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Clemência

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Clemência

Capítulo 20 · Clemência

Capítulo XX

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Capítulo XX

- Que feliz sou, minha irmã, que feliz sou! - disse-lhe.

- Vejo em teu semblante, Isabel, acredito... Então te amam!...

- E amo como uma louca, como nunca amei, como nunca pensei que se pudesse amar.

- Vamos, diga: o que aconteceu? Henrique te disse...

- Que me adora, que não ama ninguém além de mim; que não deixou ninguém no México e que a guerra não será obstáculo para que eu seja sua esposa.

- Tão depressa assim vai?...

- E que menos depressa poderia ir? Pois acaso não se ama para isso, para nunca mais se separar?

- Mas, menina, é que alguém se conhece hoje para casar depois de amanhã? Esse cavalheiro acredita que se dá uma palavra de casamento como se diz uma galanteria?

- Mas, Clemência, tu me entristeces; se me declarou seu amor anteontem, parece-te monstruoso que me fale de união eterna quando se convenceu de que eu também o amo? Que há nisso de particular? Melhor dizendo, por que não haveria de ser assim?

- Não digo que seja monstruoso, mas parece-me que o cavalheiro Flores é demasiado devasso para aventurar uma promessa tão cedo com intenção de cumpri-la. Isso, se não fosse uma vulgaridade suma, seria coisa muito rara. Há homens como ele que empregam essa palavra em todos os seus galanteios, e esses decididamente são libertinos vulgares, muito vulgares. Se Henrique a usa por costume, é preciso convir que não é tão superior como eu o havia julgado. Se não é assim, é preciso que esteja muito enamorado, e então há que crer nele; mas repito, é extraordinário, é prodigioso.

- Clemência, tu me fazes mal com tuas palavras. Por que estás tão cruel hoje?

- Não, menina, não quero te fazer mal, quero te prevenir: estás enamorada, tens confiança cega, e eu te digo: Isabel, não creias tão facilmente... nada engana mais que o coração enamorado... por isso é preciso deixar a cabeça falar um pouquinho. Tu és uma menina inocente e boa, nunca amaste, não conheces os homens, e menos ainda homens como Henrique. Se deres crédito inteiro às suas promessas, corres o perigo de comprometer demais o coração num jogo terrível: depois morrerias ao primeiro desengano, e essa alma hoje tão feliz, tão tranquila, converter-se-ia num instante num inferno de tormentos... Ama, minha filha, porque essa é a ventura, e sobretudo porque não amar não depende de ti; mas pensa um pouco e não concedas teu amor senão com muitas reservas; mais tarde elas irão desaparecendo, mas será depois que te convenças da sinceridade com que te amam. Acaso conheces Flores? Sabes se ele não é o que imaginas, um homem cavalheiresco e leal, mas um sedutor afortunado que sabe representar perfeitamente a comédia do amor? Se fosse Valle, eu te diria: querida minha, não tenhas medo; eis a sinceridade, conhece-se em seu olhar e em seu modo de falar. Os homens acanhados como ele, quando se decidem a declarar-se, tremem, seus olhos se enchem de lágrimas, gaguejam algumas palavras torpes... mas pode-se acreditar neles... toda essa timidez revela a pureza de um sentimento que não sabem fingir... Mas os homens como Henrique são abismos em que é difícil adivinhar o que há.

Isabel empalidecia e chorava.

- Cala-te, Clemência! Não vês que estás me matando? E eu que acreditava encontrar em tuas palavras animação e esperança; eu que acreditava que ias gozar com minha felicidade, que teu coração responderia com suas palpitações carinhosas ao meu, que se sente enfermo de amor... encontro-te assim, cruel, amarga e cheia de suspeitas! É que já me aborreces? É que não queres que eu o ame?

- Eu querer isso, Isabel minha? E por que haveria eu de querer? Minha amizade não merece tais censuras; és mais que minha amiga de infância, és minha irmã. Perdoa se, dizendo-te isso, fiz-te sofrer; mas, olha, eu conheço mais o mundo, ao menos porque, menos enclausurada que tu, tratei com mais frequência os homens. Bem sabes que adquiri fama de coquete, e bem sabes também que injustamente; é que julguei prudente não me confiar. O coração não deve ser dado senão como preço de um amor provado mil vezes. Aquele que resiste a essas provas e sai delas airoso, esse é o merecedor de nosso carinho. Mas amar em tão breves instantes é jogar a vida. Ainda não derramei uma lágrima arrancada pelo desengano. Mas tenho medo de derramá-la; parece-me que com ela perderia metade da força que hoje sinto: parece-me que com a primeira lágrima de dor se derrama a seiva de dez anos de existência. No mais, ama Henrique; mas nem acredites em tudo o que te diz, nem lhe digas tudo o que sentes. Serás sua esposa; mas ao menos espera saber quem é, de onde vem e o que fez. Os mexicanos nos julgam, a nós provincianas, mais cândidas do que somos, e, educados numa sociedade menos franca que a nossa, abusam de sua destreza para enganar, seguros de seus triunfos fáceis. Repito que, se se tratasse de Valle, eu não seria nem tão severa para julgá-lo nem tão suspicaz para acreditar nele.

- E, a propósito de meu primo, ele está loucamente enamorado de ti, não é?

- Assim parece. Veio ontem, veio hoje também; devora-me com os olhos: há algo de delírio naquela pobre alma, e te asseguro que jamais amou como hoje.

- E tu o queres?

- Parecer-te-á estranho, mas creio que sim. Sem as vantagens de Henrique, tem em compensação um nobre coração que se revela em todas as suas ações, uma inteligência admirável e uma inocência de criança. Dei-lhe uma flor anteontem à noite, tu sabes. Pois bem; guarda-a junto ao coração, adora-a e a beija com loucura. Hoje lhe dei meu retrato e pus nele uma dedicatória que o transtornou. Acreditas? Atreveu-se a beijar-me uma mão; não pude me incomodar por essa liberdade: ele me ama tanto!... E eu vou querendo-o também... E por que não haveria de me fazer feliz o amor de uma alma tão generosa e tão elevada?

- Clemência, estás enamorada!

- Não seria difícil, já me conheces, sou original em minhas ideias. Nunca amei porque nunca encontrei a alma à altura das qualidades físicas, e seria triste para mim amar uma bela estátua. Pois não há beleza bastante com a da mulher? Eu busco no escolhido de meu coração a força, a energia, a inteligência e a elevação de sentimentos: tudo isso julguei entrever em Fernando. Até hoje, não sei inteiramente se ele é meu ideal, porque, menos confiante que tu, não aceito tão facilmente um desconhecido. Creio em seu talento, porque isso se revela desde o primeiro instante; mas ainda não conheço nem seu valor pessoal nem a generosidade de suas ações. Assim, reservo-me. Olha: ainda não o amo; mas, se qualquer acontecimento me fizesse conhecer de maneira indubitável os grandes dons que lhe suponho, eu o amaria com toda a minha alma, o adoraria e procuraria fazê-lo feliz com toda a paixão de que uma mulher é capaz. Nada haveria no mundo que me detivesse para ser sua; nem a fortuna nem a glória teriam para mim mais tesouros que os que poderiam oferecer-lhe meu amor ardente e minha ternura imensa. Feliz o homem a quem eu ame, Isabel, porque o amarei como já não se costuma amar hoje, como é difícil que se ame no mundo! E já me vês tão altiva, tão desdenhosa, tão exigente? Pois te asseguro que eu seria uma mulher humilde, uma pobre escrava pendente de seus olhos para agradá-lo, e uma leoa para disputar seu amor... A própria morte me pareceria doce recebê-la de sua mão.

- Clemência!... Nunca te ouvi falar assim... Encantas-me e me causas terror!

- Oh! Causo-te terror porque és doce e tímida, porque teu amor é uma lágrima de anjo... meu amor seria uma chama devoradora, um vulcão. Mas tranquiliza-te... ainda não amo assim teu primo. Mais tarde talvez o ame... Mas falta muito para isso. Seria preciso que um grande traço de coração, uma coisa extraordinária, me fizesse admirá-lo, e então não haveria necessidade de mais nada: eu o amaria. Sou dessas mulheres em quem o amor entra pelas portas da admiração. Parece-me difícil que eu chegasse a apaixonar-me por um homem sem antes admirá-lo; desdenho o vulgar e me sinto capaz de amar por toda a vida um mártir que houvesse perecido num cadafalso, e de converter sua memória num culto perpétuo; assim como me parece impossível querer algum pequeno homem a quem a fortuna elevasse sem merecimento ao cume do poder, ou outro a quem a sorte caprichosa houvesse dotado de riquezas, ou o triste mortal que não contasse senão com o atrativo vulgar de uma beleza de Adônis, boa apenas para decorar meu jardim ou ocupar um lugar em meu aparador de brinquedos.

- Pois bem, Clemência, justamente se aproxima a ocasião em que poderás experimentar a alma de Fernando... a guerra que virá talvez lhe dê oportunidades de mostrar-te seu valor e seu temperamento.

- Bem pensado: não é o valor vulgar que me fascinaria... Valentes há muitos, em nosso país sobram, e do soldado raso ao general há o que admirar em todos... Se Fernando não fosse mais que um oficial atrevido, pouco teria avançado em meu coração. Mas tu sabes que há ações que ultrapassam a esfera do comum; eu não sei precisamente o que quero, não consigo expressar-te meu pensamento... Figura-se-me que um proscrito, perseguido por todo o mundo, um mártir, um homem que subisse ao cadafalso por sua fé e por sua causa, abandonado por todos, até pelo céu... esse seria o homem a quem eu amaria... E faço a ilusão de arrancá-lo dos degraus do cadafalso, de ser eu sua libertadora e de levá-lo comigo para fazê-lo sentir o céu depois de ter pisado os umbrais do inferno. Que queres!... Sou assim... há muito de singular em meus desejos e em minhas ideias.

- Sim, verdadeiramente me espantas... Um condenado à morte!... A ninguém ocorreria, juro-te... Aposto que te enamoraste de algum herói de romance.

- Leio poucos, tu sabes, e os que li não têm condenados à morte. É uma ideia minha, nada mais.

- De sorte que meu pobre primo teria de se deixar capturar pelos franceses, ser conduzido a Guadalajara e fuzilado na praça para que tu o amasses depois.

- Pode ser que não o conseguisse simplesmente com isso, Isabel. Eu te digo que não sei o que quero precisamente; mas quero a desgraça, e a desgraça ganha por um grande traço do coração.

- Amor impossível, então.

- Muito difícil de todo modo, querida menina - disse Clemência, suspirando e ficando por um momento pensativa.

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Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

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