chefes muita confiança, digamos assim. E, de todo modo, será castigado por andar conseguindo coches para famílias com prejuízo de seus deveres... veremos amanhã... vá para sua prisão...
- Meu general - disse Fernando resolutamente -, esperava concluir a explicação de minha conduta esta noite para dar-lhe outro informe; mas esse, apoiado em provas... O traidor não sou eu, mas aquele que o senhor vai conhecer neste momento. Desde a chegada do chefe de meu corpo, fiquei em Santa Ana com cinquenta soldados, e ele, como o senhor saberá, permanece no povoado de Santa Anita. Pois bem; anteontem avancei umas quatro léguas mais perto de Guadalajara e ali fiz alto. Tinha notícia de que na noite anterior se vira vir até ali uma partida de cavalaria inimiga. À meia-noite, ocultando perfeitamente minha força atrás de uma pequena colina, avancei em direção ao caminho, seguido apenas por um assistente de minha confiança, e a uns cem passos detive-me ao pé de um arvoredo, lugar em que um vaqueiro me dissera haver estado a partida inimiga na madrugada do dia anterior. Uma hora depois, por volta de uma e meia, vi aproximar-se um cavaleiro que ia em direção a Guadalajara. Ao chegar diante de nós, saímos ao seu encontro e o detivemos. Ele se aterrorizou e, perguntando-lhe quem era, respondeu-nos, depois de muita resistência, que era correio do tenente-coronel Flores, que ia a Guadalajara entregar ao general inimigo M... um documento que levava oculto. Era um sargento de meu corpo, dos favoritos do tenente-coronel, e tão logo me reconheceu pela voz, confessou-me que já fora duas vezes à praça inimiga. Recolhi o documento e, pensando no que faria para ocultar de todos aquela presa e evitar que o tenente-coronel tivesse conhecimento de que estava denunciado, ocorreu-me chamar imediatamente outro de meus assistentes, homem de confiança, e preveni-o, assim como ao que estivera comigo, que, amarrando perfeitamente o sargento-correio e montando um de meus rapazes na garupa de seu cavalo, marchassem sem perda de tempo para Sayula. Eu me prometia chegar à fazenda, escrever ao general Arteaga para fazê-lo saber daquele incidente, e acompanhar-lhe o referido documento para conhecimento dele e do senhor. Ainda não podia ler o documento, mas presumia o que encerrava. De todo modo, fiz partir os soldados antes que houvesse luz e adverti-lhes que no caminho os alcançaria um correio meu, que lhes daria as ordens que haviam de executar. Depois, por volta das quatro da manhã, uni-me à minha força e regressei com ela a Santa Ana, onde encontrei, com grande surpresa minha, o oficial que me intimou a ordem de prisão e designou a escolta que me conduziu até aqui. Em Zacoalco alcancei meus dois soldados e o sargento preso, e enquanto descansamos fiz dizer-lhes por meu criado que se adiantassem até este povoado, aonde chegaram hoje antes de nós, auxiliados pelos juízes de Acordada, a quem disseram que era um correio do inimigo remetido ao quartel-general. O correio está ali, senhor, e o documento é este.
- Vejamos, vejamos - disse o general, que escutara com atenção o relato de Valle e dera mostras de extraordinária impaciência.
Abriu o documento, que era pequeno, muito cheio de dobras, de modo que formava volume reduzidíssimo. Leu-o com suma atenção, assim como outros dois papeizinhos que estavam anexos, e passou-os em seguida ao secretário, voltando a lê-los com ele.
- Que lhe parece? - disse ao secretário com voz surda e trêmula de cólera. - Minhas ordens! Minhas instruções reservadas! Esperava isto desse famoso recomendado, desse imbecil do general X...? Uma traição em toda forma! De modo que estávamos vendidos inteiramente.
- Ainda estamos, senhor - replicou o secretário -, enquanto esse homem estiver ali. Foi uma fortuna semelhante revelação. É preciso arranjar este negócio logo... esta mesma noite.
- É claro que esta mesma noite. Olá! Um ajudante!
Apresentou-se no ato um ajudante, que recebeu ordens em voz baixa e saiu apressadamente.
- Mas esta é a assinatura desse patife?
- Sua assinatura e sua letra, senhor general; aqui estão todas as suas comunicações.
- E nós o promovemos! Que confiança a minha!
- Comandante - disse depois, dirigindo-se a Valle -, o senhor prestou com isto um serviço à causa da República, e não tema por suas faltas anteriores. Grave demais é o que faz seu indigno chefe para que nos detenhamos nas irregularidades de sua conduta. Fez bem em proceder com tal reserva. Está livre; chame seus soldados e traga-me o sargento.
Um instante depois, Fernando apareceu com os três.
- Aqui estão, meu general.
- Aproxima-te, sargento: por que vens preso?
- Meu general, aqui meu comandante lhe dirá; encontrou-me no caminho de Guadalajara...
- Quem te mandava? A que ias?
- Senhor, meu tenente-coronel Flores me enviou duas vezes a Guadalajara para levar comunicações ao general M..., e eu levava anteontem outro documento quando meu comandante me fez prisioneiro.
- É este o documento que levavas?
- Sim, meu general, esse é; eu o levava fechado e colado com lacre.
- Bem. Tu conheces o general M...?
- Sim, senhor, servi com ele no tempo dos mochos, e por isso meu tenente-coronel me escolheu. Eu lhe suplicava que não me mandasse para onde estavam os franceses; mas ele me disse que eram assuntos de nosso governo, e que além disso me recomendava segredo porque não convinha que ninguém soubesse; e me deu dinheiro e prometeu fazer-me oficial dentro de poucos dias.
- E o general M... também mandava documentos?
- Sim, senhor, eu os levava ao meu tenente-coronel, e na noite antes de me prenderem veio o próprio general falar com meu chefe; acompanhei este com outros vinte homens.
- E não ouviste o que diziam?
- Não, meu general, ficamos longe; mas percebi que os que vinham com o general M... eram franceses, porque os ouvi falar e tinham uma língua diferente da nossa.
- Está bem, retira-te, patife, e prepara-te, porque vou te fuzilar por traidor.
- Meu general - disse o desgraçado sargento aflito -, não tenho culpa; meu chefe mandava e eu obedecia... tenho família, senhor...
- Bem; vai. Que esse sargento permaneça incomunicável - disse o general a um ajudante.
O sargento saiu.
- Que tal é esse sargento, comandante?
- É bom, meu general, cumpridor e subordinado. Estou certo de que disse a verdade. É um dos que mais querem o tenente-coronel; mas o pobre talvez não creia faltar a seus deveres obedecendo.
- Bem; retire-se, e silêncio por ora.
- Fique tranquilo, meu general.
O quartel-mestre entrou.
- Veja o que se passa - disse o general, estendendo o documento de Flores ao quartel-mestre.
- Infame! - murmurou este.
- Os corpos estão prontos?
- Sim, senhor.
- Pois em marcha agora mesmo. Que estejam amanhã em Sayula e depois de amanhã em Santa Ana. É preciso que esse patife não saiba que conhecemos sua traição, e logo que tudo esteja arranjado, já sabe: com boa escolta e caminhando dia e noite, para cá. Importa-nos averiguar tudo e saber a que nos ater. Esta é uma cadeia que tem elos mais grossos do que parecem. Esse corpo de cavalaria já não me inspira confiança, está minado desde Guadalajara. Assim é que por companhias, e bem vigiadas, que se dirija também para cá. Esta noite que fique preso o general X..., pois me parece algo complicado no negócio.
- Está bem, senhor. Não tem mais nada a ordenar?
- Nada mais por ora.
- Com sua permissão.
- A trabalhar nós - disse o general ao secretário.
E um momento depois os dois estavam inclinados sobre a mesa, enquanto os ajudantes dormiam sentados e envoltos em suas capas na peça imediata, e as sentinelas passeavam ao longo dos corredores.
Na praça de Zapotlán havia esse movimento que se nota quando vai sair uma força. Dois corpos de cavalaria formavam-se em colunas e, pouco depois, desfilavam silenciosamente, dirigindo-se pelo caminho de Sayula. Um general ia à frente e levava as instruções mais detalhadas sobre as ordens que iria executar.
Enquanto isso, lá na fazenda de Santa Anita, o tenente-coronel Henrique Flores, que recebera uma nova comunicação de Guadalajara, não sabia explicar por que seu sargento ainda não viera, nem por que nada lhe diziam acerca do documento que enviara com aquele emissário, documento talvez o mais interessante de todos, por conter as instruções reservadas que o quartel-general havia circulado a todos os chefes da linha avançada.
Haveria traição nisso? Mas em que consistia? No mais, já tinha conhecimento de que Fernando, na noite em que enviara o sargento a Guadalajara, avançara até quatro léguas além de Santa Ana; mas ninguém lhe dizia mais nada, e por esse lado estava tranquilo. Entretanto, a demora do sargento o mantinha inquieto e agitado por diferentes pensamentos; mandara tocar "a cavalo!" várias vezes, e outras tantas dera contraordem. Não sabia por quê; mas sentia crescer cada vez mais seu ódio por Fernando, e esperava com impaciência notícias do quartel-general.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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