Universo da obra
Universo da obra
A essa hora, as aves cantavam regozijadas entre as árvores; corria uma brisa morna e carregada dos aromas da flor de laranjeira e da magnólia. O céu estava azul e limpo, e apenas algumas nuvenzinhas, como velos transparentes, afastavam-se para perder-se do lado do mar. O vulcão elevava até o céu sua ponta de neve, em que pareciam romper-se, chispeando, os raios do sol nascente.
A natureza inteira parecia elevar a Deus um hino solene e doce. E em meio a essa alegria do céu e da terra, debaixo desse manto infinito de safira e luz, atravessava aquele cortejo militar silencioso e terrível.
Ali ia um réu de morte que ia misturar seus últimos suspiros aos cantos de festa com que a natureza saúda o Criador ao aparecer o novo dia.
A coluna atravessou todo o comprimento da fileira de jardins da Albarradita, e perto de um grupo de palmeiras que se erguiam solitárias sobre um prado gracioso, no qual o inverno não pudera tostar o manto da primavera, o cortejo fez alto. Ali estava formado o quadrado de infantaria, e uma multidão imensa aguardava. A carruagem deteve-se fora do quadrado, abriu-se a portinhola, e Fernando desceu tranquilo, e com passo seguro e firme avançou entre dupla fileira de soldados, conduzido por um oficial.
Levava abotoada a levita militar, calçadas as botas fortes e o quepe inclinado graciosamente até os olhos.
Ao tempo de entrar no quadrado, outra carruagem chegava a galope pelo lado oposto, e dela apeavam-se apressadamente três senhoras vestidas de negro, cobertas por longos véus, e um cavalheiro de idade.
Eram Clemência, sua pobre mãe que não queria abandoná-la, Isabel e o senhor R..., que, não tendo outra vontade senão a da filha, deixava-se arrastar, e então o fazia com toda a sua vontade. A apaixonada filha de Jalisco, cujos sentimentos transbordavam logo do coração e não podiam permanecer dissimulados um momento, procurara inutilmente penetrar na prisão de Fernando para pedir-lhe perdão de joelhos e assegurar-lhe que o admirava hoje, e talvez o amava já tanto quanto no dia anterior o havia ultrajado e aborrecido. Então decidiu fazê-lo à hora da execução. Que importava isso àquela jovem que desafiava a sociedade com tanto valor e que estava acostumada a impor sua vontade como lei?
Dir-se-ia que era uma louca; pois bem, sim, tinha essa sublime loucura do coração cujas extravagâncias a admiração popular converte em lendas, eterniza em cantos e adora no santuário de sua alma. Acaso Clemência era a primeira mulher que se abraçava ao cadafalso de um ser querido? Desde o Gólgota, desde antes, houve mulheres santas que perfumaram com suas lágrimas o pé do patíbulo em que expiraram os mártires.
Assim, pois, Clemência precipitou-se entre a multidão, impetuosa, palpitante e lutando por penetrar no quadrado. Mas a massa era imensa e estava tão compacta que, a não ser uma coluna, ninguém podia atravessá-la.
A pobre jovem, seguida de seus acompanhantes e arrastando Isabel, que ia quase desfalecida, rogava, empurrava, prometia ouro, gritava chorando que a deixassem passar, que era da família do réu, que queria falar-lhe pela última vez, que queria vê-lo.
Em vão; a multidão, talvez por compaixão, fechava-lhe a passagem. E o quadrado se movia, e escutava-se uma voz seca e imperiosa ordenar um movimento. Grande Deus! Fernando ia morrer e Clemência nem sequer o veria.
De repente reinou um silêncio mortal.
- Por piedade - gritou Clemência -, passagem, preciso vê-lo... pelo amor de Deus... suplico.
A multidão assombrada e triste abriu passagem, mas ainda restava atravessar a fileira de soldados.
Clemência ia suplicar a um granadeiro que a deixasse passar, quando ficou pregada ao chão, muda de horror e dor.
Estava frente a frente com Fernando, embora ao longe. O jovem estava belo, heroicamente belo. Não quisera vendar-se; tirara o quepe, que pusera de lado no chão, e, pálido, mas com o olhar sereno e com um leve e triste sorriso, elevando os olhos ao céu, esperava a morte.
Os cinco fuzileiros estavam a dois passos dele e lhe apontavam. As palmeiras a cuja sombra se achava estavam quietas, como pendentes daquela cena terrível.
Clemência quis gritar para atrair ao menos sobre ela o último olhar de Fernando; mas não pôde, o sangue gelou em suas veias, sua garganta estava seca, era o momento terrível... Ouviu-se uma descarga, levantou-se uma leve fumaça que foi perder-se nos largos leques das palmas, e tudo terminou.
Fernando caíra morto com o crânio feito em pedaços e o coração atravessado.
- Levantem esta senhora que desmaiou, mulheres - gritou o soldado às costas de quem Clemência estivera.
Um grupo de mulheres do povo levantou a jovem, e logo seu pai a tomou nos braços e a conduziu à carruagem, onde Isabel estava escondida e cheia de terror com a mãe de sua amiga.
Os fuzileiros se retiraram chorando: era tão valente aquele jovem oficial!
A tropa voltou para a cidade e a gente se dispersou. Só a carruagem de Clemência permaneceu ainda ali. Alguns soldados ficaram junto ao cadáver para recolhê-lo; mas esperavam a maca, e passou meia hora.
De repente Clemência desceu outra vez de sua carruagem, mas seu pai a reteve com força, e ela, abatida e fraca, sucumbiu, e voltou a entrar no coche, onde a receberam desmaiada sua mãe e a amiga.
O senhor R... chegou junto ao cadáver e, pedindo permissão, tirou de sua carteirinha uma tesourinha e cortou uma mecha dos cabelos de Fernando, que guardou cuidadosamente; depois disso voltou à carruagem, que partiu para a cidade.
Clemência voltou de seu novo desmaio em casa, já recuperada e mais tranquila.
- Meu pai - disse -, onde está isso?
- Aqui, filha querida, aqui; mas por Deus, não nos faças sofrer.
E estendeu-lhe os cabelos que havia cortado.
- Ah! - disse Clemência, tomando-os com delírio e beijando-os repetidas vezes. - A ti era a quem eu deveria ter amado - disse, e caiu sobre os travesseiros desfeita em pranto.
A família do senhor R... recolheu depois o cadáver de Valle e deu-lhe sepultura com a adoração que se deve a um mártir.
Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.
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