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Clemência

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Clemência

Capítulo 17 · Clemência

Capítulo XVII

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Capítulo XVII

Clemência conduziu Fernando até onde estava um soberbo tibor japonês, sobre um pedestal de mármore avermelhado, diante de uma porta aberta que deixava ver, através de suas ricas cortinas, uma peça elegantíssima, também suavemente iluminada por uma lâmpada azul.

- Aqui está minha planta querida; é uma tuberosa da espécie mais rara... Veja como é bela e que aroma rico tem. Embora o inverno aqui não seja nada rigoroso, como o senhor sabe, custa sempre trabalho conservar esta planta, que vive melhor na primavera: por isso a estimo mais hoje. O senhor não encontraria em toda Guadalajara um exemplar igual. E veja: esta flor se abre de manhã, mas ainda mais à noite, e está mais perfumada.

- Com efeito, esta flor é divina.

- Pois bem; o senhor vai guardá-la.

- Que vai fazer, Clemência?

- Cortá-la. Não lhe disse que iria oferecê-la?

- Mas veja que é uma pena, menina.

- O senhor a recusa de novo? Arranco a planta!

- Oh, não!... Mas como agradecer?...

- Como? Guardando esta flor junto ao coração, como uma relíquia e como um talismã; o carinho a dá, e o valor a honrará. Guarde-a, Fernando...

E Clemência a ofereceu, com as faces cheias de rubor, a Valle, que a tomou tremendo, levou-a aos lábios e colocou-a numa casa de botão de sua sobrecasaca.

Clemência tirou um pequeno alfinete de ouro e prendeu com ele a tuberosa, que não conseguia firmar-se na casa. Suas belas mãos tremiam também, e como a sobrecasaca estava naturalmente abotoada ao estilo militar, sentiram perfeitamente as fortes batidas do coração de Fernando, que parecia prestes a estalar.

O jovem perdia a cabeça. Sentia junto ao rosto os cabelos sedosos e perfumados de Clemência; devorava com os olhos aquele colo branco e formoso que não distava de seus lábios senão algumas polegadas; ouvia também as batidas apressadas daquele coração virginal e ardente, que se confundiam com as do seu. As mãos daquela mulher encantadora oprimiam seu peito, seu hálito o abrasava!...

Aquilo lhe parecia um sonho, e estava prestes a desfalecer. Os lábios se abriram para pronunciar não sei que palavras atrevidas e loucas... mas mal puderam murmurar, agitados e trêmulos:

- Clemência, piedade!

Clemência fixou nele seus olhos negros e abrasadores e, ocultando em seguida o semblante, voltou a tomar o braço do jovem e obrigou-o a dar alguns passos.

- Talvez sem pensar nisso - disse-lhe - eu o tenha feito romper um voto ou profanado uma lembrança querida. Talvez seu peito seja um altar sagrado no qual só alguma ausente tem o direito de pôr flores... Sou uma louca!

E inclinou a fronte com tristeza.

- Não; Clemência, não... eu juro...

- Mas perguntei em vão seu segredo; talvez o senhor não me tenha julgado bastante digna de sabê-lo.

- Meu segredo é, Clemência, que fui sempre infeliz; que jamais um ser piedoso se dignou baixar até mim os olhos; que atravessei a vida sempre triste, solitário e desdenhado; que, sentindo uma alma fogosa e terna, jamais acreditei que alguém pudesse aceitar meu amor, e que a senhorita é o primeiro anjo que aparece em meu caminho tenebroso e maldito; que suas palavras penetraram em meu coração e fizeram nascer nele um sentimento desconhecido, doce, poderoso, que cresceu em minutos e me abrasa. Que, desconfiado como todo infeliz, acreditei que a senhorita fazia de mim o brinquedo de um estranho capricho; que ao ver Henrique diante de nós esta noite, Henrique, com quem não posso comparar-me, que é tão belo, tão sedutor, tão espirituoso, senti... ciúmes; para que o hei de ocultar? E que quis fugir desta casa onde eu sofria tanto. Agora mesmo isto me parece um sonho. Eis meu segredo.

Clemência estremeceu ao ouvir nomear Henrique; mas, dissimulando sua emoção, replicou:

- Que criança é o senhor, Fernando! E pôde acreditar que eu fosse uma coquete sem coração, que quisesse fazer da alma nobre, desgraçada e generosa do senhor o brinquedo de um capricho indigno? Que me importam a beleza, a galhardia e a sedução de seu amigo? Acredita que sou das que preferem isso aos dons da alma? Desde a primeira vez que o vi na casa de Isabel, estabeleci perfeitamente a diferença que há entre o senhor, homem de coração e talento, e Flores, que me parece um galã de ofício, sem alma, e cujo espírito, leve e alegre, vai revelando uma vida gasta nos galanteios e nos prazeres. Não me julgue mal, Fernando, nem acredite que sou a coquete leviana que caluniam em Guadalajara. Sou franca, desdenho as reservas de meu sexo, tenho uma educação especial, uma independência de caráter que me permite rir do que dirão e fazer sempre o que me inspira o coração. Há três dias que o conheço, e isso me basta... Mas aí vem Flores, Fernando; amanhã esta flor estará murcha, mas eu a farei reviver com a seiva de meu carinho...

Henrique aproximou-se, entre invejoso e alegre.

- Clemência, quer nos privar de sua presença no salão? Vai-se dançar; poderei contar com alguma peça?

Clemência afetou olhar para Fernando, como interrogando-o.

- Compreendo - disse Henrique. - A senhorita queria preferir meu pobre Fernando; mas devo antecipar que este nunca dança.

- É possível, Valle? O senhor não dança?

- Com efeito, Clemência, não sei dançar... e aviso que Henrique é um valsista terrível.

- Mas Isabel?

- Já me deu a primeira contradança; depois tocarão uma valsa... Ela mesma a tocará, prometeu-me, é uma valsa de Strauss, uma deliciosa valsa de Strauss!

- Bem, conte com ela.

- Obrigado, bela menina. Mas, rapaz - disse, voltando-se para Fernando -, que flor é essa tão linda que tens na casa do botão?

- É a que lhe ofereci... a mais querida de minhas flores, a que cuido como uma favorita...

- Feliz Fernando! E para mim, Clemência, não ficou outra por aí?

- Era a única, Flores, a única que se entreabrira esta manhã e acabou de abrir-se esta noite.

- Que desgraçado sou sempre!... Não sei como Fernando me joga em rosto minha felicidade.

- Mas essa não é a felicidade - disse Clemência. - A felicidade para o senhor consiste em outra coisa...

- É verdade, a felicidade consiste em vê-la. Que flor é mais vermelha, nem mais perfumada que esses lábios que invejaria uma virgem de Ticiano?...

E Henrique, falando assim, foi levando a jovem e Valle para o salão, onde já ressoavam as poderosas harmonias do piano e começava o baile.

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Sinopse

Tradução literária em português-BR do romance mexicano de Ignacio Manuel Altamirano, preparada pelo Literunico a partir do texto em domínio público para a Copa do Mundo Literunico.

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