Leia agora
Clemência

Universo da obra

Clemência

Capítulo 37 · Clemência

Capítulo XXXVII

37 de 37 ≈ 6 min de leitura

Capítulo XXXVII

A essa hora, as aves cantavam regozijadas entre as árvores; corria uma brisa morna e carregada dos aromas da flor de laranjeira e da magnólia. O céu estava azul e limpo, e apenas algumas nuvenzinhas, como velos transparentes, afastavam-se para perder-se do lado do mar. O vulcão elevava até o céu sua ponta de neve, em que pareciam romper-se, chispeando, os raios do sol nascente.

A natureza inteira parecia elevar a Deus um hino solene e doce. E em meio a essa alegria do céu e da terra, debaixo desse manto infinito de safira e luz, atravessava aquele cortejo militar silencioso e terrível.

Ali ia um réu de morte que ia misturar seus últimos suspiros aos cantos de festa com que a natureza saúda o Criador ao aparecer o novo dia.

A coluna atravessou todo o comprimento da fileira de jardins da Albarradita, e perto de um grupo de palmeiras que se erguiam solitárias sobre um prado gracioso, no qual o inverno não pudera tostar o manto da primavera, o cortejo fez alto. Ali estava formado o quadrado de infantaria, e uma multidão imensa aguardava. A carruagem deteve-se fora do quadrado, abriu-se a portinhola, e Fernando desceu tranquilo, e com passo seguro e firme avançou entre dupla fileira de soldados, conduzido por um oficial.

Levava abotoada a levita militar, calçadas as botas fortes e o quepe inclinado graciosamente até os olhos.

Ao tempo de entrar no quadrado, outra carruagem chegava a galope pelo lado oposto, e dela apeavam-se apressadamente três senhoras vestidas de negro, cobertas por longos véus, e um cavalheiro de idade.

Eram Clemência, sua pobre mãe que não queria abandoná-la, Isabel e o senhor R..., que, não tendo outra vontade senão a da filha, deixava-se arrastar, e então o fazia com toda a sua vontade. A apaixonada filha de Jalisco, cujos sentimentos transbordavam logo do coração e não podiam permanecer dissimulados um momento, procurara inutilmente penetrar na prisão de Fernando para pedir-lhe perdão de joelhos e assegurar-lhe que o admirava hoje, e talvez o amava já tanto quanto no dia anterior o havia ultrajado e aborrecido. Então decidiu fazê-lo à hora da execução. Que importava isso àquela jovem que desafiava a sociedade com tanto valor e que estava acostumada a impor sua vontade como lei?

Dir-se-ia que era uma louca; pois bem, sim, tinha essa sublime loucura do coração cujas extravagâncias a admiração popular converte em lendas, eterniza em cantos e adora no santuário de sua alma. Acaso Clemência era a primeira mulher que se abraçava ao cadafalso de um ser querido? Desde o Gólgota, desde antes, houve mulheres santas que perfumaram com suas lágrimas o pé do patíbulo em que expiraram os mártires.

Assim, pois, Clemência precipitou-se entre a multidão, impetuosa, palpitante e lutando por penetrar no quadrado. Mas a massa era imensa e estava tão compacta que, a não ser uma coluna, ninguém podia atravessá-la.

A pobre jovem, seguida de seus acompanhantes e arrastando Isabel, que ia quase desfalecida, rogava, empurrava, prometia ouro, gritava chorando que a deixassem passar, que era da família do réu, que queria falar-lhe pela última vez, que queria vê-lo.

Em vão; a multidão, talvez por compaixão, fechava-lhe a passagem. E o quadrado se movia, e escutava-se uma voz seca e imperiosa ordenar um movimento. Grande Deus! Fernando ia morrer e Clemência nem sequer o veria.

De repente reinou um silêncio mortal.

- Por piedade - gritou Clemência -, passagem, preciso vê-lo... pelo amor de Deus... suplico.

A multidão assombrada e triste abriu passagem, mas ainda restava atravessar a fileira de soldados.

Clemência ia suplicar a um granadeiro que a deixasse passar, quando ficou pregada ao chão, muda de horror e dor.

Estava frente a frente com Fernando, embora ao longe. O jovem estava belo, heroicamente belo. Não quisera vendar-se; tirara o quepe, que pusera de lado no chão, e, pálido, mas com o olhar sereno e com um leve e triste sorriso, elevando os olhos ao céu, esperava a morte.

Os cinco fuzileiros estavam a dois passos dele e lhe apontavam. As palmeiras a cuja sombra se achava estavam quietas, como pendentes daquela cena terrível.

Clemência quis gritar para atrair ao menos sobre ela o último olhar de Fernando; mas não pôde, o sangue gelou em suas veias, sua garganta estava seca, era o momento terrível... Ouviu-se uma descarga, levantou-se uma leve fumaça que foi perder-se nos largos leques das palmas, e tudo terminou.

Fernando caíra morto com o crânio feito em pedaços e o coração atravessado.

- Levantem esta senhora que desmaiou, mulheres - gritou o soldado às costas de quem Clemência estivera.

Um grupo de mulheres do povo levantou a jovem, e logo seu pai a tomou nos braços e a conduziu à carruagem, onde Isabel estava escondida e cheia de terror com a mãe de sua amiga.

Os fuzileiros se retiraram chorando: era tão valente aquele jovem oficial!

A tropa voltou para a cidade e a gente se dispersou. Só a carruagem de Clemência permaneceu ainda ali. Alguns soldados ficaram junto ao cadáver para recolhê-lo; mas esperavam a maca, e passou meia hora.

De repente Clemência desceu outra vez de sua carruagem, mas seu pai a reteve com força, e ela, abatida e fraca, sucumbiu, e voltou a entrar no coche, onde a receberam desmaiada sua mãe e a amiga.

O senhor R... chegou junto ao cadáver e, pedindo permissão, tirou de sua carteirinha uma tesourinha e cortou uma mecha dos cabelos de Fernando, que guardou cuidadosamente; depois disso voltou à carruagem, que partiu para a cidade.

Clemência voltou de seu novo desmaio em casa, já recuperada e mais tranquila.

- Meu pai - disse -, onde está isso?

- Aqui, filha querida, aqui; mas por Deus, não nos faças sofrer.

E estendeu-lhe os cabelos que havia cortado.

- Ah! - disse Clemência, tomando-os com delírio e beijando-os repetidas vezes. - A ti era a quem eu deveria ter amado - disse, e caiu sobre os travesseiros desfeita em pranto.

A família do senhor R... recolheu depois o cadáver de Valle e deu-lhe sepultura com a adoração que se deve a um mártir.

Clemência

Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

Clemência

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Clemência

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Clemência

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Clemência Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 37 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Clemência

Capa de Clemência
Continue a leitura Capítulo XXXVII Capítulo 37 · 37 de 37 · ≈ 6 min
Todos os capítulos 37 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir